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Por
Eduardo Regis, sobre um plot de Eduardo Regis e Conrad Pichler
Obsessão
"Metálica e grande. Formada por duas partes simétricas e um globo, também metálico, que se interpõe entre as extremidades destas partes. Seu design é bastante elegante e adequado para os experimentos de polarização da radiação. Olhando bem sua forma, é possível entender o que os cientistas que a criaram pretendiam. As duas extremidades, formadas por metal em forma de dínamos, com um disco de Faraday interno, certamente foram desenhadas para que a radiação fosse circundada por um campo magnético capaz de contê-la. Assim, o campo definiria o percurso das partículas radioativas, garantindo o sucesso do experimento e a seguranças dos cientistas e expectadores. Brilhante, porém arriscado."
O Doutor Otto Octavius, bacharel em Física e Doutor em Física das Partículas, durante algum tempo foi considerado o maior especialista no assunto do mundo, rivalizado apenas por Bruce Banner, talvez. Mas isso foi antes, antes do acidente que o transformou no terrível Doutor Octopus. Agora, ele é uma criatura egoísta e egocêntrica que só pensa no seu ganho pessoal e satisfação sinistra. Em geral, não há como entender realmente o que se passa na mente brilhante de um criminoso como ele. Mas, no momento, suas intenções não são nada crípticas. Ele está trabalhando numa maneira de matar o Homem-Aranha.
"Osborn investigou o quanto pode o ponto zero na história do Homem-Aranha. De acordo com suas descobertas, Parker era um aluno brilhante perdido no meio de idiotas ignorantes. Não posso dizer que não me identifico com o rapaz, eu também era assim. Lembro bem como era um martírio ir para a escola todos os dias, ouvir dos professores tudo que eu já sabia e aturar as peças dos outros alunos, que não podiam enxergar nada além de sua própria banalidade. Era difícil para mim, assim como era para o Parker, eu aposto. Certo dia (Osborn conseguiu até determinar o dia certo, mas não me lembro a data) Parker foi à uma exposição sobre radioativade. Eu faria o mesmo na idade dele. Engraçado, após Osborn me passar essas informações quase passei a sentir pena do desgraçado do Aranha. Ainda bem que sou um homem da razão e superei esta fraqueza lembrando-me dos meus objetivos. Enfim, durante a exposição Parker assistiu a esta maravilha de máquina funcionar e foi picado por uma aranha que, acidentalmente, passou por dentro do campo magnético e foi banhada pelas partículas radioativas. O que exatamente aconteceu neste momento? O que fez com que a aranha fosse capaz de passar seus poderes para Peter? Isso é que eu preciso descobrir. Preciso isolar o fator diferencial correto. Só assim entenderei o processo.
"Algumas coisas vêm à minha mente: 1 o design da máquina pode ter criado alguma partícula anormal; 2 o campo magnético pode ter interagido com as partículas e as tornado anormais; 3 a aranha já havia sido alterada por algum outro fator; 4 Parker possuía alguma pré-disposição genética, como um gene mutante. Qual destas possibilidades será a real?"
O Doutor Octopus se afasta da máquina e se dirige a uma pequena mesa. Ele ajeita seus óculos. Sua visão embaça, desembaça e foca a garrafa de uísque. Um dos seus tentáculos a segura e ele leva o gargalo à boca, dando três boas goladas. Um outro tentáculo abre uma caixa de charutos e traz um até o Doutor. Octavius se senta e coça a cabeça.
"A chave para o bom cientista entender os mistérios que o cercam é o raciocínio lógico, a formulação de hipóteses e a experimentação. Não basta afirmar, é preciso demonstrar. A demonstração verdadeira e aceita é a realizada na experimentação científica."
"Lembro-me de um ensinamento. Para provar que um certo agente era responsável por uma doença, Koch definiu postulados. Embora, Koch fosse um homem da biologia, sua lógica pode ser aplicada a qualquer campo. Ele disse, dentre outras coisas, que a prova definitiva viria ao se inocular esse agente em um animal e observar a manifestação da doença. Será que eu vou precisar criar outro Homem-Aranha? E se a máquina não for esta? E se ela não funcionar mais? Antes de tudo, eu preciso saber se este é mesmo o agente. Para tal, formulo o seguinte experimento. Ligarei a máquina e deixarei que uma vespa, ou animal semelhante, seja exposto a sua radiação. Em seguida, inocularei o ferrão da vespa em camundongos, ou macacos. Se a máquina for o agente, os camundongos sofrerão alterações, assim como Parker. Mas...e se os camundongos não forem susceptíveis? E se o nascimento do Homem-Aranha tiver sido uma conjunção de fatores ímpares? De qualquer maneira, é preciso começar de algum lugar."
Octopus se levanta da mesa. A garrafa de uísque já está quase vazia. O charuto queima solitário no chão. Ele anda apressado até a máquina e procura pelo gerador, ou pela tomada. Ele encontra o cabo de força e o liga em um interruptor do galpão. Hipnotizado pela experiência, Otto vai até o painel de controle da máquina. Seu dedo chega a encostar no botão, mas ele para. Um de seus tentáculos se estica e desliga o cabo de força da tomada.
