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Cavaleiro da Lua Especial

Por Conrad Pichler

Stargate

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Capítulo 1: A Face Sombria da Lua

Um grande olho azul observa um módulo artificial pousando lentamente numa superfície branca e cinza, mármore. O olho é o terceiro planeta de um sistema solar acanhado, na periferia da Via Láctea, sempre espiando seu satélite natural, num balé silencioso que Kubrick filmou um dia: Terra e Lua.

Assim que todo ar comprimido necessário para fazer a porta-rampa do módulo aeroespacial abrir-se é despejado no vácuo, um utilitário aeroespacial avança pela superfície seguindo uma rota tortuosa para um ponto que apenas seu computador de bordo, com seus cálculos trigonométricos/astronômicos, podem levá-lo. Deslizando e levantando poeira, ele entra na sombra infindável do lado sombrio da lua. O véu de poeira não se pode mais ver, nem mesmo o carro seria possível, não fossem as lanternas que circunscrevem os elmos, que protegem as cabeças dos dois seres transportados.

Uma hora depois, e eles chegam a uma grande cratera, feita há um milênio. A pé, os dois homens seguem guiados pela matemática e pelas ciências mais variadas, o vácuo é o defensor dos segredos entre os homens, que conversam no interior aquecido de seus elmos. Eles retiram ferramentas de suas mochilas e iniciam uma limpeza. Em alguns minutos, o primeiro sinal aparece: feita em metal, uma lua crescente rústica entalhada aplicada sobre uma peça circular maior e lisa.

Cidade de Nova York, uma corrida de táxi de Manhattan até Jersey é sempre difícil de conseguir. Os prédios envidraçados refletem-se e refletem o carro amarelo, impecavelmente, limpo. Jake Lockley é taxista desde os 18 anos, quando largou a escola e, com o pouco que tinha, comprou um carro. Jake não casou, não viajou, não viu nada além dos prédios altos e as casas geminadas das periferias da Grande Maçã. A única coisa que o taxista sabe é que conseguiu apenas três corridas de Manhattan até Jersey em dez anos, ele diz pra si mesmo que isso tem algo de especial.

Pelo retrovisor, Lockley vê o homem de terno sentado no banco traseiro. Ele, também, pode ver seus próprios olhos refletidos no mesmo espelho. Ele é um homem de sorte.

Egito, Tebas. Uma velha sacerdotisa escreve alguns símbolos nas paredes de uma caverna no deserto. Sua respiração ofegante salpica sangue nos desenhos recém produzidos. Desesperadamente, ela olha para a entrada da gruta, um apertado semicírculo de negrume, e desvia seu olhar, a fim de escrever mais uma seqüência de símbolos. Então, a porta se ilumina. Ela pragueja entre soluços, os muitos nomes de um deus caçado como ela.

— ...Chons... Khensu... Khons, Khonsu... Khonshu! — ela cai e termina a prece clamando pela casa de seu deus. — Iah! Iah!

O taxista Lockley percebe a maleta esquecida, refletindo no mesmo espelho que refletia seus olhos. Ele salta, pega o pertence, e vai atrás do homem que havia lhe presenteado, injustamente, com uma gorjeta de 25 centavos. O homem de terno afasta-se, diz "não" várias vezes. Lockley não quer mais dinheiro, apenas quer livrar-se do que não lhe pertence.

— Senhor, senhor... Esqueceu sua valise no táxi...

O homem fica abismado com o atrevimento do taxista. Jake, quando principia um pedido de desculpas, vê as insígnias do exército presas no terno bonito, escondidas embaixo do sobre-tudo. Só então o taxista percebe a idade avançada do homem que havia transportado.

— Perdão, senhor... eu não queria...

— Não, não. Leve isso para longe, filho... accg... Deus... Deus...

O homem coloca a mão sobre o peito, arregala os olhos e, sofrendo, cai desfalecido no chão, sem qualquer protesto ou palavra do atônito taxista.

Lua. Os muitos holofotes e luz, cabos e equipamentos espalhados sobre o chão empoeirado da Lua são como marcas deixadas pelos pés da humanidade, em seu passo gigantesco. Sob barracas plásticas estão outras marcas, estrangeiras.

Homens e mulheres dedicam-se aos computadores e ao trabalho extraterreno, debruçados sobre as marcas talhadas num tipo de metal jamais pesquisado, marcas imensuráveis para uma matemática e cálculos de criaturas que se prendem em casulos ambulantes e seu elmos aquecidos, iluminados por luzes frias, marcas que deveriam permanecer no silêncio hermético do vácuo.

