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Por
Alexandre Mandarino
O Círculo de Ossos
O ruído dos
cascos do cavalo era agradável aos ouvidos de Hnuu. Após duas horas de
cavalgada os sons já haviam se transformado em um ritmo familiar, que o
acalmava e o impelia a seguir em frente. Em condições normais este tipo de
estímulo não teria sido necessário para o calmo guerreiro da lança negra; mas
aquela missão era totalmente inesperada e incomum. Hiiasaa, o chefe e
curandeiro de sua tribo-cidadela o havia convocado no meio da madrugada, na
hora exata em que os moribundos cedem ao sussurrar da morte. As condições e
notícias das últimas semanas eram estranhas, isto é certo, mas nem mesmo os
velhos Fjaldas teriam imaginado a missão que Hnuu teria pela frente. Estes
pensamentos vagos foram cortados pela madeira afiada de um galho mais baixo,
que arranhou o rosto do guerreiro e fez com que percebesse ter finalmente
chegado às margens da Velha Floresta Anacrônica. Apeou do cavalo e sentiu em
seus pés dormentes o solo fofo e tomado pelo musgo.
Olhou em volta
e viu apenas a escuridão da madrugada. Aproximou-se de seu cavalo e sussurrou
algo nos ouvidos do animal; palavras em uma língua que somente os descendentes
do Primeiro Triunvirato ainda falavam. O cavalo desceu sua cabeça, altivamente
demonstrando ter entendido, mas ainda se colocando à disposição de seu
cavaleiro, caso este caísse em si e mudasse de idéia. Dispensá-lo, ali, naquele
momento?
Um afago na
lateral de sua cabeça e o animal entendeu que as instruções eram mesmo aquelas:
deveria retornar para seus estábulos nas Casas Claras. Apenas alguns metros e o
cavalo já sumia no breu, mesmo para olhos como os de Hnuu, que agora se sentia
aliviado. Não ousava arriscar a segurança de uma montaria de tal natureza.
Tinha-lhe sido útil até ali, mas aquela parte da Anacrônica não era tocada por
pés élficos há séculos e séculos. Quer dizer, por pés élficos que não os dele.
Sim, ele, que Hnuu deveria encontrar. À medida que este encontro se
aproximava, mais o guerreiro questionava a sabedoria da decisão tomada por
Hiiasaa. Todos sabiam que o Sem Forma não deveria ser procurado. Mas, pelas
lágrimas de Cureiima, a Rainha Descida dos Penhascos, ao menos seu cavalo não
teria de se arriscar pela Velha Floresta por culpa dele. Pousou a mão sobre o
cabo da espada, levíssima em seu cinturão, e deu o primeiro passo para dentro
da Anacrônica.
Seus olhos se
abriam agora para as trevas, pupilas largas e horizontais tomando todo o corpo
vítreo. Dez passos adiante e sua visão especial já havia transformado a densa
escuridão em algo mais brando. Parecia, na verdade, que estava apenas nas
últimas horas da madrugada, quando a Lua se torna incerta e emite os
derradeiros raios antes do Sol. Mas, ainda que agora pudesse ver com relativa
facilidade, a floresta ainda o perturbava. Pois o principal problema não era
não enxergar no escuro, mas saber que estava no escuro.
Perdeu a noção
de quanto tempo caminhou ali, atento aos parcos sinais que haviam lhe sido
dados por Hiiasaa. A gruta pequena e brilhante ao lado da cachoeira côncava; o
entroncamento de rios altos e curvos; a clareira intocada em meio ao bosque de
sequóias de ouro; as samambaias e cipós que caíam das antigas ruínas de estátuas
erigidas pelos Indizíveis. E mais Hnuu caminhou e novas maravilhas encontrou no
breu sem fim. Matilhas de lobos-felinos que se lambiam em um banho à luz da
Lua; a Escada de Sons, onde cada degrau emitia uma nota e cada décimo degrau
tocava uma melodia curta aos seus pés; o Pátio dos Nomes, ruínas onde ouviu, ao
longe, seu nome de batismo ser dito em todas as línguas existentes; só
compreendia três daquelas línguas e isso, mais do que todo o resto que viu
naquela infindável madrugada, fez com que Hnuu se sentisse pequeno e indefeso.
Não seguia a
esmo pela escuridão. Ao contrário: seguia passo a passo instruções detalhadas
que Hiiasaa o havia feito memorizar nos dias que antecederam a viagem. Não lhe
foi permitido saber por quê, mas era essencial que não pusesse em papel tais
instruções. O mapa e a ordem em que tais maravilhas e horrores surgiriam
tiveram de ser memorizados, como uma velha catedral de sons, imagens e
expectativas que iam se confirmando ou se superando à medida em que, agora,
os ia encontrando pelo caminho. Os cortes ancestrais feitos de maneira quase
imperceptível e delicada nos cascos dos Carvalhos Azuis; as setas para o Norte
rasgadas pelos pés de peregrinos que ninguém mais lembra quem foram; a trilha
nos altiplanos paralelos à Cascata do Trovão; tudo isso o levava cada vez mais
perto para a Clareira dos Orvalhos e, assim, para a presença do Sem Forma.
