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Miles # 05

Por Matheus Pacheco

Química

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Línguas se entrelaçam. Línguas urgentes, sedentas por outras, anseiam os fluidos uma da outra, pouco importando o ritmo impresso por sons externos ao microcosmo de tesão em que estão.

Em suas mãos, as carnes de seu objeto de desejo. Em suas mãos, o destino do mundo, pelo menos todo o mundo que lhe importa neste instante.

Como ao domar uma fera selvagem, lhe é imposta a necessidade de se jogar com sentimentos, com os sentidos. Se em um instante há a ânsia por delicado carinho, em outro nada importa mais que a adrenalina da agressividade.

Cabe-lhe dosar, saber jogar.

Cabe-lhe a maestria do paradoxo.

Torna-se um cego, tentando compreender, memorizar, aprender a lógica do corpo da amada. Dos sentidos, não lhe importa a visão. É todo tato, hiperestésico em deslavada paixão.

Em raras vezes abre os olhos, apenas para ver suas pálpebras, trêmulas de prazer, enegrecidas no afã da beleza.

Em raras vezes recebe de volta um olhar. Lascívia, desejo. Tesão destilado em verdes fibras iridianas, brilhantes ao presenciar, ao participar da química envolvida. Nada mais importa, tudo o mais atrapalha.

Can't you see I'm trying?
I don't even like it
I just lied to get to your apartment…

— Vamos embora daqui

— Mas para onde…?

Cala-se com o toque de seus lábios, arautos destruidores das palavras que insistem em redundar, em banhar de realidade o momento — anticlímaces da paixão.

Em completo estado de embriaguez não química, impulsionados apenas pela adrenalina e a endorfina produzidas pela proximidade, chegam rapidamente ao destino. Não importa o local, o amor novo é inconseqüente e não mede reações, não traça planos, não olha em volta ou adiante.

Cada segundo longe de sua boca lhe é excruciante, dor insuportável que não conta distância, mas tempo. Sua saliva é fluido vital que alimenta, embriaga, cura, acalma e excita.

Enfim sós, como se por algum instante houvesse mais alguém ao seu lado, como se o mundo pudesse existir antes do toque dos lábios, antes de prová-la, de sentir seu gosto, de saborear sua boca.

O espaço em volta é insuficiente, incapaz de comportar, em sua compleição, a amplitude de corpos que em ardente paixão buscam todo o espaço, todas as formas de expressar o desejo, de receber e dar todo o prazer já concebido pelo homem.

Cada centímetro além da soma dos corpos é excessivo, redundante, tal que nada mais importa ou existe além da soma dos dois, além das gotas de suor expelidas por ofegantes corpos em comunhão.

Mãos nervosas, agitadas, tocam-se, acariciam cabelos, exploram toda a topografia alheia — cegos cartógrafos mapeando seu Éden privado.

Movimentos paradoxais. O mesmo espectro gestual capaz do arroubo de arrancar um sutiã — pouco importando-se com convenções, dores ou educação — é aquele capaz da mais delicada carícia, passeando suavemente por nádegas inquietas, ansiosas pelo tato.

Já não basta saboreá-la a boca. Há a sede de mais. Há sede demais. Há vontade de tudo.

Desce, cheirando e saboreando seu pescoço. Gira-a e sente sua nuca na ponta da língua. Um gemido, um grito e ela tem todos os pêlos de seu corpo eretos — não em excitação (mas também) mas em um profundo e eterno arrepio.

Uma língua em sua orelha. Uma doce voz em seu ouvido...

— Eu quero você dentro de mim.

Ele pára. Olha-a.

Termina de despí-la com violência. Joga-a sobre a cama. Joga-se sobre a cama, sobre a amada.

Contorcendo-se de prazer, como se quisesse fugir de invisíveis (inexistentes?) grilhões, ela grita, segura-o pelos cabelos, levantando sua fronte e puxa-o em direção a seus lábios.

Ela quer, ela precisa...

