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Birds of Prey # 04

Por Igor Appolinário

A Gata e a Jóia
Parte I

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Torre do Relógio — Gotham City

Mesmo sem Oráculo estar em seu posto, seus sistemas de monitoramento estão sempre alerta, procurando por qualquer anormalidade na cidade. Quando algo suspeito ou fora dos padrões é detectado, os computadores da Torre avisam imediatamente a polícia, que pela rapidez do alarme, invariavelmente pega o criminoso.

Os monitores passam apressadamente imagens das centenas de câmeras às quais Oráculo tem acesso na cidade, cada qual com sensores de movimento, captando tudo o que se passa. De repente, o ciclo de imagens ininterruptas se estanca e apenas uma delas é apresentada no monitor: a cobertura de um grande prédio. Nos outros monitores, plantas e sistemas de segurança surgem, com fiações e salas marcadas pelos sistemas de captação de movimentos.

Bienal mundial de tecnologia e informática — Nova York

Bárbara Gordon passeia por entre os estandes, todos recheados com modernidades tecnológicas. Exatamente o que Bárbara procura. Exatamente o que Oráculo precisa. Uma das desvantagens de ser a fonte de todo o conhecimento no mundo dos super-heróis é que é preciso estar sempre atualizada, ligada nas últimas novidades.

"Ainda bem..." — pensa Oráculo — "... que eu sou financiada. Se tivesse que pagar tudo isso do meu bolso...!"

Bárbara olha alguns novos monitores e placas de vídeo, quando de repente alguém esbarra em sua cadeira de rodas, fazendo-a girar para um lado e rodar um pouco para frente. Ela ensaia um palavrão bem encaixado, mas uma voz suave corta seus pensamentos.

— Mil desculpas! Não sei onde estava com a cabeça...

— Não tem problema, mas poderíamos sair daqui? — diz Bárbara, acompanhando o desconhecido para longe do estande superlotado.

— Me desculpe mesmo pelo mau jeito. Hã... eu sou Marcus Oebius. — diz ele, estendendo a mão.

— Olá. Sou Bárbara Gordon. Então, Marcus, o que faz por aqui? Trabalha com informática?

— Bem, na verdade não. Sou professor e estou procurando alguns equipamentos para o meu laboratório. Não gosto de mandar o pessoal da faculdade fazer essas coisas, por que eles sempre compram tudo errado. Além do mais, eu gosto do passeio. E você?

— Oebius, Oebius... hã? Oh, desculpe estava distraída, mas acho que já ouvi falar de você. Você é físico, não?

— Sim, sou. Mas é estranho você me conhecer, afinal eu só apareço em revistas científicas!

— Bom, eu não estou aqui só pra olhar, pode ter certeza.

— Ótimo! Então gostaria de saber o que você faz. Aceita um café?

— Claro.

Marcus e Bárbara dirigem-se à pequena lanchonete montada nas instalações da bienal. Eles avançam lentamente, conversando. Na lanchonete, Marcus retira uma cadeira da mesa e faz um gesto para que Babs se acomode. Ele se senta de frente para ela e eles continuam conversando sobre as pesquisas de Oebius.

— ...então, resumindo, você trabalha com a manipulação do tempo.

— Pode-se dizer que sim, mas não é tão simples. Na verdade eu trabalho com médicos e biólogos, tentando descobrir uma forma de usar a quarta dimensão para acelerar a formação de culturas. Desta forma, podemos acelerar a descoberta de vacinas ou antibióticos mais específicos.

— Isso tudo é muito interessante, mas não é perigoso? Mexer com o tempo é algo incerto. Se não tiver cuidado vocês podem... apagar alguém da existência!

— Não! Nós trabalhamos na criação de bolsões de tempo acelerado. É como tirar um pedaço da quarta dimensão que esteja mais acelerado que o nosso instante, e usar para os nossos propósitos. Claro que é muita teoria ainda, mas...

Bip-Bip Bip-Bip Bip-Bip

— …acho que você está apitando...

— Desculpe. Só um minuto.

Babs pega seu pager e na pequena tela de cristal líquido vê uma única palavra estampada: "Oráculo". Ela olha para Marcus e depois volta os olhos para a maquininha.

— Droga! — pragueja ela, baixinho.

— O que foi?

— Oh, nada... quer dizer, eu tenho que ir embora, sinto muito.

— Algum problema em casa? Se quiser, eu te acompanho...

— É, tenho que resolver algumas coisas em casa. Mas eu não moro aqui, sou de Gotham City.

— Ah, que pena. Mas... será que eu posso ficar com seu telefone?