Foi cansado e,
para sua surpresa, sem ter de desembainhar sua espada uma só vez, que Hnuu se
viu na Clareira dos Orvalhos, cercada pela Mata dos Que Já Não Falam. Evitando
lembrar-se da origem deste nome, Hnuu a transpôs apressado e finalmente, bem no
meio da Clareira, lá estava ela: a cabana azul construída pelo Sem Forma há...
quantos anos mesmo?
Aproximou-se,
sem saber muito bem o que fazer. Uma condição não muito comum a Hnuu, que há
décadas e mais décadas era conhecido como o calmo guerreiro da lança negra. O
silêncio na clareira era total. Nem mesmo seus passos podiam ser ouvidos.
Quando estacou a menos de dois metros da porta da cabana, outro acontecimento
não corriqueiro à vida de Hnuu teve lugar: foi surpreendido pelas costas. Uma
voz baixa e grave disse:
Você é a
primeira visita que tenho aqui desde que estas árvores ainda eram arbustos.
Virou-se. Ali
estava ele: quase dois metros de altura, aparência austera, mas paciente;
pálido e de olhos negros, largas pupilas horizontais. Os cabelos brancos caíam
sobre a roupa verde-musgo. Layaan, o Desaparecido. O Sem Forma. Imediatamente
Hnuu prostrou seu joelho direito sobre a grama e, com os polegares sobre a
testa, disse:
Layaan;
aquele que, após séculos e séculos teve seu nome traduzido pelas crianças como
o Desaparecido. É com humildade que venho até aqui, após ter cavalgado por duas
horas e caminhado a pé por duas vidas, pedir sua ajuda. Seu povo precisa de
você, Desaparecido.
Layaan,
intrigado, aproximou-se e, delicadamente, pôs o outro de pé.
Eu... Não sei
do que fala. Eu... Você, você é como eu. e observou Hnuu atentamente, antes
de dizer:
Sim... Sim, é
verdade. Você é do meu povo. Meu povo... É curioso voltar a pensar em mim mesmo
como algo plural. Como parte de alguma coisa que não esta imensidão e estas
florestas. Mas, sim... Imagino que para vocês eu tenha realmente me tornado o
Desaparecido. Na verdade me espanta que eu não tenha simplesmente sido
rebatizado como o Esquecido, ou pior: não tenha sido realmente esquecido.
...
Mas meus modos estão enferrujados após este tempo. Vamos, vamos
entrar. Tenho água limpa, vinho fresco de begônias feito por mim mesmo e
pão-ovos.

O interior da
cabana era bem menos austero do que sua fachada. A luz dos lampiões deixava
antever quadros e estantes repletas de livros e mapas; pergaminhos em línguas
que Hnuu nem se lembrava de que existiam; árvores genealógicas erigidas com
cuidado; sobre mesas de árvores vivas estavam plantas, samambaias e pequenos
portais-de-peixes, onde era possível observar micro-carpas e cavalos-marinhos
em sua eterna dança. A comida era farta e em pouco tempo Hnuu já estava bem
mais descansado de sua árdua viagem até ali.
Então o
chamam de Hnuu, o Calmo Guerreiro da Lança Negra? perguntou Layaan.
Sim. Você
sabe como são esses nomes de batalha, eles fogem ao controle. disse Hnuu,
constrangido.
Layaan sorriu:
Sim, sei
muito bem. Mas vejo que não carrega uma lança negra, e sim uma espada.
Deixei-a no
Salão de Troféus de Hiiasaa, como um presente a ele e aos nossos ancestrais.
Bom ver que
preza mais o “Calmo” de sua alcunha do que a menção a armas. São sempre tão
passageiras. É pouco prudente nos deixar que os outros nos confundam pelo que
carregamos. Vejo que é um bom guerreiro.
Hnuu sorriu,
ainda mais constrangido. Era aquela figura lendária que dizia isso para ele, o
próprio Desaparecido. E agora, naquela sala de jantar, sob a luz fugidia da
madrugada que se recusava a morrer e brilhava nas largas janelas da cabana,
aquele elfo quase mítico não parecia tão misterioso e nem mesmo tão diferente
assim do próprio Hnuu. Como que adivinhando os pensamentos do guerreiro, Layaan
disse:
O
Desaparecido... É um nome cômico, ao menos do meu ponto de vista. Obviamente,
para mim, jamais desapareci. Então cavalgou e caminhou por todo este caminho
até aqui a pedido de Hiiasaa? O velho Hiiasaa... Mal me lembro de seu rosto. E
nem mesmo de você, meu amigo. Não creio tê-lo encontrado nas Casas Claras antes
de minha partida. Viveu sempre lá?
Sim. Nasci
nas Casas Claras e, com exceção de uma ou outra empreitada mundo afora, sempre
vivi ali.
Pensativo,
Layaan perguntou:
Quantos anos
tem, se me permite a intromissão?
Dois mil.
Dois mil
anos... Então... Isso explica porque não me lembro de você. Era apenas uma
criança quando parti do mundo do nosso povo. Já faz todo esse tempo...
