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Shanna # 04

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Clube da Caça
Parte II

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— Ei, rapaz! Venha aqui! — Um barrigudo careca com cara de empresário, gritou da beira da piscina.

"Pronto, outro milionário chato querendo encher..." — Vincent Stegron, garçom, faxineiro, funcionário da piscina, etc. deu uma respirada, contando até dez.

— Cadê a minha marguerita? — Reclamou o gorducho, assim que o rapaz se aproximou. — Eu já tô esperando há duas horas!

— Eu vou providenciar, senhor.

— E vê se anda logo dessa vez! Senão nada de gorjeta!

— O serviço daqui já foi melhor, viu? — Reclamou uma ruiva peituda de biquíni, ao lado do homem. — Eu falei que a gente devia ter ido pras Bahamas, querido...

Vincent nem ouviu o resto da conversa. Como era um simples funcionário subalterno daquele clube, estava obrigado por contrato a atender todos os pedidos dos clientes. Afinal era pago pra isso.

Mas ninguém poderia impedi-lo de detestar aquele serviço. Ainda mais porque vivia cercado de mamíferos.

Mamíferos... Já faziam 65 milhões de anos. 65 milhões de anos desde que a suprema raça dos répteis perdera a batalha pela supremacia do planeta para os mamíferos. Nem os cientistas, sabiam perfeitamente bem a razão disso. Só sabiam que a era dos répteis tinha terminado ali. Fora quase o ponto final pra eles.

Algumas poucas espécies, miraculosamente tinham escapado do desastre. Mas mesmo as maiores e mais ferozes espécies atuais, tais como os crocodilos, jacarés e dragões de komodo, nada mais eram que uma sombra de seus parentes do passado...

Correndo pro bar, Vincent foi preparar a bebida encomendada.

Porém, notou que algo estava diferente. Não sabia bem o que era, mas definitivamente algo não estava se encaixando.

O pessoal estava correndo de um lado pra outro. Pareciam um monte de formigas, correndo com os celulares no ouvido. Os tratadores dos animais, o pessoal do escritório, os investidores, etc. todos estavam alegres e nervosos, como se algo fabuloso estivesse acontecendo ou prestes a acontecer.

É claro que Vincent sabia que o clube de caça estava com extremas dificuldades financeiras. Desde que viera trabalhar ali, alguns anos antes, nunca tão pouca gente aparecera. Ele não entendia a razão de todos estarem tão eufóricos.

Assim, ele aguçou o ouvido pra poder pescar trechos das conversas. Ouve daqui, ouve dali, ele escutou algo sobre uma ilha com... dinossauros?

O coração de Vincent Stegron bateu forte. Será que por algum capricho do destino, ainda poderia haver dinossauros... vivos?

Só com essa idéia, ele quase desmaiou. Precisou sentar-se pra pensar com calma.

Ah, os dinossauros... A espécie mais fantástica que já pisou na face da Terra! Eram grandes, furiosos, terríveis, maravilhosos, bem como os répteis deviam ser. Era uma pena que tivessem perdido a cena pros mamíferos.

Mas... teria sido assim mesmo? Será que realmente os enormes répteis do passado tinham mesmo sumido eternamente da face da Terra?

Ou será que não?

Se ainda houvesse algum dinossauro vivo... Por Deus, se ainda houvesse algum, um só que fosse, ele tinha de vê-lo. Ele TINHA!

Porém, uma idéia terrível lhe ocorreu. Se o Clube de Caça sabia da existência de algum lugar com dinossauros, por mais remoto que fosse, eles dariam um jeito de ir até lá. Ir até lá pra MATAR!

Deus... ele não iria permitir isso!

Nick Kaminski passou perto dele. Seu ar arrogante de superintendente geral do clube o acompanhava. Com seu Motorola prata de última geração, ele discutia com alguém.

— Isso... Vamos precisar de mais dois aviões... É... E providencie champanhe, caviar de esturjão e lagosta... Ah! E umas vinte garrafas de Romanet Conti. Da melhor safra que tiver! Dinheiro não é problema! Não mais! Depois você vai entender porque estou falando assim e... Quê que foi rapaz?

Vincent parou na frente de Kaminski. De arrogante, ele passou a aborrecido.

— Eu preciso falar com o senhor, Sr. Kaminski.

— Desculpe, rapaz, não tenho tempo. Quem sabe outra hora!

— Mas senhor, é importante.

— Olha rapaz, qualquer coisa que vá me dizer, pode ser dita mais tarde! Agora não dá pra te atender! Será que você entendeu?

Vincent quase teve um ataque de raiva. Mas precisou se controlar. Afinal, dependia daquele homem pra conseguir o que queria.