Bárbara dá um sorriso para Marcus. Ela pega suas sacolas e vai embora, apressada. Marcus Oebius permanece na lanchonete, um sorriso estampado no rosto. Na mão, um guardanapo rabiscado.

Ristorante Mamma Mia — Gotham City

O Mamma, como é conhecido pelos (raros) freqüentadores, é na verdade uma vergonha para toda a comunidade italiana da cidade. Fundado por Pablo Calderón, imigrante ilegal, como vingança a Giovanni Gallo, que o demitiu da cozinha de seu estabelecimento (Pablo só sabia fazer pratos mexicanos), o Mamma inspirou desconfiança, e depois nojo e aversão, nos moradores da redondeza. Claro que, se Calderón tivesse tino comercial, teria aberto um restaurante mexicano, que é a nova moda entre os ricos da cidade.

Nesse incerto local se encontra Dinah Lance, a vigilante noturna conhecida como Canário Negro. Mas não essa noite. Hoje o uniforme ficou no armário, a motocicleta na garagem. Não é para combater o crime que ela está aqui. Mas bem que gostaria. Há meia hora, Dinah escuta um intrincado discurso sobre fungos e bactérias.

"Tudo o que eu queria na hora do jantar." — pensa ela, trocando a mão que apóia o queixo, antes que começasse a formigar.

— ...e se deixarmos os fungos sobre a iluminação correta, eles crescem com uma velocidade incrível!

— Fascinante... — boceja Dinah.

— E você não sabe, mas tem bactérias que podem...

"Meu Deus!" — pensa Dinah — "Nunca mais deixo a Babs me convencer a marcar um encontro pela internet! E ela ainda me paga por esse..."

Quando o discurso esta a ponto de mudar de fungos e bactérias para insetos, o pager de Dinah começa a bipar incessantemente.

— Olha, Percy, eu tenho mesmo que ir. Aconteceu algo que eu não posso deixar de resolver. Tem que ser agora.

— Mas que pena, meu chuchuzinho. Quando a gente vai se ver de novo?

— Bem... ahn... me manda um e-mail, eu respondo assim que puder.

— Tchau! — grita Percy para as costas de Dinah, que avança para a saída o mais rápido que a elegância permite. O que é muito rápido.

Ela corre para pegar um táxi. As instruções no pager eram bem explícitas: "Na Torre. Agora!" Enquanto o carro roda pelas ruas da cidade em direção à Torre do Relógio, Canário pensa em muitas formas bem violentas, e divertidas, de punir Bárbara pelo encontro dessa noite.

Torre do Relógio

A Torre do Relógio de Gotham é uma construção única na cidade. Não pelo relógio, pois é óbvio que a catedral também tem um. Nem pelas formas angulosas e poligonais, que tenta deixar a imagem gótica da cidade de lado. Mas talvez pela combinação de ambos os aspectos ou, mais certamente, por aquele prédio ser o centro nervoso do mundo dos super-heróis, o coração da "corporação Batman". Ele é a base de Oráculo, onde seus computadores, quase auto-suficientes, monitoram Gotham e o mundo.

Dinah está no elevador, seus pés reclamam dos sapatos apertados. A primeira coisa que faz ao entrar na sala de estar da Torre é jogá-los o mais longe possível. E eles invariavelmente caem embaixo da mesinha de centro. Ela gosta muito dos sapatos pra jogá-los com força. Dinah vai até os fundos, onde dois quartos são reservados para o alter ego de Bárbara Gordon. Em um deles, uma sofisticada sala, repleta de holoprojetores e indutores de luz sólida, serve de ginásio virtual e acesso digital. A outra, que se encontra exatamente atrás do relógio, está abarrotada de componentes eletrônicos, monitores, sensores e outros apetrechos que possibilitam a Oráculo ser a maior informante virtual do planeta.

— Olá, Babs. O que houve? — pergunta Dinah, deixando as torturas de lado. Pensar nelas já foi divertido o bastante.

— Desculpe estragar o seu encon... — começa Bárbara, mas pára ao ver o olhar fulminante de Dinah — Bem, como eu dizia. Na noite passada, a cobertura do milionário Edward Pritchatt foi invadida. A polícia diz que, segundo Pritchatt, nada foi levado.

— Estranho, mas até aí nada de mais.

— Sim. Mas, segundo meus informantes, Pritchatt tinha em seu poder o famoso, e de até então paradeiro desconhecido, diamante Estrela D'Alva.

— Aquele diamante gigante?

— Sim. Eles dizem que a Estrela foi a única coisa levada.

