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Por
Matheus Pacheco
Química
Línguas se
entrelaçam. Línguas urgentes, sedentas por outras,
anseiam os fluidos uma da outra, pouco importando o ritmo impresso
por sons externos ao microcosmo de tesão em que estão.
Em suas mãos, as carnes de seu objeto de desejo. Em suas
mãos, o destino do mundo, pelo menos todo o mundo que lhe
importa neste instante.
Como ao domar uma fera selvagem, lhe é imposta a necessidade
de se jogar com sentimentos, com os sentidos. Se em um instante
há a ânsia por delicado carinho, em outro nada importa
mais que a adrenalina da agressividade.
Cabe-lhe dosar, saber jogar.
Cabe-lhe a maestria do paradoxo.
Torna-se um cego, tentando compreender, memorizar, aprender a
lógica do corpo da amada. Dos sentidos, não lhe
importa a visão. É todo tato, hiperestésico
em deslavada paixão.
Em raras vezes abre os olhos, apenas para ver suas pálpebras,
trêmulas de prazer, enegrecidas no afã da beleza.
Em raras vezes recebe de volta um olhar. Lascívia, desejo.
Tesão destilado em verdes fibras iridianas, brilhantes
ao presenciar, ao participar da química envolvida. Nada
mais importa, tudo o mais atrapalha.
Can't you see I'm trying?
I don't even like it
I just lied to get to your apartment
Vamos embora daqui
Mas para onde
?
Cala-se com o toque de seus lábios, arautos destruidores
das palavras que insistem em redundar, em banhar de realidade
o momento anticlímaces da paixão.
Em completo estado de embriaguez não química, impulsionados
apenas pela adrenalina e a endorfina produzidas pela proximidade,
chegam rapidamente ao destino. Não importa o local, o amor
novo é inconseqüente e não mede reações,
não traça planos, não olha em volta ou adiante.
Cada segundo longe de sua boca lhe é excruciante, dor insuportável
que não conta distância, mas tempo. Sua saliva é
fluido vital que alimenta, embriaga, cura, acalma e excita.
Enfim sós, como se por algum instante houvesse mais alguém
ao seu lado, como se o mundo pudesse existir antes do toque dos
lábios, antes de prová-la, de sentir seu gosto,
de saborear sua boca.
O espaço em volta é insuficiente, incapaz de comportar,
em sua compleição, a amplitude de corpos que em
ardente paixão buscam todo o espaço, todas as formas
de expressar o desejo, de receber e dar todo o prazer já
concebido pelo homem.
Cada centímetro além da soma dos corpos é
excessivo, redundante, tal que nada mais importa ou existe além
da soma dos dois, além das gotas de suor expelidas por
ofegantes corpos em comunhão.
Mãos nervosas, agitadas, tocam-se, acariciam cabelos, exploram
toda a topografia alheia cegos cartógrafos mapeando
seu Éden privado.
Movimentos paradoxais. O mesmo espectro gestual capaz do arroubo
de arrancar um sutiã pouco importando-se com convenções,
dores ou educação é aquele capaz da
mais delicada carícia, passeando suavemente por nádegas
inquietas, ansiosas pelo tato.
Já não basta saboreá-la a boca. Há
a sede de mais. Há sede demais. Há vontade de tudo.
Desce, cheirando e saboreando seu pescoço. Gira-a e sente
sua nuca na ponta da língua. Um gemido, um grito e ela
tem todos os pêlos de seu corpo eretos não
em excitação (mas também) mas em um profundo
e eterno arrepio.
Uma língua em sua orelha. Uma doce voz em seu ouvido...
Eu quero você dentro de mim.
Ele pára. Olha-a.
Termina de despí-la com violência. Joga-a sobre a
cama. Joga-se sobre a cama, sobre a amada.
Contorcendo-se de prazer, como se quisesse fugir de invisíveis
(inexistentes?) grilhões, ela grita, segura-o pelos cabelos,
levantando sua fronte e puxa-o em direção a seus
lábios.
Ela quer, ela precisa...
