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Birds of Prey # 02

Por Igor Appolinário

O Assassino
Parte II

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Torre do Relógio — Gotham City

Aguarde. Informações em processamento...

Essa mensagem no monitor faz com que Oráculo fique apenas mais tensa e nervosa. Há alguns minutos, Bárbara Gordon acessou os sistemas da polícia de Gotham à procura de informações sobre assassinatos bárbaros ocorridos na cidade nas últimas semanas.

— Droga! — diz Bárbara, batendo no monitor — Do que adianta o processador mais veloz da Waynetech, se esse computador continua mais lerdo do que uma tartaruga?

Exageros à parte, Bárbara, ou Oráculo, como é mais conhecida no mundo do vigilantismo, sente que realmente precisa das informações que procura. Em quatro semanas, quatro prostitutas foram encontradas mortas em becos distintos da cidade (*). Aparentemente sem qualquer ligação entre as vítimas, além da profissão, e sem qualquer conexão entre os locais de "desova" dos corpos. Na noite passada foi encontrada a quarta vítima. Oráculo convocou imediatamente Canário Negro e na Torre do Relógio elas discutiram seu plano de ação.

— Isso é terrível! — disse Dinah Lance, a Canário Negro — Como alguém é capaz disso? É hediondo!

— Isso é verdade, Dinah. — disse Oráculo — Mas não podemos fazer nada quanto à morte delas. Mas temos o dever de levar o assassino delas à justiça!

— Bom, enquanto eu faço o trabalho de campo, você procura pistas, certo?

— Pois é. — disse Bárbara, massageando a saliência entre os olhos — Acho que posso dizer que "o jogo" começou...

Durante o dia, Oráculo vasculhou todos os arquivos municipais e estaduais sobre as identidades das vítimas e possíveis desafetos. Agora é quase noite, lá fora o sol se põe rapidamente, deixando que as sombras tomem conta de Gotham. Quando o último raio de sol desaparece no horizonte, o computador de Oráculo lhe dá as respostas que procurava.

— Bem, vamos ver o que temos nestas autópsias...

Ruas de Gotham City — noite

— Você não trouxe o café que eu pedi. — reclama Crispus Allen, o novo detetive da polícia de Gotham, para sua parceira, a detetive Renée Montoya.

— Você só sabe reclamar, Crispus! — diz Montoya, bebendo um gole do seu café, escondendo sob o copo um sorriso — Aliás, leite faz bem para os ossos...

— Muito engraçado. — diz Allen, jogando o leite pela janela do carro — Agora, por que estamos parados aqui nesse beco?

— Estamos esperando o "movimento" naquela esquina logo em frente. Acabou de escurecer e as mulheres vão aparecer logo, e aí...

— Temos grande chance do assassino aparecer!

— Ainda bem que importamos nossos gênios de Metrópolis... — ironiza Montoya.

Canário Negro observa o movimento na mesma esquina, mas de cima de um prédio. Com seus binóculos ela vê também o carro de Montoya e Allen. Canário acompanha a conversa dos parceiros e vê quando Allen joga o leite pela janela. Mais à frente, ela vê algumas mulheres se dirigindo à esquina, todas elas usando roupas provocantes. Em meio a elas, Canário reconhece alguém familiar.

— Olha só, parece que hoje é meu dia de sorte.

Canário desce até a rua e corre por uma paralela, chegando discretamente perto do grupo de mulheres que caminham para a esquina. Ela puxa uma delas para dentro de um beco.

— Oi, Katie.

— Meu Deus, eu não fiz nada!!! Não fiz nada!!!

— Calma, garota. Eu só vim conversar...

Alguns metros à frente, Montoya e Allen chegam perto de outro grupo de mulheres. As prostitutas ficam nervosas com a aproximação.

— O que vocês procuram aqui, "homens" da lei?

— Você e sua amiguinha querem diversão? — pergunta uma mulher baixa e morena, mostrando as rendas da diminuta calcinha.

— Eu sou o detetive Allen e essa é minha parc...

— Não precisa nos apresentar, Crispus, eu conheço algumas delas muito bem. Não é, Rosário?

Uma jovem hispânica, de cabelos encaracolados e enfiada em um apertado corpete, que tenta se esconder atrás de uma amiga, fala com uma voz fina e tímida:

— Olá, Renée...