"Não! Tolo! Se excitando como um jovem estudante e esquecendo os princípios básicos. Não posso me arriscar a ser banhando por essa radioatividade anormal. Preciso de contadores Geiger, avental de chumbo, de uma sala fechada. Preciso transformar este galpão miserável num laboratório decente. Preciso ligar para Osborn."

"Já é a terceira noite que não durmo. Passo o dia ansioso. Escrevi mais e mais teorias e hipóteses, formulei mais experimentos. Tudo está fervilhando na minha cabeça, mas preciso de um laboratório adequado para radiação. A obra está quase pronta. Será um laboratório ridículo, mas servirá aos meus propósitos. Osborn garantiu que hoje estaria pronto."
O Doutor Octopus entra no galpão. Uma sala foi montada com módulos recobertos com chumbo, e três homens terminam de montar a nova instalação para os animais de laboratório.
O que é isso? Já deveria estar tudo pronto! Octopus se exalta. Seu sobretudo treme, são os braços metálicos impacientes.
Houve um pequeno atraso. um dos homens toma á frente e responde.
Eu não tolero atrasos! os braços saem de debaixo do sobretudo e empalam os três homens. Eu mesmo terminarei estas instalações.

"A noite caiu. Eu me sinto tonto. Preciso descansar. O laboratório já está em condições e eu preciso de uma dose de uísque e de uma noite de sono."
Octopus se ajeita em um colchão jogado no chão e sucumbe ao cansaço.
Na manhã seguinte, ele acorda já indo em direção ao avental protetor e ao contador geiger.
"Hora de ligar a máquina."
Você está horrível, Otto. Norman Osborn aparece enquanto Otto veste o avental. Cabelo desgrenhado, barba por fazer, roupas amarrotadas e um cheiro atordoante de álcool.
Isso não importa. Você não percebe? Estou prestes a realizar uma das maiores descobertas no campo da radioatividade! Vou desvendar como partículas radioativas foram capazes de integrar o DNA de um artrópode no DNA de um ser humano, sem causar anomalias físicas deletérias, nem mentais. E, o melhor de tudo, esta pode ser a peça que faltava para esmagar o Homem-Aranha para sempre! Otto termina de vestir o avental.
Fico feliz com seu entusiasmo. Posso acompanhar?
Fique a vontade. Só não me atrapalhe. Otto prende o contador geiger no avental. Você deveria vestir um também.
Um avental? Não, eu vou ficar do lado de fora, mas eu poderia usar um contador geiger. um dos tentáculos de Octopus entrega um contador à Norman.
Por isso não consegui confirmar se a obra tinha acabado. Você matou os construtores. Norman repara nos corpos amontoados num canto.
Você pode se livrar deles. o Doutor Octopus confere a sala especial projetada para conter a radiação.
Eu não sou seu lixeiro, Otto.
Você precisa de mim, Osborn. Octavius olha seriamente para Norman. Você pode ser o gênio da química, mas não passa de um curioso na minha área. Por isso, você vai me deixar trabalhar como quiser e vai me ajudar em tudo.
Não abuse tanto da sorte, Otto. Não se esqueça que eu pago as contas aqui. Descubra como essa droga funciona e me avise. Ah, e livre-se você dos corpos! E, de preferência, bem longe daqui!
Então eles vão ficar aí, fedendo. Eu não ligo. Otto abre a grande porta da sala e seus tentáculos vão empurrando a máquina para dentro.
Acho melhor eu ir embora, você não está de bom humor hoje. Ah, tente ficar vivo e sóbrio, em dois dias lhe mandarei o relatório das inoculações. Logo tudo estará pronto.
Você não ia ficar para assistir? Otto pergunta enquanto fecha a porta da sala.
Ia, mas é melhor eu ir antes que você me irrite de verdade. Hoje, alguém passará aqui para se livrar da sua bagunça. Não quero que este lugar chame a atenção por causa do cheiro ruim e das moscas.
O roto falando do esfarrapado.
Eu sei quando e onde deve me comportar mal, Otto. Já você... bem, você parece estar se esquecendo das suas boas maneiras.
O estrondo da porta da sala se fechando é a resposta para Osborn. Otto Octavius vai até a janela de acrílico e aperta o botão que ele desenvolveu para ligar a máquina à distância. Faíscas elétricas saem da máquina e iluminam o galpão.
Otto Octavius sorri. O bacharel em física e Doutor em partículas, outrora um homem que se satisfazia com a simples maravilha da descoberta científica, hoje se delicia com a descoberta que serve a um propósito. E nenhum propósito é maior para o Doutor Octopus do que matar o Homem-Aranha.
O paradigma diz que a ciência é demorada. Otto nunca foi um homem preso a paradigmas. Ele constrói sua própria vontade em velocidade relâmpago.
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