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X-Cluded # 08

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

Perestroika

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Moscou

O frio russo se faz presente nesta tarde de quinta-feira, momento em que os X-Cluded chegam a Moscou. Eles descem do jatinho particular fretado por Thomas, patrocinador da equipe — agora com um novo membro, Papila — depois de uma cansativa viagem. Pelo menos para Mentor, que a todo o momento teve que conter semi-bêbados (Papila, Nooze, Texano), crianças chatas (Kate, Texano) e melecas verdes (Gozma, outras por parte de Kate), fazendo o possível para diminuir o raio de influência das ações destes criadores de confusão.

A primeira visita a ser feita é na delegacia mais próxima. A idéia, segundo Mentor, é saber se há alguma investigação a respeito de contrabando de tecnologia para outros países por parte de russos. O chefe do X-Cluded andou dizendo que tem um bom russo e que costumava falar bem há muito tempo atrás. O resultado disso é revelado depois de meia hora de conversa com um delegado, quando Mentor sai da delegacia para se encontrar novamente com seus pupilos mutantes.

— E aí? — pergunta Nooze.

— Ahn, nenhuma informação importante. — responde Mentor.

— Nenhuma? Como assim, nenhuma?

— Nenhuma, ora. O delegado simplesmente não sabe nada sobre... sobre contrabando de armas, de tecnologia, de nada.

— Tem certeza?

Nooze olha para Mentor. Este olha para o nada. Em seguida, para Nooze. Depois de vencido, olha para o nada de novo.

— Tudo bem, eu não entendi patavinas do que ele me disse. Meu russo está enferrujado, qual o problema?

Eric Bernard bufa de raiva, no mesmo momento em que Liam Kavanagh, o Papila, tira seu cantil com bebida alcoólica da boca.

— Ah, qualé, por mais coisa que o Mentor descobrisse, não ia fazer muita diferença mesmo.

— O Papila tá certo. — concorda Texano — Acho bom a gente sugar tudo o que pode desses russos enquanto a gente pode. Ou enquanto eles não jogam uma bomba atômica na Casa Branca.

Todos os X-Cluded olham para Texano.

— Não entendi. — diz Kate.

— Ninguém entende a cabeça dele, Kate. — responde Gozma — É melhor você apenas concordar.

Gozma estende seus "braços" até a mão direita da garotinha, mostrando-a o sinal de "positivo". Ela olha para o sinal, depois o faz na direção de Texano.

— Muito bem, acho que o melhor que temos a fazer é desistirmos, pelo menos por hoje. — fala Mentor — Vamos continuar nossas investigações amanhã pela manhã. Enquanto isso, podemos fazer uma visita ao Kremlin e à Praça Vermelha, que tal?

— Ah, não! Visita histórica não! — reclama Texano. Os outros candidatos a super-heróis apenas aceitam a proposta.

— E também posso contar algumas das histórias a respeito dessa bela cidade que é Moscou.

Ah, não! Visita histórica não! — reclamam todos os X-Cluded ao mesmo tempo.

— Ora! Vocês não sabem o que é diversão. — murmura Mentor, falando meio que pra si mesmo.

Estação de metrô — Moscou

Dentro de um antigo vagão de metrô, alguns moradores de Moscou estranham os novos passageiros, que nunca tinham visto por ali antes. Os estranhos vestem roupas coloridas, um deles tem a pele feita de metal, outro carrega um grande machado, outro parece um robô, um outro empunha um escudo vermelho, e a única mulher do grupo faz um bêbado próximo babar devido à sua beleza (mesmo com a expressão distante da moça).

O trem pára, e as pessoas fantasiadas saem dele, assim como dezenas de outros transeuntes. Eles seguem, obstinados, escada acima, como se estivessem prontos para salvar o mundo de alguma ameaça. Na cabeça deles, talvez seja exatamente isso que eles estejam se preparando para fazer. Por mais ridículo que possa parecer.