Ficou aqui
sozinho por dois mil anos?
Sim, agora
vejo que sim.
Se me permite
outra pergunta, por que veio para cá? Nosso povo é gregário e sociável não só
por natureza, mas por necessidade.
Eu... Tive
algumas decepções. E sempre gostei da solidão, bem me lembro. Ainda assim, dois
mil anos...
Hnuu tomou mais
um gole do seco vinho de begônias e deixou que seu anfitrião sorvesse seus
pensamentos. Após longos minutos de silêncio, em que várias imagens pareciam
passar pelo rosto de Layaan, este finalmente se levantou e disse:
Mas me
perdoe... Deve estar cansado pela viagem. A longa madrugada destas terras
finalmente já se vai e logo o Sol nascerá. Alimentou-se e bebeu e agora precisa
descansar. Amanhã, sob a luz do dia, tenho certeza de que as novidades que me
trouxer serão ainda mais alegres e toda e qualquer má notícia, menos sombria.
Hnuu foi levado até um quarto de hóspedes que parecia nunca ter sido
usado, ainda que limpo. Ali, sob as cortinas de jade-líquido que filtravam a
luz do sol em lusco-fusco, ele teve seu descanso, apesar de sonhos não muito
bem compreendidos.

A manhã chegou
após o que parecia ter sido semanas de sono. O antepasto matinal foi completo:
saladas de beterraba com legítimo girychri das regiões ao sul do rio
Uanyia; mais pães-ovos; jarras de suco de cenoura; queijo malyyr cortado
em cubos perfeitos; quase tudo plantado ou produzido ali mesmo, pelo próprio
Layaan. Ao fim, enquanto educadamente limpava sua boca com guardanapos de myyr,
Layaan perguntou, afinal, qual o motivo da visita do guerreiro. Hnuu olhou-o
por alguns segundos, como se tentasse abordar a questão sob um ângulo mais
racional. Por fim, decidiu apenas contar:
Hiiasaa pediu
que eu viesse. Ele... sabe que pediu que ninguém viesse procurá-lo aqui, mas a
questão é curiosa.
Fiz esse
pedido a ele e aos outros das Casas Claras, mas foi há tanto tempo que, para
minha própria surpresa, fico grato de que a tenham ignorado a esta altura. Sua
chegada foi bem vinda.
Agradeço. Foi
com muitas dúvidas que comecei essa jornada. Não só pelo perigo da viagem, mas
porque não queria desrespeitar a vontade de um elfo tão...
Layaan fez um
gesto com a mão, como quem desmonta um castelo de cartas invisível, indicando
que os medos do outro não tinham razão de ser. Hnuu continuou:
Bem, não há
uma forma de dizer isso de maneira normal, então... A questão é que vários dos
nossos têm desaparecido. A maior parte guerreiros, em terras distantes ou
jornadas misteriosas por rincões absurdos. Mas também pequenos comerciantes,
agricultores, belas damas e até mesmo tipos não muito recomendáveis.
Em que
circunstâncias estes desaparecimentos têm acontecido?
As mais
variadas. Até onde pudemos ver, não há um padrão. Veja, Hiiasaa pediu que lhe
entregasse esta lista com os nomes dos desaparecidos e, na medida do possível,
os locais em que sumiram.
Layaan observou
a lista brevemente e disse:
Sim, não
parece haver um padrão. Mas... Como sabem os locais em que desapareceram?
Bem... Aí é
que está. Não são bem desaparecimentos.
...?
Alguns deles
desapareceram à vista de outros que estavam ao seu redor ou nas proximidades.
Você quer
dizer que foram vistos desaparecendo?
Sim. Alguns
deles, sim. Poucos.
Hnuu, me diga
exatamente o que aconteceu com estas pessoas.
O que
exatamente aconteceu é um mistério, mas o processo, até onde pudemos intuir,
foi o seguinte: alguns dos desaparecidos foram vistos se desintegrando em pleno
ar. E outros, cujo sumiço não foi testemunhado, tiveram seus restos encontrados
algum tempo depois.
Restos?
O círculo de
ossos.
...? Hnuu, o
que...
Seus corpos
se desfizeram em pleno ar, em poucos segundos. Não importa o que estivessem
fazendo: caminhando, conversando, lutando, dormindo, comendo, observando o
horizonte... Não há pontos em comum que unam todos os casos. Só o final: cada
um deles se desfez; os corpos caindo em uma horrenda cascata e deixando em seu
lugar apenas um círculo formado por ossos. Nada de sangue, cabelos, restos
mortais, roupas, armas, nada. Apenas alguns dos ossos de seus corpos, sempre
dispostos de forma medonha e matematicamente circular. Círculos perfeitos.
Isso é
horrível. Aconteceu apenas com os do nosso povo?
Até onde
sabemos. Não ouvimos relatos envolvendo nenhuma outra raça. Veja e tirou dos
seus pertences mais um pedaço de papel -, este é um desenho de um dos restos de
ossos, feito por Lambeeth, a artista.
Layaan tomou do
papel e observou com atenção o retrato. Cerca de dez ou doze pedaços de ossos
do corpo de um elfo formavam um círculo perfeito.
