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Birds of Prey # 19

Por Igor Appolinário

A Despedida

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Torre do Relógio — Gotham City

— Humm, que delícia! — diz Bárbara, lambendo os dedos.

— Que bom que tenha gostado, é minha melhor receita. — diz Marcus Oebius, cientista e namorado, olhando com um sorriso nos lábios para a mulher sentada à sua frente. Bárbara Gordon e Marcus estão na sala do apartamento dela na Torre. Muitas velas foram acessas e eles estão sentados no carpete, provando a sobremesa de Oebius após um jantar de comida japonesa — Você está se divertindo, não?

Babs apenas sorri e passa um pouco do creme de limão gelado sobre os lábios. Marcus entende a deixa e a beija. Ele se desvencilha da mesa e abraça Babs. Eles se entregam a um longo e luxurioso beijo. Após alguns momentos de completo entendimento corporal, Marcus pega Bárbara no colo e a leva para o quarto, a porta se fecha lentamente, deixando apenas um pequena fresta de luz.

A alguns metros dali, Dinah e Cassandra estão dentro da nova floricultura, contando os ganhos do dia. Dinah parece muito animada.

— Uau! Essa é só a primeira semana de funcionamento, mas já ganhamos o que eu esperava pelo mês!

— Parabéns. — diz Cass, guardando as notas em um malote bancário.

— E muito desse sucesso se deve a você. — diz Dinah — Você tem um talento com flores, sabia?

— Sério? — pergunta a garota, abrindo lentamente um sorriso — Obrigada!

— Toc, toc!

— John!

Dinah corre para a porta da floricultura e abraça seu namorado, dando-lhe um longo beijo. Cassandra fica meio encabulada e se esconde por trás de alguns vasos vazios no balcão.

— Então, loira, vamos jantar?

— Claro, é só eu fechar a loja, é rapidinho...

— Mas vai demorar muito, eu fiz reservas naquele restaurante caríssimo!

— Oh, bem... — diz Dinah, olhando em volta. Ela avista Cassandra no balcão — Cass, você pode fechar pra mim?

— Hum-hum... — murmura a garota.

No passado. Beijing — China

Cassandra, aparentando ter cerca de quatorze anos, caminha entre as barracas cheias de comidas exóticas e apetitosas. Ela vasculha os bolsos e não encontra nada, nem uma moeda. Ela caminha sorrateiramente entre os comerciantes, buscando com os olhos ligeiros algo que possa embolsar. Mas, de repente, alguém tromba com ela, fazendo-a cair no chão. Cassandra se levanta lentamente e vê um garotinho todo esfarrapado recolhendo algumas frutas e comida. Ela se levanta e vê um homem furioso se aproximando. O garoto tenta correr, mas é agarrado e erguido do chão.

Cassandra olha ao redor e percebe que ninguém parece se importar com a cena, algumas pessoas apenas riem do destino do garoto. Ela então se aproxima do homem, que aperta as mãos no pescoço do menino, e aplica um golpe, fazendo o grandalhão cair inconsciente no chão. Muitas pessoas olham assustadas para a garota. O menino puxa Cassandra pela mão, entrando em um beco longe dos olhos dos outros. Ela olha para ele, que estende parte do "saque" para ela. Cassandra pega as frutas e agradece com uma reverência. O menino vai embora, sorrindo.

Após fechar a floricultura, Cassandra anda pelas ruas de Gotham City, pensativa. Algumas quadras à frente, um homem tromba em um senhora e arranca sua bolsa, correndo na direção de Cass.

Um pouco distraída, Cassandra nem percebe o que aconteceu, até que o bandido esbarra nela em sua fuga. Em milésimos de segundo, ela repara em todo o ambiente ao seu redor. Esse é o seu dom: saber o que vai acontecer logo em seguida. Não um superpoder, mas uma habilidade aprendida com muita dor. O bandido correrá para o beco à direita, a senhora se desequilibra, mas é logo amparada pelo homem ao lado. Uma fração do mesmo segundo e Cass se lança nas escuridões sufocantes do beco. Um minuto depois, sai de lá vitoriosa, carregando a bolsa e o homem desmaiado. Mas a surpresa de Cass é maior do que a vitória: a senhora roubada, miúda e frágil, sendo carregada por paramédicos para dentro de uma ambulância. Ela se aproxima dos curiosos em volta e discretamente deixa a bolsa no chão. Um dos paramédicos nota o objeto e o coloca na ambulância, partindo em seguida. Cassandra olha o carro se afastando, com um olhar completamente triste no rosto.

— Mais... rápido...

Washington, D.C. — Quartel-general da CIA

Um homem trajando terno negro caminha imponentemente por um longo corredor de cores pastéis. Ele chega ao final e abre uma porta cinza, entrando em uma sala repleta de computadores. Outro homem, igualmente trajado de negro, está sentando junto ao maior dos computadores.