— Olá. Queremos fazer algumas perguntas para vocês...

— Então é só isso que você tem a me dizer? — grita Canário — Como vocês podem ser assim tão tapadas?!

— Olha, dona Canário, é que a Amely era muito metida e fresca, ninguém gostava de ficar com ela. Ainda mais por que ela costumava dar em cima dos clientes das outras...

— Eu deveria espancar todas vocês. Como podem tratar uma pessoa como se ela não existisse!? Eu devia...

— Calma, dona, calma! — diz Katie, assustada — Eu não tenho culpa! Não fui eu que matei ela!

— Você tem razão. — diz Canário, acalmando-se — Eu vou embora. Se você descobrir alguma coisa, já sabe como me encontrar...

Katie sai do beco e quando olha para trás não vê mais Canário Negro.

— Recapitulando. — diz Montoya, com um caderninho de anotações — Você foi a última pessoa que viu Amely Baker viva, mas não prestou atenção no homem com o qual ela saiu e não viu a placa do carro? Nem ao menos saberia identificar o modelo do veículo?

— Desculpe, dona polícia. Mas não vi mesmo.

— Certo, mas se vocês tiverem mais alguma informação, nos procurem no departamento. — diz Allen, entregando um cartão para a morena baixinha.

— E quanto a você... — diz Montoya a Rosário — Quero que volte pra casa e dê queixa desse seu namoradinho pilantra. Ele não pode usar você desse jeito...

— Sim, Renée. — diz a moça, chorando — Eu vou...

— Devíamos prender todas, elas não vão colaborar em nada. — diz Allen, enquanto volta ao carro acompanhado de Montoya.

— Não é bem assim, Crispus. — responde Montoya — Elas têm medo de que o assassino as pegue também. Ainda mais se seus nomes saírem nos jornais...

— Mas elas deveriam confiar na proteção da força policial...

— Não sei por que, mas você sempre soa como um livro de regras. Vamos logo fazer o relatório...

Manhã seguinte

A Star-Enterprise é a maior empresa de seguros localizada na ilha de Gotham. Todos os seus funcionários são pessoas de alta confiança e extrema capacidade profissional. Bem... nem todos. John Aames trabalha nesta empresa há doze anos, mas sempre parece estar em seu primeiro dia de trabalho. Esbarra em tudo, quase derruba coisas quando passa, erra preços de contratos, troca valores de avaliações, enfim, mantém seu emprego por pura sorte e em pequena parte por causa de seus colegas de trabalho. Mas talvez eles apenas gostem de dar algumas risadas durante o expediente.

Um homem de estatura mediana caminha encurvado pelas ruas de Gotham City. Franzino, com cabelos ralos e aparência débil, ele tenta passar entre os transeuntes na calçada. Ao parar no sinal entre outras pessoas, sente uma forte trombada nas costas, que o joga na rua.

Buzinas e freadas, a vítima estática na faixa direita da via. Um motorista estressado gritando palavrões para o homenzinho, que, ainda tremendo, volta à calçada. O coração batendo tão forte que parece querer fugir do peito. John Aames atravessa a rua, ainda atônito, sendo levando pela onda da multidão...

John chega ao prédio onde trabalha a se dirige ao elevador. Uma pequena aglomeração se junta em frente ao único elevador que serve ao prédio inteiro. John espera pacientemente até que a porta se abre e as pessoas começam a embarcar. Quando John vai entrar, é puxado pelo ombro: um colega da empresa o coloca para o lado.

— Acho que esse aqui já está cheio. — diz o homem, com um sorriso no rosto — Melhor você esperar o próximo.

— Tudo bem... — é tudo o que John consegue responder.

E mais alguns minutos ele espera, pacientemente, por outra viagem do elevador, enquanto as portas se fecham e os passageiros lá dentro apenas riem. De alguma piada que John não conseguiu entender...

Star-Enterprise Seguros — mais tarde, naquela manhã...

John carrega uma pilha de papéis e caminha em direção à sua mesa, dentro de um dos cubículos da sala. Passando pela porta aberta da sala do chefe.

Aames!!!

John derruba todos os papéis no chão. Sem saber o que fazer, ele deixa tudo onde caiu e entra na sala. Tão encabulado e vermelho que parece estar passando mal.

— Algum problema com você, Aames!?!