Este desenho
foi feito a partir de um punhado de ossos encontrados dentro dos muros das
Casas Claras. Uma dama. Pensamos em posicionar um portal-de-pássaros sobre os
restos, para que pudesse vê-los daqui, utilizando um segundo portal que eu
então teria trazido comigo. Mas Hiiasaa foi veementemente contra; disse que
seria temerário, pois ele imagina que os ataques se é que o são possam ser
engendrados por meio de algum tipo de portais. Mas, claro, investigamos todas
as cenas que encontramos, por diversos meios. Nossos melhores magos,
homens-da-lei, guerreiros e damas-de-poesia olharam todos os aspectos destes
locais.
Chamaram
bruxos dos homens? perguntou Layaan.
Sim, algumas
vezes. Alguns dos melhores bruxos da raça dos homens que vivem no Vale de
Gorúndua visitaram, em cortesia, algumas das cenas. Estupefatos, como nós.
Nenhum sinal
de portais?
De nenhum
tipo. São muito raros, como sabe disse Hnuu, não evitando um olhar de relance
aos portais-de-peixes localizados sobre as mesas da sala de Layaan.
Sim...
Adquiridos apenas a muito custo, em viagens longínquas. Ou fabricados por artes
arcanas que me escapam totalmente. Hiiasaa costumava fabricar alguns.
Ele ainda o
faz, mas cada vez menos. Ele está mais velho agora.
Sim, imagino.
Falta lhe
entregar uma última coisa: este osso. disse Hnuu, estendendo até Layaan um
pequenino osso de um dedo anular. Hiiasaa disse que pôde intuir que lhe seria
útil, devido ao seu antigo treinamento. Pertencia, antes, a uma dama e
integrava o círculo que serviu de base para o desenho que lhe passei. O velho
curandeiro disse que, durante sua jornada, você deveria “apontar para a frente
usando o dedo de uma caída”.
Layaan tomou do
pequeno osso e o observou intrigado. Estava gelado. Seria um tremor aquilo que
sentiu ao pousá-lo sobre a mesa? Após alguns segundos, disse:
Bem, pelo que
vi nesta lista, 89 de nosso povo desapareceram desta maneira.
Estes são os
que sabemos. Desconfiamos de vários outros, que estão desaparecidos.
Acreditamos que este fenômeno tenha começado há poucos meses. Três, no máximo.
Quando vimos que não iríamos descobrir o que era, decidimos pedir a sua ajuda.
E é claro que
ajudarei. Partirei ainda esta tarde, assim que preparar minhas armas e meu
cavalo.
Pode contar
com minha ajuda. disse Hnuu, humildemente.
Seria uma honra cavalgar ao lado de um guerreiro de sua estatura,
mas eu seria imprudente se privasse as Casas Claras de mais um combatente em
meio a esta situação. E já estou casado há tanto tempo com a solidão que ela
ficaria triste se deixada para trás, tricotando.

Hnuu partiu em
um novo cavalo, recrutado por Layaan entre as cavalariças-espírito da Mata dos
Que Já Não Falam. “Vá pelo Norte, não pelo Sul, mesmo que esta seja a direção
das Casas Claras”, disse o anfitrião ao guerreiro. “A Velha Floresta Anacrônica
tem direções curvas que brincam com o tempo. Pelo Norte, em diagonal, chegará à
tribo-cidadela em meia-hora”.
Três horas
haviam se passado desde a partida de Hnuu e Layaan estava pronto. Além de
Trafalgar, seu cavalo, levava como companhia sua espada, arco e flechas de marfim-fumaça,
provisões de alface escura e temperos contra frio e calor, as anotações e o
osso anular entregues por Hnuu, entre outras miudezas à guisa de passatempo e
lazer. Assim que trancou sua cabana com proteções físicas e astrais, Layaan
montou em Trafalgar, sacou do dedo e confirmou o que já adivinhara antes. O
membro decepado realmente tremia e, pior, confirmava sua mais terrível
suspeita: pousado sobre a palma da sua mão, o dedo apontava para o Leste.
Nunca havia antes viajado para o Leste sem sofrer terríveis perdas.

O primeiro dia
passou sem grandes eventos, a não ser que contemos o revoar de pássaros
dourados do Ninho Sagrado de Além-Baía, curvando suas asas curiosas sobre a
cabeça de Trafalgar. O dedo anular
feminino morto sobre a palma da mão de Layaan indicava sempre o Leste, nas
poucas vezes em que era manuseado; como o elfo possuía pavor e certo asco
daquele incrível artefato, mantinha-o quase sempre no interior de sua bolsa.
O segundo dia
foi povoado por clareiras amplas e ensolaradas, pelo canto de grilos e insetos
que nem mesmo Layaan identificava de pronto e por pequenas doses de sono ao
lado de arbustos, vigiado por Trafalgar. A viagem até agora era marcada pelo
horizonte, cuja linha tortuosa cantava canções de promessas de chegada e memórias
de coisas que ainda estavam por vir. O ritmo no terceiro dia foi distinto, já
que Layaan se viu atacado por um pequeno grupo de Salteadores Cobertos; de suas
mãos esquerdas desnudas única parte de seus corpos não escondida pelo couro
de linces-cinzas -, saíam gritos horrendos. Trafalgar saltou sobre eles,
imponente, enquanto Layaan sequer teve oportunidade de brandir sua espada: o
reconhecimento de que lidavam com um elfo foi o bastante para espantar os
Cobertos.
