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Wolverine # 04

Por Rafael Borges

Cortando na Própria Carne

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Nova York:

Victor entra pela porta certa, escondida no beco certo, em um canto sujo da cidade. O boteco cheira a cigarro e vômito seco, mas ninguém faz perguntas quando ele não retira o sobretudo, nem o chapéu e procura um lugar para se sentar no balcão.

Às suas costas, uma garota de formas perfeitas inicia seu strip-tease no palco à meia luz. Com um gesto, ele pede uma dose dupla de uísque ao barman. De tão trêmulas que estão suas mãos, ele quase derrama todo o conteúdo do copo antes de poder levá-lo à boca. A bebida desce cortante e deveria aplacar sua tremedeira. Mas não o faz.

Na verdade, Victor nem mesmo pôde sentir o sabor ardido da bebida em sua garganta. Há muitos anos, ele é incapaz de qualquer sensação, seja prazer ou dor. Quando seus olhos entreabertos avistam a garçonete que caminha por entre os degenerados que freqüentam essa espelunca, ele se recorda qual é a única coisa que consegue sentir.

Por um segundo, ele se contém. Suas mãos ainda tremem. Outro uísque, para tentar afastar aquela idéia nefasta. Ainda resta alguma esperança? Ainda resta algum sentido na vida que ele tem levado, tentando afastar-se de seu vício?

A resposta é obvia para Victor.

Não é difícil atrair a garçonete para fora do bar. Tudo o que ele precisou fazer foi mostrar a ela um pequeno rolo de notas de dez. Em seguida, ambos deixaram aquele ambiente repleto de fumaça e adentraram a noite da metrópole que nunca dorme.

Do outro lado do estabelecimento, um certo canadense dá a última baforada em seu charuto. Desconfiado por natureza, ele não pôde deixar de reparar no casal que saiu apressado.

— Logan! — clama a stripper, que encerrou seu show momentos atrás. Seu corpo ainda está banhado em suor quando caminha em direção ao mutante — você nem prestou atenção ao meu número!

Wolverine termina de apagar o charuto antes de se virar para a moça. É impossível esconder suas curvas generosas, mesmo debaixo do roupão que ela está usando sobre a lingerie sensual que exibia em cima do palco.

— Desculpa, gata! — responde finalmente, colocando seu braço em volta do corpo da garota. — Eu prometo que volto pra apreciar o espetáculo, Lucy. É que eu acabei de perceber que preciso resolver um probleminha ainda hoje.

Com um beijo no rosto, para não se animar demais, ele se desvencilha da stripper. Antes que ela possa entender que está sendo dispensada, ele já recolocou o casaco e ajeitou seu característico chapéu de cowboy.

— Mas você sabe que eu vou voltar pra minha cidade amanhã! — retruca escandalosamente Lucy.

— Então, acho que vou ter de te visitar sua cidade mais uma vez, gata! — Wolverine encerra o assunto e parte pela mesma saída usada pelo casal, deixando a garota para trás.

— Homens! — ela comenta em voz alta. — Eu não acredito que ele vai me deixar aqui sozinha!

— Eu posso te fazer companhia, Lucy! — responde mais um cliente embriagado.

— Sai pra lá, seu nojento! — rechaça a garota.

O jeito é se resignar e voltar ao camarim. Não é todo dia que aparecem homens com Logan em um lugar como este.

A apenas algumas quadras dali, Victor caminha com a garçonete pelas ruas quase desertas da cidade. Neste horário, a vida noturna de Nova York é composta apenas por predadores e prezas. E eles não são exceção.

Com uma de suas mãos, ele conduz a garota pela calçada. Com a outra, certifica-se de que o objeto metálico continua em seu bolso. O detalhe é que ambas pararam de tremer no momento em que ele deixou aquela espelunca.

— O seu hotel fica muito longe daqui? — O ar gelado parece ilustrar as palavras que saem da boca da garota com uma pequena nuvem. Ela não pára de falar.

Não há resposta por parte de seu acompanhante. Estranhos espasmos passam por seu rosto, deixando claro que ele não se encontra em um estado normal.

— Olha, dá pra ver que você tá na fissura! Eu entendo disso! — prossegue a garçonete, agora desempenhando outra função profissional — Se você quiser, podemos dar uma paradinha por aqui e eu te passo um pouquinho do que tenho aqui comigo.

Com um movimento brusco, ele interrompe o caminhar. Os olhos negros de Victor fitam fixamente a garota ao seu lado, tal qual um grande felino africano.

— É uma boa idéia! — quando ele fala, sua voz soa como mármore frio — podemos parar por aqui mesmo!

— O meu nome é Kelly, fofo. — ela se apresenta enquanto procura o papelote que guardou em um dos bolsos do casaco — Como você quer que eu te chame?

— Meu nome é Victor. — ele a agarra com força, tapando sua boca para que não possa gritar e levando finalmente a faca à garganta — Mas as pessoas me chamam de Senhor Zsasz!

