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Hellblazer # 02

Por Délio Freire

O Prisioneiro da Figueira
Parte II - O Iluminado

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Black Mountain - 23h

Uma mão viscosa se estende para John Constantine. Ele, sem opção, a segura com força, aceitando a ajuda de Patrick Leight. Leight, um homem magro, cabelos escuros presos em um rabo de cavalo possui um rosto pálido que não demonstra sentimento algum. Está nu, vestindo apenas uma capa preta com o desenho de um pentagrama nas costas. Em seguida, Leight ajuda Chas e a bela jovem chamada Bobby a chegar ao alto da montanha.

Constantine põe a mão no bolso de sua jaqueta, retira um de seus inúmeros cigarros e o acende, observando o local com cuidado. Seus olhos, já acostumados àquele tipo de situação, encontram vários sinais de um ritual macabro prestes a começar.

"Vejo dois homens e duas mulheres nus, sentados ao redor de uma mesa de madeira. Há alguns objetos sobre esse altar: duas velas de gordura humana colocadas em castiçais de madeira na forma de um pé de bode; uma espada mágica com punho preto; um vaso de cobre contendo sangue; aquilo me parece um incensório contendo perfumes... Talvez incenso, âmbar, cânfora, suco de babosa que, pela cor, foi misturado com sangue de bode; vejo ainda uma mola e um morcego; quatro pregos que, imagino, foram retirados do caixão de um criminoso executado; vejo a cabeça de um gato preto... que deve ter sido alimentado com carne humana por cinco dias, se eles seguiram o ritual que acredito que seguiram; vejo os chifres de um bode e o crânio de um parricida."

— Animem-se! A festa vai ser ótima! — diz Constantine, que está entre o triste e o irônico.

Um frágil cachorro poodle corre para todo o lado. Ele está fazendo festa, parecendo animado e ansioso para que a brincadeira comece. O animal se aproxima de Constantine, querendo um afago. O homem, conhecedor das tramas e artimanhas do oculto, dá um forte e certeiro chute na barriga do animal, fazendo-o afastar-se alguns metros. Os que estavam sentados à mesa se levantam de forma ameaçadora, parecendo querer agredi-lo. São contidos por Leight.

— Respeito, Constantine! É só o que exijo! Respeito! — Ele coloca a mão no ombro de John, que a afasta com um certo nojo.

— Aonde está ela? — Constantine se refere a Anne, sua ex-namorada grávida.

— Está bem, segura e com saúde. Tenho um demônio pessoal que a vigia 24 horas... Mas antes de qualquer coisa, permita-me que eu me apresente. — O homem começa a se agitar, suando, falando algumas palavras desconexas, parecendo drogado, caminhando de um lado para outro. — Sou Patrick Leight, atual líder da Ordem da Aurora Negra. — Leight estende a mão para Constantine.

— Prazer, sou John Constantine. — John recusa a mão estendida do satanista. — Sou um canalha, um filho da puta sem escrúpulos. Sou perseguido pelos demônios mais asquerosos que possa imaginar. Um cara que também já fez coisas ridículas como ser o Robin de um alface gigante da Louisiana...

Olha fixo para o rosto de Leight.

— É claro, já ia me esquecendo... Tenho um forte sex appeal para atrair idiotas pelados que adoram brincar com o desconhecido.

Leight suspira profundamente.

— Precisamos do maior mago vivo da Terra...

Constantine sorri.

— Já tentaram o David Copperfield? — Ele demonstra desinteresse em ser cortês. — Vá direto ao assunto, porra!

Pausadamente, Leight caminha em direção ao seu pequeno grupo de bruxos, sentando em uma pedra próxima à mesa.

— Constantine, não vou entediá-lo descrevendo a gloriosa trajetória da Aurora Negra... De como ela foi a maior responsável pelo renascimento mágico que estamos presenciando nesta virada de milênio. De como nosso saudoso líder, Amadeus Carpenter, se tornou o mago mais influente entre artistas, políticos e filósofos com seu modo revolucionário de pensamento. Sempre trabalhamos no subsolo, escondidos... Mas precisamos de nosso verdadeiro líder ao nosso lado. E queremos que você vá ao Inferno, que convença Mefisto a libertar Carpenter. Que liberte sua alma presa em uma figueira. Queremos que você ressuscite nosso líder.

— Caso contrário?

— Caso contrário, sua querida Anne não viverá mais.

"Vão se foder! Resgato Anne de outra forma! Jamais vou satisfazer as vontades doentias desses canalhas! Ir ao Inferno! Enfrentar Mefisto! Colaborar com um bando de satanistas infantis! Isso nunca! É mais fácil eu e Nergal nos tornarmos amigos!"

— E então, Constantine? — pergunta Leight, frio e seguro. — Qual sua resposta?

— Quando começamos?

