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Capitão América 2099 # 01

Por João Norberto

O noticiário exibia uma imagem panorâmica da torre da BioGentech e depois com giros estratégicos, a imagem pára em uma janela, de onde um grosso rolo de fumaça ganha os céus. Na Nova York do futuro, nenhum espectador consegue ver outra coisa, exceto, é claro, nos canais de vendas, onde o Velho Big estava colocando à venda aparelhos milagrosos para diminuir as estrias do glúteos.

No canal 1.000.000.02, o XXX N.U.D.E., a apresentadora virtual conhecida como Shayera Moon apresentava a notícia. Criada para representar uma mulher de traços orientais, corpo escultural e olhos sensuais, um "bug", criado de propósito, a cada um minuto, deixava os seios da apresentadora à vista. Isso, como os números comprovavam, aumentava a audiência do canal.

— Há poucos minutos, em um laboratório, dito como secreto, da BioGentech uma explosão aconteceu. As imagens que vocês estão acompanhando são direto do local. O diretor da empresa, Christian Filcher, ainda não foi localizado para um comunicado oficial. — A imagem ao fundo da apresentadora mudava para um close de uma das paredes. A microcâmera aérea agora mostrava uma mensagem. — Como podem ver, esse parece ser mais um dos atos terroristas do homem que se apresenta como o novo Capitão América. "Lembrem-se do Sonho. Eu não os deixarei esquecer. C.A.".

As letras entraram em foco. Pareciam ter sido escritas com um laser de alta precisão. Logo a imagem começa a mostrar o resto do laboratório.

Quase não se distinguia nada, exceto o que pareciam ser restos de enormes tubos de Plastgel, agora quebrados. O resto do local apresentava um sem número de aparelhos cujos propósitos eram impossíveis de serem reconhecidos. As paredes, negras por causa da fumaça, indicavam que provavelmente a bomba fora uma AWD-Vácuo, criada pela Lexxon e proibida em todo o mundo. Como o nome indica, ela criava uma área de vácuo onde sugava tudo que podia para dentro de si, depois lançava para fora em forma de plasma, queimando e destruindo tudo dentro do raio de ação.

A pequena câmera foi descoberta pelos Securits da BioGentech e destruída. A imagem no noticiário voltava para Shayera Moon, com as imagens gravadas sendo reprisadas ao fundo e uma frase escrita no canto inferior da imagem "O novo Capitão América, um outro robô, um terrorista, ou um herói?".

— Como podem ver, esse novo Capitão América, a exemplo de outros heróis que estão surgindo... — A apresentadora voltava, os seios agora à mostra. -... Assume uma forma de agir totalmente diferente do que se sabe quanto a seus antecessores da primeira era heróica. Mas o que o nosso programa quer saber é a sua opinião a respeito dele. Entrem em contato com o nosso programa e dê sua opinião a respeito ao vivo.

A imagem agora mostrava milhares de pequenos pontos vermelhos diante da apresentadora e das imagens reprisadas. Eles mostravam os espectadores que tentavam falar com o programa. Com um sorriso malicioso Shayera parecia indecisa em qual escolher.

Foi quando algo inesperado aconteceu, e todos os pontos começaram a sumir até restar somente um. Como se fosse uma pessoa de verdade, ela havia sido programa para imitar várias nuances da personalidade humana, inclusive confusão. Ela hesitou antes de tocar no único ponto.

— Olá? Você está no ar. O que você acha sobre o novo Capitão América?

— Eu não tenho teorias, apenas a verdade e vou contá-la para vocês agora.

Os aparelhos da emissora começaram a registrar um aumento histórico nos índices de audiência. Mesmo que o cara fosse apenas um lunático, os espectadores queriam ouvir sobre o novo Capitão América. Claro que os técnicos da XXX N.U.D.E. não sabiam que a mesma ligação estava sendo transmitida para todos os canais do país.

— Eu vou contar a história do Capitão América. A minha história.

Os espectadores do futuro ouvirão uma versão parcial da história, mas você, caro leitor, irá conhecer na integra a origem desse novo herói...