Os grunhidos abafados que a garota solta vão diminuindo conforme eles entram em mais um beco escuro. A lâmina não faz som algum quando trespassa a garganta com precisão cirúrgica.

O jato de sangue escorre pela face de Zsasz, mas nem mesmo isso ele é capaz de sentir. Seus olhos inquietos só encontram sossego quando o corpo de Kelly finalmente vai ao chão sem vida.

Chegou o momento que ele tanto aguardava.

Sem perder de vista por nenhum segundo a expressão apavorada que a garota deixou impressa em seu rosto, ele usa a mesma arma do crime para fazer mais um corte em seu antebraço esquerdo. Mais um dos cortes que permeiam todo o seu corpo. Um para cada vítima de seu vício letal.

E quando a lâmina marca sua pele, ele finalmente consegue sentir o êxtase que procurou durante toda a noite.

Não foi difícil seguir a pista do casal. Mas o odor inconfundível do sangue derramado deixa claro que ele não devia ter perdido aqueles momentos preciosos para se despedir da Lucy.

Quando Wolverine finalmente avista Zsasz e a garçonete, é tarde demais para salva-la. Resta ainda a chance de vingar sua morte.

Ofegante com adrenalina liberada pela maravilhosa sensação que permeia seu corpo, o assassino não percebe o mutante até que ele se aproxime às suas costas. Entretanto, devido a seu estado alterado, ele tem velocidade suficiente para armar um contra-ataque.

Ainda ajoelhado sobre o corpo de sua vítima, Zsasz golpeia as pernas de Wolverine com toda a força. Felizmente, a lâmina não atinge nenhum tendão, ou nem mesmo o célebre fator de cura do mutante seria capaz de recuperá-lo em tempo para o combate. Mesmo assim, Wolverine cai.

— Você não tem o direito de me julgar! — Esbraveja o assassino. Ele se levanta e empunha a faca de forma ameaçadora — É a única forma de eu sentir alguma coisa! Foi um favor liberta-la dessa vida sem sentido!

Um pouco abalado pelo corte que sofreu, Logan permanece agachado em posição defensiva. Não há opção senão usar suas garras, então ele as ejeta.

— Olha, xará! Eu não sei o quanto essa sua cabeça tá fodida e nem me importo. Tu não tinha o direito de matar essa guria. — argumenta Wolverine.

Ágil como um animal selvagem, ele salta sobre seu oponente. Com um golpe, as lâminas de adamantiun que saem de seus pulsos arrancam a faca de Zsasz, levando junto metade de seus dois antebraços. O psicopata vai ao chão, observando seu sangue jorrar sobre suas mãos que se encontram a meio metro de distância.

Ao fundo, o som de viaturas de polícia indica que ele será levado uma vez mais, provavelmente para algum hospital. Lá, seus ferimentos serão tratados para evitar que ele morra. Não vão permitir que ele finalmente se liberte rumo ao grande vazio que o aguarda.

— A morte é boa demais pra ti! — retruca Wolverine antes de partir. — Quero ver você viver sem poder satisfazer essa sua tara de cortar o próprio corpo.

Asilo Arkham, meses depois:

Deitado em sua maca, Zsasz permanece imóvel. Suas pernas acorrentadas à cama e os braços amarrados pouco acima dos curativos que cobrem os ferimentos, no lugar onde deviriam ficar suas mãos.

O guarda, que espreitou durante os últimos meses, finalmente tem coragem de entrar em sua cela. É noite e todos os outros encarregados pela segurança do asilo já devem estar tirando seus costumeiros cochilos.

Ele se aproxima para encarar o assassino que tanto o assustou durante todo o seu tempo de trabalho neste lugar tenebroso. Perto de seu ouvido, ele sussurra para não acordar ninguém:

— Você não é mais tão perigoso, agora que ficou aleijado, né?

Sua resposta é o silêncio.

Zsasz não move um músculo até que o guarda comece a se afastar vagarosamente, ostentando um sorriso sádico. Só então o interno lhe desfere uma mordida violenta contra o pescoço, alcançando a jugular de maneira certeira.

O segurança berra, enquanto suas pernas perdem a força, levando-o ao chão. Tamanha foi a violência do ataque, que o sangue jorra aos litros. Ele estará morto antes mesmo que os outros guardas entendam o que aconteceu.

Antes disso, Zsasz usa seus dentes para fazer um rasgo em seu próprio ombro direito. E, quando o corte marca sua pele, ele finalmente consegue sentir o êxtase pelo qual esperou durante todo esse tempo.

A contagem recomeçou.


Na próxima edição: O retorno de Albert e Elsie Dee


:: Notas do Autor

O Sr. Zsasz foi criado por Alan Grant e Norm Breyfogle, em sua notável passagem pelos títulos de Batman no início dos anos 90.




 
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