Black Mountain - 0h00

O poodle parece cada vez mais excitado com o início das festividades. Um dos homens da Aurora, um jovem chamado Goddfrey coloca uma capa preta sobre o cachorro, como se quisesse que ele fosse o lorde e o senhor da cerimônia. Leight começa a falar com Constantine.

— É você que queremos, Constantine. Queremos suas habilidades mágicas porque precisamos de um homem que tenha em sua constituição o sangue de um demônio para ser vitorioso nessa empreitada. Seus amigos ficarão na Terra, buscando o corpo físico adequado... Mas você não irá sozinho. Um dos nossos irá com você ao Inferno. Goddfrey!

O jovem franzino e nu se aproxima de Leight, sendo perseguido pelo pequeno cão. Seu líder começa a cochichar algumas instruções em seu ouvido. Ambos sorriem, cúmplices, olhando para um John Constantine tenso.

Duas belas feiticeiras nuas, uma oriental e uma ruiva — noivas simbólicas de uma antiga entidade — começam a dançar, requebrando os quadris. A oriental se aproxima do pequeno cão e acaricia o sexo do animal, desejando-o, dando à cerimônia um toque de lascívia. A outra se aproxima de John. Com um gesto, ela começa a tirar a roupa dele, beijando-o com carinho. Leight se levanta da cadeira em que estava.

— Dispam-se! — ele ordena especificamente para Chas e Bobby, que olham para Constantine.

— Todos! — frisa Leight.

O outro bruxo que forma o quinteto da Aurora se aproxima de Bobby. O bruxo é mudo, firme e seguro; com isso, consegue a excitação da jovem mulher. O clima é de luxúria, como se todos estivessem em transe, como se todos estivessem adorando um mesmo senhor.

Enquanto a ruiva continua a retirar a roupa de John, a feiticeira com traços orientais deixa o cão de lado e começa a se aproximar de Chas. Suas mãos hábeis ao mesmo tempo o excitam e despem.

Todos, sem perceber, estão reunidos em um semicírculo de frente para o altar. As carícias são generalizadas, fazendo com que todos se entreguem hipnoticamente à paixão. Patrick Leight, o alto ministro designado, dá um passo à frente em direção ao poodle. Ele segura um livro em uma das mãos e, com a outra, oferece para o cão um nabo negro com as palavras "Mestre, ajude-nos".

O homem faz uma pausa e então, dá um passo a mais e abre o livro, falando as palavras contidas nele sem o ler:

— Oh, Mefisto, tu que és a sombra de Deus e de nós mesmos, digo estas palavras de agonia para tua glória. Tu és a dúvida e a revolta. Sofisma e impotência, tu vives novamente em nós, como nos séculos atribulados quando reinaste, manchado de sangue das torturas como um mártir obsceno no teu trono das trevas, brandindo em tua mão esquerda o machado abominável como um sangrento símbolo fálico. Teus sacerdotes tradicionais são como pastores, cegos, viciados, infames, mágicos presunçosos, envenenadores e párias.

Constantine não consegue pensar em mais nada. Ele ouve lá longe o som de uma flauta sedutora e cativante. Há também um teclado tocando uma música melodiosa. Ele se lembra de uma música de sua banda, a Mucous Membrane, enquanto seu corpo recebe e retribui as carícias da bruxa ruiva que lhe beija os lábios devagar e magicamente. Em seguida, ela oferece os seios. Com grande desejo, ele a possui. Leight prossegue:

— Mas teu povo cresceu e, Mefisto, tu podes te orgulhar da multidão de teus fiéis, tão pérfidos como tu o desejaste. Este mundo que te nega, tu habitas nele, tu chafurdas nele em rosas mortas de um monte de lixo mal-cheiroso. Tu ganhaste, ó Mefisto, embora anônimo e obscuro, por mais alguns anos ainda; mas o século por vir irá proclamar tua vingança. Tu renascerás no Anticristo. A ciência dos mistérios subitamente fez jorrar uma onda negra para saciar a sede dos curiosos e ansiosos; homens e mulheres jovens viram-se refletidos nestas ondas de ilusão que intoxica e enlouquece.

Bobby se entrega ao seu par naquela festa de sentidos e êxtases. A princípio, ela sente vergonha; mas estranhamente o bruxo que está como seu parceiro a cativa demais, é carinhoso ao despi-la, tomando-a pelas costas como sua fêmea em meio ao chão sujo, forrado pela grama úmida da montanha. Ela se deixa possuir, arranhando as mãos do seu parceiro.

— Ó fascinante Mefisto! Arranquei tua máscara de gula voluptuosa e me perdi de amor ante tua face coberta de lágrimas, bela como o rancor eterno e malogrado. — Patrick Leight começa a chorar, a soluçar, como sentisse saudade de uma paixão já perdida.

A jovem oriental percebe o medo de Chas, mas sussurra em seus ouvidos uma antiga canção que entorpece seus sentidos e o faz se entregar a ela. O poodle, mais e mais feliz, se sente agraciado com tanta alegria.