Infosurfando no Passado
Parte I

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Um raio de sol atravessa um pequeno ponto no teto do apartamento de John Arveen indicando que passava das 13:00. Esse é o modo como ele sabe que está na hora de acordar. Sem arquétipos holográficos irritantes ou outras tecnologias para os solitários moradores da Nova York de 2099.

O Temporizador Solar foi mais uma compra que veio direto dos estoques do Velho Big "Acorde com a agradável sensação do sol tocando de leve em sua pele" era a propaganda.

Claro que depois descobriu-se que esse aparelho era responsável por mais da metade dos casos de doenças de pele que surgiram na cidade. Como era dono de um cartão negro, Big apenas pagou com créditos por seu "crime".

— Eu não forço as pessoas a comprar meu produtos, Hahahahahaha. — Foi o que ele disse quando entrevistado por Shayera. — E não se esqueçam os últimos Temporizadores estão sendo vendidos pela metade do preço.

John finalmente se levantava, aplicando uma pressão leve sobre os dois olhos com as mãos apoiadas nos joelhos. "Desligar Temporizador". A ordem foi imediatamente obedecida, e enquanto ele se encaminhava para o banheiro, a fim de tomar uma ducha gelada, pensava em como havia sido fácil concertar o problema do aparelho. Apenas uma seqüência de filtros eletrônicos bem colocados nas lentes focais resolveram tudo.

Isso era um costume de John, ele comprava as bugigangas do Velho Big, as desmontava e depois de resolver os problemas, ficavam perfeitos para usar. O apartamento era uma cobertura no Freedom Plaza, um dos prédios residenciais mais caros de Nova York. Apenas portadores de cartões negros podiam pensar em morar ali. Mobiliado simplesmente, a maioria do espaço que não era ocupado por uma mobília básica, estava lotado com diversos aparelhos tecnológicos que John usava para seus afazeres diários. As paredes holográficas mudavam de lugar e até de quadros segundo as ordens do proprietário. Há semanas John não fazia uso dessa tecnologia.

— Pau! — Assim que a água gelada tocou seu corpo, John sentiu uma pontada de dor no ombro — Quando é que eu vou aprender a não passar a noite toda infosurfando na rede? Pelo menos tenho que escolher uma posição que não me deixe com tantas dores...O bom é que, pelo menos ontem à noite, eu fiz outra atividade...

Assim que terminou o banho, ele vestiu apenas uma calça folgada feita de moléculas instáveis e se dirigiu à cozinha para preparar seu almoço. Enquanto colocava a comida congelada para aquecer, quase podia ouvir a mãe falando:

— O café da manhã é a refeição mais importante, meu negrinho...

A família de John era enorme e com integrantes de várias etnias raciais, mas as raízes ainda eram afro-americanas. John havia puxado o avô e se tornou o que Irys chamava de negro enorme e assustador. Do alto de seus 1, 88m, 95 quilos e músculos bem definidos, ele não podia deixar de concordar.

Já para sua avó, ele seria sempre o "negrinho", mesmo que a simpática senhora só conseguisse abraçar a cintura do neto. Ela com certeza ficaria horrorizada com os atuais hábitos alimentares dele. Já Irys gostava da inconsistência no atual namorado.

Enquanto comia uma lasanha, que normalmente era vendida como se servisse para uma família inteira, John se sentou na sala e pensava na vida quando ordenou:

— Jarvis — Esse era o nome que John deu para o programa de I.A. que controlava as funções da casa — Acessar mensagens.

— Você tem 1.483 mensagens

— Elimine as mensagens de propagandas, vendas, pedidos de ajudas humanitárias, correntes de Thoretes e pornográficos.

— Apagando mensagens. — Um minuto depois. — Você tem duas mensagens

— Ótimo. Quero ver a primeira.

Imediatamente a imagem holográfica de uma garota, com cabelos cortados na altura dos ombros, corpo esguio e um lindo sorriso quase infantil, vestida apenas com uma camiseta que ficava como um vestido. Irys. Ela parecia radiante, a noite passada de fato havia sido boa.

— Oi, amor. Liguei apenas para avisar que você esqueceu algo. — Ela segurava na barra da camiseta, dando um sorriso malicioso. — Espero que você volte logo para buscar.