— N-não, senhor! — gagueja John — E-estou bem.

— Aames, devo dizer que recebemos algumas reclamações de cobranças indevidas de alguns de nossos segurados e que ao verificar as fichas, percebi que foram todos arquivados por você...

— B-bem, eu não sei o que dizer, mas eu posso garantir que isso não vai mais...

— Não me interrompa, Aames!! Quero dizer que espero que você nunca mais repita tal erro ou serei obrigado a dispensá-lo. Estamos entendidos?

— Sim, sr. Peels. — diz John, saindo da sala.

— Pois então recolha esta bagunça que você fez e volte ao trabalho! — diz o chefe, com um sorissinho sarcástico — Seu débil mental...

John se agacha no corredor para pegar os papéis espalhados pelo chão. Ele está distraído, juntando tudo em uma pilha, quando um de seus colegas tropeça nele.

— Porra, John!!! Que negócio é esse de ficar agachado no meio do corredor?! Cara, eu nem te vi aí. Vê se presta mais atenção!

— Desculpe...

John volta pra seu cubículo, roxo de raiva, cerrando os punhos tão forte que suas unhas sangram as palmas das mãos.

John está em sua mesa, fazendo cálculos de planos e verificando contratos. No relógio em frente ao seu cubículo, ele pode ver que faltam cinco minutos para o fim do expediente. Ele guarda seu material de serviço, arruma os papéis em sua mesa e parte, caminhando em direção ao outro lado da sala.

Aames se aproxima de um escritório um pouco maior que o seu e da entrada observa aquilo que mais se aproxima do seu conceito de "anjo": uma bela loira, sentada ao lado de uma mesa, usando sapatos de couro azulado, um conjunto de uniforme azul marinho, uma saia um pouco acima do joelho e um blazer apertado sobre uma camisa branca com dois botões superiores estrategicamente abertos. Sua pele alva se mostra sensualmente pela abertura. Seu cabelo loiro é liso, mas faz cachos grossos a certa altura do penteado. Suas pernas torneadas estão cruzadas e servem de apoio a um pequeno caderno.

— M-Melissa, posso lhe falar um minuto?

— Ah... é você. — diz ela, quase sem olhar para John — O que quer?

— Eu gostaria de saber se você vai fazer algo depois do trabalho e se você... e eu... não poderíamos...

Melissa olha por sobre os ombros de John e coloca seu caderno na mesa.

— Bem, John, eu estou realmente ocupada e... — ela se levanta, caminha em direção a John e pára ao seu lado. Seus seios quase se encostando no queixo comprido dele — ...se você fosse um pouco mais alto!

— Hahahahahaha! — o folgado do elevador está atrás de John, quase chorando de tanto rir — Meu amor, você é muito engraçada!!! Mas vamos, estamos atrasados...

Melissa e o homem saem da sala, rindo. John fica bufando de raiva, olhos injetados, punhos cerrados. O sangue corre fervendo por todo o seu corpo e suas têmporas pulsam. Mas John não liga para isso, sua mente consegue apenas formar uma imagem nítida e cruel: Melissa mutilada sobre um plástico preto. Seu corpo violado e seus seios volumosos retalhados...

Torre do Relógio

Lá fora brilha uma calma manhã. Quase se pode ouvir o barulho dos pássaros e das folhas caindo das árvores... quase. O costumeiro congestionamento matinal de Gotham abafa todo e qualquer som, deixando no ar apenas seu barulho de buzinas e o cheiro do monóxido de carbono.

Mas nessa típica e apressada manhã de Gotham, duas mulheres parecem ser as únicas que não ligam a mínima para o congestionamento lá fora. Algo mais aterrador que uma intoxicação carbônica ocupa seu dia. Oráculo e Canário Negro estão na sala do apartamento de Bárbara na Torre do Relógio. Elas têm alguns papéis sobre uma mesa e discutem sobre as descobertas que fizeram.

— Eu fiquei tão indignada que quase bati nela. — diz Dinah — É incrível a falta de consideração dessas mulheres. Nunca vi uma classe tão desunida!

— Bom, se sua informante não tem nada pra nos dizer, então vamos ter que usar nossas pequenas células cinzentas. Para começar, vamos tentar criar um perfil para esse assassino.

