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Lobo # 18

Por Lucio Luiz

A Fã

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Mais um dia passa para Lobo sem que um novo contrato apareça. Nem toda a fama do czarniano como o melhor caçador de recompensas da galáxia é suficiente para que ele seja contratado a todo instante, já que não é qualquer pessoa que tem dinheiro suficiente para ter o melhor do universo trabalhando para si.

Essa dificuldade permanece mesmo depois que esses "profissionais" se organizaram, o que já faz alguns anos, num sindicato interplanetário que instituiu agências de caçadores de recompensas e ampliou as oportunidades para todos.

Claro que Lobo não precisa se preocupar com sindicatos, agências e coisas do gênero. Mas sua fama se apóia em sua seriedade profissional e, apesar de não se importar nem um pouco em agir corretamente, ele jamais suportaria qualquer mancha em sua honra (ou o que ele tiver de mais parecido com isso).

De vez em quando surgem alguns trabalhos fora da agência de Tartan Quarantino, à qual ele está ligado. Normalmente, os clientes procuram as agências de caçadores de recompensas por causa das garantias e outros benefícios, como sistemas de milhagem e coisas do gênero, mas de vez em quando há pessoas que preferem contratar os profissionais diretamente. E é esse o caso.

Uma espécie de limusine espacial estaciona no asteróide em que Lobo vive com seus golfinhos espaciais. O maioral não gosta muito desse abuso, já que prefere que eventuais contratantes entrem em contato pela agência ou, em último caso, por e-mail ou telefone, para que ele os procure pessoalmente. De qualquer forma, ele freia seus ímpetos assassinos e resolve matar apenas a curiosidade e ver do que se trata.

De dentro do veículo, salta um pequeno ser azul com um quepe amarelado. Ele se apresenta como Zék da Silvak:

— Venho a mando de meu patrão, o doutor J. H. Giuwegdgs. Dono da...

— Tá, eu sei. Dono das Indústrias Giuwegdgs de Carne Humana Industrializada. Fala logo o que tu quer antes que eu encha o saco e chute tua bunda até Andrômeda.

— Er... ele quer te contratar...

— E quem o magnata quer que eu mate?

— Não é para matar ninguém...

— Qualé? O maioral aqui é o maior matador do universo, porra! O que ele quer, então?

— Ele gostaria que o senhor servisse de guarda-costas para a filhinha dele...

— Escutaqui, seu babaca! — Lobo segura o homenzinho pelo colarinho — O maioral é um assassino de primeira! Se ele acha que eu vou perder meu tempo servindo de babá pruma criança...

— Ele pagará meio bilhão de créditos.

— ...ele está certo. — Lobo solta o alienígena — Onde eu assino?

— Antes, tem uma coisinha.

— Fala logo que minha paciência tá acabando!

— É que a filhinha dele vai para um acampamento de verão no planeta Kâmpin e ele quer ter certeza de que ela não sofrerá nenhum dano.

— Titio Lobo vai cuidar pra que a menina fique inteirinha, podiscrê.

— Ele pediu que o senhor jurasse que não vai machucar a menina e, muito menos, avançar sexualmente nela.

— Qualé, cara? Eu gosto de mulher, não de criança, porra. Tá jurado que eu não encosto um dedo na guria.

O planeta Kâmpin é o mais famoso refúgio ecológico do universo. Milhares de quilômetros de muito verde, águas límpidas, animais silvestres e muitas pessoas "viciadas" em acampamento. A grande vantagem de haver um planeta inteiro dedicado aos campistas é que tem espaço para todos que quiserem desfrutar da natureza sem que precisem dividir o espaço com ninguém.

Essa certamente não seria a primeira escolha de Lobo para um passeio. Na verdade, não seria nem a última escolha, já que natureza não é bem a praia do maioral. Mas contrato é contrato, e Lobo precisa servir de babá de luxo para uma filhinha de um multimilionário qualquer. Para piorar, Lobo sequer pode ir ao planeta com sua moto SpazFrag666, pois as regras de ecologia locais exigem que apenas ônibus escolares e táxis autorizados pousem e decolem no planeta.