Em um longo, molhado, sensual e completo beijo, acaba por despí-lo.
Como em uma disputada luta greco-romana, ele toma a iniciativa
e vira o jogo. Joga-a para o lado, sobe por cima, lambe-lhe o
pescoço...
Calma aí. Eu ainda não terminei...
Debatendo-se de desejo, ela não pode suplantar a vontade.
A ela só importa uma coisa e a terá já,
não importa como (só quando).
Yo quero você já! Não consegue
entender?
Consigo, claro! Mas eu quero você sempre... Não
consegue entender?
Ao falar, abre-lhe os braços. Ela já não
mais oferece resistência só lhe resta, e lhe
basta, flutuar livremente neste afluxo insano de prazer.
Seus seios, lindos, pedem pela língua dele. Pedem por seu
toque, pedem atenção. A um toque de lábios,
novo espasmo de prazer a atinge, derrubando todas as suas barreiras,
entregando-a totalmente.
Como a um território invadido por um adversário
implacável, parte a parte seu corpo sucumbe ao prazer de
mãos e línguas e pés e queixos e sexo. Um
rolo compressor a derrubar defesas, a destroçar barreiras.
Chora.
Soluça em infantil pranto, tentando esconder.
O que houve?
Eu... Eu... Eu quero você... Dentro de mim... Não
agüento mais... É tão bom... E consome tanto...
Quero... Quero...
Um sorriso.
A vitória, afinal.
O que diabos querem as mulheres, afinal? Simples: querem ser contraditas
em sua eterna fuga do puro e simples prazer. Querem seu príncipe
encantado a salvá-las do vil dragão do tabu, dos
grilhões do falso moralismo.
Beija-a uma última vez, como se fosse o beijo final antes
da guerra. Como se fosse o último de uma vida.
Levanta-a bruscamente, fazendo pouco caso das expressões
assustadas por ela esculpidas. Gira-a de frente para a parede
e joga-a para que apóie os braços.
Em um movimento único e preciso invade-a completamente,
apenas para ser saudado por uma saraivada de gemidos e uivos de
algo que não é mais mulher à sua frente.
Nada mais do que animais, entregues ao instinto, é o que
são neste momento.
Com violência e ternura, a manipula em toda a sua plenitude
em cíclicos movimentos que, mesmo repetitivos, são
uma nova sensação a cada instante.
Ela reage, responde à altura. Já não mais
racionaliza ou comanda seus atos ou pensamentos. Está tomada
de um enorme e infindável prazer que, de tão freqüente,
a parece ser contínuo e tende à eternidade.
Hoje é o último dia de uma vida, mesmo que nada
mude amanhã.
Gritos, urros, gemidos. Gotas de suor jogadas a todo lado. Cheiros,
gostos, toques.
Tudo se mistura em uma sinfonia de sensações indefinidas,
inesquecíveis e irreprodutíveis. Eis o potencial
de uma espécie.
Mas tudo acaba. Abruptamente como veio.
Tudo acaba e só resta a exaustão. Abraçam-se
e entram em colapso simultaneamente.
Não existe amanhã, hoje ou ontem. Não existe
tempo ou espaço. A um só existe e só importa
o outro.
E ponto.
:: Nota
do autor
Já diria
minha avó que "pretensão e água benta
não fazem mal pra ninguém". Isso não
é necessariamente uma verdade, mas me dei a liberdade da
pretensão para esta edição.
Pra acompanhar musicalmente, a mais sensual das músicas:
Summertime, dos irmãos Gershwin e interpretada
pelo trompete de Miles Davis e pela voz de Billie Holliday.
Aliás é impressionante o tesão que esta música
passa quando se leva em conta o bucolismo das letras...
Já não tenho mais expectativas de feedback
por parte dos caros leitores, ainda assim espero que curtam esta
edição.
Sou muito achegado ao experimentalismo e pretendo fazer mais estranhezas
mais amiúde.
Ou citando o começo das corridas no saudoso Rock and
Roll Racing, do não menos saudoso Super NES:
Let the carnage begin!

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