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Shanna # 05

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Clube da Caça
Parte III

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A idéia não saía da cabeça de Stegron.

Uma ilha com dinossauros vivos! E, agora, um aparelho de tele-transporte! Era como se Deus o estivesse ajudando. Uma coisa, porém é desejar algo. Agora conseguir... Já era outra coisa completamente diferente.

O edifício Baxter era um dos lugares mais bem vigiados de Nova York, isso ele pudera apurar pela internet. Câmeras de vigilância, armadilhas, alarmes e o principal de tudo: os quatro donos do Prédio. Tudo conspirava para Stegron não conseguir chegar onde queria.

Mas ele era tenaz. Seu reino, sua família, os dinossauros, tudo isso o esperava e ele não iria desapontá-los.

Enquanto isso, os membros do Clube de Caça se alvoroçavam. Stegron ouvia frases tais como:

— Dinossauros vivos! Cacete!

— Eu quero caçar um Rex. Macho. Adulto. Porque, isso é comigo.

— Pois eu quero é um daqueles do filme... Aqueles da cena da cozinha que quase jantaram aqueles pirralhos... Como é mesmo o nome... Roubadores?

Com essa, Stegron quase desmaiou.

— Raptores, manezão!

— É, isso aí! E manezão é o senhor seu pai! Eu não sou obrigado a saber os nomes de todos esses lagartos! Só quero saber de estourar as cabeças deles!

Stegron teve de se controlar pra não voar no pescoço do homem.

Não agüentando mais aquela conversa, ele retirou-se. Precisava pensar com calma.

Chegar até Nova Iorque era o primeiro passo. Mas isso seria o mais fácil. Era só pegar um avião e, meras quatro horas depois, ele estaria na cidade.

E ali aconteceria a parte mais difícil. Teria de penetrar dentro do Edifício Baxter. E como faria isso sem ser notado? O lugar era mais vigiado que a Casa Branca!

Pensa, pensa, cabeça idiota! Mas daquele mato não saía coelho nenhum.

De repente, a imagem do medalhão veio à sua mente.

Mas por que pensar nisso? Aquele medalhão verde esmeralda, com duas cobras entrelaçadas, uma preta e uma dourada, fora um presente que seu pai lhe deixara ao morrer. Não tinha nada a ver pensar nele naquele momento.

Ou tinha? Stegron foi se lembrando cuidadosamente das palavras de seu pai, em seu leito de morte.

— Vincente... Pegue aqui.

— Que bonito, pai. O que é? O que significa?

— Esse medalhão, filho, é o símbolo de nossa família, é o símbolo do que nós somos.

— O que nós somos? Não entendi.

— Vai entender... quando for a hora. Mas posso lhe adiantar uma coisa: Quando isso acontecer, você vai saber. O medalhão contém nosso segredo. Use esse conhecimento com sabedoria, Vince. Porque quando você conhecer o segredo... Nunca mais será o mesmo.

Mas de que segredo seu pai falava? E por que tanto mistério?

Não custava descobrir...

Shanna não conseguia dormir.

Virava e se revirava na cama, sem conseguir fechar os olhos. Por que aqueles tolos não acreditavam nela? O que seria tão importante pra eles ali, ao ponto deles quererem arriscar a própria vida?

— Amor... — Max percebeu a agitação de sua companheira — Dorme, vai. Fica preocupada, não...

— Não consigo parar de pensar naqueles três...

— Shanna, eles não são crianças e nem muito menos, burros. Se não vão embora, é porque não querem. Você não pode fazer nada quanto a isso.

— Mas...

— Esquece eles, tá? Dorme.

— Não posso.

— Minha linda, você não pode ajudar quem não quer ser ajudado. Deixa eles! Problema é deles, se algum bicho resolver colocar eles no cardápio da semana!

Shanna sabia que Max tinha razão. Mas sei lá... Alguma coisa estava errada e isso ela percebia com clareza. Mas o que poderia ser, isso ela não sabia. E tinha medo de descobrir.

Stegron olhava o medalhão com firmeza.

Parecia uma jóia comum. Tudo bem que era bonita e devia ser cara, bem cara, mas ainda assim parecia ser apenas uma jóia comum.

Mas espere. Depois de muito olhar, virando e revirando o medalhão, Stegron notou uma coisa na cabeça das duas serpentes. Elas estavam ligeiramente tortas, como se tivessem sido pressionadas, uma de encontro à outra.

Ele forçou as cabeças nesse sentido. A dourada parecia um tanto mais baixa que a negra e encaixava-se perfeitamente nela, como uma chave numa fechadura.

E como num estalo, o medalhão abriu-se, revelando seu interior.

Uma injeção. O medalhão continha uma injeção, com um estranho liquido azul-esverdeado.

