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Por
Matheus Pacheco
Rascunhos
da Espanha
"Eu gostaria
que tivesse sido como naqueles livros de rodoviária para
mulheres. O sol brilhando sobre nossas cabeças, um olhar,
o beijo sôfrego, estas coisas. Mas foi o exato contrário
disso."
"Eu e os Birdies tínhamos ido a uma estação
do metrô Times Square, eu acho pra tocar e ver se vendíamos
algumas fitas. Estávamos tocando algo do Parker, se não
me engano, quando ela passou. Uma morena gigantesca, escultural,
linda como eu jamais tinha imaginado que uma mulher poderia ser."
"Ela parou, nos olhou por alguns segundos e seguiu andando.
Eu me enervei; não dava para me manter alheio àquela
mulher. Perdi o compasso, a música, tudo. Perdi a compostura,
larguei tudo e corri atrás dela. Até hoje me dói
lá dentro da alma o barulho surdo que o contrabaixo fez
quando caiu no chão THUP!"
"Eu a alcancei. Segurei no seu ombro e ela se virou para
mim. A desgraçada abriu um sorriso gigantesco do tipo
quando se encontra um amigo que há muito não se
vê."
Qual o seu nome?
Eu... não falo muito bem o inglês. Soy espanhola.
Me llamo Maria.
"Quando lembro daquela cena me vem à cabeça
o filme do John Malkovich, quando ele entra na própria
cabeça e todo mundo só fala 'Malkovich, Malkovich!'
Tudo em minha cabeça se chamava Maria. Todas as palavras
que eu ouvia eram Maria."
"Segurei seu rosto, fiz uma carícia enquanto ela fechava
os olhos. Aproximei minha boca da sua e beijei-a. Ela pareceu
gostar do que estava havendo. Fez malabarismos com a língua
que eu não sabia que eram fisicamente possíveis.
Mordeu, lambeu, sugou. De repente, do nada, afastou-se de mim."
Hijo de puta!
"E estapeou-me o rosto. Saiu a passos rápidos na direção
da rua enquanto eu a observava com um degradê de sentimentos
variando do amor puro e verdadeiro ao mais profundo ódio."
"Quando estava a uma certa distância de mim, virou-se
para trás. Olhou-me fundo nos olhos e deu uma bela gargalhada."
"Eu já não sabia mais o que fazer..."

Você tá
fora, cara. Sinto muito. Você é um grande amigo e
tal, mas a gente não pode mais carregar tuas irresponsabilidades
nas costas. É atraso pra ensaio, é largar a ban...
Tá bom, porra! Tudo bem. Vocês são os donos
da banda, eu só entrei depois pra tapar buraco. E tenho
certeza que vai ser moleza descolar um baixista bom por aí,
afinal a gente tá em NY!
Eu tenho minhas dúvidas se a gente vai conseguir alguém
à tua altura em qualidade musical. Mas a gente quer se
profissionalizar, cara, e só qualidade não está
mais bastando.
Certo, sem problemas. Eu vou ver se descolo algum frila por
aí amanhã mesmo. Mas hoje é dia de cerveja.
Pede mais uma aí pra acompanhar a conversa.

"O que eu vou
fazer amanhã?"
"Como a gente se sente irremediavelmente perdido quando larga
do emprego. Eu simplesmente não tenho responsabilidade
nenhuma amanhã. É acordar, rangar e sair por aí.
Estranho. Pra caralho."
"A noite tá bonita. Uma puta lua cheia deixa a ilha
clara como se fosse dia. É bom caminhar a esmo pelas ruas
pra aliviar a cabeça. Aquela espanhola mexeu muito comigo.
Eu nunca senti isso antes, me apaixonar completa e irreversivelmente
por uma mulher à primeira vista. Achava que era baboseira."
"E por falar em mulher e apaixonar e baboseira..."
Miles! O que você tá fazendo por aqui?
Oi, June. Tou dando uma passeada. Acabo de ser chutado dos Birdies
e precisava dar uma espairecida.
Chutado? O que houve?
Não vem ao caso... Mas me diga, June. Você ainda
tá namorando aquele magrão, o...?
O Pete? Não. Não dava pé. Ele era muito
ciumento e você sabe como eu sou... aberta.
Sei, sei sim. Ei! Nem tinha notado que estamos na 52. Vamos
dar um pulo na frente da Birdland?
Fechado!

"O sol entrando
pelas frestas da veneziana me acorda. O relógio está
marcando nove da manhã e meu pai deve estar doido em casa."
"Olho para o meu lado e vejo June, uma bela mulher, nua estendida
sobre os lençóis. Nem lembro direito como vim parar
aqui."
"Ela acorda enquanto me visto."
Já vai, Smiley?
Já. Tenho que dar alguma satisfação em
casa. Você sabe como o velho se preocupa com as influências
da Aretha. Além do mais, tenho que tomar um banho e sair
atrás de trampo por aí.
Beleza. Pode deixar a porta aberta, tá?
Tá bom. Tchau, June.
Um beijo... E Miles...?
Fala!
Ligaí qualquer hora pra gente se divertir de novo...
"Eu abro um sorriso e saio em silêncio. A vida ainda
pode ser boa para um cara como eu..."
:: Notas do Autor
Antes de mais nada, gostaria de confirmar que Miles é,
sim, uma homenagem ao maior músico que este planeta viu
respirar até hoje, o senhor Miles Davis. No decorrer de
nossas histórias eu pretendo dar dicas de discos e faixas
(eu sei que todo mundo aí tem Napster na mão) para
que fiquem conhecendo melhor a história deste gênio.
O título de nossa história é uma homenagem
a um clássico disco do mestre, chamado Sketches of Spain.
Recomendo sua audição imediata.
Para completar, gostaria de ressaltar mais duas homenagens que
tento prestar aqui. A primeira é à musa Aretha Franklin,
grande cantora de jazz, que dá nome à irmã
adolescente de Miles. A segunda é a presença do
mais notório clube de jazz da história, o Birdland
(fundado pelo "pássaro" Charlie Parker), que
se situa no cruzamento da Av. Broadway com a rua 52, em NY.
Por enquanto é só. Mas mês que vem tem mais...
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