Praça Vermelha

Mentor senta num banco e ameaça começar a chorar. Mesmo com Kate tentando consolá-lo, a única frase que vem à sua cabeça quando ele vê três de seus X-Cluded dançando polca com sérias tendências a ficarem muito bêbados é "o que eu fiz pra merecer isso?". Tentando dar um fim naquilo, o homem de sobretudo se levanta e segue na direção de Papila, que no momento tenta imitar uma típica dança russa.

— Ei! Ei! Ei! Ei! Hã? Que que foi, Mentor? — Liam pára de dançar.

— Você, Papila, e você, Nooze. Tenho uma missão pra vocês.

— Só nós dois? E o resto vai ficar aí se divertindo? — pergunta Nooze.

— Eles terão a missão deles também. Mas a missão de vocês é pegarem esse dinheiro — Mentor põe algumas cédulas na mão de Eric Bernard — e irem comprar souvenires, presentes, mapas para nossa localização, essa coisa toda, OK?

— Beleza. E a missão deles vai ser qual? — questiona Papila.

— Hã... ver quem faz a melhor imitação de Boris Yeltsin. Agora vão, vão.

— Tudo bem... vamos nessa, nariz.

— Pela última vez, eu não sou "nariz"!

Assim, os dois mutantes seguem para sua honrosa missão.

Perto dali, Texano berra aos quatro cantos (ainda que só esteja sendo ouvido por Gozma):

— Eu tô dizendo! Esses comunas são loucos! Eles vão jogar uma bomba na Casa Branca e roubar o tesouro escondido do Kennedy pra dividir entre todos eles!

— Do Lincoln. — corrige a coisa gosmenta.

— Ah, tanto faz. Mas você entendeu o que eu quis dizer, não entendeu?

— Texano, esquece isso. Nós estamos no século XXI, não existe mais esse negócio de "capitalismo do bem contra comunismo do mal", isso é coisa dos anos oiten...

— E é por isso que eu digo! Temos que tomar cuidado com esses vermelhos! Quando menos se espera, eles podem atacar com suas ogivas nucleares!

— Mas o que você está dizend...

— Eles e aquele tal de Bin Laden. Ah, aquele lá sim, merece uma bela surra! Os Estados Unidos deveriam invadir o Afeganistão! Ia ser que nem no Vietnã! Ratatatá!

— Nós perdemos a guerra do Vietnã, Texano.

— Ah, você se apega muito a detalhes!

Enquanto isso, sem que os X-Cluded notem, um grupo de pessoas vestidas em trajes de gosto duvidoso se aproxima da Praça Vermelha.

— Eles não poderiam se contentar apenas em bater fotos com caretas? — lamenta-se Mentor.

— Mas a gente não tem câmera, tio Mentor. — explica Kate.

— Ah, claro, eles gastaram todo o dinheiro em bebidas. Inferno...

Mentor vai até onde estão Gozma e Texano discutindo. Kate, sem muitas opções, o segue.

— Olhem, meus X-Cluded... — diz Mentor.

— Como assim "seus"? — questiona Gozma.

— É só modo de falar, Gozma. Por favor.

— Humpf. — o ser verde fica aborrecido e vira-se de costas para Mentor. Os outros o observam em silêncio por alguns instantes.

— Enfim, o que eu quero dizer é que está na hora de...

— Blá blá blá, nhé nhé nhé...

— Gozma, por favor! Você não está em casa! Comporte-se!

— Ah, tudo bem. — o mutante vira-se novamente.

— Como eu ia dizendo, eu estou achando que está na hora de irmos pro hotel que Thomas nos indicou. Já passam das onze da noite e... que maldita cara é essa, Texano?

O cowboy está vermelho, agüentando para não começar a gargalhar diante do que vê a uns vinte metros de distância. Todos os outros mutantes olham pra lá quando ele aponta.

Lá estão as cinco pessoas, as únicas com o que se pode chamar de uniforme de super-herói nas proximidades, e em provavelmente toda a Rússia. (*)

— Quem...? — questiona-se Mentor.

— <Preparem-se para a revolução, camaradas!> — diz, em russo e com imponência, o homem vestido de vermelho, empunhando um escudo da mesma cor, que parece ser o líder — <Nós somos o protetorado do povo, a Guarda Invernal!>

Os X-Cluded ficam em silêncio, olhando para a Guarda, sem reação nenhuma.