— Ó bode expiatório do mundo, tu soltas os suspiros de um Messias, mas corrompes e degradas como se fosse uma danação. Tua arte é teu último ideal do homem decaído; mas se as asas do querubim estão impregnadas do paraíso, se o seio da mulher goteja suave compaixão, tua barriga escamosa e tuas pernas de animal exalam ociosidade fedorenta, coragem negligente e permite as mais vis baixezas.

Leight chama o poodle com a mão esquerda, querendo prometer um carinho; com a mão direita segura a espada mágica. Os perfumes dominam suas narinas, deixando-o cada vez mais tomado pelos sentidos mais baixos. Os casais formados exalam os odores da paixão, chegando a um único e poderoso orgasmo. Todos são um e cada um é o todo. Leight segura o poodle firmemente, passa a espada na garganta do animal e o solta, deixando-o tombar morto e envolto em seu sangue. Louco, possesso, satisfeito e revigorado, o líder da Aurora Negra berra:

Está feito!

Black Mountain - Alguns momentos depois

Os casais se enxergam como realmente são; desconhecidos desde sempre. Leight está em um canto, parecendo mais exausto que os demais. Ele fala para Constantine:

— O jogo começou, John. Seus dois amigos irão atrás de um corpo adequado para nosso mestre. Você e Goddfrey já sabem para onde devem ir e quem devem resgatar. Mas para entrar no Inferno, da mesma forma que Dante precisou de Virgílio, vocês precisarão da ajuda de um santo... de um Iluminado!

Com a cabeça quase explodindo, John exclama:

— Aonde vou achar um Iluminado?

Leight sorri, dando as costas e se afastando.

— Isso é problema seu!

Londres - Em um pub londrino - 5h

Uma música toca na Jukebox.

You've got something about you
You've got something I need
Daughter of Aphrodite
Hear my words and take heed
I was born on Olympus
To my father a son


— Tem certeza que isso vai dar certo? — pergunta Goddfrey, bastante receoso.

— Tem uma idéia melhor? Se tiver, pode desembuchar! — diz Constantine, sem paciência.

— Tudo bem, fique à vontade...

John Constantine ouve a música que escolheu. Há o som de uma guitarra veloz, de uma bateria que acompanha os ritmos de seu coração e de uma voz que parece invocar um ser de outra dimensão.

I was raised by the demons
Trained to reign as the one
God of Thunder and Rock and Roll
The spell you're under
Will slowly rob you of your virgin soul
*

Ele pede mais uma cerveja ao barman. Metade dela joga ao chão.

— Essa vai para o nosso santo!

— Porra!! — diz Goddfrey, espantado. — Acho que conheço esses músicos!! São os Knights in Satan Service!

Constantine bebe um gole de cerveja e pede mais um copo para oferecê-lo à seu mais novo convidado. Uma ventania forte começa a percorrer todo o pub. Constantine sorri.

O Iluminado surge. Seu semblante é calmo. Suas vestes azuis e vermelhas e sua capa esvoaçante são berrantes demais para o ambiente, provocando riso entre os presentes. O Deus do Trovão vira a cabeça na direção das risadas, empunhando com altivez o seu martelo mágico próximo ao tórax e os homens ali presentes se calam. Continua a dar seus passos seguros em direção a Constantine.

— Porque me importunam, mortais? — Goddfrey estremece com a voz firme do Iluminado, enquanto Constantine continua impassível e calado. Ele se vira repentinamente, encarando o Deus de frente, esticando o braço ao máximo. Sua mão enfaixada pelo corte sofrido dias atrás oferece para ele um pouco de cerveja.

— Vamos encarar Mefisto. Precisamos que nos leve ao Inferno.

Thor pega a caneca, vira todo seu conteúdo de uma só vez. Dá uma estrondosa gargalhada.

— Loucos... Esses mortais são uns loucos...

O Iluminado faz um sinal para que o acompanhem para fora do pub; um Goddfrey incrédulo é seguido por Constantine. Já do lado de fora, com a mesma classe de um atleta olímpico, Thor começa a girar seu martelo Mjolnir, causando um pequeno turbilhão que vai crescendo, crescendo, até se tornar um portal para outra dimensão. A dimensão de Mefisto.

Goddfrey entra no turbilhão primeiro.

— Vamos, jovem amigo. O que esperas? — exclama Thor para um John Constantine puto da vida.

"Depois que eu sair dessa, vou chutar algumas bundas por um milhão de anos...", pensa Constantine, enquanto entra no turbilhão.


:: Notas do Autor

* Trechos traduzidos da música "God of Thunder" do Kiss:

"Fui educado por um demônio,
preparado para reinar como 'aquele que é' (...)
'Eu te ordeno, põe-te
de joelhos diante do
Deus do Trovão, o Deus
do Rock'n Roll"



 
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