— Jarvis, gravar resposta somente de áudio. — Um clic pôde ser ouvido e indicava o momento de iniciar a mensagem. — Irys, hoje infelizmente não poderei aparecer. Negócios urgentes, mas amanhã... — Ele ficou em silêncio por um momento antes de encerrar — Enviar.

— Enviada. Deseja ver a outra mensagem?

— Sim.

E a imagem de outra mulher apareceu. Essa tinha um ar mais maduro, traços afro-americanos, vestida com uma roupa que transpirava seriedade. Alba. Ex-mulher de John e mãe de seu filho.

— John, eu só queria agradecer pelo cartão negro que você me enviou...Desse jeito, de fato, você não atrasa mais com a pensão. Um dia ainda volto a me casar com você. Eu queria lembrar também que no fim de semana você prometeu levar o Timmy ao jogo de Astroball. O time dos tais robôs que ele tanto gosta.

— Apagar mensagem.

— Não deseja responder?

— Não.

John levanta do sofá e joga o resto da lasanha no incinerador. Sempre que recebia alguma mensagem da ex, ficava um tanto melancólico. Ele acreditava que estava fazendo a coisa certa quando se casou e tinha certeza quando Timmy nasceu.

Infelizmente quando o Nômade apareceu tudo acabou.

Depois da desgraça de sua família, causada pelo presidente da BioGentech, John havia ficado com o coração cheio de ódio pelas Megacorporações. Sendo um excelente hacker, ele se esforçou em dobro para se tornar o melhor hacker do ciberespaço. E conseguiu.

Ele pretendia começar a realizar ataques às megacorporações, quando eles começaram a surgir. De repente, heróis pulavam nas aulas de História sobre a Era Heróica para a realidade atual. Homem-Aranha, X-men, Justiceiro. Eles pareciam prestes a incendiar todo o mundo que John tanto odiava, e poderiam criar um mundo onde Timmy cresceria em paz.

Apesar de tudo, os esforços dos novos heróis pareciam não surtir efeito algum. John não podia aceitar aquilo e retomou seu plano original.

Na rede mundial ele era conhecido como Nômade, e foi responsável por prejuízos de milhões para as corporações que dominavam a América. Ele permanecia cada vez mais tempo na rede e sua mulher se cansou de tudo aquilo, sem saber o real motivo das longas ausências do marido. O divórcio foi inevitável e Alba ficou com a guarda do filho.

Agitando a cabeça violentamente, John afastava suas lembranças, já eram mais de 16:00 da tarde e logo ele ia começar a "trabalhar" outra vez.

Indo até seu quarto, apanhou outro aparelho, o Delineador Muscular "Você já ouviu falar de Auto Sugestão?" A voz do velho Big parecia ressoar na cabeça de John "Então o Delineador é a resposta! Um cybercapacete emite ondas pelo corpo todo, deixando você com aquele visual de holoartistas! Só hoje uma super promoção: leve um Delineador Muscular e receba totalmente grátis uma dieta especial para perder aqueles quilinhos incômodos".

Claro que ninguém sabia do choque termo elétrico que poderia ocorrer e que resultou em várias mortes e problemas mentais nas pessoas que haviam comprado o Delineador.

John corrigiu todos os problemas, claro. E, usando o aparelho, ganhou uma musculatura invejável. Não era exagerada, mas o suficiente para não parecer um troda dum viciado em infosurfe. Ele colocou o capacete e durante horas seus corpo apresentava pequenos tremores, indicando os músculos que estavam sendo trabalhados e ganhavam um aumento visível.

Quando às 19:00 chegaram, ele estava de banho tomado, para se refrescar das horas de "musculação" e se deitava no colchão AntiGrav para ficar mais confortável para começar a trabalhar.

Ele segurou o plug de acesso e começou a passar a ponta de metal na borda do implante, que ficava atrás de sua orelha. O olho esquerdo piscava rapidamente, um cagoete recentemente adquirido sempre que se preparava para acessar o ciberespaço. Assim que o plug finalmente foi conectado, ele entrou com tudo na rede mundial.

Aquilo sim era vida, infosurfar nas ondas de códigos binários, mergulhar no mar de Gygabits e se deixar levar pelos ventos digitais quando resolvia voar.