Em um longo, molhado, sensual e completo beijo, acaba por despí-lo.

Como em uma disputada luta greco-romana, ele toma a iniciativa e vira o jogo. Joga-a para o lado, sobe por cima, lambe-lhe o pescoço...

— Calma aí. Eu ainda não terminei...

Debatendo-se de desejo, ela não pode suplantar a vontade. A ela só importa uma coisa — e a terá já, não importa como (só quando).

Yo quero você já! Não consegue entender?

— Consigo, claro! Mas eu quero você sempre... Não consegue entender?

Ao falar, abre-lhe os braços. Ela já não mais oferece resistência — só lhe resta, e lhe basta, flutuar livremente neste afluxo insano de prazer.

Seus seios, lindos, pedem pela língua dele. Pedem por seu toque, pedem atenção. A um toque de lábios, novo espasmo de prazer a atinge, derrubando todas as suas barreiras, entregando-a totalmente.

Como a um território invadido por um adversário implacável, parte a parte seu corpo sucumbe ao prazer de mãos e línguas e pés e queixos e sexo. Um rolo compressor a derrubar defesas, a destroçar barreiras.

Chora.

Soluça em infantil pranto, tentando esconder.

— O que houve?

— Eu... Eu... Eu quero você... Dentro de mim... Não agüento mais... É tão bom... E consome tanto... Quero... Quero...

Um sorriso.

A vitória, afinal.

O que diabos querem as mulheres, afinal? Simples: querem ser contraditas em sua eterna fuga do puro e simples prazer. Querem seu príncipe encantado a salvá-las do vil dragão do tabu, dos grilhões do falso moralismo.

Beija-a uma última vez, como se fosse o beijo final antes da guerra. Como se fosse o último de uma vida.

Levanta-a bruscamente, fazendo pouco caso das expressões assustadas por ela esculpidas. Gira-a de frente para a parede e joga-a para que apóie os braços.

Em um movimento único e preciso invade-a completamente, apenas para ser saudado por uma saraivada de gemidos e uivos de algo que não é mais mulher à sua frente. Nada mais do que animais, entregues ao instinto, é o que são neste momento.

Com violência e ternura, a manipula em toda a sua plenitude em cíclicos movimentos que, mesmo repetitivos, são uma nova sensação a cada instante.

Ela reage, responde à altura. Já não mais racionaliza ou comanda seus atos ou pensamentos. Está tomada de um enorme e infindável prazer que, de tão freqüente, a parece ser contínuo e tende à eternidade.

Hoje é o último dia de uma vida, mesmo que nada mude amanhã.

Gritos, urros, gemidos. Gotas de suor jogadas a todo lado. Cheiros, gostos, toques.

Tudo se mistura em uma sinfonia de sensações indefinidas, inesquecíveis e irreprodutíveis. Eis o potencial de uma espécie.

Mas tudo acaba. Abruptamente como veio.

Tudo acaba e só resta a exaustão. Abraçam-se e entram em colapso simultaneamente.

Não existe amanhã, hoje ou ontem. Não existe tempo ou espaço. A um só existe e só importa o outro.

E ponto.

:: Nota do autor

Já diria minha avó que "pretensão e água benta não fazem mal pra ninguém". Isso não é necessariamente uma verdade, mas me dei a liberdade da pretensão para esta edição.

Pra acompanhar musicalmente, a mais sensual das músicas: Summertime, dos irmãos Gershwin e interpretada pelo trompete de Miles Davis e pela voz de Billie Holliday. Aliás é impressionante o tesão que esta música passa quando se leva em conta o bucolismo das letras...

Já não tenho mais expectativas de feedback por parte dos caros leitores, ainda assim espero que curtam esta edição.

Sou muito achegado ao experimentalismo e pretendo fazer mais estranhezas mais amiúde.

Ou citando o começo das corridas no saudoso Rock and Roll Racing, do não menos saudoso Super NES: Let the carnage begin!



 
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