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Lobo # 12

Por Lucio Luiz

Uga-uga

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Lobo nunca teve um oponente assim. Claro que o maioral já lutou com pessoas muito mais fortes e com todos os tipos de poderes. A questão é que nunca ninguém agiu desta forma: fugindo, parando, lutando, fugindo, parando, lutando, fugindo, parando, lutando... se não fosse o gigantesco ódio que Lobo sente por essa besta do inferno, já teria voltado para seus golfinhos espaciais.

Após lutas não exatamente titânicas no Rio, em São Paulo e em Brasília, essa espécie de excursão da dor chega à floresta amazônica. Um mar verde se estende até onde a vista alcança, mas os dois adversários que voam sobre essa exuberante paisagem não querem nem saber de natureza.

O capeta, antigamente conhecido como estranho ser, continua concentrado em sua missão. Analisando cada pedaço de terra que visualiza, ele busca o ponto exato em que precisa lutar com aquele estranho ET. Após um bom tempo voando floresta adentro, nota uma pequena aldeia indígena e percebe que lá é o lugar que procurava.

— Pajé (*)... — diz, em tupi (traduzimos para seu conforto), um indiozinho que traja um pequeno cocar, uma tanga e sandálias Havaianas.

— Fale, Tepoti. — responde o feiticeiro da tribo, um homem com mais de 80 anos que conserva o vigor da juventude graças a preparados mágicos e a um pouquinho de Viagra que costuma comprar na farmácia da cidade mais próxima.

— Será que Tupã (**) um dia descerá do céu para nos visitar?

— Ninguém sabe. Nossos antepassados dizem que Tupã apenas descerá do céu quando Jurupari (***) se tornar real.

— Jurupari pode sair dos sonhos? — questiona, assustado, um outro curumim (****), que traja um short no qual está escrito "Dragon Ball Z".

— Isso é muito difícil, pequeno Karuka. A única forma de acontecer é se um índio fizer xixi na rede quando sonhar com Jurupari.

— Ops...

De repente, o pajé e as duas crianças ouvem gritos e saem da oca (*****) em que estavam para descobrir do que se trata. Eles vêem, assustados, um estranho ser de cabelos roxos e pele avermelhada, com estranhas protuberâncias faciais e um corpo longilíneo... bom, em resumo, é a besta do inferno.

Os guerreiros da pacata tribo jemokyá pegam suas flechas e estilingues doados pela Funai e avançam contra o monstro. Após um momento de estupefação, o pajé grita:

Jurupari! É Jurupari!

Os índios entreolham-se e ficam desesperados. Não há força no mundo que seja capaz de derrotar Jurupari. O pajé começa a entoar cânticos de louvor a Tupã, implorando para que ele apareça. Então, ouve-se um estrondo: é Lobo que chega fazendo grande barulho com sua moto.

— Louvado seja Tupã, que ouviu nosso chamado e veio nos defender! — festeja o pajé.

— Fogo... Fogo...

— Quem está aí? — resmunga Fogo, ainda desacordada — Quem é você? Me ajude, por favor, a pegar aqueles dois...

— Fogo... vou lhe ajudar... mas me ouça...

— Que sensação de déjà vu...

— Acorde logo, Fogo.

— Sr. Destino...

— O soco daquela fera fez com que você desmaiasse.

— Meu Deus! Ainda estamos em Brasília! Para onde aqueles dois foram?

— Calma. Já descobri o que precisava sobre as intenções daquele demônio.

— Aquele troço mirradinho era um demônio?

— Sim. E muito poderoso.

— Você então pode finalmente me explicar o que está acontecendo?

— Minhas suspeitas tinham fundamento. Esse demônio é um enviado de Casaveque, um aprendiz de magia arcana que quer se tornar muito poderoso... ele pretende trazer de volta à vida o ser supremo que governará o planeta. Há muitos e muitos anos...

— É realmente necessário você me contar toda a história?

— Cale-se! Há muitos e muitos anos, ainda no século XIX, foi criada aqui no Brasil uma seita que fundiu conceitos de pajelança, candomblé, rituais nórdicos e dogmas judaico-cristãos...

— Meio esquizofrênico...

