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Miles # 01

Por Matheus Pacheco

Rascunhos da Espanha

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"Eu gostaria que tivesse sido como naqueles livros de rodoviária para mulheres. O sol brilhando sobre nossas cabeças, um olhar, o beijo sôfrego, estas coisas. Mas foi o exato contrário disso."

"Eu e os Birdies tínhamos ido a uma estação do metrô — Times Square, eu acho — pra tocar e ver se vendíamos algumas fitas. Estávamos tocando algo do Parker, se não me engano, quando ela passou. Uma morena gigantesca, escultural, linda como eu jamais tinha imaginado que uma mulher poderia ser."

"Ela parou, nos olhou por alguns segundos e seguiu andando. Eu me enervei; não dava para me manter alheio àquela mulher. Perdi o compasso, a música, tudo. Perdi a compostura, larguei tudo e corri atrás dela. Até hoje me dói lá dentro da alma o barulho surdo que o contrabaixo fez quando caiu no chão — THUP!"

"Eu a alcancei. Segurei no seu ombro e ela se virou para mim. A desgraçada abriu um sorriso gigantesco — do tipo quando se encontra um amigo que há muito não se vê."

— Qual o seu nome?

— Eu... não falo muito bem o inglês. Soy espanhola. Me llamo Maria.

"Quando lembro daquela cena me vem à cabeça o filme do John Malkovich, quando ele entra na própria cabeça e todo mundo só fala 'Malkovich, Malkovich!' Tudo em minha cabeça se chamava Maria. Todas as palavras que eu ouvia eram Maria."

"Segurei seu rosto, fiz uma carícia enquanto ela fechava os olhos. Aproximei minha boca da sua e beijei-a. Ela pareceu gostar do que estava havendo. Fez malabarismos com a língua que eu não sabia que eram fisicamente possíveis. Mordeu, lambeu, sugou. De repente, do nada, afastou-se de mim."

— Hijo de puta!

"E estapeou-me o rosto. Saiu a passos rápidos na direção da rua enquanto eu a observava com um degradê de sentimentos variando do amor puro e verdadeiro ao mais profundo ódio."

"Quando estava a uma certa distância de mim, virou-se para trás. Olhou-me fundo nos olhos e deu uma bela gargalhada."

"Eu já não sabia mais o que fazer..."

— Você tá fora, cara. Sinto muito. Você é um grande amigo e tal, mas a gente não pode mais carregar tuas irresponsabilidades nas costas. É atraso pra ensaio, é largar a ban...

— Tá bom, porra! Tudo bem. Vocês são os donos da banda, eu só entrei depois pra tapar buraco. E tenho certeza que vai ser moleza descolar um baixista bom por aí, afinal a gente tá em NY!

— Eu tenho minhas dúvidas se a gente vai conseguir alguém à tua altura em qualidade musical. Mas a gente quer se profissionalizar, cara, e só qualidade não está mais bastando.

— Certo, sem problemas. Eu vou ver se descolo algum frila por aí amanhã mesmo. Mas hoje é dia de cerveja. Pede mais uma aí pra acompanhar a conversa.

"O que eu vou fazer amanhã?"

"Como a gente se sente irremediavelmente perdido quando larga do emprego. Eu simplesmente não tenho responsabilidade nenhuma amanhã. É acordar, rangar e sair por aí. Estranho. Pra caralho."

"A noite tá bonita. Uma puta lua cheia deixa a ilha clara como se fosse dia. É bom caminhar a esmo pelas ruas pra aliviar a cabeça. Aquela espanhola mexeu muito comigo. Eu nunca senti isso antes, me apaixonar completa e irreversivelmente por uma mulher à primeira vista. Achava que era baboseira."

"E por falar em mulher e apaixonar e baboseira..."

— Miles! O que você tá fazendo por aqui?

— Oi, June. Tou dando uma passeada. Acabo de ser chutado dos Birdies e precisava dar uma espairecida.

— Chutado? O que houve?

— Não vem ao caso... Mas me diga, June. Você ainda tá namorando aquele magrão, o...?

— O Pete? Não. Não dava pé. Ele era muito ciumento e você sabe como eu sou... aberta.

— Sei, sei sim. Ei! Nem tinha notado que estamos na 52. Vamos dar um pulo na frente da Birdland?

— Fechado!

"O sol entrando pelas frestas da veneziana me acorda. O relógio está marcando nove da manhã e meu pai deve estar doido em casa."

"Olho para o meu lado e vejo June, uma bela mulher, nua estendida sobre os lençóis. Nem lembro direito como vim parar aqui."

"Ela acorda enquanto me visto."

— Já vai, Smiley?

— Já. Tenho que dar alguma satisfação em casa. Você sabe como o velho se preocupa com as influências da Aretha. Além do mais, tenho que tomar um banho e sair atrás de trampo por aí.

— Beleza. Pode deixar a porta aberta, tá?

— Tá bom. Tchau, June.

— Um beijo... E Miles...?

— Fala!

— Ligaí qualquer hora pra gente se divertir de novo...

"Eu abro um sorriso e saio em silêncio. A vida ainda pode ser boa para um cara como eu..."

:: Notas do Autor

Antes de mais nada, gostaria de confirmar que Miles é, sim, uma homenagem ao maior músico que este planeta viu respirar até hoje, o senhor Miles Davis. No decorrer de nossas histórias eu pretendo dar dicas de discos e faixas (eu sei que todo mundo aí tem Napster na mão) para que fiquem conhecendo melhor a história deste gênio.

O título de nossa história é uma homenagem a um clássico disco do mestre, chamado Sketches of Spain. Recomendo sua audição imediata.

Para completar, gostaria de ressaltar mais duas homenagens que tento prestar aqui. A primeira é à musa Aretha Franklin, grande cantora de jazz, que dá nome à irmã adolescente de Miles. A segunda é a presença do mais notório clube de jazz da história, o Birdland (fundado pelo "pássaro" Charlie Parker), que se situa no cruzamento da Av. Broadway com a rua 52, em NY.
Por enquanto é só. Mas mês que vem tem mais...



 
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