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Shanna # 06

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Clube da Caça
Parte IV

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Stegron se sentia feliz como uma criança numa loja de brinquedos.

Aquilo que nunca entendera em si, agora estava totalmente claro pra ele. Finalmente ele agora sabia quem era. Ou melhor, o que era.

Ele era um réptil. Ou melhor, um reptiliano.

Parecia loucura. Mas era verdade. De alguma maneira, seu pai descobrira como modificar o DNA humano, de modo a poder ativar a parte "réptil" dele.

Agora se sentia completo. Nada mais de "Sim, Senhor Fulano" pra cá, "Não, Senhor Fulano" pra lá, etc. Agora ele daria as ordens!

Devagar, Stegron foi testando suas novas habilidades. Fileiras de pequenas lâminas transversais forradas de pêlos microscópicos em forma de ganchos cresciam entre seus dedos. Esses pêlos se prendiam às mínimas saliências de qualquer superfície e aderiam melhor do que ventosas. Ao subir pela parede, ele se sentiu o próprio Homem-Aranha!

— Te cuida, Peter Parker! Agora vamos ver... O que mais posso fazer?

A excitação do momento lhe mostrara o que mais podia fazer agora. Porque ao ficar extasiado de alegria, ficara com a pele vermelha!

— Uhuuu, isso saiu melhor que a encomenda! Qual será o limite disso?

Feliz, constatou que praticamente se tornara um camaleão humano: Podia modificar a cor de sua pele, não só através de suas emoções, mas também de acordo com o ambiente onde estava. Ele não duvidava que, com um pouquinho de esforço, poderia melhorar ainda mais esse dom. Talvez quem sabe ele aprenderia a mudar de cor a seu bel prazer, colocando sua pele com a padronagem que quisesse!

Mas havia mais... Talvez o mais incrível (e mortal) de seus dons era um dos dois que ele ainda iria descobrir que tinha...

Shanna observava o grupo à distância. Alguns montavam barracas de camping, outros conferiam armas e equipamentos, algumas mulheres bebiam drinks servidos por garçons e conversavam rindo umas com as outras, ao passo que crianças brincavam entre os adultos. Até parecia que estavam de férias em algum camping! Imprudentes!

De repente, Allan deu o sinal. Rindo e brincando, os homens do grupo se ajuntaram. Alguns garotos e mulheres se juntaram a eles. Todos conferiram as armas, todas pra caça pesada. Iam desde fuzis Express de dois canos .458, até AKs 47, armas típicas do exército israelense.

O grupo se embrenhou selva a dentro. Shanna seguiu-os á distância. Ela conhecia o poder das armas de fogo e sabia que não devia confrontar um grupo tão pesadamente armado. Isso se não quisesse virar queijo suíço!

— Ei cara, cadê os dinos? — Reclamou alguém, após andarem uma meia hora.

— A gente não veio aqui pra caçar passarinho, não!

Allan começou a suar frio. Ele sabia que havia dinossauros ali. Então onde diabos estavam eles?

— Ei! Tem alguma coisa se mexendo naquela moita! — Gritou uma mulher, com uma espingarda de cano duplo na mão.

Todos se viraram pra onde a mulher indicara. Algo, sabe-se lá o quê, tornou a se mexer no meio do matagal alto. Mais que depressa, os outros apontaram as armas.

E antes que a coisa pudesse mostrar o que era, um afobado pegou sua .45 e mandou um balaço a queima roupa.

Só que o barulho que a "coisa" fez não foi o que o grupo esperava ouvir. Em vez de um guincho ou um urro animalesco, ouviu-se um grito de dor muito humano...

Aeroporto La Guardia, NY

Stegron desceu do avião.

Seu coração batia forte. Estava bem perto de seu objetivo. Mas, ao mesmo tempo, sabia que agora vinha a parte mais difícil.

— Leve-me até o Edifício Baxter. — Disse ele, friamente, a um taxista.

— Outro fã do Quarteto Fantástico, é? — Perguntou o taxista paquistanês.

— Um pouquinho.

— Quase todo o dia, levo alguém pra ver o Edifício Baxter. Graças ao Quarteto, já ganhei um bom dinheiro e...

Stegron nem prestava atenção ao blábláblá do taxista. Pensava em como poderia entrar no laboratório do Quarteto sem ser percebido pelo sistema de segurança. Afinal, por mais poderoso que fosse, não havia poder que escapasse do refinado sistema de segurança do Edifício Baxter.

Chegando ao edifício, parou um instante pra observar a monumental obra. Depois olhou com desprezo para a multidão de fãs que se aglomeravam na porta do prédio como tietes de alguma banda famosa, implorando por uma visão de seus ídolos.

