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Lobo # 14

Por Lucio Luiz

Pessoas de estômago fraco não devem prosseguir além dessas linhas. Poucos conseguirão sair ilesos da leitura dessa edição de "Lobo". Prepare-se, pois um dia você também terá uma...

Dor de Barriga

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— Pô, cara, tu não vai parar de comer esse troço? — Jonas Glim questiona seu colega de profissão, Lobo — Temos que achar logo o Big Bob Boom antes que ele mate mais gente.

— Tô cagando e andando se ele vai matar mais gente. É até melhor, porque aí aumenta a recompensa pela cabeça do panaca.

— Falou, Lobo, mas mesmo assim a gente tem que ir logo. Tu sabe que não tamos com exclusividade nessa caçada, pô. E tu ainda fica se empanturrando com essa sopa preta... qual é mesmo o nome dessa meleca?

— Feijoada. É uma comida lá daquele planeta cheio de heróis viadinhos. Pelo menos alguma coisa boa tem por lá.

— Mas esse troço parece meio pesado... será que não vai dar dor de barriga?

— Qualé, cara? Eu como até uns trecos verdes que atropelo com minha moto e tu acha que vou ficar com caganeira logo por causa desse negócio aqui?

— E se ficar?

— Ué? Abaixo a calça e solto um barro legal. O que mais?

— Que porcaria, cara! A gente tá indo pro planeta Hurra e lá é cheio de mulher! Não quero tá do teu lado se tu vai ficar cagando na cara de todo mundo!

— Mas eu não vou precisar fazer isso, porque esse treco não vai me afetar.

— Então pelo menos me promete que, se ficar com dor de barriga, vai procurar um lugar decente pra fazer as necessidades.

— Saco! Tá prometido! Agora posso terminar de comer em paz?

O planeta Hurra é um dos mais prósperos da galáxia Zimbrone. Sua maior qualidade é a alegria que emana dos hurrenses, o que faz desse um dos planetas mais procurados por quem procura por diversão.

Dezenas de bares e danceterias ocupam a paisagem de Jambalaya, a capital e principal cidade de Hurra. Dia e noite se misturam numa infinidade de luzes ofuscantes em todas as ruas deste lugar ímpar.

Milhares de pessoas estão nesse momento divertindo-se em Jambalaya e, para azar de todos, é exatamente lá que Lobo e Jonas Glim iniciarão a busca pelo assassino Big Bob Boom, cuja recompensa está em torno de um milhão de créditos.

— Logo, logo a gente acha esse filho da mãe do Big Bob. — garante Lobo, que dirige sua SpazFrag666 ao lado de Jonas Glim, que pilota sua própria motoca.

— Você tem certeza?

— Meu faro nunca errou, cara. Eu já topei com esse babaca e tu sabe que nunca esqueço um cheiro. Encontro qualquer mané, mesmo se tiver nos confins do universo.

— Falou, Lobo. Já estou sentido o cheirinho da grana!

— Que grana?

— Pô, camarada! Meio a meio, né?

— Vai te catar, ô sua besta. Eu te trouxe só porque tu pediu. Não vou dividir porra nenhuma!

— Olha aqui, Lobo. Tô te acompanhando nesse caminho e tu sabe que nós, caçadores de recompensas, temos nossas regras.

— Que mané regras?

— As "regras não escritas dos caçadores de recompensas".

— Ah, vá te f... ugh...

— Que foi, cara?

— Tô sentindo uns troços aqui na barriga...

— Te falei que aquela tal feijoada ia te fazer mal.

— Não enche. É só uma leve indisposição. Devo estar fatigado...

— Indisposição? Fatigado? Desde quando tu sabe falar difícil?

— Vá tomar no...

— Aí, chegamos!

Os dois caçadores de recompensas chegam à cidade de Jambalaya e iniciam sua busca. Lobo conta com seu incrível faro para encontrar Big Bob Boom e ganhar a vistosa recompensa. Os dois caminham pelas ruas, distraindo-se com as belas senhoritas, até que Lobo começa a se contorcer.

— Que foi? — pergunta Glim.

— Minha barriga... — geme Lobo.

— Bem que te falei... ei, o que cê tá fazendo?

— Tô abaixando a calça pra cagar, tu não tá vendo?

— Esqueceu a promessa que cê fez?

— Qualé, cara! Tenho que cagar!

— Ué? O "maioral" vai voltar atrás na palavra?

— Tá bom! Tá bom! Vou nesse bar aqui em frente. Me espera aqui!

