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Shanna # 09

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Clube da Caça
Parte VI

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Um par de olhos azuis espreitava a noite.

Imóvel sobre a luz da lua, o corpo claro, bronzeado de sol e pintado inteiramente de negro pra se confundir com a escuridão, parecia uma estátua grega. Cada músculo estava pronto para o ataque, cada nervo retesado pronto para disparar. Os cabelos dourados caíam sobre os ombros, sem tapar o rosto de linhas jovens e fortes que apenas observavam, com a respiração contida.

As mãos se fecharam sobre os facões, que raramente falhavam em um golpe. Quem observasse veria apenas algo como uma escultura perdida no meio da selva. Não seria estranho naquele lugar. Mas em suas veias o sangue pulsava, o ritmo constante que a mantinha viva.

Vivendo ali, ela aprendeu a estar atenta. A perceber o mais suave movimento, a distinguir o mais leve odor diferente da pujante mistura de aromas da selva.

Atrás dela, os seres que se pareciam com gatos também espreitavam.

— É tão fácil... veja, dormem como filhotes... poderíamos matá-los tão facilmente quanto mataríamos insetos!

— Calma, Darin! Ainda não... vê ali? Há um deles acordado com um fuzil na mão, vigiando o grupo. A arma dele tem mira a laser. Você estaria morto antes que sequer soubesse que foi atingido!

— Então como faremos?

— Eu trouxe minha zarabatana. Olhe só.

Shanna soprou forte e logo um dardo, feito com um afiado espinho de cacto saguaro, banhado com um líquido negro, acertou direito no pescoço do vigia. Babando uma saliva espumosa e com o corpo tremendo com violentos espasmos e convulsões, o homem caiu depois de uns cinco minutos de pura agonia.

— Ele está morto? — perguntou Max.

— Não, só desmaiado. Vai ficar assim por uns 20 minutos. Agora vamos. E com cuidado...

O grupo entrou acampamento adentro, tão silenciosamente quanto uma mosca que andasse pelo vidro de uma janela.

— Aqui...— Shanna apontou para um menino que dormia placidamente.

Darin apertou um lenço no nariz do garoto com remédio pra dormir. Rapidamente, pegou-o nos braços depois que o remédio fizera efeito.

Os outros foram atrás das outras crianças. Eram 12 no total, desde bebês até pré-adolescentes.

— Ótimo! Vamos!

— E o que vai acontecer agora?

— Vamos esperar até a manhã chegar... Agora eles irão embora... Por bem ou por mal.

Diana e Shayera vasculhavam a cidade, á procura de Stegron.

— Caramba...— Resmungou a Mulher-Gavião.— De onde essas coisas estão vindo?

Ela acertou num Tiranossauro com sua clava de energia. O bicho caiu desmaiado. Mas mal isso aconteceu e logo um arqueoptérix veio pra cima dela e da Mulher-Maravilha igual a um bólido.

Diana quase acertou o bicho com um soco, mas Shayera a impediu.

— Espere! Eu posso falar com aves! (*)

— Pode? Como? Eu nunca vi você fazer isso antes!!!

— Por que nunca foi necessário! E quanto a você, arqueoptérix... < Por que vocês estão aqui? >

Surpreso, o animal parou no ar.

— < Por que vocês estão aqui? > — Ela tornou a perguntar.

— < O mestre... ele ordenou... >

— < O mestre? >

— < Sim. Ele disse que as raças antigas deviam voltar a governar este mundo que já foi nosso... >

— < As raças reptilianas, você quer dizer? >

— < Sim. Nós, os répteis devemos voltar a governar este mundo... >

— < Nós, os répteis? Desde quando você é um réptil? >

— < Não sou? >

— < Não. Você é uma ave. E aves não são répteis. >

— < O mestre disse que nós primitivos, somos todos do mesmo sangue! >

— < Ele mentiu pra você e pra todos os outros. Ele quer o mundo governado por répteis, seres com escamas e dentes. E você não tem uma coisa e nem outra. Logo, não pode ser um réptil. Você é uma ave. >

— < O mestre disse... >

— < Quantos répteis você conhece que têm penas? >

O arqueoptérix arregalou os olhos amarelo-dourados. Evidentemente, aquele pássaro primitivo não era nada inteligente.

Ele abaixou a cabeça.

— < Você tem razão. Não vou obedecer mais ao mestre. >

— < Faz bem. Agora nos leve até ele! Gente demais já morreu por conta dessa loucura! Isso tem de parar! >

Diana cochichou no ouvido de Shayera.

— Essa foi ótima. Eu não teria feito melhor...

Amanheceu na selva.

Os membros do Clube de Caça foram acordando. E ao acordarem, se deram conta de que algo terrível acontecera durante a noite.

— Jack! Jack!! Ah, meu Deus, cadê meu filho??

Melinda!! Filha, cadê você??

Os adultos gritavam e choravam. O acampamento entrou em pânico e Alex se viu em maus lençóis.

Foi pra isso que você nos trouxe aqui?? Pra roubarem nossos filhos?

Você vai dar conta deles, pilantra!!

Pega o safado!