— Eu começaria dizendo que ele deve ser alguém solitário, sem muita habilidade social e por isso procura prostitutas...

— Isso é uma opção viável, mas ele pode ter algo contra esse grupo em especial, afinal não temos nenhuma vítima fora do meio.

— É verdade, mas uma coisa me veio à cabeça agora. Esses crimes começaram de uma hora para outra, mas essa fúria do assassino, é a única palavra que eu posso imaginar para o que ele faz com elas, não surgiu do nada.

— Eu entendo o que você quer dizer. Ninguém sai matando de uma hora pra outra, deve haver algum registro semelhante ou pelo menos alguma notificação de agressão anterior.

— É, algo como prelúdio para um assassinato. Isso é sinistro demais.

— Acho que esse perfil vai ser mais difícil do que eu imagino. Esse homem é um mistério...

Departamento de Polícia de Gotham

— Eu não concordo com isso, Renée. Isso é muito arriscado. — diz o comissário James Gordon, saindo de seu escritório seguido da detetive Montoya.

— Mas, senhor, essa é nossa única opção! — diz Montoya, tentando convencer seu superior — Nós não temos provas, as testemunhas são mulheres assustadas e que não dão valor à vida que levam e ainda temos um homem misterioso solto nas ruas e que muito em breve vai abrir outra prostituta em um beco qualquer da cidade.

Gordon olha para Montoya por sobre os aros de seus óculos. Parece que as palavras da detetive pegaram em cheio nos temores do comissário. Seus olhos cansados observam a jovem à sua frente: alta, morena, com um rosto firme e inquisitivo. Seus traços latinos realçam ainda mais a beleza natural que exala dessa que é a melhor detetive do departamento, entre homens e mulheres, mas que tenta sempre esconder sua feminilidade como se tentasse esconder uma fraqueza. Gordon sabe que pode confiar nela como se ela fosse sua filha, e é assim que ele a vê, quase uma segunda filha. Do outro lado da sala, ele vê o parceiro dela, detetive Allen, transferido de Metrópolis há algumas semanas: alto, negro e com um olhar cético que quase beira o desdém.

"Esse daí se impressionará muito com ele." — pensa Gordon, e finalmente toma uma decisão.

— Pois bem, Renée, você poderá fazer esse trabalho disfarçada, mesmo que com minha objeção. Mas levará o seu parceiro com você...

— O quê? O "Senhor Metrópolis" ali? Ele vai estragar tudo rapidinho!

— Mesmo que pense assim, ele ainda vai, pois você precisa de reforços. Allen ficará escondido e vai levar com ele... o sargento Bullock.

— O quê? — diz Bullock, assustado, entrando na sala carregando uma caixa com rosquinhas.

Torre do Relógio — mais tarde...

Bárbara está debruçada sobre uma pilha de papéis. Dinah, de cabeça para baixo no sofá, bufa fazendo uma folha de papel sobre o seu rosto flutuar alguns centímetros e voltar à posição inicial.

— Acho que é tudo o que vamos conseguir. Fuuuuu! — diz Dinah, soprando a folha.

— Acho que vou ter que concordar com você. — diz Bárbara, com a voz abafada — Meu cérebro vai explodir se eu tiver que pensar em mais alguma coisa. Bem, vejamos então o que conseguimos: homem...

— Isso é óbvio. — diz Canário, se endireitando no sofá.

— Como eu dizia, e não é tão óbvio assim, pois estamos em Gotham: homem, branco, como sua informante disse ter certeza.

— Ela disse que não viu muita coisa, mas que com certeza era um homem branco e até provavelmente franzino, mesmo que disfarçado pelo sobretudo.

— ...Franzino, idade entre 25 e 50 anos, com algum histórico anterior de violência contra mulher, carro antigo, modelo entre 70 e 80. Provavelmente mantém a vítima viva por um dia e a mata com um prazo de no máximo de doze horas antes de o corpo ser encontrado...

— Devido ao exame dos legistas e do conteúdo nos estômagos das vítimas. — diz Dinah, levantando-se — Não é muito, mas já é um começo. Bom, já está escurecendo e eu tenho que voltar pro meu apê pra pegar meu uniforme e partir pra ronda.

— ...No estômago... — diz Bárbara, meio aérea — Desculpe, Dinah, não estava prestando atenção. Mas tudo bem, pode ir, acho que já terminamos por aqui e algo que você disse me deu uma idéia.