Quinze homens entram numa pequena garganta no deserto do Saara, seguidos de perto por vinte e um homens atirando. É necessário que a ordem do relato não defina o caráter dos personagens, ambos os grupos são de mercenários, dissidentes de exércitos de países menores da África. Vendendo-se, eles servem ao dinheiro que os pagam; já, os homens que os remuneram, servem-se do estrago que eles podem produzir.

Sendo assim, os primeiros quinze mercenários se escondem numa gruta, que já esteve fechada por uma pedra, que fora removida com dinamite, dias atrás. Na correria apertada, eles procuram a escuridão do interior. O primeiro deles a entrar, Marc Spector, vê símbolos antiqüíssimos salpicadas de sangue. Os tiros e os gritos de morte são abafados, pois sem saber como, Spector lê as palavras, e assim elas são gravadas em sua mente.

O taxista passa a noite em claro, não havia entregado a valise para os policiais. E não entrega ao esquecimento aquele velho militar morrendo, diante de seu olhar. A cada minuto, Lockley é seqüestrado por um pavor muito íntimo, o pavor de querer aquilo que está dentro daquela valise.

Assim, enquanto suas digitais sujavam o metal cromado, que refletiam os olhos cintilantes de ladrão, Lockley abre a maleta e depara-se com uma peça de metal — inominável, para ele — que tem gravada nela um olho que observava a face atônita de Lockley. E, como que ele mesmo fosse um espelho, ele vê o medo do militar refletido em sua face. E, mais uma vez, ele é seqüestrado para uma região sombria, silenciosa e fria dos segredos de pavor.

Capítulo 2: The Lunatic Is On The Grass

Meu olho é um orbe branco e prateado que reflete a luz do sol. Abaixo dele meu olho é azul, enevoado ou castanho claro e limpo, enfim, mesmo que sejam verdes no verão, meu olho é azul.

Sou um homem e sou um deus. Ou sou um deus e muitos homens. Num tempo anterior, em um invernal vácuo, eu vivi. Era eu quem descia do céu e, também, era eu quem recepcionava o deus em suas enormes barcas piramidais, que desciam do céu. Era eu quem esteve lá, construindo os monolitos e, também, fui eu quem expulsou o deus. Eu era o deus exilado no lado escuro da lua.

Eu sou o Cavaleiro da Lua: Khonshu, o deus; Marc Spector, o pretor; e sou Jake Lockley, o libertador. Agora, também, sou Steven Grant, o milionário.

Ao terminar a última frase, Grant retira a máscara egípcia de Iah — a lua — e olha para os homens e mulheres vestidos de gala, que permanecem estáticos.

— Por Deus, Grant! Eu quase me molhei... — diz o velho Simon, aproximando-se.

— Isso não seria novidade, querido... — diz Tifanny, a esposa, 45 anos mais nova.

Outras pessoas se aproximam, enquanto a música elevava-se no interior do amplo salão de festas.

— Mas, eu estou molhadinha, Steven... — Tifanny sussurra ao pé do ouvido do anfitrião.

— Aposto, Tiffy. Mas, acho que Simon precisa mais de suas mãos do que eu... — Steven sussurra, enquanto, cuidadosamente, tira as mãos da jovem do bolso de sua calça.

Todos comentam a performance shakespeareana do anfitrião, um milionário que tem por extravagante hábito representar. Suas pequenas ficções são tão espirituosas e sinceras que beiram a verdade, uma verdade aceita, uma verdade querida por todos.

Art Miles, grande apreciador das histórias dos povos antigos, reúne-se ao grupo que circunda o anfitrião:

— Grant, me diga, quem era Khonshu?

— Chons, Khensu, Khons, Khonsu ou Khonshu residia à noite na Lua. Na verdade, na antiga raça ancestral dos deuses que vieram à Terra, em suas naves maravilhosas (trazendo todo o conhecimento de astronomia, matemática e, até, agronomia), Khonshu foi o deus que não concordou com os desígnios de Rá, que exigia um afastamento da humanidade, um afastamento tal que nos transformava a cada momento mais em escravos, por isso, Khonshu foi perseguido, caçado...

— Essa é a história de Moisés! — alfineta o velho judeu Simon.

— Cada povo com sua mitologia, Simon! — sob os protestos do velho contrariado, Grant continua: — Ele é o único deus lunar (dentre todas as sociedades patriarcais da antiguidade) representado por uma figura masculina. Konshu era o responsável pelo estímulo à capacidade reprodutiva natural dos homens. — todos sorriem um sorriso amarelo — Mas, principalmente, era Konshu que tornava férteis os deuses. — Tifanny pisca para Steven, sem rubor no rosto — Assim, quando Khonshu foi dado como morto, os deuses tiveram que arrumar outra maneira de multiplicarem-se...

