hyperfan  
 

Asa Noturna e Super-Homem Especial

Por Marcelo Soares

De Homem Para Homem

:: Sobre o Autor

:: Voltar a Asa Noturna e Super-Homem Especial
::
Outros Títulos

Gotham City.

Uma tarde ensolarada no quintal da mansão Wayne. Dick Grayson caminha ao lado de Alfred, o fiel mordomo da mansão, além de pai, mãe e confidente de Bruce Wayne e três gerações de Robins.

— Alfred, você já amou uma mulher, assim, de verdade?

— Deixe-me pensar, patrão Dick... hmmm... acho que sim. Mas faz muito tempo. Foi antes de eu vir trabalhar aqui na Mansão Wayne. Muito antes. Por que a pergunta?

— Problemas pessoais. Quero ouvir a voz da experiência.

— Eu era jovem, um pouco mais velho que você. Era ator de teatro, em uma companhia de estudos shakespearianos. Eu fazia o papel de Hamlet, ela era a Ofélia de nossa turnê. Também fazíamos a Megera Domada.

— Você já interpretou Shakespeare, Alfred? Puxa, que demais!

— Faz muito tempo, patrão Dick. Então, essa moça se juntou a nossa trupe e saímos em viagem. Eu me apaixonei por ela na primeira vez em que Hamlet mandou Ofélia se internar em um convento. Ela dizia que passou a prestar atenção em mim quando tentei ensinar à megera Catherine a escala musical com pequenos recados cifrados.

— E a história foi adiante?

— Só por alguns meses. Na vigésima cidade por que passamos, os pais dela descobriram que ela estava com nossa trupe de vagabundos e a capturaram de volta. Nunca mais nos vimos.

— E você nunca tentou ir atrás dela?

— Eu... pensei no assunto. Pensei. Mas minha vida deu voltas e mais voltas... meu pai, que trabalhava para o antigo senhor Wayne, morreu e eu fui chamado para continuar seu trabalho. Os Pennyworths são uma longa linhagem de mordomos, sabe? E aqui estou.

— Puxa...

— Hoje em dia, não tenho problemas com isso. Mas conte qual é seu problema, patrão Dick.

— Apenas algumas dúvidas sobre o que fazer sobre uma mulher que está me deixando confuso... nada de mais.

— Sei. Acho que o patrão Bruce pode ser o mais indicado para aconselhá-lo sobre isso, patrão Dick. Ele tem mais... como dizer? Experiência em lidar com mulheres.

— Será, Alfred? Nunca falei com ele sobre isso.

— Tente. Sempre há uma primeira vez.

"É estranho o que tem acontecido entre mim e Bárbara Gordon, a Oráculo, a vida inteira. É uma sucessão quase cruel de proximidade e distância. Mas há um sentimento muito forte que nos aproxima."

"Quando éramos moleques e nos balançávamos em cordas ao redor do Batman, já tínhamos tido algumas faíscas. Mas ela era um pouco mais velha que eu, e sabe como são as meninas... sempre se achando superiores. Ela teve alguns namorados, saiu da cidade por um tempo, e passamos alguns anos sem nos vermos. Aí surgiu a Kory e eu esqueci Babs completamente."

"Então, a douradinha pira e vai para o espaço logo depois de tentarmos casar. Fiquei meio doido, mas me recuperei aos poucos. A essa altura, Babs já estava na cadeira de rodas há algum tempo, depois de levar um tiro do maldito Coringa. Ela ficou amarga, evitava que qualquer um se aproximasse dela. Sem a Kory, achei que valia a pena tentar."

"Tentei. Consegui me reaproximar bastante de Babs. Até alguns beijinhos eu ganhei, o que não me deixou nem um pouco triste. Mas ela sempre tinha essa mania de me afastar. Parece que tem medo de se aproximar de alguém."

"Sabe por que minha cadeira de rodas não tem manoplas, Dick? É que eu não gosto de ser carregada."

"Ela disse isso depois de uma noite quase perfeita. Rasgou meu coração em milhares de pedaços, e ela sabe disso. Foi a intenção dela. Mas acho que doeu mais nela do que em mim. Não, não acho. Tenho certeza disso."

"Às vezes, chego a ter pensamentos tão bobos quanto eu e ela, velhinhos, gritando para os netos cuidarem para não tropeçar enquanto correm pela casa com panos amarrados no pescoço. Sei que ela também pensa isso. O problema é convencê-la de que eu não quero 'carregá-la'."