Pra que serviria? Se ao menos houvesse alguma maldita instrução... Espere. Ah! Agora sim! Um papelzinho. Stegron reconheceu a letra firme e pequenina de seu pai:

"Filho. Se você está lendo isso, é porque achou o ativador molecular. Sua mãe nunca quis que o desse a você, mas você tem o direito de saber quem nós somos, o que nós realmente somos."

Novamente aquela história. Tudo bem que Stegron sempre se sentira diferente de todo mundo, desde a infância, mas... Seria realmente diferente? E se fosse, o quão grande seria essa diferença?

Talvez ali estivesse a resposta. Ele continuou a ler.

"Esse ativador molecular lhe mostrará tudo. Eu o usei em mim e queria que sua mãe também o tivesse usado. Mas ela, pobre infeliz, teve medo e se recusou. E também não deixou que eu o usasse em você. Mas você é meu filho e, quando foi gerado, eu já o tinha injetado em mim. Pensei que você herdaria incondicionalmente a herança genética que deixei pra você. Mas, ao passo que ia crescendo, vi que isso se deu apenas em sua mente. Por que acha que é diferente dos outros? Porque você é diferente. É de uma raça superior, a raça que dominou este planeta por 140 milhões de anos. A raça que ainda deveria dominar. "

O coração de Stegron bateu como uma bateria de escola de samba.

"Como eu lhe disse, esse ativador molecular lhe mostrará a verdade. A verdade que está dentro de você. Use-o. Não tenha medo."

"Seu pai que tanto o ama"

Stegron respirou fundo. Detestava agulhas, mas já que fora o último desejo do pai que ele tanto adorara...

Um, dois, três! Ele sentiu o líquido entrar em sua corrente sanguínea, queimando-o por dentro. Seu corpo verteu quase um balde de suor e ele caiu de lado como se estivesse bêbado. A visão nublada, o corpo formigando como se milhares de pequeninos insetos invisíveis o invadissem subitamente.

Passou tão rápido quanto veio. De súbito, ele levantou-se e olhou-se num espelhinho. Aparentemente, nada de diferente acontecera. Mas só aparentemente. Porque Vincent Stegron sabia que algo estava diferente nele, podia sentir isso correndo em seu sangue, entrando em cada célula de seu corpo.

Seis hidroaviões apontaram no horizonte.

— Ah, eles estão vindo, finalmente! — Gritou Allan, como se saudasse o nascimento de um mundo novo.

O barulho era imenso. Parecia o zumbido de um enxame de abelhas gigantes. Mas isso não incomodou o trio na praia. Afinal, os imensos pássaros de ferro estavam trazendo seus clientes e isso significava dinheiro, muito dinheiro. Diante dessa perspectiva, quem se incomodaria com barulho?

Talvez apenas quem não quisesse dinheiro...

— Que barulho é esse? — reclamou Shanna, ao perder de súbito uma anta que estivera tocaiando o dia inteiro.

Ela correu até a praia. Assustou-se ao ver um volume imenso de gente estranha, a maioria homens, todos com armas de caça nas mãos.

— Quem diabos é essa gente toda? — pensou. — O que querem aqui?

Parecia óbvio demais, é lógico. Mas mesmo assim, ela custou a acreditar em tanta imprudência.

Deviam ser umas cem pessoas. Todos pareciam ansiosos e nervosos.

Shanna escutou tudo em silêncio.

— Pessoal! — Allan subiu numa pedra grande, batendo palmas pra chamar a atenção do grupo. — Gente, eu tô até com o coração na mão! — o povaréu riu — Eu tinha preparado um discurso, mas já nem sei o que pretendia dizer. Então, vamos colocar a coisa assim: Dentro dessa selva, dentro dessa mata fechada, estão animais enormes. Animais que saem de ovos e precisam de muito espaço. Animais que, isso eu lhes asseguro, irão lhes dar a maior emoção que já viveram em suas vidas! Caçar leões, leopardos? Isso não é nada, perto do que irão caçar aqui! Pois irão caçar o que nunca antes um humano caçou. Sentirão o gosto de abater o que nunca antes um homem abateu... Irão caçar dinossauros!

Um "UHUUUUUUUUU!" alto soou do grupo. Shanna nem podia acreditar no que ouvira.

— Quem esses idiotas pensam que são? — pensou, rilhando os dentes.

Aquela era sua terra natal, seu lar, continuou a jovem a pensar com o coração ardendo de ódio. Ela tinha o direito de abater animais pra comer, usar suas peles ou pra se defender, mas em hipótese alguma iria consentir que estranhos destruíssem os seres vivos dali só pra se divertirem!

Que audácia!




 
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