— Cale-se! Essa seita, denominada por seus seguidores de Salamanta, surgiu no Rio de Janeiro depois que um homem envolvido com magia negra encontrou escrituras manuscritas em um estranho alfabeto. Depois de muitos anos de estudo, ele conseguiu traduzir as inscrições, que diziam aproximadamente: "o monstro branco de fora do planeta lutará com o monstro vermelho de dentro do planeta e ressuscitará Abá Angaipaba Oçu-Eté"...

— Esse é o tal ser supremo?

— Exato. Ele é um deus indígena muito antigo que foi morto graças à união dos pajés de todas as tribos tupi antes do descobrimento da América. Sua alma foi dividida em cinco partes, posteriormente espalhadas pelo território brasileiro em pontos místicos...

— Que, por coincidência, viraram pontos turísticos...

— Cale-se! Após anos de estudo, os líderes dessa seita conseguiram descobrir os cinco pontos nos quais os pedaços da alma de Abá Angaipaba Oçu-Eté estavam sepultados e resolveram seguir os desígnios das escrituras. Casaveque invocou um poderoso demônio chamado Etrigan...

— Esse eu conheço!

— Cale-se! Ele invocou Etrigan para solicitar esclarecimentos sobre as escrituras. O demônio então enviou um diabo de baixa posição na escala infernal, porém com grande força, que seria o "monstro vermelho de dentro do planeta", ou seja, do inferno.

— E Lobo?

— Etrigan conhece a força de Lobo e imaginou que ele poderia ser o "monstro branco de fora do planeta".

— E você descobriu isso tudo lendo a mente do capeta em poucos minutos?

— Cale-se! Infelizmente, não sei onde os dois monstros estão agora, mas descobri na mente do demônio a localização da quinta parte da alma. Devemos agora seguir para este local, sob o qual foi construído o templo dos salamantes.

— Nomezinho estranho...

— Cale-se!

Na tribo Jemokyá, Tupã e Jurupari... quer dizer... Lobo e a besta do inferno continuam lutando. Os socos do Maioral, cada vez mais cansado (e mais irritado), surtem pouco efeito no demônio. O pajé diz para o covarde cacique Mopituba ordenar que os guerreiros atirem contra o demônio, que ele acredita piamente ser Jurupari.

As flechas não conseguem penetrar no corpo endurecido da besta. Lobo, gritando, xinga os índios, afirmando que se eles continuarem se intrometendo serão os próximos a serem desfragados. Claro que ninguém entende nada, já que ele fala em inglês.

O pequeno índio Tepoti se aproxima então do pajé e o questiona:

— O senhor não falou uma vez que tem contato com os espíritos da terra e do ar?

— Sim, curumim, mas no que isso poderia nos ajudar?

— Eu pensei que talvez o senhor pudesse pedir para esses espíritos mandarem Jurupari de volta ao mundo dos sonhos e pesadelos.

— Talvez isso possa dar certo... rápido, pegue uma das flechas caídas e leve até minha oca.

Tepoti corre para o meio do campo de batalha e corajosamente pega uma das flechas. Quando chega à oca do pajé, vê o curandeiro preparando um ritual misterioso. De repente, um espírito alvo com profundos olhos negros surge e pega a flecha da mão do menino.

O pajé sorri e, com um gesto, solicita a Tepoti que ele ajoelhe-se em silêncio. O curumim obedece, ainda assustado, e tem a chance de ver esse espírito lançar um pouco de areia sobre a flecha, que adquire um brilho fortemente esverdeado pouco antes de ser devolvida ao pajé.

— Tepoti. — chama o idoso curandeiro — Entregue essa flecha ao melhor arqueiro da tribo e o diga para atingir Tupã.

— Como? O senhor quer matar Tupã?

— Não. Essa flecha contém a energia do mundo dos sonhos oferecida por seu próprio deus. Tupã irá adquirir poder para enviar Jurupari de volta para o lugar de onde veio e do qual nunca mais poderá sair.

Fogo vomita depois de mais uma viagem transdimensional.

— E eu que pensava que os teleportadores da Liga davam enjôo...

— Eles ainda não fizeram emergir a quarta parte da alma do ser supremo. Não sinto ainda sua força.

— Onde estamos?

— Tem uma placa logo ali.

— "Bem-vindos a Recife"... Legal! Adoro o Nordeste!