"É por isso que eu estou tentando pedir conselhos. Mas o Alfred abdicou de sua vida pessoal há muito tempo. Até pediu que eu falasse com o Bruce, mas não sei se ele vai ser de muita ajuda. Sempre foi muito fechado. De qualquer forma, vou tentar. Mas é difícil me convencer a pedir conselhos ao Bruce. Quase tanto quanto é difícil convencer a Babs a deixar de ser cabeça-dura."

"Bom, não custa tentar."

— Sim?

— Oi, Bruce... eu queria... hã... pedir uns conselhos.

— O que houve? Crise de identidade secreta?

— Mais ou menos. Bom, não. Nem tanto.

— Explique.

— É uma coisa muito... pessoal. Problemas com mulheres.

— Com mulheres?

"Eu sabia que não ia funcionar. Não consigo imaginar o Bruce descontraindo, dando dicas sobre o que fazer sobre problemas amorosos. Apesar de ele ser quase um pai para mim, é difícil demais me aproximar dele. Ele parece não descer ao nível dos seres humanos."

— É...

"Bruce faz uma expressão meio triste, meio constrangida, meio desajeitada. Engraçado, nunca achei que um dia eu veria o homem por trás do morcego com a cara desajeitada."

— Não sei se eu poderia ajudar, Dick.

— Por quê?

— Eu deixei minha vida pessoal de lado há muito tempo.

— Sim, mas ao mesmo tempo você sai com muitas mulheres.

— Para manter a fama de playboy. Claro que me agrada sair com elas. Cada uma delas me lembra uma parte da minha vida que eu reneguei... mas ao mesmo tempo eu sei que não poderia me dedicar a nenhuma delas sem prejudicar minha missão...

"Por menos de um segundo, enquanto faz uma pausa, Bruce parece constrangido. Depois, seu rosto assume a expressão do Batman novamente."

— Sendo assim, Dick, eu não posso ajudar. Mas sei quem pode.

— Quem?

— Sem mais perguntas. Ele vai procurar você.

"Sempre misterioso. E sem resolver meu problema. Bom, o negócio então é esperar."

Bludhaven.

"É um final de tarde de domingo e eu estou deitado em minha cama, em meu apartamento solitário… lendo um livro sobre uma colaboração entre Maquiavel e Leonardo Da Vinci na Florença do século 15. Personalidades fantásticas, grandes caras. Imagina, o Da Vinci fez os planos para desviar um rio porque o Maquiavel resolveu que isso daria uma grande vantagem estratégica para Florença!" (*)

"Quando estou virando as páginas, ouço a campainha tocar. Quem pode ser a essa hora?"

— Grayson?

— Sim. — respondo ao interfone — Quem é?

— Clark Kent.

"Kent? O repórter de Metrópolis? Que diabos ele quer aqui hoje, a esta hora? Será que descobriu minha identidade secreta e vai querer publicar no jornal?"

— O que você quer, Kent?

— Um amigo de Gotham pediu que eu tivesse uma conversa com você. De homem para homem.

"Faz sentido. Bom, algum sentido. Quando Kent casou, Bruce reuniu diversos heróis, incluindo eu, para patrulhar Metrópolis, já que o Super-Homem estava sem poderes. Mas eu não sabia que os dois eram tão amigos."

"Segundos depois, abro a porta do apartamento. Clark entra e pede licença para ir ao banheiro. A descarga soa e, pro meu espanto, quem sai de lá é o Super-Homem. Quer dizer, é Clark, mas sem óculos e com a camisa aberta, revelando o S no peito."

— Pois é, Richard. O Super-Homem também tem uma identidade secreta e também usa o banheiro. — ele ri — Posso sentar?

— Claro! Hã... quer um café ou algo assim? Uma cerveja gelada?

— Há muito tempo não tomo uma cerveja bem gelada. Tem mesmo alguma aí?

— Claro! E me chame de Dick, por favor.

"Enquanto eu vou à cozinha, lembro de uma conversa que tive, como Robin, com o Super-Homem. Do alto dos meus 14 anos, o Super-Homem era um deus. Um cara que move montanhas e solda crateras. Aí, fico marmanjo e o cara está sentado em minha sala esperando uma cerveja. Penso em comentar com ele como aquela história que ele me contou, sobre o antigo Krypton, influenciou em minha identidade secreta... mas ele já sabe. É óbvio que ele sabe, ele é o Super-Homem."