A noite caiu
sem sonhos, mas iluminada por estrelas que, naquelas partes das Florestas
Não-Descobertas, giravam em um ritmo perceptível a olho nu.
Quando o Sol já
alcançava o topo de seu trono no dia seguinte, Layaan parou para se banhar na
lendária Cascata de Estalagmites, onde água cristalina em abundância jorrava do
que os antigos diziam ser os restos mortais de uma giganta de raças extintas.
Difícil confirmar isso àquela altura. O certo é que a cavalgada já estava
iniciada há muitas horas quando Layaan finalmente se deu conta de que a viagem
já havia recomeçado.
Foi no décimo
dia que Layaan percebeu que, enfim, atingia uma parte da floresta que não
conhecia; olhou para o céu e, pela direção em que as nuvens sopravam, tentou
adivinhar se aquela área pertencia ainda às Florestas Não-Descobertas, aos
Bosques Mímicos do Leste ou até mesmo a uma parte mais oriental da Velha
Floresta Anacrônica. Estava perdido, afinal. Sorriu satisfeito e cavalgou com
mais força, rumo à sua inevitável fuga.
Foi no décimo
dia e meio que Layaan entendeu que, pela primeira vez em séculos, pensava com
interesse em coisas que o faziam rir.
Foi no vigésimo
dia que Layaan se deu conta de que não sabia mais se estava no décimo ou
trigésimo dia de cavalgada. Isso não mais importava. Somente o Leste contava,
indicado pelo osso anular que se recusava a apontar o descanso. Desde o início
havia entendido que, se Hiiasaa havia mandado seu melhor guerreiro em uma
jornada rumo à imensidão para buscar uma sombra que vivia como eremita há dois
milênios, havia algo diferente acontecendo. E isso, esse misto de
excitação e leve temor, fazia com que ele desfrutasse de sua viagem de novas e
estranhas maneiras.
Não importava
que um ogro de três metros e duas cabeças ambas fanhas o atacasse em meio à
madrugada, como no décimo-quinto dia. Tampouco que fadas nuas, com cabelos
feitos de tubos de seda e deadlocks o abordassem em sua cama de folhas,
como no vigésimo-terceiro dia. Era o trajeto que importava; cada pedaço de
relva de dois centímetros, indistinguível um do outro e ao mesmo tempo
totalmente distintos em relação ao que haviam testemunhado em sua imobilidade;
cada silvo, uivo, canto ou voz (voz?) que dialogava com sua alma ao longo da
estrada; todo e qualquer anão mercador perdido com sacos de panelas e
frigideiras em meio ao campo, tecendo conversas com a solidão; e uma ou outra
gota de orvalho que percebia ser diferente, por carregar ali e somente ali -
a lágrima de toda uma genealogia de árvores sabidas de sua extinção próxima.
Tudo era Layaan e ele sabia que frente a essas maravilhas era também, ele
mesmo, outra maravilha. E sendo assim era nada.
E foi como nada
que se arrebatou do alto das Cataratas da Garganta da Girafa, a uma altura
indizível, para recuperar um trecho de poesia escrita para ele há séculos (já
eram dois milênios?) por Fazaala, a mesma dos cabelos loiros que se sacudiam em
sua memória confusa. E foi como maravilha que ele ressurgiu de dentro d’água,
no Lago das Coisas que Passam (recém-batizado por ele mesmo), sem o arco e suas
flechas, mas com o papiro de versos na mão, resgatado e intacto, graças à
resistência do Papel-Memória dos elfos das Casas Claras, que dialogava
incessantemente com a fala e o pensamento e por isso nunca deixava que nada
escrito nele se perdesse a não ser por vontade consciente de seus donos ou
inconsciente de seus autores.
A alegria da
viagem era mesclada à preocupação com os elfos mortos e os ossos colocados em
forma circular, mas Layaan sabia que estava naquela floresta há tantas e tantas
e tantas décadas para fazer algo parecido com aquela jornada que empreendia.
Entendia melhor agora sua escolha pela solidão, feita na época por motivos que
ele não mais lembrava de todo. Trafalgar olhava para os lados, imponente,
alegre por fazer parte de algo que sabia que seu amigo ansiava, sem se
aperceber, por tanto tempo.
E foi o tempo
sempre o terceiro companheiro de viagem dos dois, até que se tornou o próprio
líder da empreitada. Layaan dormia sob as copas de Carvalhos Azuis e sonhava
com Estrobo-Vagalumes; bebia água dos riachos que sabia conter rastros da
Sagrada Neve Derretida de Zang’or; olhava para as copas das árvores à noite,
enquanto elas escondiam e tornavam a revelar a lua. E a lua era a cada
descerrar uma outra lua.