— Mas por que Pritchatt não disse nada à polícia? Uma coisa tão valiosa, é claro que ele vai querer recuperar.

— Pritchatt já teve problemas com o imposto de renda antes. Acho que virou um hábito não declarar coisas muito valiosas. Além do mais, vinha sofrendo ameaças para vender a jóia.

— Seus informantes são bons. Será que eles sabem quem é o criminoso?

— O criminoso não, mas quem é o mandante do crime, sim... Nathaniel Glow.

— O joalheiro? Por que um joalheiro que tem milhares de diamantes, e muita grana, roubaria? Ou mandaria roubar, como é o caso?

— Exatamente por ser um grande joalheiro. Ele conhece toda a magnificência da Estrela e, só para registro, sempre desejou possuir a jóia. Meus informantes disseram que seguranças pessoais de Glow andaram procurando os serviços escusos de capangas e assaltantes.

— Então ele queria mesmo fazer valer as ameaças que fez a Pritchatt. Mas o que vamos fazer? Você entrou em contato com ele?

— Não, vamos recuperar a jóia primeiro e depois contatar Pritchatt. Mas antes de tudo isso, temos que encontrar a pessoa que é a peça chave do nosso plano.

— Quem...?

Museu de História de Gotham City

O Museu de História é um orgulho da cidade. Mantido pelos fundos da prefeitura e pelos investimentos da Fundação Wayne, reúne obras de arte de grande valor, monetário e histórico. Durante décadas, o museu já foi palco de grandes festas beneficentes em seu favor. Mas hoje é palco de algo muito mais ilícito.

O Museu possui um grande átrio central. Nos dias de sol, a grande Exposição Romana, que ocupa o lugar de destaque do museu, fica iluminada com a luz dourada do ouro dos imperadores. E é exatamente rondando essa clarabóia que vemos uma sombra, um vulto que se agacha sobre o vidro e com um pequeno aparelho, tão pequeno que sua forma exata se perde na escuridão, assemelhando-se muito a uma garra, corta um círculo de tamanho médio. O vulto entra pelo buraco. Bipando ao lado do corte no vidro está um pequeno aparelho, ligado ao alarme de segurança.

Por uma longa corda, a sombra criminosa desce até o chão. Cautelosamente, caminha até um portal próximo, sobre ele a inscrição: "Seção Medieval". O vulto caminha pela seção até se deparar com uma parede, que na penumbra aparenta estar vazia. Passos vêm pelo corredor e a sombra se joga para um canto. Um vigia caminha lentamente, iluminando as obras, relíquias e peças históricas. Um bocejo quebra o silêncio dos corredores, mas, inesperadamente, é seguido de um rangido metálico.

— Mas que diab...?

O vigia corre até a seção medieval e rapidamente passa o facho de luz pelas armaduras e tapeçarias. O coração acelerado se acalma e negligentemente ele se apoia em uma armadura antiga. Ela range e o machado que segura balança e cai, rente à cabeça do vigia. Ele recua assustado, alguns fios de cabelo cortados. Uma mão zune no ar agitado do museu e atinge certeiramente a nuca do vigia, que desmaia. A Mulher-Gato surge de trás do monte de metal medieval.

Ela volta à parede aparentemente vazia e retira algo de lá. Faz um embrulho e volta pelo corte na clarabóia. Quando o vigia acordar, vai querer muito saber quem o nocauteou e, principalmente, quem levou uma peça muito importante da exposição.

Telhados de Gotham

Selina corre pelos telhados da cidade. Pode parecer um pouco improvável, mas a densidade populacional de Gotham criou um verdadeiro boom imobiliário, resultando em ruas estreitas, becos e prédios muito altos. Facilmente, a Mulher-Gato pula de um prédio para o outro, mas de repente um salto alto se interpõe no caminho, jogando Selina alguns metros adiante, com o rosto no chão.

— Ai! Quem deixou um... salto?... por aí!?!

— Mulher-Gato. — diz Canário Negro, caminhando até Selina — Eu quero você.

— Olha. — responde Selina, levantando-se e pegando o embrulho — Eu não quero nem cogitar o que você e suas amiguinhas da SJA (*) fazem, mas devo dizer que você realmente não é o meu tipo.

— Não é nada disso, gata depravada.

— Bom, eu não tenho tempo para papo furado. — diz Selina, dando alguns passos para trás e ficando na beirada do prédio.

— Não, espere!

Selina se joga da beirada. Ela dá uma volta sobre o próprio corpo e cai, em pé como todo gato, em cima do prédio ao lado. Ela corre, com Dinah em seu encalço. Canário Negro se joga sobre a criminosa, ambas rolam pelo chão e o embrulho se arrasta pelo telhado, parando bem na beirada. Uma lufada de vento o levaria até o asfalto negro lá embaixo.