Se fosse possível, John, não, não John, aqui ele era o Nômade. Seu arquétipo usava um visual com as cores da bandeira americana emolduradas por detalhes negros, um lembrete do luto pelos rumos que o país tomava.

Ninguém via o Nômade se ele assim não desejava. Por isso, apareceu para um seleto grupo de outros hackers, os melhores piratas invasores da rede. Perito, Alfa Romeo, Astúrion, entre outros. O assunto do dia era a morte de Syrius.

— O que aconteceu?

— Você não soube, Nômade? Pau! Onde estava ontem?

— Não é da sua conta, Perito.

— Hahahaha. Aposto que tem mulher na história...

— Troda-se Alfa. E então, vão contar ou não?

E eles contam que Syrius invadira um sistema da BioGentech, algo tão simples que até um bebê entraria. Mas algo aconteceu lá dentro, que fritou o arquétipo dele atingindo inclusive seu meatware. Até agora ninguém sabe o que aconteceu. A área recebeu proteção de cybersamurais da Stark-Fujikawa.

Imediatamente o Nômade partiu na direção indicada. Podia ouvir as vozes que diziam para ele não ser louco, mas as ignorou. Momentos depois, estava atrás de um monte de dados deletados, vendo os dois antivírus que guardavam o que parecia a entrada de uma fortaleza.

Um portão enorme estava atrás dos guardas, parecendo ter sido criado para conter um monstro como o Hulk. Um confronto direto seria idiotice e se algo que o Nômade havia aprendido em seu tempo de invasor, era que se fosse possível evitar confronto, era o que se devia fazer.

"Hora da Fênix" Ele mexeu numa bolsa que trazia no cinto e soltou o que parecia um enorme pássaro de fogo, que voou na direção dos guardas, atraindo a atenção deles quando se chocou no lado esquerdo do portão e caiu no chão, soltando faíscas de fortes cores quentes.

Os guardas ficaram lado a lado olhando os restos da ave, quando caíram pesadamente sobre a mesma. Atrás deles, Nômade estava de pé, com um tipo de cajado na mão "o bastão sináptico sempre funciona" e ele se voltou para o console diante do portão.

"Provavelmente uma senha de oito dígitos criptografado, coisa de criança".

Tirando um fio de seu cinto e conectando-o ao terminal, ele mal começou a procurar a senha de acesso e os portões se abriram. Nômade deu um salto para trás surpreendido "fácil demais" e mesmo assim a curiosidade foi maior do que a prudência. Ele passou pelos portões, agora escancarados.

O que via não fazia sentido. Era como se tivesse entrado dentro de um galpão típico do século passado. Galpões como aquele apareciam em muitos holodocumentários. Uma construção digital como aquela só seria possível com uma tecnologia absurda. Ele se aproximou de um console de computador. Um monitor, teclado e mouse, ao invés das versões atuais com tela e teclado de metal líquido ou os comandados por voz.

Infelizmente, não descobriu nada ali. Mesmo depois de um precioso tempo perdido, os guardiões podiam despertar a qualquer momento, pois ele não conseguira nem mesmo ligar o computador à sua frente.

Nesse momento, Nômade percebeu algo que se destacava naquele cenário do passado. Um pequeno cubo totalmente negro, que estava bem no centro de uma mesa próxima. Ele caminhou e não percebeu a pequena luz vermelha que se acendeu no que lembrava uma antiga câmera de segurança.

Ele pegou o objeto e começou a girá-lo até descobrir um orifício. Olhando com mais cuidado, pôde perceber que era um acesso digital. Imediatamente um plug saltou de seu cinto e ele o colocou no cubo.

As informações inundaram seu cérebro e ele se desconectou num rompante de medo, surpresa e fúria.

John não consegue precisar quanto tempo ficou imóvel na cama, a mente processando a verdade recém descoberta.

Quando conseguiu firmar as pernas e levantar, foi até sua janela, pediu para Jarvis deixá-la transparente e ficou durante minutos observando a paisagem de Nova York. Os prédios da Alchemax, Lexxon, Stark-Fujikawa e principalmente da BioGentech ocupavam a vista do hacker. Ele cerrou os punhos e disse para si mesmo:

— Não vou deixar esses ratossugas fazerem isso.


Continua...




 
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