Pega!!

Alex correu como um coelho assustado. Já se via bem diante do cano de uma espingarda.

E seria assim, se uma certa loira não surgisse de repente.

— Você de novo? — Alex não sabia o que pensar.

— Eu vou livrar sua pele, moço, ainda que você não mereça...

— Faça isso, por favor! Se me salvar, eu juro que nunca mais coloco os pés aqui!

Sem nada responder, Shanna foi até o enfurecido grupo.

— Parem! Esse homem não fez nada. Fui eu.

Um homem pegou sua AR-15 pra acertar nela. Shanna nem piscou.

— Se alguém me matar, vocês nunca mais verão os seus filhos! Acho que vocês não querem isso, querem?

— Por que você pegou as nossas crianças?

— A resposta a essa pergunta, vocês sabem.

— Tá falando isso, por que a gente pegou aquele menino-gato?

— Sim. Do mesmo jeito que vocês querem os seus filhos de volta, os pais dele também o quiseram!

— Ah, por favor! Você não vai querer comparar os nossos filhos com aquele bicho, né?

Shanna não estava mais com tanta paciência pra continuar a discutir a questão. Foi logo direto ao assunto.

— A questão é: se querem os seus filhos de volta, terão que deixar a ilha. Agora.

— E como saberemos que você realmente devolverá as nossas crianças?

— Não saberão. Terão que confiar em mim.

Um homem pulou diante dela com uma espingarda de matar elefantes.

— Eu vou é te enfiar um balaço na goela, loira, se não me devolver meu filho!

— Não faça isso! — Alex o impediu de fazer uma besteira — Ela é a única que sabe onde as crianças estão! Quer fazer uma bobagem e estragar a única chance que vocês têm de tornar a vê-los?

O homem se retraiu. Alex se voltou para Shanna.

— Muito bem, loira, o quê é que você quer? Diga...

— Eu já disse o que quero. Quero que vocês vão embora. Agora.

— Será que não daria...

— Não, não daria. Sem condições. Ou vocês aceitam ir embora agora ou não verão mais os seus filhos. Escolham.

Os adultos se entreolharam. Devagar, foram abaixando as armas e desarmando o acampamento em silêncio. Dali a pouco, tudo estava arrumado.

— Muito bem, loira, e agora?

— Voltem para os seus aviões. Seus filhos estarão esperando na praia.

O grupo começou a andar. Dali a pouco, passando por uma ravina, ouviram um grunhido.

— Oh, droga!

— O que foi isso?

— Acredite, moço, você não querer saber... rápido, vocês! Andem mais depressa!

— O quê tá acontecendo, ô Jane da Selva?

— Só andem mais depressa! E nada de perguntas!

Porém, dali a pouco, um bando de criaturas, parecendo demônios saídos diretamente do pior pesadelo possível, surgiram no horizonte.

Era um bando de dinohyus, cujo nome significa "porco terrível". E não tinham esse nome à toa. Os dinohyus podiam medir mais de 3 metros de comprimento e 2,1 metros de altura no dorso, chegando a pesar mais de uma tonelada. Eram uma raça de javalis assassinos, que tinham uma triste fama de trucidarem e comerem tudo que viam pela frente.

E aquele bando de gente, ainda que bem armados, não passavam de um bufê ambulante pra aqueles monstros horrendos.

Guinchando como porcos, os animais atacaram tão velozes quanto raios. Os homens tentaram atirar, mas os animais eram rápidos demais e logo o grupo não passava de um monte de postas de carne sangrenta, sendo disputada a mordidas pelas famintos e horríveis criaturas. Shanna e Alex foram os únicos que escaparam do massacre e mesmo assim porque tiveram a presença de espírito de não tentar lutar contra os dinohyus. Seria simplesmente impossível, dada a tamanha agressividade deles e por serem tantos. Shanna nunca vira tantos de uma só vez. Esses animais costumavam ser solitários e raramente se uniam em bandos, exceto na época do acasalamento.

— Não sei o que deu nesses animais... — ela mal conseguia falar — Nunca vi tantos juntos!

Alex não conseguiu responder. Só tremia de pavor. Estava literalmente paralisado de medo.

Shanna teve de puxá-lo.

— Venha logo! Ou você quer virar a sobremesa dos monstros?

— Você... você... é forte...

— E?

— Por que... não lutou com aqueles bichos?

Os olhos azuis dela se voltaram pra ele, duros e frios.

— Acha que aquela gente valia eu perder um braço, uma perna ou a cabeça? Não sou idiota!

— Mas e os filhos deles? Que vai ser deles?

Nessa hora, Shanna se deu conta do que acontecera.

Sua cabeça começou a latejar. O que fizera? Deixando-se levar pela raiva, não salvara os adultos e agora havia doze órfãos que esperavam na praia por pais que jamais voltariam pra eles...

— Deus, o que foi que fiz...


:: Notas do Autor

(*) Nesses sites, se diz que a Mulher-Gavião pode falar com pássaros. Eu nunca a vi fazer isso no desenho, mas pelo sim, pelo não...: Mulher-Gavião e iComics. voltar ao texto




 
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