— Agente Taylor, relato da missão.

— Bem, agente Jordan, desde o encontro do agente Lecroix com a parceira de Oráculo na Mongólia há alguns anos (*), viemos seguindo os passos do hacker.

— E depois de tanto tempo ainda não há nenhuma pista?

— Pelo contrário, agente Jordan. Sabemos que Oráculo é americano e age no solo de nosso país. Sua sede secreta fica em algum lugar da costa leste.

— Muito bem, agente Taylor. Continue procurando.

— Agente Jordan...? Devemos contatar o agente Lecroix? Este era o caso dele...

— Negativo, agente. Deixe Lecroix fora disso. Nós vamos encontrar Oráculo sozinhos.

No passado. Moscou — Rússia

Cassandra, um pouco mais velha agora, com cerca de 16 anos, caminha pelas ruas geladas da cidade. Próximo a ela, alguns soldados tentam se aquecer perto de um latão em chamas. Eles vêem a garota passar e sussurram um para o outro apontando. Cass percebe a movimentação e aperta o passo. Os soldados correm e a cercam. Eles começam a dizer gracinhas em seu idioma e tentando agarrar Cassandra. Um deles a agarra por trás. Cass se desvencilha do agarrão e derruba seu atacante, os outros ficam nervosos e começam a atacar. Um a um, Cassandra derruba os soldados com golpes perfeitos, deixando-os nocauteados. Ofegante, ela olha em volta e vê dezenas de soldados vindo em sua direção, com armas em punho. Ela corre por uma rua deserta e é seguida por todo o contingente, que começa a disparar. Cass desvia das balas e corta pelas ruas, procurando uma saída. De repente, eles entram em uma grande estação de trens e os soldados param de atirar. Aproveitando-se de seu tamanho, Cassandra se mistura aos passageiros de um grande trem, enquanto os soldados truculentamente tiram os passageiros da frente procurando pela garota.

Confortavelmente alojada entre as malas no vagão de bagagens, Cassandra dorme sem nem imaginar para onde o trem a levará.

"Última chamada para o embarque no Trem 268 para Lisboa, embarque na plataforma 3..."

Cassandra entra no apartamento de Bárbara Gordon na Torre do Relógio e encontra tudo apagado. Cautelosamente, anda pela sala, tropeçando em pratos e copos pelo caminho. Ela espia pelo vão da porta entreaberta do quarto de Babs e a vê dormindo do lado de Marcus Oebius. Assustada, Cass volta para a sala e sai por uma janela, correndo pelo parapeito até a uma pequena sacada em frente ao grande relógio da torre.

Em um grande apartamento, elegantemente decorado com móveis modernos e práticos, John Perkis e Dinah dançam embalados por um blues envolvente. Com um movimento displicente, John abaixa uma das alças do vestido de Dinah. A loira apenas sorri e aperta seu corpo contra o do homem. Com outro movimento, a alça restante cai, e o vestido de seda vai ao chão. Em uma pequena pirueta, Dinah gira pela sala, uma mão presa à de John, na outra a gravata. Poucos minutos depois ele também está nu, os dois envoltos em um abraço quente e arrebatador.

No passado. Lisboa — Portugal

Cassandra é jogada para fora do trem por um funcionário mal-encarado que grita palavrões em russo para a jovem. Cassandra limpa a sujeira de suas roupas esfarrapadas e sai da estação ao perceber a aproximação de alguns fiscais. A garota caminha displicentemente por uma bela praça e encontra uma pequena fonte de água limpa. Cass corre para a fonte e começa a lavar o rosto, tirando toda a poeira do trem. Um guarda surge na rua e olha enfezado para a garota. Ele se aproxima dela e tenta afastá-la da fonte, mas Cassandra apenas olha para ele e volta a se limpar. Irritado, o guarda a puxa com mais violência. Cass agarra a mão dele e torce, fazendo-o cair no chão de dor.

O grito do guarda chama a atenção das pessoas ao redor, que começam a gritar pela polícia. Logo, diversos guardas, saídos das ruas em volta, correm em direção a Cassandra. Ela corre por uma viela e entra no quintal de uma das casas típicas da cidade. Pulando as cercas e muros baixos, ela vai percorrendo os quintais até que se depara com um grande varal cheio de roupas. Olhando seus trapos rasgados e os belos tecidos estampados, Cass não tem dúvidas e se apropria de algumas peças. A dona do varal aparece de repente e grita escandalosamente, fazendo a garota fugir novamente. Ela sai dos quintais e por algumas ruelas paralelas chega ao mar e ao grande porto. Fascinada com a vista do Atlântico, Cass se esgueira para dentro de um dos navios.

