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Falcão Noturno - Mortos-Vivos # 02

Por Eduardo Regis

A Alma de Chicago

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Kyle Richmond chega ao seu luxuoso apartamento. Ele pisa na varanda quando a chuva começa a diminuir. O sol já está quase nascendo, hora de tirar a máscara. No espelho da sala de jantar, ele vê o estrago. Um olho roxo e vários bolsões de sangue ao redor do ferimento. Tira a camisa e constata que seu tronco também já viveu dias melhores.

"Ninguém pode te dar liberdade. Ninguém pode te dar igualdade, justiça ou nada disso. Se você for homem, você conquista." (*)

Ele anda até o quarto enquanto tira o resto da roupa. Mesmo ele precisa dormir.

— É como um caleidoscópio. Zilhões de imagens rodopiam. Adicione a isso sons exóticos e inusitados e misture tudo em uma sintonia preta e branca. Você de repente acorda e se vê em um quintal meio pantanoso. No pé de uma árvore está um negro sorridente, maquiagem de caveira na cara, cartola rasgada na cabeça. É um batuque que vai e vem, assim meio destorcido. Você acorda e aquele negro te fala no subconsciente. Ele tem poder sobre você. Você o ama. Quer agradá-lo, mas ainda é mais do que isso.

— Aham. E esse negro?

— Sou eu.

— E a parada?

— O pó de zumbi.

— E o que eu levo nisso?

— Nada. Tem uma parte da história que você não entendeu. Eu não preciso realmente que as pessoas cheirem o pó para que eu as controle, se eu estiver próximo o bastante para que olhem fundo nos meus olhos...

— Sim, Barão. O que o senhor manda?

Dois tiros. A gargalhada sobe pelo chapéu pontudo do homem branco. Como um megafone, o chapéu aumenta o volume da risada. Kyle cai com os ouvidos sangrando.

Pai... mãe!

Ele se levanta e anda até o varandão de sua cobertura. O sol castiga a cidade, deve ser por volta de meio-dia. Kyle olha para o alto e se ofusca com o brilho do céu. Ele levanta a mão para fazer sombra enquanto volta para o quarto e pega o telefone.

— Sra. Grey? Aqui é Kyle Richmond, boa tarde. Peça que a Casa Richmond de Apoio ao Jovem Negro faça uma busca por crianças no lado oeste da cidade, por favor.

Sem cerimônias, ele desliga o telefone e senta-se na cama. Passando a mão no rosto, começa a avaliar seus ferimentos. O olho continua bem inchado.

— Que se dane, ainda preciso descansar.

Kyle deita e cai novamente no sono.

Dois tiros...

Horas depois...

A máscara nova serve perfeitamente. Ele ajusta o visor para a visão noturna e entra no carro do Falcão. Seus pneus queimam pelas ruas de Chicago até as proximidades do necrotério. O Falcão pula para fora do carro e se agarra à escada de incêndio do prédio. Em poucos instantes, arromba a entrada do terraço, caindo em um corredor vazio. Com um ajuste de lentes, consegue uma visão em infravermelho. Agora saberá onde as pessoas estão, mesmo atrás de portas e paredes. Assim, prossegue pelos corredores e salas, escondendo-se quando alguém se aproxima e avançando quando é seguro. O Falcão Noturno faz seu caminho até a sala dos arquivos.

"Um computador ligado. Excelente."

Entrar no computador e acessar os arquivos não é difícil. A primeira coisa pela qual procura é o nome do morto.

"Homem negro, 1,87 m de altura, aproximadamente uns 120 kg, vinte e poucos anos e que tenha dado entrada com lacerações feitas por objeto perfuro-cortante na região do colo. Feito. Paul Burringam."

Com um clique, ele acessa os resultados dos exames.

"Vejamos: Necropsia. A causa mortis foi choque hipovolêmico dada a perda de sangue por hemorragia interna causada por severas lacerações de tecidos e artérias. Podiam ter simplificado e colocado só o meu nome nessa parte da ficha. Exames toxicológicos, aonde estão estes resultados? Droga de software mal-feito. Aqui. Achei. Quantidades significativas de isocarboxazida e etomidato. Um antidepressivo e um hipnótico. O que esse cara andou usando? O que mais? Ah, o corpo ainda não foi liberado. Ótimo. Necrotério A-3, gaveta 8."

O Falcão Noturno se levanta enquanto procura por algumas coisas em seu cinto. Tendo se certificado de quem tem tudo em mãos, prossegue para a sala de autópsias. Infelizmente, nem tudo é tão simples: ele detecta duas pessoas dentro da sala que pretende invadir.

"Malditos plantonistas."

