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Lobo # 16

Por Lucio Luiz

Aqui Jaz...

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Os czarnianos eram um povo muito peculiar. Eles viviam na mais completa paz, não havia doenças, não havia dor. A morte para um czarniano não era um estágio obrigatório, apenas uma opção para quem queria uma alternativa a uma vida quase eterna.

Um dia, porém, como numa piada de gosto duvidoso do destino, nasceu no adorável planeta Czárnia o monstro conhecido como Lobo. Ele foi capaz de criar uma colônia de insetos que levou a morte a todos os habitantes, exceto a si mesmo.

À capacidade natural dos czarnianos de escapar da morte, como a autoclonagem a partir de uma única gosta de sangue, Lobo adicionou uma espécie de "acordo" com o mundo dos falecidos, o que o garantiu uma vida definitivamente eterna. Enquanto houvesse um único pedaço de unha ou pêlo encravado com sua carga genética, ele poderia voltar indefinidamente à vida.

Mas, pelo visto, nem a vida eterna é perene. Lobo encontrou em Su Leh-Mon, sua própria filha bastarda, seu algoz definitivo. Ela conseguiu elaborar uma trama perfeita para eliminar o maioral do universo de uma vez por todas: desintegrando-o sem deixar sobrar sequer as cinzas de seu corpo para contar a história.

Sem poder fazer nada, a alma de Lobo observa aquela mulher que a grande maioria do universo pode chamar de heroína. Ele não lembra muito bem quem é ela, mas isso não muda o fato de ele estar imbuído de um sentimento de ódio extremo. Para seu azar, sua condição de espírito o impede de atacá-la e só resta a ele procurar alguma parte de seu corpo para voltar à vida, mas não há nada.

"Essa vaca conseguiu me enganar!" — pensa Lobo — "Mas eu tenho que achar um jeito de voltar pra detonar com essa filha da... filha da..."

— Lobo... — uma voz chama pelo recém-falecido czarniano.

— Quem é você, ô branquelo?

— Muitas pessoas me chamam de Desafiador, mas você pode me chamar de Boston. Estou aqui para encaminhá-lo para o além-vida.

— Enfia esse além-vida no meio do teu... do teu... pô! Não consigo falar nenhum palavrão!

— Infelizmente, sua condição de alma errante não permite que você fale palavrão. Agora deixa de palhaçada e vem comigo para a Luz.

— Que mané Luz o quê, seu fantasma imbecil! Me leva de volta pra vida que eu ainda tenho umas contas pra acertar!

— Não leva a mal, mas eu não sou desses "guias espirituais" cheios de paciência. Dá pra ser ou tá difícil?

Lobo agarra Desafiador pelo pescoço e começa a balançá-lo, exigindo que ele arrume um jeito de ele voltar a seu corpo. Apesar de ser um espírito, Boston Brand experimenta a dor novamente, depois de muito tempo. Com dificuldade, ele consegue escapar da mão de Lobo e o ameaça.

— Você devia ter vindo comigo numa boa. Agora vou ter que chamar um dos pesos-pesados pra vir te pegar. Depois, não vá reclamar.

— Não enche, seu filhote de khúndia remelenta. Ninguém era páreo pro maioral na vida e ninguém vai ser páreo pro maioral na morte.

— Se pensas desta forma, criatura vil e malsã! Tu perderás tua empáfia diante de Etrigan! — diz uma criatura recém-chegada.

— Caraca! É o boiola que faz rimas!

— Conheço-te muito bem: tu achavas que era eterno! Agora queimarás eternamente nas chamas do Inferno!

— Isso aí é um peso-pesado? Detono esse mané em dois minutos, pode contar.

Num local além da compreensão humana, cinco figuras solenes observam tudo o que acontece no universo. São seres poderosos que se reúnem de vez em quando para bater um papinho sobre os problemas cósmicos que afetam a realidade. São conhecidos como a Quintessência!

— O monstro branco morreu. — diz Ganthet, um dos Guardiões criadores do Lanternas Verdes.

— Que monstro branco, amigo azul? — questiona Odin, supremo deus nórdico.

— Lobo. O monstro que possuía a dádiva a imortalidade.

— Conheço a criatura. Certa vez chegou a confrontar Darkseid. — explica Pai Celestial, o chefão dos novos deuses de Nova Gênese.

— Ele também já batalhou certa vez com a Mulher-Maravilha. — acrescenta Zeus, o deus grego (que também é romano, tendo o nome de Júpiter, mas são apenas detalhes...).

— Que importa? — questiona veementemente o Tribunal Vivo, um cara amarelo de várias faces que serve de... digamos... tribunal vivo para questões do universo.

— É que sua morte abala as estruturas do universo, pois sua imortalidade foi concedida exatamente para que ele não destruísse o além-vida! — explica Ganthet.

— E o que podemos fazer? — pergunta Odin.

— Nada, ué. Nós só aparecemos para servir de interlúdio. Alguma vez nossas conversas já tiveram alguma utilidade prática?

— Realmente. — pondera Zeus — Apenas conversamos, conversamos, e sempre chegamos à conclusão de que não devemos nos intrometer nos assuntos mortais. Ou imortais, como é o caso desse. Às vezes mandamos o Espectro observar os acontecimentos, mas ele também não é muito de se intrometer.

— Bem que eu disse que valeria a pena convidarmos Galactus para fazer parte da Quintessência, pois ele poderia desenvolver algo prático! — comenta Ganthet.

— Mas ele só está preocupado em lanchar seus planetas. — afirma o Pai Celestial — Mas se você acha tão importantes "resultados práticos", por que não manda um de seus Lanternas Verdes atuar de forma direta nos conflitos?

