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Por
Cesar Rocha Leal
Assegurando uma Nova Esperança
Tatooine
Ghrlkarka é um sobrevivente. Na verdade, todos os de sua raça o são. Ele é membro de uma tribo de nômades Tusken, que vivem no árido planeta Tatooine. Os Tusken talvez sejam a raça mais adaptada ao planeta, vivendo em uma parceria com suas montarias Banthas e em exílio em suas tribos, os guerreiros não precisam das outras raças para sua sobrevivência.
Os Jawas, por exemplo, vivem do que conseguem salvar de toda a tecnologia que "adquirem" e revendem. Os humanos, mesmo os que vivem nos aglomerados de Mos Eisley ou Mos Espa, precisam dos serviços das fazendas de umidade. Mas os Tusken dependem apenas de seus Banthas, seus respiradores portáteis e sua coragem. Por isso eles acreditam terem entendido as necessidades da vida em Tatooine. O que faz com que seus contatos com as outras espécies nem sempre sejam positivos.
Mas Ghrlkarka é mais sobrevivente, no conceito mais puro da palavra, que os outros de sua raça. Ele foi o único remanescente de uma tribo massacrada quando tinha apenas dez anos de idade. Essa tribo, seguindo uma tradição de sobrevivência, adquiria escravos de outras raças, principalmente humanos, para lhes servirem com trabalhos pesados. Na maioria das vezes, tais escravos acabavam morrendo devido às condições de vida. Mas isso era considerado normal para os Tusken. A partir da hora em que alguém era capturado por outra tribo, ou outra raça, já deveria ser considerado morto por suas regras de sobrevivência.
Mas este não foi o caso com uma certa escrava. Ela tinha uma cria que a buscou e vingou sua captura, destruindo a tribo de Ghrlkarka e matando todos os seus componentes. Ele próprio teria morrido também se não tivesse caído debaixo da perna de um moribundo Bantha e ficado desacordado até ser achado por batedores de outra tribo. Mais tarde, ao questionar Jawas que faziam comércio com os Tusken, ele ficou sabendo que a escrava de sua tribo se chamava Shimmi Andarilha das Estrelas, ou algo neste sentido, e quem havia massacrado sua tribo era sua cria, Anakin. (*)
Isso não fazia sentido na cabeça de Ghrlkarka; capturar escravos e depredar os recursos de outras raças era uma necessidade corriqueira. Mas massacrar uma tribo inteira em nome de vingança era um conceito que não era compreendido. Principalmente daquela forma, o guerreiro dos infernos tinha uma espécie de espada brilhante, como uma das luas do céu, e a usou para decepar guerreiros ao meio e cortar as cabeças das mulheres e das crianças de forma terrível.
Além de ter tido que se provar perante sua tribo "adotiva", Ghrlkarka sempre foi considerado indigno por não ter sido capaz de proteger seu povo, mesmo com sua pouca idade, ou perecido com eles, partilhando assim de seu destino. Mas, finalmente, ele ganhou a confiança dos idosos dirigentes e pôde sair em caçada junto com um parceiro, Thrakat, que é apenas alguns anos mais velho que ele. Afinal, apesar de ter ganho o direito de sair para a caça, nunca teriam confiado a ele a segurança de um Tusken mais novo.
É neste dia, de um calor inclemente, que Ghrlkarka ouve algo que alegra seu coração. Duas crianças humanas, sozinhas e distantes de Mos Eisley. Presas fáceis para os dois guerreiros.
Vamos! grita um dos garotos Mais rápido, seu molenga.
Ah, Biggs. Você sabe que suas pernas são mais compridas que as minhas e fica mais fácil andar pela areia desse jeito. responde o outro Se ao menos tivéssemos um speeder.
Nah. Se tentássemos pegar o speeder de meu pai, poderiam descobrir para onde viríamos. E você não quer que ninguém saiba que descobrimos um ninho de Ratos Wompa cheio de filhotes, não é?
- Acho que não. Eu sei que...
Nesse momento, os Tusken atacam. Com seu forte e estridente grito de guerra, Thrakat usa sua maça para derrubar o pequeno Biggs, que cai inconsciente na areia. Apenas seu companheiro ainda está em condições de lutar, mas o fraco filhote de humano não pode ser páreo para dois guerreiros.
Ghrlkarka sente uma forte expectativa. O garoto é pequeno, de cabelos cor de areia e olhos como o céu. É como se nesse momento ele pudesse se vingar do que o Anakin Andarilho das Estrelas fez com sua tribo natal.
O garoto dá um grito e corre. Thrakat o persegue e o derruba com a ponta de sua maça. Com o desespero, algo muito estranho acontece. Uma pedra que jaz na frente do garoto subitamente se eleva no ar e atinge a cabeça do Tusken. Ghrlkarka sabe que seu companheiro não está morto. Mas que está seriamente desacordado. Não existem dúvidas que o garoto é o responsável, mas ele não consegue vislumbrar nenhuma idéia de como isso é possível.