O bar escolhido por Lobo é o mesmo que é freqüentado pelos motoqueiros mais barra-pesadas de Hurra: os Hip Hip do Inferno. Seu líder, Jequitibah, é um ex-ladrão de bancos que já foi capturado por Lobo duas vezes; em ambas sofreu violência extrema. Quando o maioral entra pela porta do bar, o motoqueiro nem pensa duas vezes e corre em sua direção, com uma cadeira nas mãos.

Lobo não entende a atitude daquele homem verde de dois metros de altura que está na sua frente, mas isso não faz muita diferença mesmo. Briga é briga, mesmo com dor de barriga. O czarniano pega a cadeira antes que Jequitibah o atinja e a quebra no meio, para pegar o pé do assento e trespassá-lo no peito de seu adversário.

Jequitibah, porém, é nativo do planeta Tricords. Seus habitantes possuem três corações independentes, um no peito e um em cada pé, e mesmo que um seja destruído o tricordiano continua vivo, graças aos outros dois.

Lobo não presta muita atenção no cara caído no chão, aparentemente morto, porque seu maior interesse é chegar ao banheiro. Contudo, antes de Lobo conseguir alcançar o lavabo para fazer suas necessidades, Jequitibah já está de pé novamente, agarrando-o por trás pelo pescoço.

A situação é um pouco complicada, mas quem já teve uma dor de barriga pode entender. Há um curto momento em que a pessoa que precisa ir ao banheiro ainda é dona de sua consciência, o que desaparece por completo à medida que se vai segurando aquilo que já deveria ter saído há muito tempo.

Lobo está precisamente no limite dessa consciência no momento em que é agarrado. Sua mente só consegue pensar numa coisa: um vaso sanitário! Instintivamente, portanto, ele joga uma de suas famosas fragranadas naquele que o está segurando, explodindo tudo em sua volta. Inclusive o banheiro.

Jonas Glim está na rua, cantando algumas hurrenses, quando vê a explosão no bar em que Lobo havia entrado. Com a certeza de que seu colega tem plena ligação com o fato, ele se aproxima do local a tempo de ver Lobo correndo de uma forma muito estranha: mantendo as coxas unidas, utilizando apenas os tornozelos para se locomover.

Penalizado pelo desespero do czarniano, Jonas aponta uma sala aparentemente vazia do outro lado da rua. Lobo corre então em direção à porta indicada e fica satisfeito ao ver que, subindo uma pequena escada de madeira, está um local escuro e vazio.

Lobo abaixa as calças apressadamente mas, no momento em que se prepara para aliviar a pressão na área que resiste firmemente à natureza, ele vê um filete vertical de luz na parede à sua frente. A luz aumenta cada vez mais até que ele olha para trás e vê uma cortina abrindo-se para uma platéia de mulheres idosas.

Com a visão da branca bunda de Lobo, metade das senhoras desmaia e as demais vomitam incessantemente. Lobo coloca a calça de volta e sai daquele local, doido para dar um soco em Jonas Glim (que nesse momento está gargalhando na rua), mas dando prioridade à busca de um local decente para fazer o que precisa fazer.

Já do lado de fora da coxia do teatro, Lobo olha em volta, amaldiçoando o momento em que prometera a Jonas que iria procurar um lugar decente pra fazer as necessidades. Já tentou um banheiro, uma sala escura, mas nada o impede de utilizar uma moita qualquer, desde que ninguém esteja olhando.

Para sua sorte, há por perto um pequeno parque, com uma moita grande o suficiente para escondê-lo. Lobo corre em sua direção mas ouve alguns gemidos abafados. No meio da moita, um casal está desenvolvendo laços afetivos de forma aprofundada em num ato sexual deveras incômodo. Para azar dos pombinhos, Lobo decide que precisa urgentemente desse ninho de amor para transformá-lo em lavabo.

Ainda vivenciando o desespero crescente para liberar aquilo que precisa sair de seu organismo urgentemente, Lobo saca suas armas de expulsa de forma nem um pouco sutil o casal. Com um lança-chamas, ele queima os dois namorados e, no momento em que acredita estar livre para relaxar, amaldiçoa sua própria ignorância ao notar que queimou também a moita e, por extensão, todo o parque.

— E aí, Lobo! Não podemos perder tempo! Me fala logo onde tá o Big Bob Boom que eu vou pegar o cara enquanto você tenta cagar! — sugere Jonas, fazendo um enorme esforço para segurar o riso.