Canário Negro vai embora e Oráculo começa a revirar desesperadamente os papéis que já estavam desarrumados sobre a mesa. Ela joga tudo para os lados e começa a suar devido à tamanha energia que despende nessa busca quase insana. Quando tudo já está no chão e ela esta ofegante sobre a sua cadeira de rodas, Bárbara avista o que tanto procura:

— Ah-há! — grita, triunfante.

Jogada sob a mesa de centro da sala, uma pasta se esconde sorrateiramente. Ela tenta pegá-la, mas sua posição não a favorece muito. Vagarosamente, Oráculo desliza de sua cadeira, mas no último impulso perde o apoio e cai com um baque no chão.

— Ai! — grita ela, batendo o rosto contra o assoalho — Essa doeu, mas pelo menos eu te peguei!

Oráculo se arrasta até o sofá e se recosta. Ela abre a pasta e vê os registros da autópsia da vitima número dois. Algo que passou quase despercebido na primeira análise agora faz muito sentido: a vítima tinha um botão plástico no estômago...

No passado — vítima número 2

No famigerado quarto, o assassino e a vítima lutam. A moça oriental é baixa e rápida, fugindo das investidas dele enquanto este tenta entorpecê-la com clorofórmio. Ela se esquiva pelo aposento, mas o assassino consegue prensá-la contra uma parede e se prepara apertar o pano úmido sobre a sua face. Entretanto, ela consegue escapar. E antes que ele possa esboçar reação, ela lhe dá uma mordida no pulso, fazendo-o largar o pano.

— Vagabunda! — grita o assassino, segurando o pulso.

Ele tira a mão do ferimento onde pode-se ver as marcas exatas dos dentes da mulher, sobre o punho aberto da camisa. Ela percebe ter algo na boca, mas quando vira o rosto para expelir o objeto, o assassino lhe dá um soco, fazendo-a cair no chão. Ele parte para cima da mulher, golpeando-a mais e mais, até que ela desmaia, engolindo um botão...

Já de volta à sua cadeira de rodas, e agora conectada a seus sistemas, Oráculo procura informações sobre o tal botão encontrado no estômago da vítima. Fotografias e análises de composição estão anexadas ao processo de autópsia. "Graças a Deus a polícia de Gotham não é tão ineficiente nesse departamento." — pensa ela.

Alguns minutos depois, toda sua eficácia como hacker se mostra excelente.

— Uma única fábrica produz esse tipo de botão e mantém uma lista de seus compradores em seus computadores. Perfeito.

Ruas de Gotham

Do alto de um edifício, Canário Negro observa a noite fria de Gotham City.

"Essa cidade não poderia ter um nome melhor." — pensa ela, olhando algumas gárgulas no prédio ao lado. Nas ruas abaixo, muitos carros ainda circulam. Naquele bairro comercial, apenas as luzes dos outdoors e de algumas vitrines permanecem acesas. A iluminação tem um clima glacial, o que contribui para o frio da noite. As prostitutas em uma esquina próxima aglomeram-se próximas à luz de um poste, como insetos em busca do calor das lâmpadas.

— Bom, acho que por aqui nada vai acontecer hoje. — diz Dinah, indo até a escada de incêndio do prédio — Acho que vou dar uma volta e dar uma olhada nas outras "meninas".

Canário desce até um beco de onde sai com sua moto, roncando seu motor pelas ruas da cidade.

Uma mulher usando sapatos de salto alto, meia arrastão, uma microssaia e uma blusinha apertada se aproxima das outras prostitutas na esquina da Kane com a Miller, uma das mais importantes da cidade. Sua volumosa peruca loira produz sombras em seu rosto exageradamente maquiado, tanto pó e batom que seus traços faciais quase não existem.

— Então... garotas. — diz a mulher, com voz vacilante — O que se faz aqui pra ter um pouco de diversão?

— Cê deve ser novata, né? — responde uma das prostitutas — O que mais nós fazemos pra nos divertir?

— Querida, se você procura dicas do que deve fazer, acho que você está no lugar errado...