Ele abre lentamente a porta da sala e joga uma bomba de gás no centro da sala. Rapidamente, ele fecha a porta e, então, espera. E não espera muito, logo as duas pessoas que estavam trabalhando caem desmaiadas. Ele entra.

O gás ainda está se dissipando enquanto ele procura pela gaveta certa.

"Gaveta 8. Pronto."

Ao abrí-la, ele se depara com o corpo do mesmo homem que enfrentou na noite anterior.

"Você fica muito melhor morto."

O Falcão observa o corpo por alguns instantes, imaginando se ele conseguirá perceber algo que tenha passado pela perícia.

"Alguém te mandou fazer aquelas coisas, e eu vou descobrir quem foi. Você vai me falar, mesmo morto."

Subitamente, algo chama a atenção do Falcão. Ele muda suas lentes e então percebe certos resíduos nas narinas do morto. Abrindo seu cinto, puxa um swab (**) e o passa nas narinas do cadáver, guardando-o novamente em um saco.

— Sim, sim, mande-o entrar.

Um senhor branco vestindo um terno marrom é jogado em uma sala iluminada à luz de velas.

— Reitor Sloane! Magnífico reitor da universidade de Chicago, que honra! Finalmente consegui uma hora com você! — a figura sentada em uma poltrona tira uma cartola da cabeça e a coloca em uma pequena mesa de madeira.

Quem é você? Seu lunático! — o homem grita enquanto se levanta.

— Poupe-me de seus elogios. Já os conheço bem. Você está aqui simplesmente porque eu preciso satisfazer uma velha vontade. Você me fudeu o quanto pôde, reitor, o quanto pôde! Agora é hora do jogo virar.

— Quê? Seu doido, assim que eu sair daqui, vou te denunciar! Eu nem sou mais reitor! Larguei há anos! Você deve esta completamente fora de si!

A figura sai das sombras, revelando seu rosto.

Você! Mas... não é possível. Você sumiu... anos atrás... — o senhor cambaleia para trás com o susto.

— Olhe nos meus olhos, reitor. — as pupilas da figura se dilatam e o amarelo dos olhos se torna intenso.

— Sim, Barão. — o prisioneiro balbucia, enquanto se ajoelha.

— Reitor, fique de quatro e abaixe as calças. Hoje você vai saber como é ser fudido.

O computador termina as análises e imprime um relatório.

"Isocarboxazida e etomidato. A mesma coisa que deu no sangue, só que em pó. Espere. Tem alguns padrões aqui nessa espectometria que correspondem a outras substâncias, mas são padrões que o computador não reconhece. Alguém está negociando uma nova droga."

O Falcão olha para um tubo de ensaio com um resto do pó. Ele balança o tubo para desempedrar o material e vai até uma pequena jaula onde se encontra um macaco repleto de sensores grudados ao seu corpo. Ele abre a jaula e segura o primata enquanto joga o pó nas narinas do animal. Com cuidado, posiciona a jaula entre um estranho aparelho. Em poucos instantes, o macaco, que estava agitado, fica catatônico. Seus olhos, porém, estão esbugalhados, como se a qualquer minuto o animal fosse saltar para cima do Falcão. Horas depois, o animal retoma seu comportamento normal.

"Não parece ser tóxico. Vejamos as leituras do ecocardiograma e tomografia..."

Acessando o computador, o vigilante tem os dados dos exames.

"Humm. Picos de taquicardia. Arritmia cardíaca branda. Nada que seja perigoso. A tomografia apresentou alta atividade em uma região do cérebro do animal. Vejamos: região ligada à percepção audio-visual e comportamento. Este animal viu e ouviu coisas que não existiam. Acho que preciso de uma amostra do tecido dele."

Ele vai até a jaula e aplica uma injeção no animal, que cai morto. O Falcão o coloca sobre uma mesa enquanto abre o tampão de seu crânio.

Nas ruas de Chicago.

— Tá sabendo da nova parada? — um homem pergunta para uma prostituta.

— Já. Tu tem aí? — a mulher responde, ansiosa.

— O pó de zumbi? Nem a pau, compra o teu.

Lu Bingo sempre aparece no mesmo lugar todas as noites. Previsível demais. Ele acende seu cigarro enquanto encosta-se a um muro. Logo, seus clientes chegam.

— Você tem algo que eu quero, Bingo. — uma voz pesada sai do beco próximo.

— Eu tenho tudo, mermão. — Lu fala, se virando para o beco.

Um soco acerta Bingo. Sua maçã do rosto afunda.

Vamos lá! Eu pergunto e você me fala, senão eu esfrego seus colhões pelo asfalto enquanto te arrasto daqui ao cemitério. Que tal?

O Falcão Noturno aparece.

— Que nova droga é essa? Que pó é esse?