Ghrlkarka se adianta. Se o menino é um feiticeiro, sua luta será ainda mais gloriosa. Ele terá o sangue daquele humano em suas mãos.
Neste momento é que aparece outra pessoa. Um velho de barbas claras e roupas marrons, em suas mãos uma espada, um sabre de luz igual ao usado pelo maldito filho do inferno que massacrou sua família. Ghrlkarka se prepara para o duelo, ele acredita que este demônio é o mesmo que massacrou sua tribo, e que agora está atrás dele.
O tenso momento parece perdurar por horas, o Tusken sabe que não é páreo contra a azulada arma que o guerreiro usa, mas está preparado para morrer. Então ele se depara com o olhar de seu adversário. Uma serenidade parece emanar dos claros olhos do velho. Uma certeza que esta situação não era ansiada ou desejada. Mas apenas inevitável, devido a seu ataque aos filhotes humanos. O homem está calmo, preparado, mas não implacável. De jeito nenhum são os mesmos olhos daquele demônio que massacrou sua tribo anos atrás.
Ghrlkarka sente sua adrenalina diminuir. Se a luta for concretizada ele irá perder, com certeza, mas não é certo que o humano o irá matar.
O homem acaba desligando sua espada de luz. Seu rosto impassível demonstra que tal ato não nasceu de uma fraqueza, mas de uma determinação de só usar a violência em último caso. Ghrlkarka entende isso, ele acaba pegando seu companheiro desacordado e se afastando. Ele terá algumas dificuldades para explicar o que houve, mas não está preocupado. Thrakat estava desacordado, assim não pode dizer nada, e ambos estão vivos. Uma vingança não foi concretizada, mas um ciclo de violência e incompreensão terminou.
Mas Ghrlkarka não se afasta muito. Deixando seu amigo atrás da duna que escondia seus Banthas, ele retorna, pois precisa ver o guerreiro mais uma vez. E quando um Tusken quer passar despercebido nas areias de Tatooine, ninguém pode descobrí-lo.
Então ele vê o velho se virar para o garoto. O menino presenciou tudo, e sua agitação mesclada com a excitação de ter sobrevivido tomam conta de seu corpo. Ele começa a falar sem parar. Apesar de não entender a língua dos humanos, Ghrlkarka continua a observar.
Vo... você é o velho Ben Kenobi, não é? Eu ouvi falar de você. Muita gente pensa que é um ermitão maluco. Mas o que é isso que estava usando? Porque o Tusken ficou com medo? E a pedra? O que aconteceu? Eu estava com medo e pensei que poderia usar a pedra para me defender. Mas ela estava longe. Daí ela voou e...
Foi impressionante o que você fez. Apesar de não ter sido da forma correta. O medo pode ser traiçoeiro. Mas ainda não está na hora de você aprender isso. Sabe, a Força faz certas coisas... certas mentes... mais fracas. podem ser influenciadas, compreende?
Então o Tusken vê Ben fazer um gesto com a mão e o garoto ficar impassível. Então, o velho fala lentamente.
Você não lembrará do que viu aqui hoje.
Eu não lembrarei do que vi aqui hoje. responde o menino.
Mas vai perceber o quanto é perigoso andar nas áreas desertas.
Vou perceber que é perigoso andar nas áreas desertas.
E não vai mais andar por aqui, a não ser que seja realmente necessário.
A não ser que seja necessário.
Agora vá.
O velho se levanta e se esconde por trás de uma duna. O garoto parece acordar de um sonho. E corre para perto de seu amigo, ajudando-o a se levantar.
Vamos, Biggs, acorde...
Ahhnnn... o que aconteceu?
Não sei, mas acho que alguma coisa tentou nos atacar. Vamos embora. Acho que não quero mais ver o ninho de Ratos Wompa.
Pois é... eu também não.
Assim, os dois garotos partem, e Ben Kenobi os observa, espreitado por sua vez, por Ghrlkarka, que o ouve falando para si mesmo.
Sim, aproveite sua infância. Desculpe por alterar sua memória, mas não está na hora de me conhecer. O destino do futuro ainda irá pesar em seus ombros, então nos encontraremos... meu pequeno Luke Skywalker.
O velho se levanta e olha fixamente para onde Ghrlkarka se encontra escondido. Como pôde ele ver um guerreiro Tusken quando este se encontra à espreita? Mas realmente ele sabe que Ghrlkarka está ali, então o humano acena e parte. Dando as costas ao possível inimigo, na certeza que o nativo não o irá atacar pelas costas, que nesta tarde quente de Tatooine a honra triunfou diante de um ciclo de morte que poderia ter trazido conseqüências fatais.
:: Notas do Autor
(*) Durante o recente filme Episódio II: Ataque dos Clones.
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