Quando o ônibus escolar espacial que trará Talzinha, a tal filha do tal ricaço, estaciona no local onde Lobo está à espera, ele se espanta com uma visão dos deuses: uma bela alienígena humanóide de corpo violão e seios gigantescos (todos os três). Lobo não perde tempo e se aproxima da beldade:

— E aí, gata? Tu quer conhecer o paraíso comigo?

Com um misto e espanto e alegria, a belezura vira-se para Lobo e fala:

— Você... você é o Lobo? O maioral? O mestre da fodelança?

— Eu mesmo. Pelo visto a gata me conhece bem.

— Eu sou sua fã! Eu quero que você me coma!

— Ahn? Pô, mas tu é apressadinha, hein?

— Eu sempre sonhei com isso. Fiz dezoito anos ontem e ganhei um passeio pra cá de presente do meu pai. Pra ficar completo, eu insisti para que você fosse meu guarda-costas.

— Guarda-costas? Tu é a tal da Talzinha?

— Eu mesma. Por quê?

Nesse momento, Lobo destila uma série incontável de palavrões cabeludos em todas as línguas interplanetárias existentes. Pela primeira vez, Lobo terá que refrear seu impulso sexual, já que prometeu respeitar a filha de seu contratante. Esse doutor Giuwegdgs é mesmo um filho da mãe.

Um situação inédita para Lobo. Uma mulher absurdamente gostosa, doida para ir para a cama com ele, e o famoso maioral sendo obrigado a rejeitá-la. Para piorar a situação, ele não pode sair de perto dela e, no grupo que participa do acampamento, só há criaturas horrendas, de planetas muito esquisitos.

O responsável pelo acampamento, por exemplo, é um junkiniano, criatura humanóide com cinco olhos, cabelos verdes e um rosto repulsivo. Seu nome é Fessô e seu maior problema, aos olhos de Lobo, é sua grande animação e felicidade, querendo fazer todos participarem das atividades. Essa alegria contrasta com o ódio que Lobo sente por estar numa "secura" forçada.

O primeiro dia é muito difícil de agüentar. Lobo entra em desespero quando Talzinha despe-se para nadar no rio e faz poses provocantes para ele. As outras criaturas usam biquínis, maiôs, sungas ou coisas parecidas, mas Talzinha garante que nadar nua é parte da cultura de seu povo.

No final do dia, Fessô junta todos para uma conversa ao redor da fogueira. Porém, sua técnica de usar um graveto e um pedaço de madeira não está funcionando.

— Por que tu não usa um isqueiro, ô mané? — questiona Lobo, gentilmente.

— Nós precisamos nos integrar à mãe natureza, e não há forma melhor de fazer isso do que utilizando o que a ela nos oferece. — explica Fessô, de forma levemente afetada.

Para auxiliar o responsável pelo acampamento, Lobo o pega pelo pescoço e esfrega seu nariz em um toco de madeira. Após alguns minutos fazendo pressão, surgem algumas fagulhas que, entrando em contato com os cabelos de Fessô, pegam fogo. Todos aplaudem.

Após um dia tão produtivo, todos se recolhem a suas barracas de camping. Para a maioria dos campistas, esse é um momento de descanso, mas para Lobo, o tormento só está começando.

Aproximadamente à meia-noite, um vulto surge na porta da barraca onde Lobo tenta dormir. O maioral rapidamente saca de sua pistola, mas, antes que dê o primeiro tiro, percebe que se trata de Talzinha.

— Lobo! Por que você não me quer?

— Olha, gata, eu fiz uma promessa de que não ia te tocar. E o maioral sempre cumpre as promessas, por pior que sejam.

— Droga! Eu devia ter imaginado! Meu pai deve ter desconfiado de que eu queria dar pra você!

— Tu é saidinha, hein, gostosa?

— Sempre fui sua fã, desde que era pequenininha. Tenho pôsteres seus em todo meu quarto e sempre sonhei em perder minha virgindade com você.

— O Lobinho aqui sempre foi mesmo conhecido como o melhor amante da galáxia, mas dessa vez não dá.

— Estou louca de desejo! Não interessa o que meu pai falou! Eu quero você agora!