Como o tempo é
um amigo fiel apenas ao seu tempo, não tardou (ou ficou cedo?) para que Layaan
se perdesse em labirintos de arames farpados erigidos a esmo pelas aranhas
saragoças; perdesse parte dos pergaminhos e inscrições enviados por Hiiasaa ao
passar pela casa das ninfas de fogo que andam peladas; foi a partir daí que
tudo começou a ficar como nas lendas dos antigos e mortos aldeões do Primeiro
Reino dos Homens. Verdadeiros chatos e trágicos eram eles; mas a viagem
resolveu adotar estes contornos e assim o fez.
Layaan andou
durante dias a fio pelos desertos de Qu’aar e o dedo de osso que ora pairava
em sua mão e ora em sua bolsa sempre apontava para o mesmo Leste. O mesmo
distante, inatingível e há poucos dias ainda promissor Leste. Foi em direção ao
Leste que Layaan subiu e desceu dunas, colheu água lamacenta de Poços de Fadas
subterrâneos e lamentou não ter levado com ele um dos seus portais-de-peixes.
Ao seu lado, Trafalgar trotava cabisbaixo, envergonhado por não apresentar
forças para levar seu amigo em seus ombros.
O fim do
deserto foi marcado pela chegada de uma imensa tempestade, que Layaan recebeu
de boca aberta para o céu de nuvens roxas escuras, em desespero. Mais à frente,
arbustos de algodão verde conhecidos até então pelos elfos somente como lenda
serviram de colchão para o descanso de cavaleiro e de montaria; mais à frente
ainda, imensos bambus-de-ferro que adornavam o caminho mostraram que haviam
chegado às míticas terras dos sacis, duendes negros como a noite e de
uma só perna, que os atacaram em grupos de mais de duzentos de cada vez. Foi
ali que Trafalgar tombou em batalha, logo antes de Layaan emitir o que ficou
marcado na história sem palavras dos duendes negros como o Grito de Morte do
Cavaleiro Branco de Duas Pernas. Cabeças rolaram e o sangue de sacis regou o
campo que serviria de tumba e lápide para o cavalo.
Serpentes
transparentes que contavam histórias de marinheiros perdidos no mar apareceram
mais à frente, somente para dar passagem a Layaan, caladas, quando perceberam
que ele era aquela de que falavam em sussurros: a última história não contada.
Com a espada em suas mãos e apenas o poema e o dedo anular na bolsa, Layaan
caminhou por aquela terra sem nome por dias e dias, comendo as frutas que
apareciam pelo caminho e dormindo em ocasionais círculos de fadas, pois ali
elas seriam as menores de suas preocupações.
Os dias, meses
e anos da viagem foram misturados, seus tamanhos redimensionados; a essa altura
a própria viagem se multiplicava em várias, cada pequena escala fazendo com que
o destino e propósitos originais fossem esquecidos e, ao mesmo tempo, ficassem
cada vez mais próximos. A empreitada se transformava mais e mais em um segundo
exílio de Layaan e, pela primeira vez, ele pensava em si mesmo como o
Desaparecido de que Hnuu falara.
O Sem Forma.
Somente agora
compreendia aquele apelido. Ele havia sido empregado pensando em seu futuro,
não em seu exílio passado.
Foi com estes
pensamentos que um Layaan magro pela fome, abatido pelo ermo e carregando
apenas a espada em uma mão e o dedo morto na outra (onde mesmo havia perdido a
bolsa? Na luta contra os Homens de Sal? Ou nas cavernas-prisão de onde só a voz
escapa?)... Não. Espere. O poema ainda está aqui, com ele.
Foi com estes
pensamentos que um Layaan magro pelo tempo, abatido pela saudade do que ainda
viria e carregando apenas a espada em uma mão e o dedo morto na outra, com um
poema preso em seu cinto, chegou a uma clareira que exalava um odor que nunca
havia sentido antes.
Caminhou até a
o centro exato da clareira e sentou-se, pernas cruzadas sobre a relva. Abriu a
mão esquerda, que carregava o dedo da morta, e viu que o pedaço de osso girava
sem parar. Era ali. Havia, enfim, chegado.
O Leste.
Não precisava
mais daquele pedaço de morte que tanto o nauseava. Arremessou o dedo para longe
e viu que ele se desfez em pleno ar. O pó branco caiu lentamente, espalhando-se
sobre a relva salpicada por pedaços de raios de sol. Layaan pegou o papel em
sua cintura e leu mais uma vez o poema escrito por Fazaala, presente dado a ele
naquele dia de céu aberto sob os pórticos verdes de pedra dos Jardins do Alto.
Releu; e leu
uma terceira vez. Fechou os olhos e aspirou as palavras, os versos e, com elas,
toda a lembrança dos poemas, quadros, músicas, esculturas, portais-de-arte,
glóbulos de memória inventada, peças com marionetes, recitais e festas-de-dança
que já havia visto ou criado; expirou todos os beijos e carinhos que já havia
sentido ou oferecido. Abriu os olhos, dobrou o pedaço de Papel-Memória e
acondicionou-o com todo o cuidado em um bolso de seu cinturão. Apoiou-se sobre
a espada sua única amiga presente e caminhou em frente.
