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Shanna # 01

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Espíritos da Selva

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— Eu nunca imaginei que viver numa selva dessas, pudesse ser tão agradável...

Era Max que falava, extasiado de prazer, depois de fazer amor com Shanna. Saciados e felizes, os dois sorriam um para o outro, abraçados.

— Sabe... Adoro quando fazemos isso... Adoro quando você me acaricia assim...

— Também adoro ficar aqui com você, minha Ayla... Por mim, ficaria assim a vida toda...

Assim eram os dias deles. Cada dia, um encontrava mil e uma maneiras de dar e receber amor e prazer do outro. Não raro, Shanna se escondia no exato momento em que Max estava no auge de seu desejo por ela, e o prêmio por encontrá-la era o prazer puro e simples. Era o paraíso no meio do paraíso!

Porém, os dois não ficavam o tempo todo fazendo amor. Aliás, na maioria das vezes, os dois apenas ficavam olhando um pro outro, fazendo carinho um no outro, rindo e contando piadas e casos engraçados. E é claro, trabalhando duro pela sobrevivência.

Mas isso teve um lado bom no caso de Max porque, com aquelas férias forçadas, o companheiro de Shanna acabou por descobrir que era bom pra fabricar coisas. Com linha feita de fibras de cipós, ele, com a ajuda de Shanna, fizera uma rede de pesca bem resistente, com pedras funcionando como pesos. Só que isso não adiantaria muito sem uma canoa, visto que os cardumes maiores se concentram mais longe da costa.

E como deu trabalho fazer uma... Max quase morreu de canseira, só de ter de usar um machado primitivo, feito de uma pedra bem afiada presa num pau, pra poder derrubar uma árvore que tivesse madeira suficientemente resistente. Depois, ele e Shanna levaram mais de um mês entalhando e polindo uma pequena canoa e um par de remos.

Mas como os dois ficaram felizes quando acabaram! E mais felizes ainda ficaram quando a canoa, feita de uma madeira resistente, mas ao mesmo tempo leve, flutuou na água feito um peixe!

Por vezes, também jogavam jogos de tabuleiro feitos pelo companheiro de Shanna. Ele fizera um tabuleiro e também peças, para damas, xadrez e gamão. Fizera também um conjunto de peças de dominó. Tudo muito bem feitinho. Também jogavam baralho, que ele achara dentro do avião e outros joguinhos tais como forca e adivinhações. Max também cantava pra Shanna, apesar de, nisso, ele ser quase um desastre total. Era totalmente desafinado. Aquilo só servia mesmo pra fazer sua companheira rir.

O curioso era que Shanna, sim, tinha uma linda e melodiosa voz, apesar de raramente mostrar esse dom. (o que mais ela saberia fazer? Era o que Max se perguntava á cada coisa nova que sua companheira fazia) Max gostava e muito quando ela cantava pra ele.

Também, aproveitando a canoinha, eles davam longos passeios pelo rio ou pelo mar. Ou simplesmente liam juntos ou passeavam pela selva ou caçavam, pescavam e colhiam frutas ou modelavam vasos de argila ou palha trançada para guardar água e comida (Isso era por conta de Shanna, que depois de trançá-los ou moldá-los, os deixava secando ao sol e depois os pintava com tinta feita de sumos de plantas) ou então, vez por outra brigavam com outro dinossauro inconveniente. E assim, seus dias iam passando...

Voltando ao presente...

— Eu também gostaria, meu querido, mas o caso é que... Precisamos conseguir comida. A dispensa está quase no fim e as chuvas não tardam a chegar.

Max e Shanna sempre caçavam e pescavam juntos. Sabiam que deveriam fazer tudo em equipe, mesmo que ela fosse formada por apenas dois integrantes. A sobrevivência naquela selva não seria nada fácil e eles precisariam, mais do que nunca, estar unidos. E mais, dois caçadores juntos tinham êxito em três de cada cinco tentativas de apresamento, enquanto um caçador solitário só conseguia pegar algo em uma de cada dez tentativas.

— Tem certeza? Tá tão bom aqui...

— Quanto mais cedo começarmos, melhor.

— Tá bom... Vamos então.