"Tolos..." — Pensou, soltando um profundo esgar de ódio.

Mais que depressa, foi até os fundos. Não havia ninguém lá. Mas espere... Um homem, com uniforme de entregador de pizza, saiu por uma portinha, resmungando.

— Puxa, o Coisa come feito um elefante!

— Quantas pizzas foram dessa vez? — Riu-se o motorista de entregas.

— Pode crer, meu chapa, que foram muito mais que do que eu comi o ano passado inteiro!

— Só com a gorjeta, então, cê deve ter ficado milionário!

— Só por isso que eu topo fazer essa entrega!

Com a conversa, o entregador esqueceu a porta aberta. Stegron não perdeu a oportunidade. Como uma lagartixa, esgueirou-se pra dentro.

Rápido, mais cauteloso, ele foi adentrando o ambiente. Mas...

Pam! Pam! Pam! O alarme soou feito a sirene de uma fábrica.

Seguranças apareceram como que do nada. Rapidamente, o intruso foi para trás da porta de entrada dos fundos, mudando a cor de sua pele pra bem escuro.

— Ué... — Murmurou um dos seguranças depois de procurar um pouco.— Não tem ninguém aqui não!

— O burro do entregador esqueceu a porta aberta, olha! Vai ver, algum bicho deve ter entrado!

— Ah... Droga. Deixa eu fechar.

Porém, ele não esperava que uma forma escura saltasse de detrás da porta direto pra cima dele. Tentou atirar, mas antes que sequer pudesse pegar sua arma, a coisa o mordeu no pescoço.

A pele do pescoço do guarda começou a necrosar, ao passo que o pobre homem babava feito cachorro louco. Dali a alguns segundos, seus pulmões e coração paralisaram-se e o homem virou presunto.

Em pânico, o outro guarda tentou atirar. Mas a forma preta agarrou-o e mordeu-lhe na cabeça. Em alguns segundos, ele também não passava de carne morta.

Assim que deu cabo dos guardas, a forma preta voltou a seu estado normal, ou seja, a forma de Stegron.

— Agora só me resta descobrir o caminho pro laboratório...

Na portaria, uma secretária atendia o telefone.

— Sim... sim. Então o senhor virá hoje fazer a manutenção do laboratório? Ótimo. Estamos aguardando. Não, hoje eles não estão aqui. Foram passear e só voltam á noite. Sim, o Sr. poderá trabalhar tranqüilo. Até mais, então.

"Obrigado, meu Deus!" — Pensou Stegron.

Ele esperou uns 20 minutos, só para a secretária não estranhar a chegada tão rápida do "técnico".

— Olá. Vim fazer a manutenção do laboratório.

— Olha, o Sr. chegou rápido, hein?

— É que eu tive outro serviço perto daqui.

— Legal. Venha comigo, sim?

"Não há nada que eu queira mais, docinho!"

Sem desconfiar de nada, a secretária foi levando Stegron através de um mundo de salas e corredores até o laboratório. E assim que chegaram, o coração frio de Stegron se aqueceu, batendo como uma bateria de escola de samba. Ali estava o que ele desejava: A máquina de teletransporte. Inteirinha e só pra ele...

Os caçadores se alvoroçaram. No que o homem tinha atirado, afinal? Cauteloso, Allan foi até a moita.

— Ué, gente, parece que a gente matou um Thundercat!

— Como é que é?

— Vejam aqui que coisa mais esquisita! Parece meio humano, meio gato!

Era um ser muito estranho mesmo. Aliás, parecia mesmo um Thundercat. Tinha expressão humana mas ostentava orelhas pontudas de gato, uma fina pelagem castanho-amarelada cobria-lhe o corpo, tinha cabelos castanhos que batiam em seus ombros e um rabo de tamanho respeitável. As mãos tinham polegares opostos, mas assim como os pés, eram dotadas de garras retráteis como as dos gatos. Pelo tamanho e jeito do corpo parecia ser um adolescente.

— Santo Deus, isso ainda é melhor que a encomenda! — Exclamou o homem que tinha acertado o menino gato. — Mesmo que a gente não ache nenhum dinossauro, só esse achado já valeu a viagem!

— Vamos ficar famosos! Já tô até vendo as manchetes "Caçadores acham espécie desconhecida de homem gato!"

— E não se esqueçam de uma coisa: Onde tem um, deve ter mais!

— Ééééé!

Shanna quase perdeu a respiração. Aqueles inconseqüentes não sabiam com quem estavam brincando.

O Povo Fera iria vingar-se deles. Duramente...

Shanna entrou em sua caverna. Seu cenho estava carregado de preocupação.