Alguns metros à
frente viu que um ponto à margem da clareira era ocupado por uma torre em
ruínas. O desenho era distinto do de qualquer escola, época, estilo ou raça que
conhecia e havia ficado boa parte de dois mil anos lendo sobre coisas como
esta, encontrando coisas como esta. A torre de pedras arredondadas tinha agora
pouco menos de três metros de altura e seu teto já havia ruído há... quanto
tempo? Já nem havia entulho no chão em seu interior, agora retomado pela relva.
Muito tempo.
Foi quando
reconheceu o som.
Leve, mas ainda
assim, inconfundível. Só o havia ouvido uma vez, dois mil e quinhentos anos
antes, em uma viagem ao lado de Hiiasaa. Sim, ali estava ele, mimetizado em um
canto da torre.
Um
portal-de-homens.
Com quase dois
metros de altura e dois metros de largura, ele sibilava. Mas o que era mostrado
do outro lado era apenas o breu.
Layaan empunhou
sua espada com força, levou a mão esquerda à testa em respeito ao grande Miira
e atravessou o pórtico sem bordas, mergulhando no escuro.

As trevas do
outro lado eram leitosas e os olhos de Layaan expandiram suas largas pupilas
horizontais até o limite. Roncos de criaturas tenebrosas soavam ao longe,
ecoando pelo ar. Logo Layaan percebeu que estava em uma salinha às escuras.
Tateou e encontrou uma janela. Olhando por ela, viu templos de pedra enormes,
de tamanhos que rivalizavam com as estátuas de Tegorh em altura, mas não
possuíam a beleza e curvas destas; antes, empatavam em feiúra com os garranchos
das escritas do povo kur, o das dunas. Janelas quadradas de vidro, de onde emanavam luzes roxas e verdes
etéreas, observavam a miséria daquela vila. Percebeu que estava em um templo de
feiticeiros.
Levantou sua
espada e saiu da sala pela única porta que encontrou. Estava destrancada.
Empurrou a madeira e viu-se em um comprido e estreito corredor. Nas paredes,
viu cenas horrorosas; jamais vira coisas tão mal pintadas e carentes de
equilíbrio desde sua visita, novamente, ao mundo kur. Quando chegou ao
fim do corredor estacou, arrepiado. Vozes.
Um grupo de
seres falava em uma língua que jamais escutara até então. Parecia o ruído dos
Homens da Planície do Gelo Seco, quando estavam dormindo, só que as vozes
tomavam alcances agudos ainda mais irritantes. Olhou pela esquina do corredor e
viu que as vozes vinham de uma sala vizinha, cuja porta estava escancarada. O
cômodo onde estava agora não tinha luz, então pôde aproveitar-se do escuro.
Afinal.
Era ali que as
mortes do seu povo estavam sendo engendradas. Só restava a Layaan descobrir
como isso era feito e pôr um fim na desgraçada empreitada. Aproximou-se ainda
mais da porta e finalmente pôde vê-los.
Eram horrendos.
Gordos e de
pele flácida, de um branco que carecia da palidez elegante dos elfos ou até
mesmo dos Homens do Sul; eram sem vida, como se jamais vissem a luz do sol.
Vestiam roupas esfarrapadas e amedrontadoras. As calças eram de um tecido azul
grosseiro, que nem mesmo os Ogros Marinheiros de Puulth se atreveriam a usar.
Dois deles bebiam um líquido negro e borbulhante e arrotavam de quando em vez.
Pôde perceber que eram cinco e, pelos modos e vestimentas, pela voz e pelo tom
das palavras, claramente feiticeiros do escuro.
Arriscou-se
ainda mais junto à soleira da porta e então pôde vislumbrar, sobre a mesa em
que a escória se reunia, um estranho mapa. Era feito de papel grosso e
envernizado, como os Tomos de Cobre dos adoradores de Frth. Pequeninas estátuas
de arremedos de elfos, homens, anões e até mesmo dragões eram manuseadas pelos
magos. Percebeu que a alegria de uns era acompanhada dos resmungos de outros,
em turnos. Era uma espécie de batalha pessoal.
Um dos seres, o
mais gordo e transparente do quinteto, que usava em seu rosto uma mórbida máscara
de vidro que lhe cobria os dois olhos, sacudiu algo em suas mãos e jogou sobre
a mesa. Os objetos brancos caíram desajeitadamente sobre partes do mapa e um
segundo mago, que bebia do viscoso líquido negro, deixou que parte da
bebericagem saísse pelas suas próprias narinas, em uma demonstração de surpresa
que nem mesmo os rudes mercadores de artefatos sexuais das ruas enlameadas de
Bruuba efetuavam mais naqueles dias. Foi então que Layaan sentiu.
Naquele momento
exato, com a queda dos pequenos objetos sobre a mesa e a subseqüente retirada
de uma das estatuetas de sobre o mapa, ele soube que um de seu povo havia
morrido.
Foi tudo muito
rápido.