— Espere, espere! — diz uma delas, olhando a novata de cima a baixo — Acho que você está mesmo no lugar errado. O que faz você achar que pode vir aqui e ficar se exibindo? Pra quem você trabalha? Pro Jimmy? Pros irmãos Farrely? Ou você é mais uma rejeitada da Tríade da Mão Feliz? Deixe eu ver o seu rosto!

A mulher tenta afastar os cabelos loiros do rosto da novata, mas acaba arrancando sua peruca, mostrando todo seu rosto sob a luz da rua.

— Renée! — grita uma jovem.

— Você conhece esta daí, Rosário?

— Hã... claro. Ela é uma velha amiga. Venha! — Rosário afasta a novata das outras.

— Rosário, eu não disse que era pra você parar com isso? Eu mesma vou prender esse safado do seu namorado! — sussurra Montoya, recolhendo sua peruca e se afastando.

— Calma, Renée, eu acabei de te salvar. E o Jimmy não é tão mau assim...

— Ah, claro! Ele controla um punhado de prostitutas nessa cidade e você ainda pensa que ele te ama! Ele é só um cafetão cafajeste! Pense bem, menina: ele não te ama.

— Oh, Renée, mas ele é sempre tão gentil. Por que então um príncipe nunca aparece para nós?

— Olha, não existe o homem ideal. Mas sempre encontramos aquele que nos respeita e nos ama de verdade. Certo? Agora vá para casa, eu estou aqui por causa daquele assassino e não quero te ver picada em algum beco escuro.

— Obrigada, Renée. Você é uma ótima amiga.

Rosário se afasta. Montoya recoloca sua peruca e volta para o meio das outras mulheres que a olham de lado, mas pelo menos não implicam mais com ela. Neste momento, Canário Negro passa de moto pela rua e, espantadíssima, reconhece Montoya. Ela faz um retorno brusco mais à frente e fica a alguns metros da esquina, escondida nas sombras.

— O que ela está fazendo aqui? — Canário pára a moto e se apóia sobre o pé esquerdo, mas sente uma pontada dolorida e aguda e troca de pé — Maldito pé que não melhora! (**)

Em um carro, escondido em um beco próximo à esquina onde está Montoya, Crispus Allen observa o movimento, tentando não se irritar com os farelos que seu parceiro eventual, Harvey Bullock, lança por todo o carro com suas rosquinhas. Crispus evita olhar para o lado, ele imagina que a cena grotesca de Bullock comendo possa afetar seus hábitos alimentares para sempre.

— Sabe, Bullock... — diz Allen, sem tirar os olhos da esquina — Você vai ter que me pagar outro tapete, pois eu acho que ninguém vai conseguir tirar todo esse açúcar desse aí.

— Ah... deixa de frescura... — diz Bullock, entre uma mastigada e outra — A Montoya... paga uma lavagem completa... depois...

John Aames conduz seu carro pelas ruas da cidade. Seus olhos lacrimejam e as gotas rolam por seu rosto vermelho e inchado. Apenas um pensamento sinistro corre por sua mente perturbada:

"Ela vai me pagar... todas elas vão me pagar..."

Seu carro passa veloz pelas ruas de Gotham. John pouco se importa com os outros carros, muito menos com as leis de trânsito. Ele chega ao ponto de prostituição mais famoso da cidade e pára o veículo a poucos metros da esquina. John fica parado lá dentro como se esperasse algo, alguém ou ainda, talvez, alguma inspiração divina para o que haveria de fazer. Ele coloca seu grosso sobretudo, estrategicamente escondido sob o banco traseiro, e seu grande chapéu, que cobre quase que totalmente seu rosto. Assim camuflado, John finalmente sai do carro e caminha em direção à esquina, poucos passos a frente.

Montoya tenta parecer sexy apoiada languidamente no poste de luz, mas sua falta de jeito denuncia sua inexperiência, fazendo-a escorregar diversas vezes da sua posição de pouco apoio. Mas seus olhos vigilantes não perdem nada, mesmo que aquela noite estivesse "mais parada que o lago do parque". Naquele momento tão estático, algo chama a atenção de Montoya: um homem todo coberto, usando um grosso sobretudo e um largo chapéu, se aproxima vagarosamente da esquina. Tomando uma dianteira até então inimaginada pelas outras mulheres, Renée quase se joga para cima do recém-chegado.

