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Por
Conrad Pichler
Mais Braços do Que Eu Gostaria/Poderia Abraçar: Doctopus
Hoje é sexta-feira, fim de tarde. Iris vai ao bar Naked Feeling, que está aberto.
"'Naked Feeling: onde meus sentimentos são desnudos', diz Annie, minha amiga, diz o barman, diz o cantor, diz o cartaz de 'não vendemos fiado... nem se você tirar a roupa'."
"No bar, vejo um homem bem vestido, de negro, com um olhar tão milimétrico quanto o meu. Assim que ele olha para mim, eu desvio meus olhos. Talvez esteja fantasiando, mas lembro do que 'ele' disse: 'Mesmo desnuda, ainda há onde se esconder; e mesmo escondendo, fica evidente. É evidente: não é em todos os bailes que se usam máscaras e nem todas as máscaras são de baile'."
"O olhar daquele homem de negro, no bar, esconde algo e isso é evidente."
"Ondas no ar, de música e de vozes e até da sineta, que soa na porta alguém entra, um a mais no pub instrumentos, vozes: música no ar. O rapaz, aquele que acaba de entrar, é conhecido, não só a mim, mas ao homem de negro no balcão, que fica fitando-o. UnT é como o conhecemos, posso sentir a tensão no ar denso, como se houvesse uma linha entre o homem de negro e UnT."
"Eu me levanto e sinto o peso caindo sobre os ombros, puxo o rapaz para minha mesa e o homem de negro sai do bar. Sobre o nosso silêncio, ele nos olha, milimetricamente, deixando claro: ele não desistirá. Do quê?"
"A mesa continua silenciosa, apenas o som da música e das vozes retornam, agora que o ar parece mais leve, o rapaz, no entanto, está nervoso com movimentos descontrolados ele mexe e remexe a mochila que carrega. Por quê?"
"Uma vibração insistente toma conta do ambiente e o vidro estilhaça: solto, soprando no ar. Vejo a vitrine do pub: e um milhão de braços, mais do que qualquer pessoa poderia/gostaria de abraçar. Salto para trás, num instinto. Os braços espalham-se, em inverossímeis correntezas, verdadeiras correntes. Correndo, as pessoas saem, passando uns por cima dos outros. 'Há um a mais no pub', dizem."
"UnT passa por mim se escondendo no bar; os braços, a correnteza o acompanha. Seu dono, uma figura estranha, também. Ele é um baixinho de mil braços: 'Doctopus', ele diz ou entendi desta forma."
A mochila... o menino... são meus, eu os quero!
"Os braços me envolvem, em busca do rapaz escondido no balcão.
Eu salto e me desdobro como um origami japonês. Seus braços giram e oscilam, Doctopus fere a tudo indiferentemente, com a dureza do metal e a solidez da rocha."
"Salto... salto, esquivo... agacho. Para frente, para cima, para os cantos e bandas. O rosto da fera olhar de metal tão distantes, de meus braços. Seus mil braços, num movimento, um abraço de polvo com força de urso (uns mil!), me sufoco sem ar, com seus braços e abraços. Ele me olha com a ironia metálica nos olhos:"
Quando entrei e te vi sentada, tinha duas coisas para dizer: uma esqueci, quando você pulou na minha frente; a outra, quando esquivou-se do meu abraço. Agora, com você onde quero, já não digo nada.
"Ele se enrosca no meu cabelo e corpo, os outros quinhentos braços destroçam, evaporam o balcão."
"Eu grito:"
UnT!
"Escorrego. Livre, um braço esticado toca a fronte, entre olhos, do que me fere. Ele sorri com o canto da boca e me arremessa contra a parede. Um choque, um acidente, perco o rumo o sentido e volto no tempo..."
"No passado... na memória..."

"Ao som das sirenes, sobre ferragens e vidro moído, sangue e vozes, mas um silêncio me incomodava, mais: me destruía por dentro, era o silêncio 'dele', quem amei estava ali do meu lado, em silêncio; só havia eu e os paramédicos:"
Não...
Você?
Eu não sei...
Nome?
Eu nem sei... nome...
Qual o seu nome?
Eu não sei o meu...
Onde você mora?
Nem sei...
A gente vai levar você para o médico, fica calma... calma... moça...
...
Moça?!
Quem estava com você?
Eu... não sei...
O outro?
Outro...
Fecha a porta!
...
Fecha! Eles estavam no carro...
...
Ela não viu?
Não. O carro ficou destruído.
Graças.
Quem é... o outro... que aconteceu?
Esqueça. A gente vai levar a senhora pro médico!
Falta... alguém... ele...
Ele vai ficar bem, dona...
Ele... não...
"Os paramédicos tentaram esconder, mas sabia... estava morto... não eu, mas meu coração."
"As lembranças se dissolvem na luz do dia..."

"Com o último raio de luz da tarde, vejo UnT correr do pub..."
"Minha cabeça fica clara e a claridade que entra pela vitrine, inundando o bar destruído, o som da rua, das pessoas e da sirene, muito longe... me lembro de UnT, que levou Doctopus embora... zunido... foi para casa, o levou para minha casa, o prédio em que moramos... minha cabeça zune... não vou perder para esses ladrões... sombras..."
Na próxima edição: As sombras de UnT vem resgatar o que lhes pertence, hoje Octopus, amanhã o homem vestido de negro: Gato Negro. UnT tem um segredo, qual será?
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