Com um grito
lancinante de ódio, Layaan levantou a espada branca e se lançou, em um ato
temerário e suicida, contra o grupo de feiticeiros do escuro. Naquele momento
era uma figura terrível, graças a todas as intempéries que teve de enfrentar:
olhos encovados, a pele pálida ainda mais branca e sem viço, os cabelos
ensebados e o corpo demonstrando os efeitos da contínua agressão dos elementos,
dos seres e da fome. Apenas quatro golpes e os cinco magos caíram mortos aos
seus pés, gritos agudos e sem esboçar nenhum tipo de reação que não o início de
um arremedo de fuga.
Ainda
carregando o ódio pela covarde morte à distância de tantos de seus semelhantes,
Layaan ouviu um sussurro e virou-se, espada em punho. À sua frente, em um canto
do cômodo ao qual não havia dado atenção até aquele momento, estava uma
tentativa canhestra de criação de uma espécie de portal-de-pássaros. Era uma
caixa de madeira, com um tampo de vidro em sua parte mais frontal; por este
vidro desfilavam cenas ininterruptas e desprovidas de sentido: lutas, beijos,
monstros feitos de ferro que engoliam pessoas e por elas eram controladas em
seus ventres; alimentos dentro de caixas de papel retangulares e latas de
ferro; carne morta em fatias, exibida como nos mercados da cidade fronteiriça
de Theth e mesmo lá isso havia sido proibido há muito tempo.
Aquela triste
moldura não era um portal. O que estava do outro lado eram apenas marionetes de
luzes, não seres vivos. Olhou para a mesa e viu que o mapa da partida entre os
magos era uma zombaria da geografia de seu mundo. Todas as cidades e rios e
florestas e costas escarpadas estavam em seus lugares errados e sem nomes.
Coisas sem nomes são perigosas.
Ao lado das
tristes estatuetas, jogados, estavam os pequenos objetos brancos. Ao
aproximar-se mais deles, viu que eram dados de vários lados, cinco deles.
Feitos de osso, como os dados de seis lados que havia visto, séculos atrás, nos
bares e bordéis do porto de Klirhg, cidade mista de homens, ogros, anões e
elfos expulsos. Viu que os dados tinham o mesmo número de faces que a
quantidade de cidades e reinos de seu povo; e que eram lançados pelos magos a
partir de um recipiente redondo de um material que não conseguiu identificar.
Compreendendo
que o tal conjunto de objetos era o que estava chacinando seu povo, Layaan
coletou os mapas, as estatuetas, o recipiente e até mesmo alguns tomos escritos
na língua horrenda dos feiticeiros e os acondicionou em uma bolsa fina e
branca, feita do mesmo material não identificado do lançador de dados. Os dedos
do elfo logo perceberam que aquele material não era natural e certamente
deveria ter sido criado pelos bruxos em suas fossas escuras. Não era uma boa
idéia levá-lo para seu mundo, mas não se arriscaria a deixar ali qualquer elo
do engenho assassino. Quando finalmente juntou o último dos dados de osso, os
cinco brilharam dentro da bolsa e Layaan, enquanto sentia seu corpo ficar leve
e sem matéria sem forma -, sabia que aqueles objetos eram o portal que ligava
aquele mundo ao seu povo, por alguma baixeza do destino. Deixou-se levar pela
correnteza. Havia concluído sua jornada ali.

Abriu os olhos
e estava de volta à clareira. Levantou-se cambaleante pela viagem de volta e
foi até a torre. Como imaginara, o Portal-de-Homens em seu interior havia
desaparecido, fechado pela passagem de seu correlato os dados pelo seu
interior. Layaan apertou com força a bolsa de material artificial em suas mãos.
Precisava enterrar aqueles objetos sob algum altar ou árvore sagrada de
banimento.
Envolveu a
bolsa contendo os objetos dos bruxos em folhas largas de várias árvores que
margeavam a clareira. Uma delas era um Carvalho Azul, sua espécie mais querida.
Entoando canções tão antigas que nem mesmo os deuses lembravam quem as havia
criado, Layaan pediu licença a Maari, guardião do panteão das grandes árvores,
e a Buuryo, semideus protetor do solo, e começou a cavar com as mãos um buraco
junto às raízes do Carvalho. Meia hora depois, os objetos, fossem de osso ou de
material não existente na natureza, haviam desaparecido sob as raízes da árvore
de banimento, para sempre desintegrados pela força de sua seiva imaterial. Ele sabia que o velho Hiiasaa teria adorado
estudar aqueles artefatos escuros; e, por isso mesmo, sabia que Hiiasaa o
agradeceria imensamente por ter dado cabo daquela coleção.
Isso, claro, se
ele voltasse para as Casas Claras. A tribo-cidadela estava mais longe do que
nunca. Sua velha cabana em meio à Mata dos Que Já Não Falam era uma lembrança
distante. Layaan colocou a espada em sua cintura, passou os dedos pela memória
escrita em forma de versos em um bolso de seu cinto e olhou para as várias
direções que escorregavam entre norte, sul, leste e oeste. Era uma questão de
colher uma delas, como uma flor-de-lótus.
Deixou o vento
decidir.
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