Torre do Relógio

Bárbara surge na pequena sacada da Torre, envolta em um lençol. Cassandra mal percebe sua aproximação e continua olhando para o céu iluminado da cidade.

— Tudo bem com você, Cass? Parece chateada com alguma coisa...

— Não... tudo bem...

Em outro lugar da cidade, não muito longe dali, Dinah rola confortavelmente em uma grande cama cheia de travesseiros. Ela sorri manhosamente e apalpa o lugar logo ao seu lado, surpreendentemente encontrando nada. Ou quase nada.

— O que diabos é isso? — diz ela colocando a mão sobre algo liso e frio.

Dinah se ajeita na cama e dá de cara com um grande bilhete. A caligrafia de John, firme e bem desenhada, impressa em sua face branca.

Tive que atender um caso urgente. Ligo quando puder. Feche a porta ao sair.

Dinah fica estarrecida e sai da cama chorando.

Bárbara observa o céu noturno de Gotham City ao lado de Cassandra, ambas caladas. Dinah irrompe na sala do apartamento e corre para a sacada, chorando copiosamente. Ela se abraça a Babs, que não sabendo o que fazer apenas afaga seus cabelos.

— O-o que houve, Dinah?

— Aquele... canalha... maldito... — Dinah chora e Babs perece perdida. Cassandra olha a cena e fica pensativa por alguns minutos. Quando Dinah se acalma, a jovem parece decidida e diz:

— Eu estou indo embora.

No passado. Atlantic City — EUA

Cassandra escorrega por uma das amarras que prendem o grande navio ao porto e cai aos pés de uma placa com os dizeres: "bem-vindo a Atlantic City". Ela olha encantada para os grandes cassinos e suas luzes piscantes.

Como uma criança em um parque de diversões, ela se aproxima de um grande centro de eventos, cheio de pessoas na porta, com muito barulho e animação. Em um letreiro externo, vê as palavras: Atlantic City Convention Hall. Intrigada com a aglomeração de pessoas, Cass adentra o local por uma saída de ventilação e vislumbra o palco do concurso de Miss América que ocorre no local.

Dezenas de garotas em trajes de banho desfilam em frente a juízes decadentes. Cassandra se imagina no lugar das mulheres e logo uma cena de luta invade o local pacífico e idílico, surreal na verdade. Enojada com a futilidade da cena, Cassandra corre do prédio e caminha por uma estrada, parando para pegar fôlego ao lado de uma grande placa: "Nova York em frente".

— Mas Cassandra...

— Sem "mas"... eu estou decidida.

— Você não está contente com a loja, o treinamento...? — pergunta Dinah, perplexa.

— Não é... isso. Eu percebi, não só últimos dias... mas nos meses que passei com vocês... que eu ainda procuro o que me fez deixar Cain, um lar, meu lar.

— Mas consideramos você como uma filha, Cass. — diz Babs — Você sabe disso!

— Sim, eu sei, mas... eu ainda preciso de mais treinamento, senão eu teria conseguido salvar vocês de Shiva.

— Cassandra, nem o Batman parece ser capaz de derrotar aquela mulher. — diz Dinah — Não se martirize por isso.

— Não, não é martírio, mas sim superação. Talvez, quando eu estiver pronta, eu volte e possa finalmente chamar Gotham de lar. Mas, por enquanto, Shiva ainda está solta no mundo, e eu tenho que fazer algo quanto a isso...

Aeroporto — Gotham City

Cassandra Cain, jovem vietnamita, filha adotiva do assassino mercenário David Cain, treinada para ser a assassina perfeita, está parada ao lado do portão de embarque. Ao seu lado as duas mulheres, que lhe deram abrigo e carinho, choram como crianças.

— Oh, meu Deus, lá vou eu de novo! — Dinah desata a chorar.

— Calma, Dinah, você está fazendo um escândalo. — apesar de reprrender a amiga, Bárbara chora também.

Bárbara e Dinah se abraçam e choram copiosamente, enquanto todos os passageiros e uma Cassandra envergonhada observam a cena.

— OK, se vocês terminaram, eu tenho que ir...

— Cass, querida... — diz Babs, com os olhos marejados — Você sabe que pode voltar à hora que quiser...

— E, por favor, — diz Dinah, enxugando lágrimas — mande notícias, principalmente se você estiver em perigo.

— Eu vou. Prometo que um dia voltarei pra visitar vocês. Mas agora eu tenho um plano, vou até o Japão, como ponto de partida. Vou conseguir todo o conhecimento que puder para enfrentar o mal que existe por aí. Adeus...

Cassandra caminha pelo corredor que leva para dentro do avião. Dinah e Babs observam por uma grande janela o jato partindo, despedindo-se de uma amiga querida.


:: Notas do Autor

(*) Como visto em Birds of Prey # 15 a # 18. voltar ao texto




 
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