— Que foi, minha Ayla? — Max acariciou-lhe o rosto macio. — Aquele pessoal aprontou de novo?

— E você nem imagina o quanto... Lembra-se daquele povo meio humano, meio felino que mora lá nas montanhas, os que se chamam Povo Fera?

— Não vá me dizer que eles acertaram num deles...

Shanna fez que sim.

— Eu pedi pra não me pedir isso... E foi em quem?

— Eu não conheço a vítima, mas seja lá quem for, não interessa. O Povo Fera age como se fosse um só. A mínima coisa que se fizer com qualquer um deles, é como se estivesse fazendo com todos.

— Ou seja é "Um por todos e todos por um!". Não é assim?

— Exatamente. E eles são muito vingativos. Vão trucidar aquelas pessoas.

— Eles tem armas.

— Sim, mas não conhecem essa selva. O Povo Fera, sim. E serão uns 20 contra um. Sem contar que metade dos invasores é composta de mulheres e crianças. Sendo assim, devem ser só uns 50 homens com armas. 50 contra 1000... Adivinha quem ganha?

— Então o que sugere que se faça?

— Nada.

— Como assim, "nada"? Você mesma disse que eles serão massacrados!

— Eles procuraram por isso. Não deviam ter vindo aqui!

— Eu sei, minha linda, mas pense nas crianças... Que culpa eles tem dos erros dos pais? Será que merecem morrer por isso?

— Mas o que podemos fazer?

— Você sabe o que é... Diplomacia?

O coração de Stegron quase pulava fora do peito.

Estava a um passo de seu objetivo. Só lhe restava agora, descobrir as coordenadas da tal ilha dos dinossauros e pronto!

Mas... como fazer isso?

Bolas... Ele não tinha os números das coordenadas! Só sabia que a tal ilha ficava no meio do Pacífico. Mas só isso adiantaria?

— Bem, bem... Vamos ver... Como será que isso funciona?

Ele apertou uma série empolada de botões. Porém...

Pempempempem!!! Alerta! Alerta de invasão de intruso! Repetindo! Alerta de invasão de intruso!

— Droga!

— Max, Max, eu estou te dizendo que isso não vai funcionar...

Shanna e Max, cautelosamente, se dirigiam ás terras do Povo Fera. Iriam tentar apagar o fogo antes que ele começasse.

— Pelo menos, podemos tentar, não?

— Max, eu conheço o Povo Fera. Eles são muito agressivos. Não vão nem querer nos ouvir.

— Por que iriam querer nos fazer mal? Nós não somos inimigos deles.

— Mas eles não sabem disso!

Mal Shanna disse isso e um ser, parecendo uma mistura de homem com leão, pulou diante deles, rosnando os dentes e apontando uma lança muito afiada.

— Nor zara zu? (Quem é você?) — Exclamou o homem leão pra Shanna, com uma cara de poucos amigos.

Shanna olhou fixamente pra ele. Parecia estar tentando entender o que ele dizia.

Nor zara zu???? — Tornou o homem leão, ficando ainda mais irritado.

Ni... Shanna... naiz! (Eu sou Shanna.) — Começou Shanna a dizer cautelosamente.

O homem leão apontou para Max.

— Eta zu? (E você?)

— Bera Max da. (Ele é Max.) — Continuou Shanna. — Senar ohi. (Meu companheiro.)

Max olhou pra ela, com os olhos arregaladíssimos de espanto.

— Você fala a língua deles?

— Eles falam um idioma muito primitivo, mas complexo. É bem parecido com o basco. Assim, não foi difícil discernir como eles falam.

— Nongoa zara zu? (De onde vocês são?)

— Gu basóàkoak gara. (Nós viemos de dentro da floresta.) Gu bakeazkoak gara. (Nós viemos em paz.)

Stegron deu um soco num painel. Isso fez o alarme parar.

Ele até suspirou de alívio. Agora só restava descobrir as coordenadas da ilha.

Ele foi até o computador central e digitou Google Earth. Um mapa com todos os países do globo surgiu bem nítido na tela.

Começar módulo de procura. Clique na tela.

Ele tocou levemente no telão. Um módulo digital em 3D surgiu nitidamente.

Inserir dados para procura digital. Insira coordenadas ou nomes.

— Ihh, caramba, voltei á estaca zero... Mas deixe ver... ILHA!

Nome muito genérico. Não computado. Insira mais dados.

— Computador idiota... ilha de dinossauros!

Local não encontrado com o nome preposto.

— Merda! Será que essa droga de ilha não tem nome não? Pensa, cabeça... Ah! Eu sou um tapado mesmo... Como me esqueci disso??? — Ele se lembrou de que pusera os dados em seu email. Mais que depressa, acessou-o e lá estavam eles.