— Fertilização in vitro, esse é o futuro da humanidade, eu sempre digo! — intromete-se o Miles, o médico.

— É quase isso, Miles. Os deuses passaram a usar o ventre dos homens como casulo para seus descendentes divinos...

— Oh, Grant, deve ser por isso, que a cada ano, mais de um milhar de novos herdeiros aparecem em sua folha de pagamento... — Miles tenta abreviar a história de Steven que, como todos, riram com o amigo médico.

— Eu fico fascinado com sua capacidade de criar tipos, Steven, eles parecem tão reais... — diz Linda Akemi, velha amiga da família Grant.

— Ah, Linda! Eles são reais, são como outras pessoas... de algum modo, todas elas estão vivas... e, aqui, dentro de mim...

— Inclusive o "Cavaleiro da Lua"? — todos voltam a rir, menos Grant, dessa vez, ele afasta-se até uma janela onde pode ver a lua.

— Miles, meu velho... O Cavaleiro... Você não pode imaginar... Quando Khonshu retornar do lado sombrio da lua, através de um "portal das estrelas", entalhado com uma lua crescente, ele tomará a vida de Jake Lockley e Marc Spector para transformar-se no Cavaleiro da Lua, e estará pronto.

— Grant, pronto para quê? — perguntou linda.

— Vingança.

— Deus! Se eles são parte de você... o-o q-que... é você?

— Eu sou todos e sou um... um e todos... eu sou o Cavaleiro da Lua.

Depois de mais uma hora de bebida e risos etílicos. A festa esvazia-se, as despedidas do anfitrião são feitas à beira da janela. Ao que as luzes diminuem, Steven olha para a noite, sendo invadido pela lua, cobrindo-o como um manto de eternidade, a mente dele é invadida como o salão. Ele toma a máscara de Iah, coloca-a sobre seus olhos e num choque, ele pode ver o portal das estrelas, iluminando a noite na face sombria da lua, a milhões de quilômetros da terra.

Na região sombria dos segredos lunares. Cercado de luzes, cabos, equipamentos, containeres plásticos abarrotados de computadores, pesquisadores e militares, há um grande portal cor de bronze, coberto de símbolos diversos, escritos em relevo.

Não há olhos de prontidão e vigília. Apenas sistemas de números falíveis, presos a computadores e câmeras de filmagem, sempre atentos, captando movimentos seqüenciais. Diante dessa tecnologia, o disco central do portal move-se três vezes, movimento incompleto. O computador registra o movimento. Como um grande cofre selado por um código de marcas simbólicas, o portal se abre. As marcas são decodificadas, duas são desconhecidas, apenas uma é certa, entalhada sobre o círculo liso, uma crescente e rústica Iah. A Lua.

Capítulo 3: Moon River

Jake Lockley acorda com um sino berrando em seus ouvidos. Ele levanta-se, vai até o banheiro e encharca sua cara com água fria. Ele olha para o espelho e vê a face de Khonshu.

— Deus! Não! — ao olhar em volta não vê nada. — Nada!

Ele retorna para o quarto, abre o closet e pega uma valise, abre-a, a Lua crescente de metal brilha. Ao tocar nela, uma luz branca o carrega para longe.

Marc Spector precisa apenas apontar para os vinte mercenários que o persegue para, com raios de luz branca, colocá-los no chão, desviscerados. Nu, pisando a areia ensangüentada do deserto, ele percebe a noite, a Lua está o clamando. Pressionando a pequena crescente feita de pedra incrustada na sua têmpora, ele se veste com uma armadura milenar de tecnologia avançadíssima, a melhor arma que ele já usou. Seu rosto está limpo e ao tocar novamente na Lua crescente, uma luz branca o carrega para longe.

Steven Grant, vestido com a máscara de Iah, penetra o céu atravessando o azul profundo muito além da superfície da terra. Seu smoking congela ao sair da atmosfera, mas sua pele permanece aquecida, como a face luminosa da Lua, sempre aquecida pelo sol. Velozmente, ele desce na face branca do satélite terreno. Justamente na linha de sombra, prestes a pisar definitivamente no lado sombrio da Lua.

Sob a expectação inaudível das estrelas, uma guerra é travada entre seres de castas distintas de uma mesma raça que na Antigüidade foram separadas pelos desígnios dos deuses. Homens vestidos de astronautas despejam cartuchos de chumbo nos guerreiros de armadura, cujos elmos lembram uma cabeça de falcão. Estes guerreiros usam lanças que disparavam energia explosiva, espalhando o sangue vermelho dos astronautas na atmosfera sem gravidade.