— Sabe, Dick, gostei de você ter adotado o nome de Asa Noturna. — diz o Super-Homem, enquanto entrego a lata para ele.

— É? Lembrei muito de uma história que você me contou uma vez...

— ...Sobre um herói que patrulhava o antigo Krypton. (**) Fiquei muito orgulhoso. E você manteve seu vínculo com o Batman na nova identidade. É bom sempre lembrar de onde a gente veio. Veja eu mesmo: posso dar a volta ao mundo voando sozinho dez vezes ao dia, mas sempre serei aquele moleque caipira do Kansas...

"Gargalhamos."

— Mas eu vim aqui para ter uma conversa um pouco mais séria com você. Bruce pediu que eu lhe desse uns conselhos...

— Pois é, Super...

— Clark, por favor. O que houve com você, Dick?

— Nada de mais. Mulheres.

— Uma das coisas mais importantes do mundo. — diz o Super, isto é, Clark, sorrindo — Conte lá sua história.

"Conto a ele sobre Babs, sobre como nos conhecemos. Sobre como nos separamos, sobre como nos reencontramos. Sobre como ela evita se aproximar um pouco mais. E o incrível de tudo é que o homem sentado à minha frente, que conhece o universo como se fosse a palma de sua mão, ouve a história como se realmente fosse algo muito incrível."

— Como você, eu também conheci Lois em meu trabalho. — fala Clark — Claro que devemos inverter a identidade aqui, mas dá no mesmo. Conheci Lois na redação, enquanto você conheceu Babs nas batpatrulhas.

— Certo. Isso atrapalha?

— Um pouco. Um pouco. Mas atrapalha na mesma medida em que aproxima.

— Imagino. E a Lois foi tão cabeça-dura quanto a Babs?

— Lois, cabeça-dura? Há!!!! Os dicionaristas ainda vão ter que se esforçar para inventar um adjetivo que descreva como a sra. Kent é cabeça-dura. Filha de um militar linha-dura, você deve imaginar como é. Pior ainda: filha de um militar linha-dura que queria ter um filho homem. Desde criança aprendeu a ser durona. — E vocês se apaixonaram desde o começo?

— De certa forma, sim. A coisa foi muito tensa. E tinha um agravante: por muito tempo, Clark Kent era apaixonado por ela, que tinha uma quedinha pelo Super-Homem.

— Cara, que coisa mais bizarra! Santo dilema shakespeariano, Clark!

— Frasezinha trash essa, hein? — rimos — Nos primeiros anos, eu tentava manter uma imagem de caipira desajeitado para o Clark Kent. Ela não queria nem saber. Todas as vezes que consegui sair com ela usando óculos, nessa época, foi porque de alguma forma eu "forcei a barra" quando estava de capa para que ela ficasse magoada e precisasse desabafar em um ombro amigo.

— Hahahahaha! Genial! E ela nunca desconfiou que os dois eram o mesmo?

— Claro! Várias vezes. Em uma delas, Lois chegou a ir a Pequenópolis para perguntar aos meus pais. Eu estava lá como Super-Homem. Eu gelei enquanto ouvi eles contarem a minha história, de que acharam um bebê numa nave e levaram para casa. Só respirei quando eles contaram que eu voei até o berço em que "Clark" dormia.

— Putz! Que sinuca! E nesse tempo todo em que ficava essa tensão meio maluca no ar, você não saiu com outras mulheres?

— Claro, mas nada sério. Cat Grant, a da tevê, foi uma grande tentação nos tempos em que ela trabalhava no Planeta Diário. Sem falar na Mulher-Maravilha.

— Tá brincando que você teve um rolo com ela!

— Eu não disse que tive um rolo. Mas aconteceu alguma coisa, até que descobrimos que não tinha muito a ver.

— Sei. — digo, com cara irônica e abrindo outra cerveja — E por que não?

— Tinha uma tal Lois Lane ocupando o espaço do meu coração.

"Começo a entender o que Clark quer dizer. Mas é complicado na execução."

— Clark, mas como você fez para domar essa megera?

