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Capitão América - Origens # 01

Por Octavio Aragão

Uma Sombra Passou por Aqui

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O homem de preto desceu do dirigível em chamas, gargalhando.

Se estava vivo ou morto ao final da queda, ninguém jamais soube, mas os alemães perderam uma grande peça de propaganda nazista naquele dia de 1937, em Nova Jersey.

Quase ninguém soube que um certo cientista chamado Reinstein e sua filha foram resgatados do Hindemburg vinte minutos antes da explosão que matou trinta e seis pessoas. O fato de quase metade dos passageiros estar ligada ao partido nazista não foi levado em consideração.

Reinstein foi embarcado em um táxi que esperava nas imediações e desapareceu de vista. Infelizmente, um certo oficial alemão que seguia o biólogo também sobreviveu. E ele era o único que sabia o que ocorrera com o cientista foragido. Assim que conseguiu sair do local do acidente, procurou um telefone público.

— O nome é Harry Vincent — disse o rapaz bem vestido ao cientista, enquanto o táxi, um ford que aparentava dez anos a mais por fora que por dentro, voava pela ponte, em direção à Manhattan — Trago um recado ao senhor e à sua filha: caso o senhor aceite, sua vida mudará.

— Para melhor? — perguntou Reinstein — Sabe, na Alemanha esses homens que se julgam superiores estão dando um certo trabalho para nós judeus.

— Honestamente, senhor, — disse Vincent com frieza — isso não é de minha alçada. A proposta é clara. Caso a aceite, ambos terão identidade, endereço e proteção contra todos os inimigos que porventura o ameacem. Creio que podemos classificar tudo isso como "o melhor".

— E o preço? — perguntou a moça.

Vincent sorriu.

— Essa é a melhor parte, admito, mas não cabe a mim anunciá-la. Ao menos, não agora.

O carro deu uma guinada inesperada. Vincent nnao perguntou ao motorista o que acontecia. Sacou um revólver trinta e oito de dentro do paletó e, antes de jogar metade do corpo para fora do veículo, chapeeu de feltro voando, recomendou com voz impassível:

— Abaixem-se.

Atrás do ford seguia um buick 1932, e um de seus passageiros estava ocupado disparando uma metralhadora hotchkiss. As balas varavam sem destino certo, acertando diversos automóveis que seguiam em sentido contrário. Os tiros de Vincent tiveram maior sorte, acertando um dos pneus dianteiros.

O motorista do buick perdeu o controle, desviando-se para outra pista e quase colidindo com dois outros veículos. Mas isso durou pouco, logo voltando à perseguição.

— O sujeito é bom — gritou o motorista do taxi, com inusitado senso de humor.

— Veremos se ele é melhor que o chefe — respondeu Vincent, voltando para dentro do carro.

Reinstein levantou a cabeça a tempo de ver outro táxi, desta vez um cadillac sedan, surgir ao lado do buick. Da janela do passageiro surgiram duas pistolas 45 cromadas e o motorista adversário foi fuzilado por sete tiros. O homem da metralhadora ainda tentou retomar o controle do carro, mas foi impedido por uma figura negra que saltou do táxi para o capô do buick. De pé sobre o veículo desgovernado, numa bravata impossível, o homem encapuzado cujo chapéu de abas largas parecia colado à cabeça, quebrou o pára-brisa com um chute, retirou o atirador com as mãos e pulou com o sujeito para dentro do cadillac em movimento. Reinstein, que testemunhou tudo do ford que se distanciava, não acreditou que um homem pudesse gritar tão agudo.

No dia seguinte, a guarda costeira e a polícia chefiada pelo inspetor Joseph Cardona teve muito trabalho para retirar o buick da bahia de Nova York.

— Obediência total — disse o homem de preto ao entregar os novos doumentos de identificação para os Reinstein. A voz que saía por treas do lenço vermelho que tampava metade da boca

— Bem-vindos aos Estados Unidos, dr. Abraham e senhorita Hannah Erskine — sorriu Vincent — Eu disse que o chefe falaria a respeito do preço.

— É muito alto — respondeu a moça, cenho franzido.

— Não, não é — respondeu o homem que agora se chamava Abraham Erskine, apanhando o maço de papéis das mãos enluvadas — Estaremos a seu dispor.

À porta do Hotel Metrolite, um dos mais requitados da cidade, pai e filha colocaram-se a serviço do homem de preto, abaixaram a cabeça e, quando voltaram à portura normal, apenas Harry Vincent sorria com sua boca tora pelo cigarro.

— Bem-vndos a um novo mundo — disse entre baforadas — Uma realidade que escorre por enre os bueiros. Agora apressem-se, temos o que fazer.

Erskine olhou supreso para o envelope que surgiu num passe de mágica nas mãos de Vincent, enquanto subiam pelas elevador do hotel até o décimo andar. Escrito em letras maiúsculas, firmes, lia-se no papel pardo a palavra "Renascimento".

— Nosso amigo e protetor de preto deixou certas recomendações. Parece que o rapaz que nos perseguia, gentilmente cedeu o nome de seu empregador. É um conterrâneo seu.

— Quem seria, papai? — perguntou Hannah.

Erskine franziu a testa.

— A esta altura, apenas um homem seria obcecado o suficiente para nos seguir até a América.

E como se a simples menção do nome pudesse materializar os horrores que deixaram para trás, sussurrou:

— O nome é Stucka. Barão Wolfgang Von Stucka.

— Sim, é esse mesmo. Aqui nós o chamamos de Von Strucker — respondeu Vincet, jovial.

— Rapaz, — falou o cientista ao pegar o envelope das mãos de VIncent e guardar sob o paletó — você não estaria tão tranqüilo se conhecesse o mal que se esconde no coração desse homem.

— É verdade, professor, eu não sei mesmo — respondeu segurando a porta do elevador para que os dois saíssem em direção ao corredor acarpetado em vermelho e dourado. Deu dois passos e olhou sobre o ombro, a brasa do cigarro iluminando o rosto.

— Mas o chefe sabe.

E as sombras caíram.

— Não consigo sentir pena deles — disse Steve durante o almoço, depois de ouvir a notícia pelo rádio.

Sua mãe, Sarah, levantou os olhos do prato.

— Tenha respeito pelos mortos, Steven. Perdemos trinta e seis pessoas no Hindemburg.

— Trinta e seis pessoas alemãs — retrucou o rapaz.

Foi a vez do pai levantar os olhos da comida. A mãe voltou à carga.

— O que quer dizer, filho? Que eles mereceram a morte por serem alemães? Porque se for isso, creio que falhamos em nossa missão de educá-lo como um rapaz piedoso.

— Eles merecem a mesma piedade que demonstraram na guerra.

O pai, Joseph Rogers, finalmente entrou na conversa.

— Em primeiro lugar, não responda à sua mãe. Em segundo lugar, a guerra acabou há dezenove anos. Os alemães perderam, agora não são mais inimigos da América. Até onde sei, há gente honrada em todo lugar, sob todas as bandeiras.

Steve levantou-se da mesa, e finalmente ganhando a atenção de seu irmão caçula, mancou até a muleta, encostada à cômoda da pequena sala da casa da família Rogers. Pegou um casaco e, sisudo, dirigiu-se à soleira.

— Posso saber aonde o senhor vai? — perguntou a mãe, entre surpresa e ofendida.

Steve Rogers, abrindo a porta, respondeu com a arrogância dos adolescentes.

— Vou cumprir meu dever, mãe, evitar que comecem uma segunda guerra. Não me esperem para o jantar.


A seguir: Doc Savage!



 
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