Anda que anda, os dois foram enchendo a caverna com comida. Frutas, folhas, raízes e ovos foram fáceis de conseguir, já que não fugiam e nem procuravam se defender, mas já os animais...

— Tá conseguindo perceber alguma coisa? — Murmurou Max, ao passo que sua companheira olhava em redor procurando perceber se havia caça por perto.

— Ali! — Fez Shanna bem baixo, apontando para uns arbustos. — Acho que tem galinhas selvagens ali.

— Pega elas, ué!

— Então, você sobe naquela árvore e pega aquelas mangas. Pegue o máximo que puder.

— Olha só... Agora eu virei apanhador de mangas!

— E depressa! A gente não pode dar bobeira! — Exclamou Shanna, apanhando as galinhas e ovos.

— Bem que cê podia pegar um auroque! Ou então um mamute!

— Já pensei nisso. Mas a gente tem que ter a sorte de achar um bando deles. E nessa época, os grandes animais vão pro sul, por causa das chuvas. Vai ser difícil a gente topar com algum deles.

— Ah... Bem. Depois dessa, podíamos pescar, então.

— Claro. A gente aproveita que estamos perto da praia.

— Ótimo. — Exclamou Max, olhando a cesta cheia de mangas. — Acho que vou até aquelas bananeiras então, pegar umas bananas, antes da gente ir até a praia.

— Xiii! — Fez Shanna de repente.

— O quê foi?

— Silêncio!

— Tem algum carnívoro vindo por aí?

— Não... É um som diferente. Parecem passos. Passos humanos.

— Passos humanos? Será que tem mais gente por aqui?

— Não sei... Deixe-me verificar.

Shanna colou o ouvido ao chão, pra sentir as vibrações do solo.

— É gente, sim. Muita gente. Umas dez a vinte pessoas, pelo menos. Têm adultos e crianças. Estão vindo pelo lado leste. Segundo me dizem as vibrações do chão, estão vindo num passo lento e regular.

Shanna subiu na mangueira, ordenando a Max que ficasse em silêncio absoluto.

Dali a pouco, as pessoas surgiram.

Nem Max e nem Shanna jamais tinham visto seres mais estranhos. Os homens deviam ter em torno de 1,60 de altura, tinham o corpo em forma de barril e os braços e pernas curtos e bastante musculosos. As mulheres e crianças eram similares a eles, apesar de serem menores. Suas expressões, apesar de humanas, tinham um ar animalesco, como se essas pessoas fossem meio animais. Talvez isso se desse pelos seus narizes brutos e achatados, a cabeça um tanto pequena, os cabelos desgrenhados, aquelas estranhíssimas protuberâncias em cima dos olhos, o rosto esticado pra frente, os dentes sujos e podres, o fato de todos estarem inteiramente nus e da sujeira que cobria seus corpos.

— Neandertais...— Murmurou Max, bem baixo, com o coração batendo forte. Jamais imaginara ver um ser dessa raça vivo.

— O que disse?

— São neandertais. A raça que precedeu a humana, na Terra. Mas já estão extintos á 35.000 anos pelo menos!

— Acho que nunca houve realmente nada extinto, Max...

— É, isso foi uma coisa que eu aprendi... Neandertais... Deus do céu, quando é eu poderia imaginar ver uma coisa dessas, viva! Qualquer cientista que se preze daria metade da vida pra ver o que estamos vendo agora!

— Mas o que será que estão fazendo aqui?

— Você nunca os tinha visto antes?

— Não. Nunca.

— Espero que não resolvam ficar aqui... — Nessa hora, Max sentiu um arrepio na espinha.

— Por quê? Acho que não mexermos com eles, eles não mexem conosco.

— Você não entende, Shanna. Eles são caçadores-coletores...

— E daí? Nós dois também somos!

— Mas nós somos só dois. Essa área dá muito bem pra suprir as NOSSAS necessidades. Mas olhe o tamanho do grupo deles! Deve ter pelo menos umas quinze pessoas, como você falou e talvez logo tenha mais, porque eu notei umas duas ou três mulheres que parecem estar grávidas.

— Essa área não daria pra todo mundo?