— Vou procurar pelo templo dos salamantes. Fique por perto pois teremos pouco tempo para derrotar Casaveque antes que o espírito de Abá Angaipaba Oçu-Eté esteja novamente entre nós.

— OK. Já que quando saí do Rio não tive tempo de trocar de roupa, ainda estou de biquíni. É só eu "desligar" minha forma de fogo verde que posso ir à praia. Até mais...

Catupiri é o mais experiente guerreiro da tribo Jemokyá. Ele pega a flecha de luz verde entregue por Tepoti e mira em Lobo. Ele fica apreensivo, pois tem medo de lançar a flecha contra Tupã e matá-lo, mas acredita que o pajé não faria nada que ferisse o deus.

A flecha mágica atinge em cheio o braço de Lobo. Ele dá um horrendo grito e começa a soltar raios verdes por todo seu corpo. O demônio fica apavorado. Lobo esquece a dor e volta a se concentrar em seu inimigo, sem perceber o olhar de terror que agora a besta do inferno possui.

Assim que dá um soco no demônio, o chão treme, gerando um buraco no meio da tribo, do qual emerge uma espécie de fantasma, exatamente igual aos do Maracanã, do MASP e de Brasília, que em pouco tempo some.

Com o soco, a besta do inferno fica coberta pela luz verde que rodeava Lobo. Soltando um grito de dor, o demônio desaparece para sempre. Lobo fica sem entender nada, até que o pajé se aproxima dele e diz:

— Tupã, nós agradecemos seu auxílio em nos defender de Jurupari. Somos muito gratos a você e ao deus dos sonhos que alimentou a flecha com sua luz.

Lobo não entende nada, já que não sabe falar tupi, mas percebe que aqueles índios têm alguma coisa a ver com a flecha iluminada que tirou dele o gostinho de matar seu inimigo.

— Seus filhos duma galinha marciana! Eu vou detonar com vocês! Fiquei o universo inteiro correndo atrás daquele sacana pra acabar com ele e vocês me tiraram esse prazer!

Os índios não entendem nada, já que também não sabem falar inglês, mas percebem que Tupã pretende fazer algo não muito agradável com eles e fogem para o meio da floresta.

— Não vou perder tempo com esses cagões! — conclui Lobo — Talvez eu dê uma porradinha no Super-Homem só pra não perder a viagem até a Terra e relaxar meu ódio... Péra aí... tô lembrando agora... aquele cara verde que eu porrei na última parada. Tô sentindo seu cheiro em outro lugar... ainda deve estar vivo...

Lobo monta em sua SpazFarg666 e segue seu poderoso olfato na direção do tal cara verde que, na realidade, é nossa heroína Fogo. Ele não sabe de quem se trata porque quando a confrontou, Fogo estava envolta em seu fogo verde (por falar nisso, sabia que é por esse motivo que ela tem esse nome?).


No próximo capítulo:

— Uma visita à cidade de Recife! (Bom, na verdade os únicos cenários serão uma praia aleatória, um ponto turístico aleatório e um local totalmente inventado...)

— Um final para a saga tupiniquim de Lobo! (Bom, na verdade nos referimos especificamente a essa história, já que nada impede que ele volte ao Brasil no futuro em outras sagas...)

— O fim dessas frases bobas em "no próximo capítulo"! (Bom, na verdade ainda vamos ter alguns "no próximo capítulo", mesmo acabando esse arco de histórias, já que precisamos que os nossos queridos, adorados e inteligentes leitores continuem acompanhando as aventuras do maioral...)


:: Notas do Autor

(*) Pajé é uma espécie de curandeiro e guia espiritual das tribos indígenas. Costuma ser uma pessoa com muitos conhecimentos místicos. Hyperfan também é cultura!

(**) Tupã é o deus indígena do trovão. Quando os portugueses catequizaram os índios, associaram sua figura à de Deus. Hyperfan também é cultura!

(***) Jurupari é uma entidade sobrenatural que aparece nos pesadelos dos índios. Hyperfan também é cultura!

(****) Curumim é a denominação dada às crianças índias. Eu sei que Hyperfan também é cultura, mas essa foi a última observação! Da próxima vez, olha no Aurélio!

(*****) Eu falei que não ia explicar mais nada...



 
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