— Olha aqui, Sr. Kaminski, eu sei muito bem que o pessoal daqui, não sei como, achou dinossauros em algum lugar!

De moreno, Kaminski ficou branco.

— O quê disse?

— O que o senhor ouviu. Se for mesmo verdade, eu quero isso com vocês. Eu quero ver os dinossauros. Eu preciso vê-los!

Kaminski puxou Vincent para um canto.

— Olha aqui, garoto... Eu não sei o que você ouviu, mas o que quer que tenha sido, fica de bico calado, tá? Nós estamos com milhões, talvez bilhões de dólares em jogo e não podemos nos dar ao luxo de perder isso só por causa da sua piração com lagartos, tá?

— Senhor, eu só quero ir com vocês!

— Olha guri, essa viagem não é pro seu bico, não, tá? Cada cliente vai ter de desembolsar o olho da cara pra pagar a viagem e você não tem dinheiro nem pra melar! Agora dá licença, que eu tenho negócios a tratar!

Stegron xingou Kaminski baixinho. Precisava ir e iria. Não sabia como, mas iria!

— É como eu pensei... Os estranhos não foram embora...

Max e Shanna olhavam de dentro das moitas. Os três estranhos tinham montado um acampamento ultramoderno na beira da praia, com direito até á cerca elétrica com raios laser pra repelir eventuais animais ferozes.

— Azar deles se não ligaram para o que eu disse! — Shanna resmungou com olhar duro e frio. — Uma hora, eles vão cometer um erro e aí...

— Parecem estar esperando alguém. Quem, eu nem imagino.

— As pessoas do seu mundo são loucas. Quando vêem que podem tirar vantagem de algo, ficam cegas. Cegas feito insetos em volta da lâmpada.

— Meu mundo agora é o seu, Shanna. Nunca se esqueça disso.

— Eu sei, meu amor. Mas é que não posso deixar de imaginar que você poderia estar ali, junto com eles...

— É... Um dia eu já fui assim. Achava que dinheiro, poder, influência, bastavam. Mas hoje sei que as coisas simples é que tornam a vida feliz. Realmente feliz.

Os dois se olharam, se sorriram e se beijaram. Djara resmungou impaciente.

— Você está com fome, gatinha? — Shanna a pegou no colo — É uma pena que ainda não seja grande o suficiente pra espantar esse pessoal daqui...

Stegron entrou em casa. Se é aquilo poderia ser chamado de casa.

Na verdade, era apenas um quarto e banheiro no alojamento dos empregados do clube. Um quarto e banheiro que rescendia á meias sujas, cuecas que não viam água há dias e restos de comida.

O rapaz jogou os tênis longe, tirou o uniforme, jogando-o também em um canto e depois de pegar uma cerveja na geladeira, ligou a TV. Estava na hora do jornal da noite.

— Estamos aqui com o famoso cientista Reed Richards, também conhecido como Senhor Fantástico, que em primeira mão vai nos mostrar sua mais recente invenção, O Teleportador Molecular, invenção essa que promete uma revolução nos meios de transporte tradicionais! — Falava a repórter na tela, diretamente do QG do Quarteto Fantástico.

Normalmente, Stegron teria desligado a TV. Não gostava de mamíferos e de supermamíferos metidos a besta gostava menos ainda.

Porém, algo chamou sua atenção na reportagem.

— Senhor Fantástico, pode nos explicar em que consiste essa sua nova invenção e como ela funciona?

— Bem pra começar, eu não sei bem se meu invento poderia já ser chamado de "A revolução nos meios de transporte tradicionais"...

— Num enrola, Borracha! — O Coisa, devidamente ladeado pela bebê Valéria em seu colo, entrou de sola na conversa. — Mostra logo esse treco aí pro povo, que eu quero jantar!

— Tudo bem... — Meu novo invento, o Teleportador Molecular, é como seu próprio nome diz um tele-transportador. O tele-transporte é o processo de moção de objetos de um lugar para outro, em curto espaço de tempo, sem necessidade de passagem pelo espaço intermediário.

Stegron não tirava o olho da TV. Torcia pra aquela explicação chata acabasse logo.

— Então, Senhor Fantástico, podemos entender que o sonho da humanidade de romper as distâncias pode estar prestes a se realizar?

— Espero que sim, se o aparelho funcionar!

— Vai funcionar, sim! — Frank, o filho de Reed e Sue Storm, tomou o microfone da repórter. A câmera abaixou pra filmá-lo. — Tudo o que o meu pai faz funciona! Até eu! — A risada foi geral.