— Vá pra #%$*@#, seu #%$*@#! Vá tomar no #%$*@# e enfiar teu #%$*@# na #%$*@#! Não consigo me concentrar porque preciso cagar, #%$*@#!

— Calma, camaradinha. Olha pra frente, pô, tem um banheiro público ali naquela rodoviária espacial...

— #%$*@#!!!

Lobo tenta correr de forma que não acabe ocorrendo um "acidente" no espaço que o separa de sua salvação. Na frente do banheiro público, um hurrense muito idoso manda que ele pare:

— O senhor tem que pagar um crédito pra caixinha.

— Que #%$*@# é essa? Tenho que cagar! Essa #%$*@# não é pública?

— É um crédito pra caixinha. Ou paga ou não entra.

— Seu #%$*@#! Eu vou entrar e cê não vai me impedir!

— Um crédito, já falei. — o idoso fica cada vez mais irritado.

— Vá pra #%$*@#, #%$*@# e #%$*@#! — Lobo fica mais irritado ainda.

— Um crédito ou não tem papel higiênico.

— Então vá à #%$*@# que eu limpo com a mão mesmo! #%$*@#!

Lobo dá um soco no velhinho, lançando-o longe, e entra velozmente no banheiro. É um local sujo, com vários vasos sanitários sem tampa e um mictório com um odor fétido. Ao fundo, logo após os espelhos quebrados, alguém observa Lobo, espantado. Com o pouco de consciência que ainda resta, o maioral o reconhece como Big Bob Boom.

— Big Bob! Teje preso! — grita Lobo para o assassino.

— E quem vai me pegar? Você?

— Eu... pera aí, que eu já volto...

Lobo corre desesperadamente para o vaso sanitário mais próximo de Big Bob Boom e libera tudo o que estava preso dentro dele. Um som terrível alcança os ouvidos de todos num raio de um quilômetro da rodoviária espacial. Lobo finalmente está sorrindo.

Nesse ínterim, Big Bob Boom tenta escapar, mas um forte odor atinge suas narinas e, em pouco tempo, ele desmaia, sofrendo contrações involuntárias num estado altamente parecido com um ataque epiléptico.

Assim que conclui sua obra, Lobo dá um suspiro aliviado e observa o resultado de sua atividade. O líquido viscoso e marrom completa o vaso sanitário até a boca e, quando Lobo dá a descarga, tudo transborda, cobrindo o chão do banheiro.

Querendo sair limpo, mas se lembrando que não teve acesso a papel higiênico, Lobo só vislumbra uma possibilidade: pega o corpo desfalecido de Big Bob Boom, retira suas roupas, e o utiliza para sua limpeza pessoal. A pele viscosa do assassino absorve todos os restos de fezes existentes no corpo de Lobo. Por fim, a língua do vilão é utilizada para uma última limpeza nos, digamos, "detalhes" anatômicos.

— Ei, cara, achei que tu ia demorar horas dentro do banheiro. — comenta Jonas, assim que vê Lobo saindo do lavabo da rodoviária.

— É que eu acabei encontrando um amiguinho nosso por lá.

— O Big Bob? E cê detonou com ele?

— Isso aí. Derrubei o cara e ele tá lá no chão.

— Mas por que cê não trouxe o cara?

— Tava pensando. Tu quer uma parte da recompensa, né? Então. Já acabei com o Big Bob e te dou uns 10% se tu carregar o cara.

— Qualé? Não sou carregador, pô!

— Quer a grana ou não?

— Falou.

— Não esquece: te dou 10% se tu carregar o cara direto daqui até a agência dos caçadores de recompensas.

— Moleza. Tô até te estranhando. Nunca vi tu dar grana tão mole assim, só pra carregar alguém pra você.

— É pra agradecer por tu ter me mostrado o banheiro.

Jonas vai até o banheiro, enquanto Lobo se regozija pela pequena vingança contra seu colega. Claro que ele preferiria encher Jonas de porrada, mas pensa que até será divertido ver o cara carregando um corpo coberto de cocô.

De dentro do lavabo, pode-se apenas ouvir uma voz irritada gritando:

— #%$*@#! Seu #%$*@#! Lobo #%$*@# da #%$*@#! Esse cara tá cheio de #%$*@#! Seu #%$*@#! #%$*@#!

— Cala a boca e vamo logo que eu tô com pressa! Acho que vou tomar um pouquinho mais daquela feijoada. Tô sentindo um vazio no meu estômago...


Na próxima edição: A importância da família na vida das pessoas!



 
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