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Lobo # 15

Por Lucio Luiz

Laços de Família

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Prólogo

No vazio do espaço sideral, um ser contempla doces figuras que agem como se estivessem nadando no vácuo. Os golfinhos espaciais são as criaturas mais doces do universo e têm como seu principal protetor, ironicamente, a criatura mais perigosa do universo: Lobo.

Ninguém jamais teve coragem de chegar perto o suficiente do último czarniano para saber o motivo de ele dedicar o único milímetro de amor que existe em seu coração para seus golfinhos espaciais, que ele chama carinhosamente de "peixinhos". Todos sabem que golfinhos, mesmo os espaciais, são mamíferos, mas ninguém jamais teve coragem para corrigí-lo.

Lobo já teve família, é lógico. Mas por pouco tempo. Ainda pequeno, seus pais se isolaram do mundo pela vergonha de terem trazido à vida tal monstruosidade. Como todos já sabem, aos dezoito anos Lobo chacinou todo seu planeta, impedindo qualquer possibilidade de ter ainda algum parente vivo.

Contudo, em seus mais de 400 anos de vida, Lobo teve (e ainda tem) uma vida sexual ativa. Quase todos os tipos de ETs fêmeas já passaram pela cama do maioral. Os mistérios que regem o universo permitem que determinados tipos de alienígenas consigam cruzar seus DNAs para o surgimento de filhos multirraciais e, curiosamente, o DNA czarniano é compatível com muitos outros.

Os "bastardos de Lobo", como são conhecidos os resultados desastrados de noites de amor, quando sobrevivem ao nascimento, mantêm um estigma terrível na sociedade, sendo verdadeiros párias. Há alguns anos, milhares deles se reuniram sob o comando de Su Leh-Mon para matar seu pai. Logicamente, falharam e morreram, sem Lobo sequer ter idéia de que eles eram seus filhos. (*)

Su Leh-Mon era uma das "bastardas de Lobo". A mais parecida com o pai, diga-se de passagem, já que travou uma batalha titânica com ele e faleceu. Ao menos aparentemente...

BIP-BIP

Nova mensagem no computador.

Um caçador de recompensas decente costuma receber boa parte de seus contratos através de máquinas modernas. Desde que desenvolveram a rede intergalática de computadores, ficou mais fácil descobrir pessoas para matar e ganhar um dinheirinho com isso.

Lobo ainda prefere as agências de caçadores de recompensas, mas isso não o impede de receber contratos interessantes por meios eletrônicos. O único ponto que ele não gosta nesse fato é de não ter contato direto com o contratante, o que o permitiria conhecer o cheiro da pessoa e, com isso, evitar eventuais quebras de contrato.

Mesmo assim, ele confere a mensagem que acabou de chegar.

De: Losun Hem (losunhem@iarru.pqp)
Para: Lobo, o Maioral (lobo_maioral@istbesta.fdp)
Assunto: Novo contrato
Desejo contratar seus serviços para caçar um homem responsável pelo assassinato de seus mais de 500 filhos. O contrato vale quatrocentos mil créditos. Metade do dinheiro já foi depositado em sua conta como adiantamento, mesmo que não aceite o contrato. Você poderá encontrar seu alvo em um castelo no quadrante 5B do planeta Zaxxon, na galáxia Gheym.


— O imbecil esqueceu de botar o nome do cara! — pensa Lobo, após ler a mensagem — Não faz mal. Eu destroço todo mundo que estiver por lá e tá tudo bem.

De: Lobo, o Maioral (lobo_maioral@istbesta.fdp)
Para: Losun Hem (losunhem@iarru.pqp)
Assunto: RE: Novo contrato
O kontrátu tá assêito. Pódi colocá o resto da pôrra da grana na comta.


— Aquele idiota semi-analfabeto caiu na minha armadilha. — pensa um ser misterioso que será conhecido no final deste capítulo — Agora é só aguardá-lo e me divertir assistindo sua destruição.

O planeta Zaxxon não é habitado. Conta apenas com um enorme castelo construído por uma civilização muito antiga. Lendas detalham que os antigos zaxxonianos foram responsáveis por sua própria destruição quando, séculos atrás, descobriram um método de trazer à vida os sonhos das crianças e adolescentes. Porém os experimentos saíram do controle e todos os pais, e depois as próprias crianças, morreram vítimas de monstros criados pela mente fértil de seus filhos a partir dos programas da TV e histórias em quadrinhos que adoravam.

Lobo ignora esse fato e, mesmo que soubesse, não se preocuparia com isso. Seu único interesse é encontrar o tal assassino e ganhar sua recompensa. Seu destino é exatamente o misterioso castelo.

Assim que estaciona sua moto, Lobo olha para o castelo, que tem aproximadamente 150 metros de altura. Ele tenta abrir a porta, mas ela não se move. Lobo então utiliza as bombas de sua moto para explodí-la mas, assim que a porta vem abaixo, cinco monstros, parecidos com dobermanns gigantes azuis, o atacam.

Lobo é pego de surpresa pelos animais, que o mordem incessantemente. Com seu gancho, ele consegue arrancar a cabeça de dois e pega rapidamente a metralhadora que está na garupa da moto. Os outros três cães gigantes o jogam para dentro do castelo e, misteriosamente, assim que entram no ambiente, uma nova porta de ferro surge, fechando a saída.

Um dos monstros morde o traseiro de Lobo, arrancando um grande pedaço da nádega direita. Lobo fica extremamente irritado e começa a atirar nas criaturas com sua metralhadora. Dois monstros morrem, mas o que mordeu o bumbum do maioral consegue fugir, ainda ferido. Ele tenta perseguí-lo, mas resolve deixá-lo para depois, pois prefere primeiro matar o assassino que veio caçar.