Ilha localizada. Deseja acessar módulo de tele transporte? Digite Y para sim e N para não.

— E lá vai um belo Y no capricho!

Logo após ele digitar, a máquina ligou, fazendo um barulho estranho, mas não desagradável. Parecia uma tela gigante de TV.

E do outro lado da tela, se via nitidamente uma floresta tropical, linda e exuberante.

— Finalmente! Finalmente! — Fez ele adentrando pela tela...

Shanna e Max iam seguindo o homem leão em silêncio. Kiara os acompanhava. Por fim, após alguns minutos de caminhada, chegaram a uma cidadela cheia de casas de palha, com um monte artificial no fim, onde pararam em frente. Em cada casa, nas ruas e num mercadinho no meio da cidadela, viam seres meio humanos, meio felinos, fitando-os com espanto. Max se sentiu dentro do desenho dos Thundercats.

No alto do monte artificial, havia uma casa, muito maior, melhor e mais elaborada que as outras. Talvez fosse um templo ou a casa do chefe.

O homem leão resmungou alguma coisa para Shanna e subiu uma escadaria lateral no monte.

— O que ele disse?

— Pediu pra esperarmos aqui. Deve ser um templo ou a casa de alguém importante.

— Sei não, mas esse lugar me dá arrepios... Só esse bando de aberrações nos olhando...

— Max, não seja preconceituoso! Pra eles, as aberrações somos nós!

— Lá isso é... Mas mesmo assim, preferia não ter vindo aqui.

— A idéia foi sua, não se esqueça!

— Precisa me lembrar disso?

— Então não reclame!

O homem leão, que devia ser alguma espécie de guarda, desceu até eles e fez um sinal para que o acompanhassem.

Shanna e Max subiram o monte artificial. Uma vez lá em cima, um homem-pantera, com a pele amarela pintalgada de negro e vestido com uma túnica de seda azul-escura bordada a prata, anunciou a chegada deles.

Os dois entraram na casa. Ali, um grupo de pessoas com aparência apenas ligeiramente felina os fitou. Um deles, o chefe da tribo, usava uma cumprida túnica amarela bordada a ouro amarelo e branco, além de muitos anéis, um bracelete dourado em cada punho, um colar, e uma tiara de ouro e esmeraldas barradas com prata. Sua pele listrada lhe dava a aparência do Tygra dos Thundercats. Realmente, era como se tivessem entrado na Toca dos Gatos.

— Eu sou Darim, chefe do Povo Fera. (*) — Disse ele, com uma voz plenamente humana e bem articulada. — O que vocês, estranhos, querem conosco?

— Eu sou Shanna e este é meu companheiro, Max. — Ela ainda não sabia o que dizer e principalmente como dizer, portanto foi bem cautelosa com suas palavras. — Viemos alertá-los sobre algo e também fazer-lhes um pedido.

— Já ouvi falar de vocês. Você é a mulher que caça na selva, não é?

— Sim. Eu e meu companheiro moramos nas terras baixas, perto da praia.

— Seu companheiro não fala?

— Ele não consegue falar sua língua. Eu sim. É difícil explicar, mas é assim.

— Pois então fale, Shanna da selva. Fale a que veio.

Ela falou. Falou sobre o rapaz do Povo Fera que recebera um tiro.

— Eu sei quem é a pessoa a quem você se refere. É meu sobrinho, Turosi.

Uma moça, ao lado do chefe, soltou um gritinho agudo.

— Turosi está morto? — Perguntou ela, tremendo.

— Não sei. Á última vez que o vi, não. Mas agora não sei.

Os olhos verdes de gato da jovem se encheram de lágrimas. Outra moça, evidentemente sua irmã gêmea, já que eram idênticas em aparência, a abraçou, consolando-a.

— O motivo do desalento de minha filha Anissa se deve ao fato de que seu primo Turosi ia se casar com ela. Ele estava no meio de sua iniciação para se tornar adulto e poder casar... — O chefe parecia desolado, mas tentava não chorar.

Outro grupo familiar apareceu. Evidentemente eram parentes mais próximos de Turosi, já que estavam desesperados.

— É verdade o que ouvimos, irmão? — Um homem também com aparência tigrada falou, tremendo de raiva. — Meu filho está morto? — Ao lado dele, havia uma mulher alta, magra e loira, parecendo uma pantera, com um rabo de cavalo cumprido, que quase lhe ia às costas. Abraçada com duas outras menininhas, que deviam ser suas filhas, ela chorava sentidamente. — Por que se estiver, os invasores vão morrer! Todos!


:: Notas do Autor

(*) A partir daqui, a tradução é simultânea... voltar ao texto




 
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