— Pedi muitos conselhos, a muita gente. Meu pai, em Pequenópolis, é muito mais aberto que nosso amigo das trevas. Foi ele quem deu o melhor conselho: esperar. — Mas é meio chato, isso...

— Nem tanto, nem tanto. Isso não impede que você fique com outras garotas, só para preencher espaço, enquanto a Babs decide. Certo?

— Certo...

— Claro que tem o outro lado da moeda. O mesmo vale para ela, e pode ser muito doloroso ver a mulher que você ama, e sabe que ela sente o mesmo por você, nos braços de outro. Aconteceu comigo quando um tal José Delgado entrou na parada.

— E o que a gente faz nessas horas?

"Clark dá um sorriso e olha para a rua."

— Bom, nessas horas a gente sempre tem que lembrar que não existimos só para nós mesmos. Tem um mundo inteiro, uma cidade inteira precisando da ajuda da gente. Abstraia a vida pessoal e saia por aí combatendo o crime.

— Boa dica.

— Mas tente não passar por ridículo. Uma vez o Flash brigou com Linda Park e saiu batendo em tudo o que via na frente. Não se pode fazer papel de marido traído.

— Hahahahaha! OK, vou lembrar disso.

— E sempre é possível desabafar com outra, certo? Ouvi uns rumores sobre a Caçadora... aliás, bela escolha. — ele diz, com um sorriso sacana.

— OK, OK... mas ela não é meu problema...

— Pode ser a solução, ora!

"Rimos feito dois bobos. Assistimos a um filme do James Bond, tomamos mais umas cervejas, comemos uma pizza... e depois Clark vai para a casa dele. Saindo pela janela. Mas não sem antes deixar uma última recomendação:"

— Não desista dela, Dick. Vocês dois se merecem. Mas deixe isso claro para ela.

Gotham City.

"A noite está perfeita. Eu caminho pela rua e bato em uma campainha. Digo quem sou, a porta abre. Subo as escadas. A cadeira de rodas vira."

— Oi, Dick...

— Oi, Babs... trouxe bombons para você.

— Puxa, não precisava... assim vai me deixar mal-acostumada... estou vendo que trouxe vinho também...

— E flores. E um CD ótimo para ouvirmos. "Kind of Blue", do Miles Davis. Que tal?

— É impressão minha ou você está mal-intencionado?

— Minhas intenções são as melhores, Babs. Apenas vim fazer companhia.

"A noite é agradável. Ela cozinha, ficamos falando besteiras e pegando no pé um do outro... nada de mais, mas também nada mau."

"Não preciso ter pressa."

"Saio solteiro da Torre do Relógio, onde mora Babs, mais ou menos cedo. Bom, cedo para um morcego. Talvez ainda dê para entregar alguns chutes a domicílio."

"Valeu, Clark."


:: Notas do Autor

(*) O livro existe até mesmo na nossa hiperlinha de tempo. O título é "Da Vinci e Maquiavel: um sonho renascentista - de como o curso de um rio mudaria o destino de Florença". O autor é Roger Masters, um cientista político norte-americano que geralmente estuda a influência dos fatores ambientais no comportamento político de uma população (uma vez tentei entrevistá-lo sobre o assunto e ele disse algo como "se você me mandar um fio de cabelo de políticos corruptos, posso mandar fazer uma análise química e descobriremos muita coisa"). Se você gosta de história, é uma bela leitura. Bom, é uma bela leitura de qualquer forma. voltar ao texto

(**) Há uns quatro anos, a revista Legends of DC Universe número 6 mostrou o primeiro encontro entre o Robin (na época, Dick Grayson) e o Super-Homem. Eles se uniam para resolver um caso envolvendo a Intergangue em Gotham, e no final o Super elogiava seu trabalho e contava uma história de Krypton - a de um herói, chamado Asa Noturna, que patrulhava o planeta. O herói não se encaixa no Krypton árido criado por John Byrne. Em verdade, é uma herança dos tempos pré-Crise, quando Super-Homem e Jimmy Olsen se tornavam Asa Noturna e Pássaro Flamejante quando visitavam Kandor. Mas, considerando que Jor-El implantou na mente do Clark várias memórias sobre o Krypton antigo - a cuja pesquisa ele se dedicava na juventude. O Asa Noturna kryptoniano deve fazer parte, então, do folclore do Krypton antigo. voltar ao texto



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.