— Não sei de nada, cara. Tem pó nenhum não. — Lu tenta se proteger com as mãos, mas o Falcão o segura e rasga sua camisa.

— É simples. — ele tira uma lâmina do cinto — Ouvi dizer que piercings estão na moda. — o Falcão atravessa a lâmina em um dos mamilos de Bingo.

Argghh. — o traficante grita enquanto o sangue escorre por seu peito.

— Tá bom. Tá bom! Eu falo!

Rápido.

— É o pó de zumbi.

Nada de brincadeiras. — a lâmina vai de um mamilo ao outro de Lu, rasgando todo seu peito.

Porra!! É sério, cara, é o nome da parada. Um tal de Barão me passou pra distribuir. Tô ganhando milzinho por noite nessa parada. É tudo que eu sei! Juro! Juro!

Onde?

— Onde? — Lu não entende e um chute acerta seu estômago — Me encontrei com um tal de Redsong no Jake's Tavern. É tudo que eu sei, juro, juro! Ele é o contato!

Tem certeza que acabou?

— Tenho, cara. Pelo amor de Deus, você é a lei, cara. Você é a lei.

O Falcão Noturno enfia a lâmina no pescoço de Lu e deixa seu corpo escorregar pelas suas pernas enquanto ele dá seu último suspiro.

No Jake's Tavern.

A porta se abre. Todos os olhos se viram para a figura entrando. O Falcão entra com os punhos cerrados.

— Quem é Redsong?

Todos riem. Dá para ver nos olhos deles, eles são uns vinte, ele um só.

— Você bateu no lugar errado, passarinho! — um responde.

— Ah, é? — com os dedos, ele pega uma lâmina e a arremessa, acertando os bagos de um dos homens. O coitado cai gritando.

Quem é Redsong?

Um ruivo dá dois passos para trás enquanto três homens tomam a frente dele.

— Obrigado! — o Falcão fala enquanto abre as mãos, liberando duas bombas de um gás negro no ambiente. Além de obscurecer a visão, o gás ainda é sonífero. Alguns homens ainda tentam enfrentar o Falcão, mas são derrubados, ou por suas mãos, ou pelo sono.

Redsong abre os olhos. O mundo ainda gira e ele sente um gosto ácido na boca. Quando tenta se levantar, tem uma surpresa: está amarrado até os pés e no parapeito de um prédio.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

— Menos barulho ou vai acordar a vizinhança. — o Falcão Noturno sai das sombras.

— Como eu vim parar aqui? Eu vou cair, pelo amor de Deus...

— Eu ajudo você se me contar sobre o pó de zumbi e um tal Barão. Agora.

— Nunca ouvi falar disso não... — o Falcão empurra Redsong para o abismo. O homem cai cerca de meio metro até se chocar com um andaime de obras.

Aiiiiiiii!!!! Cacete!!! — Redsong se desespera.

Agora não tem mais andaime. Só o asfalto.

— Senhor barão! — um homem entra numa sala e se assusta ao ver a estranha figura do Barão vestindo um colete feito de pele humana.

— Você gostou? — o Barão se vira para o homem, exibindo sua face pintada de caveira.

— Claro.

— Burringam fez para mim antes de morrer. Um efeito colateral do pó, eu mesmo jamais pediria algo tão grotesco ao homem. Confesso, porém, que gostei do caimento. Guarde para mim. — o Barão tira o colete e o estende para seu empregado.

— Barão, pegaram Redsong. — Eddie fala enquanto segura o colete.

— O Falcão? — o olhar do Barão se enche de ódio.

— Sim. Ele acaba de pegá-lo no Jake's Tavern.

— Deixe-me em paz. Já sei o que fazer.

O Barão se senta em sua poltrona e veste sua cartola. Com sua voz profunda ele começa a entoar:

— Redsong, ouça seu Barão. O Barão Samedi ordena que repita com exatidão estas palavras para o Falcão Noturno...

Redsong fecha os olhos por alguns instantes e os abre novamente como num susto.

— Tá bem, tá bem. O Barão vai estar numa negociação hoje na fábrica de tecidos Benson, no galpão de tingimento. É tudo que eu sei.

Mais. — o Falcão ameaça jogá-lo.

O ruivo não responde mais nada, fica apenas parado olhando para os olhos amarelos.

Mais.

— É tudo. — Redsong responde, tremendo.

O Falcão Noturno levanta Redsong e o atira do alto do andaime.

— Lixo humano.

O corpo faz um estranho barulho ao se chocar com o chão e rachar o crânio.


Continua.


:: Notas do Autor

(*) Citando Malcom X. voltar ao texto

(**) Swab: instrumento parecido com um cotonete, utilizado para recolher amostras de tecido, sangue e outras evidências em cenas de crime. voltar ao texto




 
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