John caminha calmamente e quanto mais se aproxima, mais analisa as mulheres ali prostradas. Porém, antes que possa escolher muito, a mulher que estava recostada ao poste se joga sobre ele, quase derrubando ambos na calçada.

— Mil perdões! — diz Renée, tentando ser o mais sensual possível — Eu realmente não queria te machucar.

Ao se afastar um pouco, ela tenta olhar sob o chapéu do homem, mas nada consegue divisar naquelas sombras. Ele nada diz sobre o incidente, mas olha bem para Renée e decide que aquela desajeitada será a escolhida desta noite. Sem uma palavra, ele mostra a ela uma boa soma em dinheiro e espera sua reação, já conhecida. Renée desiste de tentar enxergar o rosto do homem ali e aceita a oferta dele. Ambos caminham até o carro e partem, sem muita pressa agora, pelas ruas da cidade.

Canário, Bullock e Allen percebem o movimento na esquina e ficam de prontidão ao momento em que o carro de John parte. Canário Negro toma a dianteira na perseguição e segue o carro de Aames de muito perto, em meio a um pequeno trânsito entre algumas ruas principais de Gotham. Logo atrás, a dupla de policiais.

Dentro do carro, Montoya olha para trás seguidamente, enquanto enche John de perguntas, aparentemente inocentes, mas que tentam desvendar sua identidade.

— ...Mas o que você faz da vida? — pergunta ela, colocando a mão sobre a coxa de John — Eu tenho... sonhos eróticos com certas profissões. Você sempre passa por aquela esquina? Você...

Mais e mais Aames vai se irritando e percebe quando Renée, ainda que discretamente, observa o trânsito pelos retrovisores e pelo vidro de trás. John olha atentamente ao seu retrovisor, mas a princípio nada vê...

"Ali!"

Ele enxerga a moto de Canário Negro cruzando um carro e logo atrás dela outro veículo com dois homens. Canário tenta não perder o carro em meio aos outros e entra em contato com Oráculo:

— Oráculo, aqui é Canário. Acho que encontramos o nosso homem, ele está tentando fugir com a detetive Montoya...

Montoya?!? O que ela está fazendo no carro com o assassino?

— Acho que algum tipo de trabalho disfarçado. Você realmente deveria ver como ela estava vestida.

Bem, é melhor seguí-lo com cuidado. Pode ser apenas um homem assustado, mas em todo caso, qual a placa dele?

— Certo, é... 6TB72.

Vou verificar e ver o que encontro. Enquanto isso, não o perca de vista.

— Pode deixar. — diz Dinah acelerando sua moto.

No carro, John se irrita com as pergunta de Montoya e com a aparente perseguição e torna-se violento. De repente, ele soca Renée, pegando a policial de surpresa e deixando-a inconsciente. Atrás do carro, Allen se irrita com a moto de Canário, que constantemente impede que ele ultrapasse. Numa brecha rápida, ele ultrapassa a vigilante.

— Peraí, Oráculo, que um engraçadinho está tentando competir comigo...

Canário parte pra cima do carro dos policiais e tenta uma ultrapassagem, mas nesse momento um outro carro muda de pista, obrigando Allen a desviar sua viatura bruscamente...

BAM

— Caramba! O que foi isso, Crispus? — grita Bullock.

— Droga!!! — grita Canário Negro.

O carro dos policias bate na moto de Canário, fazendo-a perder o controle e cair no meio da pista. Ela tenta se levantar, mas seu pé esquerdo agora lateja demais e ela não consegue. Ao mesmo tempo, ao bater na moto, Allen faz uma manobra para não perder o controle da viatura, mas acaba rodando na pista, impedindo a passagem dos carros nas duas mãos.

— Droga, perdemos ele! — diz Crispus, saindo do carro e olhando na direção em que o suspeito ia.

— É, Crispus, tu é uma merda dirigindo. — diz Bullock, saindo do carro coberto de recheio de rosquinhas.

"Droga, onde ele foi?" — pensa Canário, ao mancar até a calçada alguns minutos depois — "O que vai acontecer com a Montoya...?"


Na próxima edição: Qual o destino da detetive Renée Montoya? Será que Birds Of Prey chegarão a tempo de salvá-la?


:: Notas do Autor

(*) Na edição anterior. voltar ao texto

(**) Canário Negro machucou seu pé durante uma campana na edição anterior. voltar ao texto



 
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