— Quem...? — questiona-se Mentor novamente.

— <Hah, você notou? Eles são americanos, Guardião Vermelho.> — diz um homem alto trajando uma armadura totalmente vermelha — <Pelo visto não entenderam nada do seu discurso de entrada.>

— <É verdade, Dínamo Escarlate. Vou ter que dizê-lo em inglês... lá vou eu de novo.> — o líder ajeita sua garganta e prepara seu inglês — Preparem-se para a revolução, camaradas! — seu sotaque não só é perceptível como é irritante — Nós somos o protetorado do povo russo, a Guarda Invernal!

Texano não se agüenta: começa a gargalhar enlouquecido.

— Ei, do que esse americano está rindo? — pergunta um homem grande barbudo, empunhando um machado e trajando uma capa vermelha, uma saia verde com uma calça por baixo e um chapéu com dois chifres. E cuja face mal encarada faz pensar que ele se leva muito a sério, assim como o enorme machado que carrega na mão direita.

— Ah, não se preocupe com ele. — Mentor tenta ser diplomático e dá alguns passos à frente — Nós somos os X-Cluded, meu nome é Mentor, viemos dos Estados Unidos. Interessante saber que vocês, Guarda Invernal, ainda estão ativos depois de tanto tempo. Já ouvi falar de vocês algumas vezes.

— <Sinto uma aura estranha neles.> — murmura a bela mulher no ouvido do Guardião Vermelho — <Talvez eles não sejam de todo maus.>

— <Deixe suas bioleituras para mais tarde, Fantasia.> — ele volta-se para Mentor — Pois bem, "Mentor". Não estamos interessados em quem vocês são ou se nos conhecem. Desde que não nos atrapalhem em nossa missão. Adiante, protetorado!

— Hã, esperem, por favor. — insiste Mentor — Poderemos pelo menos saber qual é a missão de vocês?

A Guarda Invernal se entreolha, pensando. Gozma se aproxima de Texano e Kate, comentando:

— Prestem atenção na bobagem que ele vai fazer. Vocês vão ver.

— Esperem um minuto. — diz Guardião Vermelho. A Guarda se junta numa roda para fazer uma votação e ver o que é melhor para a coletividade da equipe.

— Sabe, chegamos há pouco tempo da Irlanda do Norte. — Mentor tenta explicar — Estamos procurando por um homem que...

— Chegamos a uma conclusão. — diz o Guardião, quando a roda se abre e os russos voltam para os lugares em que estavam.

— Não vamos contar. — avisa o homem barbudo. A Guarda Invernal olha para ele — Ah, tudo bem. Podem contar.

Nossa missão é invadir a casa do governo russo atual e trazer de volta os tempos áureos da antiga Mãe Rússia comunista, levando o governo para o Kremlin. — explica um ser metálico com voz robótica, ou um ser robótico com voz metálica.

— Exatamente, Vostok. — confirma Guardião Vermelho — Por isso estamos aqui na Praça Vermelha.

— Hahahahahahah! O nome dele é Vostok! — ri Texano.

— Ei, ele tá rindo de novo da gente!

— Perun, fique calmo. — pede Dínamo Escarlate para o homem barbudo ao seu lado.

— Perun! Hahahahahahah! Perun! — gargalha o caipira mutante.

— Ah, maldito capitalista! — grita Perun, enquanto põe-se em posição de ataque empunhando seu machado com as duas mãos — Prepare-se! Haaaaa!

Perun sai correndo na direção de Texano, cujo rosto sorridente agora mostra uma feição extremamente assustada.

— Eu avisei... — diz Gozma, logo antes de saltar para o lado desviando-se de Perun.

Há duas escolas de pensamento a serem discutidas num momento como esse:

A primeira diz que Texano deve usar seu poder de alta velocidade para, de algum modo, confundir um adversário grande como Perun. O problema é que utilizá-la requer um raciocínio rápido e treino nas artes da estratégia. Logo, impossível de ser praticada por uma figura como Billy Puzo.