— Talvez até desse, Shanna. Mas os caçadores-coletores costumam ser territorialistas. Ou seja, não vão querer a gente, que não é do grupo deles, aqui. Logo vão dar um jeito de nos expulsar. Nos expulsar ou nos matar!

— Nos matar?

— Sim. Eu não mencionei antes, mas há indícios de que essa raça é antropófaga. Ou seja, comem carne humana, especialmente o cérebro. Se nos acharem aqui, podem simplesmente nos matar pra devorar nossos miolos!

— Não se nós expulsarmos eles antes! — Fez Shanna, fazendo menção de descer da árvore.— Essa terra é minha, é meu território de caça!!! E ninguém vai comer meus miolos!

— Xiiiiii, mulher, fala baixo, merda! Nem você pode com todos eles! A não ser que use seus facões pra matá-los!

— Até que a idéia não é má...

— Shanna, por favor, né? Isso foi só uma ironia! Nem vem com essa! Podemos expulsá-los, sim, mas não simplesmente matá-los a sangue frio! Senão, não seríamos melhores que eles!

— Então o que você sugere? Que a gente fique nessa árvore á vida inteira, esperando a boa vontade deles de irem embora da nossa terra?

— Não... Vamos agir com inteligência... Eu tive uma idéia... Esperemos a noite...

A noite chegou. Os neandertais, bem abraçados pra se aquecerem do frio da madrugada, dormiam a sono solto, roncando, peidando e soltando grunhidos. Por vezes, um ou outro se mexia, provocando uma pequena reação em cadeia e sendo repelido com um safanão.

Porém, dali a pouco, todos ouviram um barulho estranhíssimo, parecido a um grito lamentoso. Os corações de todos bateram fortes. Nunca nenhum deles já ouvira coisa igual.

O barulho ia se aproximando e ficando cada vez mais forte. Apavorado, mas fazendo tudo pra não demonstrá-lo, o chefe ordenou que todos ficassem juntos.

Foi quando a "coisa" pulou diante deles. Parecia uma mulher, mas era muito diferente do que eles imaginavam pra uma e principalmente era muito maior do que qualquer um deles. Parecia uma giganta, no meio de um monte de anõezinhos. Também tinha todo o corpo e os cabelos pintados de verde, vermelho e preto, os olhos azuis arregalados, portava nas mãos umas coisas estranhíssimas que brilhavam fortemente á luz da lua (os facões) e uma expressão feroz de quem pretendia devorar todos eles.

Os neandertais fugiram, esbaforidos de pavor. Porém, ao fugirem para um lado, deram de cara com um ser, similar ao primeiro, mas que parecia um homem. O ser gritava e urrava, batendo com as mãos e os pés. Também de suas mãos, a coisa deixou cair umas bolinhas pretas (estalinhos feitos de pólvora), que ao tocarem o chão, explodiram fazendo uma fumaceira enorme.

Foi só o que bastava para o bando de neandertais fugir para dentro da selva. Ficaram completamente aterrorizados, jurando que para ali jamais voltariam!

— Daí, não falei?— Resmungou Max, divertido. — Nem sempre se precisa de força bruta pra resolver as coisas!

— É mesmo... — Concordou Shanna. — Mas por quê eles se assustaram tanto? Achei que fosse lutar conosco, ao menos um pouco!

— Shanna, esse tipo de gente é extremamente supersticiosa. Com certeza, acharam que nós dois fôssemos espíritos da selva. E era com isso que eu contava. Se achassem que éramos espíritos, eles ficariam tão apavorados que fugiriam de nós. Não ousariam nos enfrentar. E foi exatamente o que aconteceu!

— Quem diria que ainda teríamos de personificar espíritos...

— E com essa eu garanto, minha querida, que essa gentinha não põe o pé aqui nunca mais!

— Nossa, você tá ridículo com essa tinta toda no corpo!

— Você também não tá nenhuma miss universo!

— Vamos tirar essa tinta!

Mas isso não foi fácil. A tinta, feita de sumo de folhas e frutas, agarrou nas peles deles que não saiu fácil. Foi preciso várias horas de esfregação pra isso.

E a cada toque de Shanna na pele de Max, tão doce e tão macio, ele ficava pensando quão bom seria se... ah, deixa pra lá!




 
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