Sem hesitar, os guerreiros-falcão marcham para o lado do Sol, preparar sua viagem para o interior do olho azul da Terra. Às costas dos guerreiros, enquanto o sangue flutua, caças em forma de falcão cruzam o silêncio negro da eterna noite lunar, despejando energia sobre os contêineres de plástico, computadores, cabos, módulos lunares da NASA e pessoas.

As naves alienígenas dos guerreiros-falcões aos poucos se afastavam do centro da batalha, agora já acabada. Eles se afastavam do Stargate que repousa numa cratera escura.

Na linha de sombra, parado em pé, um guerreiro vestindo as armas de Khonshu, em branco e bronze, observa a cena dantesca. Logo junta-se a ele Steven Grant. Parece impossível no vácuo de gravidade nula da Lua, mas, juntos os dois correm velozmente até o portal. Ao chegar lá, assinalam a seqüência de três hieróglifos que termina com o símbolo de Iah. O portal brilha e, imediatamente, o corpo estático de Lockley é materializado. Grant o pega no colo e faz um gesto com a cabeça encoberta pelo elmo, para que Spector inicie sua missão. Lockley e Grant desaparecem no portal, enquanto dezenas de naves em forma de crescente surgem.

Alertados pelo brilho intenso, ou pelos sensores internos, os caças em forma de falcão deixam sua rota rumo à Terra e entram numa batalha feroz contra os caças em forma de lua crescente. Eles fazem chover uma tempestade de raios vermelhos e brancos sobre o campo de batalha.

Do lado sombrio, erguem-se um esquadrão de soldados de Khonshu, e diante deles, Marc Spector grita nos comunicadores internos, palavras de ordem em uma língua ancestral. No lado iluminado, os milhares de guerreiros de Rá temem o grito que ecoa nas ondas de rádio. Os mil soldados de Khonshu iluminam um ponto escondido da lua, correndo um contra o outro os dois grupos chocam-se, numa guerrilha de tiros de energia e de violentos massacres físicos.

Além da luz do Stargate, Steven Grant é guiado pelo elmo de Iah, até o centro de uma câmara piramidal, com o corpo de Jake Lockley nos braços, ele vê toda uma sorte de tecnologia avançadíssima fundida nas paredes que parecem pedra. Grant deposita o corpo num sarcófago de bronze, revestido com um manto branco, ele coloca a lua crescente carregada por Lockley numa fenda.

— Agora estamos a sua espera, Khonshu.

A batalha das duas raças alienígenas destrói todo vestígio dos astronautas humanos, ao passo que toma proporções nunca imaginadas por qualquer mente do planeta Terra. Quando a última nave falcão cai, Marc Spector encurrala os guerreiros num desfiladeiro, e os executa.

Spector olha para o Stargate, e vê Grant saindo, eles precisam ir, ao templo de Khonshu.

No centro do pavilhão piramidal, Lockley está imerso num sarcófago.

— E-eu... eu não sei quem é você...

Uma voz inaudível fala com a mente de Lockley:

"Não se assuste, jovem, eu sou o seu pai."

— Q-quem? E-eu m-morri? — soluça.

"Não, você é o meu elo com esse mundo, filho. Em seu sangue eu vivo."

— Elo...? Quem é você?

"Seu pai. Chons, Khensu, Khons, Khonsu. Eu sou Khonshu."

Grant e Spector entram na sala e ouvem o choro infantil de Lockley. Cada um toma seu lugar em grandes sarcófagos que se fecham. No interior o calor aumenta muito, os cabelos e pêlos dos três homens são dissolvidos, a pele é contorcida. Eles se transformam em um só sangue, uma só mente, uma só energia, que perpassa toda uma sorte de canais e equipamentos invisíveis. E então, no ápice, a alma de Konshu mergulha nessa energia. Ele toma forma.

"Eu sou o pai. Eu sou Khonshu. Eu sou todos. Meus olhos são seus olhos. A Lua é o início de minha jornada, a partir dela podemos ver tudo. Milênios se passaram e eu adormecia nos hieróglifos escondidos no sangue de meus filhos, o sangue que é meu. Agora, o portal das estrelas está aberto, e eu passei. Agora, a eterna e universal profecia está cumprida: eu sou homem de novo e os homens são deuses."

Quando a câmara central do templo se abre, vestido de branco e negro, com a máscara de tecnologia avançadíssima, da mesma antiguidade que os deuses, o deus uno e guerreiro de Iah emerge.

Cavaleiro da Lua atravessa o Stargate e vê o grande olho azul da mãe Terra olhar para ele. Ele voltou. Para servir a terra e a humanidade. Com sua luz, ele vai proteger a humanidade das trevas da noite e de qualquer um que ameace ultrapassar os limites do Stargate.




 
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