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Homem-Aranha Especial

Por Otávio Niewinski

Noite de Natal

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24 de dezembro. Noite. Estou caminhando pelas ruas de Nova York, sozinho. Olhando decorações de Natal, começo a me lembrar o que me trouxe aqui hoje, nesta hora.

O editor-chefe do jornal onde eu trabalho decidiu fazer uma "surpresa" para seus empregados: ofereceu pagamento extra para os que fizessem a cobertura da festa de lançamento de uma nova marca de refrigerantes. Em pleno Central Park. Em plena noite de Natal!

Típico dele. Parece até que o ranzinza não cansa de tentar atrapalhar a minha vida... desta vez involuntariamente, pois ele não sabe quem eu realmente sou. Mas tive que aceitar o serviço. Sou fotógrafo, e preciso do dinheiro que minhas fotos vão render. Preciso pagar meus estudos e os remédios da minha tia. Só espero estar em casa antes do jantar... senão a tia me mata!

Chego no local do evento. Luzes, cores, uma grande festa. Tiro várias fotos, acompanho os vídeos com motivos natalinos e os discursos dos mestres-de-cerimônia. Tudo é muito bonito, como deve ser um grande evento publicitário. Mas de repente, algo me chama a atenção. Olho para o lado e vejo um menino. Magro, olhos fundos, ele me fita com uma certa tristeza. Está encolhido, tentando se abrigar com jornais em um banco do parque.

Subitamente, sinto uma profunda tristeza. Percebo que para ele, as luzes e a festa talvez nada signifiquem. Talvez para ele, um cobertor ou um prato de comida seriam algo muito mais valioso.

Aproximo-me dele e pergunto seu nome. "Michael", ele diz. Pergunto sobre seus pais. "Não tenho." Pergunto se ele gostaria de ir para algum lugar mais quente. "Sim."

Deixo a festa de lado, de repente não estou mais preocupado com a irritação que certamente explodirá do meu chefe no dia seguinte. Me preocupo apenas com aquela criança. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. E eu posso ajudar essa criança. Sou, portanto, responsável por ela.

Levo-a para um abrigo. Lá encontro vários voluntários que dedicaram seus feriados e folgas à ajuda aos necessitados. Entre eles estão alguns de meus amigos e minha namorada. Apresento o menino a ela. Ela dá a ele roupas e um prato de comida quente.

As horas passam, nós dois conversamos com aquele menino. Ele nos conta de como perdeu os pais para a violência e como luta para fugir do vício e da marginalidade. Minha namorada promete tirá-lo das ruas. Levá-lo para a segurança de um lar. Conta ao garoto que seu pai é policial e pode ajudá-lo a encontrar uma nova família. A criança chora de felicidade. Nós a abraçamos e percebemos que nossos problemas podem não ser nada perto das injustiças do mundo.

Ligo para minha tia dizendo que vou chegar atrasado para o jantar. Explico onde estou e ela concorda. Por mais algumas horas, eu e meus amigos permanecemos no abrigo, conversando com os mendigos e degredados que lá se encontram. Ouvimos histórias de todo o tipo, e nos comovemos com todas.

De repente, uma velha senhora maltrapilha pergunta por que eu trago uma câmera fotográfica comigo. Respondo que sou fotógrafo. Ela então indaga por que não tiro fotografias dela. Diz que no passado foi uma bela mulher. Rapidamente, eu saco minha câmera e começo a fotografá-la. Logo, vários deles se aproximam e pedem para ser fotografados também. Atendo a todos. Eles se divertem fazendo poses. Em poucos instantes, uma alegria contagiante invade o abrigo. Minha namorada cochicha para que eu continue, pois essas pessoas não se divertiam há muito tempo. Continuo até que todos os meus filmes se esgotam.

Quando chega a hora de ir embora, percebo que as pessoas estão muito mais serenas. Os momentos de diversão as fizeram esquecer de toda a amargura e dor tão presentes em suas vidas. Me despeço de meus amigos, que decidem permanecer mais um pouco, e do menino Michael, e saio com minha namorada, prometendo voltar no dia seguinte com o resultado das fotografias.

Enquanto levo minha namorada para casa, conversamos sobre o efeito do Natal sobre as pessoas. E sobre aquele menino. Comento com ela sobre quantos meninos iguais a ele existem, sozinhos na rua, sem que ninguém lhes estenda a mão. "Não fique assim. Você faz a sua parte, sempre tenta o melhor. Por isso eu te amo", ela me diz.

Deixo-a na porta de sua casa, onde ela fará a ceia com seu pai, e parto para o meu lar para me encontrar com minha tia. No caminho, observando a bela ponte George Washigton, penso no dinheiro que deixarei de ganhar por não ter tirado muitas fotos do evento do Central Park. Então, penso que sempre terei eventos para fotografar, mas a alegria daquelas pessoas nessa noite talvez tenha sido única. E me sinto realizado.

Ah, sim. Esqueci de me apresentar. Meu nome é Peter Parker. Alguns me chamam de Homem-Aranha. Mas, esta noite, fui apenas um homem. E descobri que na maioria das vezes isto pode ser mais do que suficiente.

:: Notas do Autor

Dedicado a Stan Lee, Steve Ditko e John Romita, que criaram Peter, Gwen e várias histórias nos tempos onde o homem falava mais alto que a aranha.




 
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