A segunda pressupõe que o mutante está desesperado demais para pensar em qualquer coisa mais complicada e deve usar sua velocidade pra fugir. Esta, por sua vez, se subdivide em outras duas:

a) ele sai correndo em disparada e só vai parar no aeroporto mais próximo, ou

b) ele se esconde atrás de Mentor, com a esperança de que este irá protegê-lo.

E é esta a escola que ele segue no momento.

O grande super-herói russo se aproxima dos amedrontados Mentor e Texano, com a lâmina de seu machado envolto numa energia amarelada. Quando ele está prestes a dividir os dois X-Cluded no meio como se fossem pedaços de picanha enfileirados, a voz do Dínamo Escarlate surge ao longe:

Espere, Perun!

Pra sorte dos heróis, Perun espera. Olha para trás em seguida e vê Dínamo Escarlate falando algo no ouvido de Guardião Vermelho. O líder da Guarda Invernal parece ter gostado do que o homem na armadura vermelha acabara de lhe murmurar, ainda que não de um modo homossexual. Dínamo Escarlate parece ter dado uma boa idéia a ele.

— <Você me deu uma boa idéia, Dínamo Escarlate. Perun, traga esses americanos até aqui. Dínamo, Vostok, cerquem o resto.>

Em pouco tempo, os X-Cluded estão cercados pelo grupo de russos.

— Hã, posso saber o que pretendem fazer com a gente? — pergunta Gozma.

— Podem. — responde Dínamo Escarlate.

O silêncio paira, enquanto a mulher chamada Fantasia aperta um botão num telefone celular.

— Então...?

— Não é por que vocês podem saber que a gente vai dar a vocês esse gostinho. — responde Dínamo. É possível perceber seu sorriso irônico mesmo com o rosto dele coberto com uma máscara.

— Está chegando. — diz Fantasia — Conseguiram consertar nossa nave. O Dimitri está trazendo ela.

— Nave? — Gozma está cada vez mais curioso e preocupado.

— Cala a boca, americano. — manda Perun.

Uma nave vermelha surge do céu e aterrissa no chão da Praça Vermelha. De dentro dela, desce um homem gordo e barbudo, usando um boné e um macacão sujos. Ele vai até o Guardião Vermelho.

— <Olha, chefia...> — diz o homem, com um russo quase ininteligível — <A gente só tivemos que trocar uns negocinho ali, por que tava cuns pobrema na parte do motor, na ignição e tal. Troquemo umas peça também, por que essa nave tá muito velha, ninguém faz mais essas peças dos ano 80. Tiremo uns botão ali que não serviam pra nada. Ah, e como a gente achamos vocês gente fina, a gente aproveitamos e botamo uma película, néon, DVD, nitro, aumentamo os caneco, e botamo um som legal.>

A Guarda Invernal se entreolha.

— <Ahn, tudo bem, Dimitri. Em quanto fica o conserto?>

— <Hm...> — o homem começa a olhar para a nave — <Fica aí nuns... dois milhão de dólar. E nem vem com essa de história "pensar na comuna como um todo".>

— <Ah, tudo bem.> — Guardião Vermelho assina um cheque e o entrega a Dimitri — <Aqui está.>

— <Valeu, chefia! Ah, poderia me dar uma carona até em casa?>

— <Estamos no meio de uma missão importante, mas tudo bem.>

Enquanto a negociação acontece, os outros integrantes da Guarda Invernal levam os X-Cluded pra dentro da restaurada nave e os amordaçam.

— Aah, então vocês querem nos seqüestrar, é? — adivinha Gozma.

— Eu já disse pra calar a boca, americano. — manda Perun novamente.

Assim, junto de Dimitri e dos X-Cluded, a Guarda Invernal levanta vôo em sua restaurada nave, com as asas brilhando em néon roxo.

Doze minutos depois do ocorrido, Nooze e Papila voltam à Praça Vermelha com sacolas cheias de coisas. Perdido, Eric Bernard pergunta para o nada:

— Putz, cadê todo mundo? — e o nada, como costuma fazer nesse tipo de situação, não dá resposta alguma.


:: Notas do Autor

(*) A menos que figuras como Zangief e Colossus estejam sendo consideradas. voltar ao texto





 
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