Talzinha começa a se despir lentamente, fazendo gestos eróticos. Lobo chega a cogitar quebrar sua palavra pela primeira vez, mas esse pensamento abandona logo sua mente, pois ele sabe que isso seria algo impossível. Se bem que também é impossível imaginar que o maioral consiga resistir a uma mulher incrivelmente linda, especialmente considerando que já faz alguns dias que ele não se diverte.

De repente, um grito distrai Talzinha, e Lobo encontra uma oportunidade para sair correndo da barraca sem levantar suspeitas contra sua masculinidade. No meio do acampamento, ele vê que um urso devora um dos campistas.

Aproveitando a oportunidade para liberar um pouco a tensão, Lobo pula em cima do urso e golpeia-o freneticamente. Os ursos do planeta Kâmpin são parecidos com os terrestres, porém são um pouco maiores e bem mais fortes, o que significa que a luta não será fácil.

Lobo, contudo, está muito nervoso e dá tantos socos no animal que ele foge desesperadamente para o meio da floresta. Fessô chora a morte do campista devorado pelo urso e resolve fazer um sepultamento indígena em homenagem a ele, mas Lobo o demove da idéia ao ameaçar jogá-lo na cova junto com o defunto.

O sol brilha no céu e todos saem para aproveitar o dia. Talzinha continua provocando Lobo, mas ele segue firme em sua promessa, embora cada vez com menos controle emocional. Fessô manda todos pararem nas margens de um rio e sugere uma pescaria para acalmar os ânimos.

Depois de cinco horas sem pegar nenhum peixe, Lobo não agüenta mais e reclama:

— Porra! Não tem peixe nessa bosta de rio?

— Claro que tem peixe. — responde Fessô — Mas esse é um exercício de paciência. Por isso mesmo as varinhas que eu providenciei a todos não têm iscas. Devemos esperar que os peixes mordam os anzóis por conta própria.

Após essa explicação esclarecedora, Lobo puxa Fessô pelo pescoço, o amarra na ponta da linha e o joga na água para servir de isca. Em pouco tempo, fisga um marlim azul gigante e arranca um assustado Fessô de dentro do estômago do bicho. Todos aplaudem.

Fessô está inclinado a ir embora do planeta Kâmpin ainda nesse dia. Ele está morrendo de medo do que Lobo possa fazer a ele nos dias que faltam para concluir o passeio. Para seu azar, a situação, que já era ruim, vai piorar nesse exato instante.

Cinco khúndios surgem do meio da floresta com armas gigantescas, mandando que todos fiquem parados. Eles têm como objetivo seqüestrar Talzinha para pedir um resgate milionário ao doutor Giuwegdgs, que financiará o Império Khúndio em sua luta contra... bem, contra o resto do universo.

Um dos seqüestradores, porém, começa a tremer quando vê que, entre os campistas assustados, está o último czarniano, sorrindo:

— Obrigado, cambada. Eu tava precisando mesmo de um pouquinho de diversão pra relaxar.

Lobo salta sobre um dos khúndios e pega sua arma. Nem ato de intensa selvageria, começa a descarregar toda a munição em cima dos meliantes alienígenas. O problema é que, na empolgação, Lobo acaba matando todos os campistas, com as únicas exceções de Fessô e Talzinha.

O junkiniano olha assustado para a cena de violência e morte e sai correndo, puxando Talzinha pelo braço. Lobo corre atrás dos dois a tempo somente de vê-los dentro do ônibus escolar espacial, que levanta vôo e sai a toda velocidade do planeta.

Lobo olha para o céu, desolado, pensando.

— Porra! Agora eu tô isolado nesse frag de planeta e o que é pior: na maior secura! Cacete! O que eu não daria agora por uma fêmea de qualquer planeta!

Olhando para o lado, Lobo vê o urso com o qual ele havia lutado anteriormente e conclui seu pensamento em voz alta:

— Bom, é como dizem: se não tem tu, vai tu mesmo. Chega aqui, ô ursinho...


Na próxima edição: A luta mais aguardada do milênio! (na verdade, como é uma história em duas partes, a luta só acontece na edição seguinte, mas a espera vai valer a pena...)



 
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