— Me solta, sua vagab... — resmunga Selina, mas é interrompida por um chute no estômago.

— Volta aqui, ladra safad... ai! — grita Canário, interrompida por um puxão em seus cabelos.

— Pensei que você ainda usasse peruca... sua oxigenada!

— Invejosa!

Dinah joga Selina para o lado, próxima ao embrulho. A ladra pega o pacote e salta para a rua. Canário a segue por cima dos prédios. Um telefone público toca na esquina e Mulher-Gato segue bem em sua direção. Ela se aproxima da cabine e olha ao redor.

— Acho que despistei aquela perua...

— Olhe de novo. — diz Dinah, saltando de um prédio sobre Selina — Atenda ao telefone.

— Por quê? — pergunta Selina, tentando se soltar — É alguma de suas amiguinhas?

— É. E talvez você possa se interessar pelo que ela tem a dizer.

— Duvido.

Dinah pega o fone e o encosta na orelha da Mulher-Gato. A criminosa ouve uma distorção eletrônica e uma voz, que se não aparentasse ser feita de metal e estivesse tinindo, poderia passar por feminina.

Mulher-Gato, tenho um serviço para você...

Galpão 135 — docas de Gotham

As docas de Gotham são um espetáculo turístico sem igual, principalmente para aquele tipo de turista que aparece boiando nas águas turvas que levam até o mar aberto. Os capangas mal-encarados nas portas dos galpões são a garantia para qualquer um que o seu destino será bem molhado e escuro, caso se intrometa no que não é chamado.

Esse é o local ideal para um QG improvisado, montado por Oráculo para qualquer emergência. Não que as docas sejam um lugar seguro, mas pelo menos nenhum intrometido vem xeretar seus negócios. Selina e Dinah entram no galpão número 135, aparentemente deserto.

Bem-vindas. — diz a voz de Oráculo, distorcida por alto-falantes — Olá, Canário Negro.

— Olá, Ba... digo, Oráculo.

Dinah e Selina se entreolham.

— Não sei o que estou fazendo aqui. — fala a Mulher-Gato — Dinheiro deve ser minha kryptonita. Não posso arriscar minha identidade desse jeito.

Olá, Selina Kyle. Essa parceria não é muita do meu agrado também. Agora, por favor, devolva a tapeçaria do século XIV que você retirou do museu.

— Hunf! Você tem olhos na nuca, não, "Oráculo"? — diz Selina, jogando o embrulho para Canário — Mas o que você tanto quer comigo?

Você é a peça-chave para a invasão que queremos perpetrar. Você e Canário Negro vão recuperar um raro diamante que está nas mãos de...

— Nathaniel Glow. — completa Selina — As fofocas correm rápido no meu meio. Então vocês precisam mesmo da mamãe aqui. Se você realmente pagar o que me prometeu pelo telefone, eu topo.

Então estamos acertadas. Vocês terão que invadir a Glow Industries, um grande prédio no centro de Gotham.

— Aquele pomposo, que tem até um jardim? Conheço...

Nele, Glow concentra todos os processos de purificação e lapidação de pedras preciosas. As quais são a verdadeira obsessão de sua vida. Além disso, seu departamento de pesquisas desenvolve novos métodos de prospecção e mineração. E todo o maquinário necessário para estas atividades.

— E quando invadimos?

— Daqui a uma semana. — diz Canário — Na festa de aniversário de Glow. A segurança será maior, mas eles terão muito mais do que cuidar. Creio que não será difícil. Os convites também já foram providenciados.

— Vocês são realmente boas nisso. — responde a Mulher-Gato — Já pensaram em mudar de ramo?

Silêncio total na sala.

— É, acho que não. Bom, mas pra que o galpão?

Aqui, você e Canário Negro poderão treinar os passos mais críticos da invasão. — as luzes do galpão se acendem. Dinah e Selina encontram-se em meio a réplicas do prédio de Glow e seus interiores. Cópias que vão desde maquetes a reproduções em escala real.

— Pronta para começarmos? — diz Canário Negro.

— Já nasci pronta. — responde Selina.


Na próxima edição: Oráculo, Canário Negro e Mulher-Gato põem em prática seu plano. Mas será que é realmente uma boa idéia confiar em uma ladra?


:: Notas do Autor

(*) Canário Negro é membro da Sociedade da Justiça, assim como sua mãe, a Canário Negro original, foi no passado. voltar ao texto



 
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