— Previsível, como sempre. — continua monologando o ser misterioso — Agora poderei acompanhar todos os passos de Lobo com as câmeras que espalhei no castelo. Ele nem pode imaginar o que lhe espera depois desse corredor...

Lobo estranha a grande iluminação do antigo castelo, mas não se preocupa com o fato. Ele continua entrando por todas as portas que vê na esperança de encontrar alguém. Após cruzar um apertado corredor, ouve vozes e acredita que finalmente encontrou quem procura.

Abrindo violentamente a porta que esconde as vozes, Lobo depara-se com um grupo de vinte Barbies gigantes. Ele olha para as louras e inicialmente pensa tratarem-se de mulheres de verdade.

— E aí, gatinhas! Eu tô procurando um filho da mãe por aqui, mas posso dar uma paradinha pra agradar as moças. Quem quer ser a primeira a ter contato íntimo com o Lobinho, hein?

Todas as bonecas avançam sobre Lobo, que com um rápido golpe de seu gancho as destrói. Ele observa os componentes mecânicos no interior dos autômatos e garante que vai fazer em pedacinhos quem tentou enganá-lo. Seus pensamentos são interrompidos apenas quando uma mão peluda gigante o agarra e ergue seu corpo.

— Porra! Um ursinho de pelúcia gigante! O que mais tenho que aturar?

— Eu amo você! — a voz mecânica sai do robô.

— E esse troço ainda fala... ei, peraí, tu tá me esmagando!! — Lobo tenta escapar das mãos do ursinho de pelúcia, que o leva até seu peito num abraço carinhoso.

— Você quer ser meu amigo?

— Vai tomar no curto-circuito, seu robô idiota!

— Eu gosto de você.

Aaaaaargh!

Num gesto desesperado, Lobo começa a dar cabeçadas no urso de pelúcia gigante. Quando já está meio tonto, consegue finalmente quebrar a casca dura que protegia os circuitos positrônicos do robô.

— Pensei que o urso daria mais trabalho para ele, mas não tem problema. Minha próxima criação conseguirá amolecê-lo um pouco mais antes da cartada final. Esses zaxxonianos realmente criaram máquinas maravilhosas. Minha imaginação pôde funcionar livremente depois que descobri como fazer com que os monstros me obedecessem!

Lobo ainda está um pouco tonto após usar a cabeça, literalmente, contra o ursinho de pelúcia gigante. Mesmo assim segue adiante, guiado por um som muito baixo que consegue perceber que está vindo do andar de cima do castelo.

Sem muita paciência para novos robôs ou monstros, Lobo sobe as escadas de pedra torcendo para esse som ser da pessoa que ele precisa matar para que assim possa cumprir o contrato e ir logo embora do planeta. Abrindo a porta, porém, Lobo dá de cara com quatro rapazes com roupas estranhas que cantam uma música esquisita cuja letra manda que ninguém se reprima.

Não querendo conversa, Lobo pula em cima dos rapazes para matá-los e fazer com que a música infernal pare. Um deles ainda tenta conversar.

— Calma, señor! Nosotros somos del planeta Menuddus y la dueña del castielo contratou a nosotros para cantarmos acá.

— Quero ver é tu cantar sem dente!

— Pero... nuestra música és sensasional... no se reprima...

— Pára com esse barulho que a minha cabeça tá estourando!

Desesperado com sua dor de cabeça, Lobo gasta o resto da munição de sua metralhadora para destruir os rapazes.

— Perfeito. Ele não está mais se agüentando em pé. Acho que nem precisarei utilizar minha arma secreta, já posso enviar meu emissário final!

— Que porra é essa?

Um robozinho pequenininho e bonitinho se aproxima de Lobo e pergunta com sua voz mecânica:

— Você quer brincar?

— Eu vou é te dar um pisão, sua lata velha!

— Eu sei onde está quem você procura.

— Ah, então primeiro tu me fala e depois te detono.

— Só se você brincar.

— Olha, não tô com saco pra robozinho babaca.

— É só um joguinho de perguntas.

— Falou. Tô cheio de dor de cabeça mesmo. Se eu te responder, tu me fala logo onde tá o infeliz que eu vim caçar?

— Sim.

— Então, mete bronca.

— Como se chama a pessoa que mata seus próprios filhos?

— Ah, essa é mole. Adoro essa palavrinha: infanticida!

— Muito bem. Segunda pergunta.

— Ei, tu vai fazer quantas perguntas?

— Apenas mais duas.

— Anda logo que eu tô com pressa.

— O que acontece quando um czarniano leva um tiro na cabeça?

— Eu sou o único czarniano vivo e sei que um tiro não me mata. Minha alma, ou seja lá o que for, volta pro meu corpo na hora.

— Muito bem. Última pergunta: Qual é a única forma de matar um czarniano?

— Isso não é mistério. Um czarniano só morre de vez com desintegração total, porque aí não tem um corpo pro qual voltar.

— Muito bem. Agora seu prêmio.

— Ops...

Assim que termina de falar, o robozinho abre sua cabeça e de lá sai uma enorme pistola de raios que atinge Lobo em cheio e o desintegra totalmente, não restando um único milímetro de corpo.

Das sombras, surge o ser que conversava consigo mesmo desde o início da história e que foi responsável por enganar o maioral, enviando um falso contrato e preparando as armadilhas no castelo: Su Leh-Mon!

— Adeus, papai! Dessa vez consegui livrar o universo da sua presença de uma vez por todas!


No próximo capítulo:

— Lobo versus Desafiador!
— Lobo versus Etrigan!
— Lobo versus Espectro!


:: Notas do autor

(*) Parte desses acontecimentos foram mostrados na minissérie "Lobo: Infanticídio", publicada pela editora Tudo em Quadrinhos em 1999. voltar ao texto



 
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