— Obrigada, filho... — Reed sorriu sem graça — Agora se me dão licença, eu gostaria de explicar como o Teleportador Molecular funciona...

"Ah, não!" — Pensou Stegron danado com a demora — "Lá vem mais blá, blá, blá!"

— Para se entender as prováveis possibilidades do tele transporte, é necessário traçar um paralelo entre matéria e energia, espaço-tempo, e procurar enxergá-las sob o mesmo prisma relativístico... — Ben já estava bocejando e Johnny já roncava de tédio. — Para localizar especialmente um objeto físico, são necessárias três medidas, o comprimento, a largura e a altura. Assim, com um eixo de três coordenadas, pode-se descrever a posição de um ponto no espaço. Para localizar um evento, que ocorre durante um intervalo determinado, exige-se a noção adicional de tempo. Assim, combinando o primeiro sistema, tridimensional, com a medida de tempo, chega-se à noção de espaço-tempo tetradimensional. Em certas condições, o comportamento das partículas materiais apresenta paralelos com os processos ondulatórios, e, nesta dualidade matéria energia, pode estar a chave do transporte de matéria através do espaço, daí ao tele-transporte é um longo caminho mental, e prático. A contradição das idéias ordinárias sobre o movimento se revela com particular evidência neste experimento, que constitui uma idealização da difração eletrônica por um cristal, portanto, se é possível no nível do micro-universo detectar esta dualidade, estas leis podem se repetir no macro-universo. A questão do tele transporte não é a teorização, mas sim a possibilidade prática de converter matéria em energia e reconvertê-la novamente em matéria, porém, sem perder suas propriedades físicas antes da primeira conversão.

— Ah... Certo... Entendi... — Murmurou a repórter com cara de quem não entendera nadica de nada da explicação. — Agora o senhor poderia fazer a demonstração do aparelho?

— Sim, claro... Sue, comece a conexão.

A Mulher Invisível apertou uma série empolada de botões. O aparelho, que mais parecia duas cabines telefônicas interligadas com dúzias de fios, começou a brilhar de repente. Reed entrou em uma das cabines. Esta quase ofuscou a todos com um forte brilho branco amarelado. Como num passe de mágica, o Senhor Fantástico desapareceu da primeira cabine, reaparecendo na segunda, instantes depois, e o melhor de tudo, sem aparentes danos físicos.

Todos bateram palmas. O experimento fora um sucesso total. Mas ninguém ficara tão feliz quanto Vincent Stegron.

— Obrigado, Senhor Fantástico... Muito obrigado mesmo! — Murmurou ele pra si mesmo.

A presença dos estranhos irritava Shanna profundamente.

Ela ainda não entendia o que eles poderiam querer ali. E também nem queria saber. Só sabia que os queria fora de sua ilha. E rápido!

— Ainda não foram embora? — ela disse, surgindo de repente. — Será que não entenderam o que eu disse?

Os três intrusos se voltaram pra ela.

— Olha quem está de volta... — Desta vez foi Bev quem falou primeiro. — E o que a gente tem que entender, Paris Hilton? Se bem que eu acho que você tá mais pra Geena Lee Nolin...

Shanna olhou duramente pra ela. Nem se deu ao trabalho de lhe dar atenção.

— É a ultima vez que falo: VÃO EMBORA! Isso se não quiserem morrer, é claro!

— Olha aqui, ô fugitiva de filminho pornô de quinta... — Bev pôs o dedo na cara dela. — Quem é você pra dar ordens aqui, hein?

— Querida, eu acho melhor você maneirar o tom... — Dan puxou a namorada pra si. E falando entre dentes. — Deixa de ser tonta! Olha o tamanho dessa mulher! Ela te quebra toda com um soco!

— Escute seu homem, garota... — Shanna quase sorriu de pena da audácia da moça. — E me escutem os dois também. Vou falar de novo: Se não forem embora, vão morrer! Não que eu me importe com suas vidas, mas é que não quero raptors rondando minha praia.

— Rap...tors? — Allan engoliu em seco. — Iguais aos do Jurassic Park?

Shanna assentiu. Max lhe falara do filme.

— Piores. Aqueles eram meros filhotes, comparados aos que existem aqui...


Continua...


:: Notas do Autor

Embora apresente alguns elementos comuns ao Universo Hyperfan, a série mensal da Shanna faz parte do selo Hypertempo. Isso quer dizer que suas aventuras se passam em um universo à parte, que pode ou não ter semelhanças com os demais. Nesta edição, há a participação de uma versão do Quarteto Fantástico, mas não exatamente o mesmo Quarteto Fantástico apresentado na série mensal do Hyperfan.




 
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