— Cessem essa discussão tola! — interrompe Tribunal Vivo — É lógico que a Quintessência possui sua utilidade no âmbito cósmico! Nós analisamos os fatos e trazemos à luz problemas de difícil solução!

— E depois? — pergunta Odin.

— Depois conversamos sobre isso e sempre chegamos a conclusão de que não devemos nos intrometer. Por sinal, quanto a esse assunto de Lobo ter morrido, acredito que não devamos nos intrometer. Sugiro que nos limitemos a enviar Espectro para conferir o que está acontecendo. Todos concordam?

— Sim. — respondem em uníssono os outros quatro membros da Quintessência.

— Então, está encerrada esta sessão. Peço a licença de vocês porque tenho alguns casos importantes para julgar.

— E eu tenho que fazer uma palestra para alguns ex-Lanternas Verdes no setor 1746. — lembra Ganthet.

— A Fonte me chama. Devo ir. — diz Pai Celestial.

— E aí, Zeus? — pergunta Odin — Que tal uma partida de pôquer em Valhalla?

— Sem problemas, desde que você não convide o Loki. Ele ganha todas...

Etrigan cospe fogo na direção de Lobo. Quando ainda possuía um corpo, o maioral costumava ficar bastante afetado pelas chamas de seu amigo/inimigo demoníaco, embora isso não o machucasse demais. Agora, porém, que é composto por ectoplasma, o fogo infernal de Etrigan tem um efeito extremamente maior.

Tonto pela reação inesperada de dor que sofre, Lobo dá um grito de ira e avança contra o demônio. Os dois se engalfinham num mano-a-mano. Apesar de terem força equivalente, a vantagem está com Etrigan, pois este luta em seu próprio mundo.

Lobo não está preocupado com o fato do demônio parecer confiante. Ele continua socando seu adversário incansavelmente e sente que está tendo resultado, pois a face do demônio rimador mostra-se cada vez mais irada.

Etrigan tenta segurar o pescoço de Lobo para rasgar sua alma em duas, mas o czarniano é mais rápido e enfia seu braço dentro da garganta do pobre diabo. Etrigan tenta cuspir fogo novamente em Lobo, mas acaba engasgando.

Lobo aproveita que Etrigan está tentando recuperar o fôlego e volta a socá-lo sem parar, até que o demônio cai inconsciente. Desafiador, que observava a tudo de uma distância segura, fica sem saber o que fazer, mas sorri quando percebe o emissário que a Quintessência enviou para aquele local: Espectro.

— Pare, besta!

— Tá falando comigo, ô de verde?

No planeta Zaxxon, uma enorme festa começa, embora apenas uma pessoa esteja presente. Su Leh-Mon está bebendo loucamente, repleta de felicidade, pois o maior objetivo de sua vida fora cumprido: ela matou seu pai, Lobo.

Su nunca imaginou que conseguiria matar Lobo tão facilmente. Ela tinha ainda uma carta na manga, que imaginou que seria necessária antes do golpe final. Mas seus "bichinhos" funcionaram tão bem que ela pôde lançar o robozinho desintegrador sem problemas (*).

Agora nada mais a impedirá de conquistar o universo e se vingar de todos aqueles que se regozijaram com seu corpo quando ela era a prostituta mais cara do universo. Ela sabia que o maior desejo de todos era foder com Lobo e, como não dava para fazer isso diretamente, utilizavam sua filha para isso.

Definitivamente, a alegria emana por todas as partes do grande castelo de Zaxxon.

— Ouça-me, Lobo. — declara o Espectro — Sua hora chegou e você tem que aceitar seu destino.

— Vá pra... pra... vá catar coquinho, sua bichinha.

— Ignóbil! Não sabe com quem fala! Sou o Espectro, o agente da Vontade de Deus! Meu poder é incomensurável!

— Tô me borrando. — debocha Lobo — Ah, vai tomar banho!

Espectro torna-se um gigante e com seu poder segura Lobo em um casulo de pura energia.

— Qualé, babaca? Não tem coragem de encarar o maioral aqui num mano-a-mano?

— Suas palavras apenas reforçam a podridão de sua alma. Você tem uma última chance de arrependimento antes que eu decida qual será seu castigo.

— Castigo? Não enche o saco, cara. Tu fica cheio de viadagem com essa roupinha verde e essa voz grossa, mas não deve passar de um pau-mandado filho da mãe.

— Você matou milhões de almas.

— Só neguinho que merecia morrer.

— Mentira! Mais da metade foram almas inocentes cujas vidas não precisavam ser ceifadas!

— E o quico?

— Quico?

— O "quico" eu tenho a ver com isso?

— Basta! Sua existência no universo perdeu o sentido! Você destruiu mais vidas do que deveria! Agora enfrentará todos aqueles que trouxe para cá!

— Não entendi.

— Você entenderá! Agora vá!

Espectro lança Lobo por um portal iluminado. O czarniano cai em um local amplo, com rios límpidos e um céu estranhamente róseo. Olhando para a frente, ele vê ao longe milhões de pessoas se aproximando.

Em outro lugar...

— Senhor, por favor, isso já está fora de controle.

Calma, meu bom guardião. Sei que teu desejo é nobre, mas devemos dar a essa alma a oportunidade de pagar por seus pecados.

— Mas, Senhor, eu tenho certeza que Lobo conseguirá se salvar do castigo imputado pelo Espectro.

Esqueceste que Eu sei tudo? Esqueceste que Eu jamais permitiria a existência de uma alma como a de Lobo se não houvesse um Propósito Maior?

— Perdão, Senhor.

No momento devido, tu serás enviado para confrontar a fera.

— Obrigado.

Lobo está sozinho, nu e sem nenhum armamento no meio de um estranho local, no caminho entre o Céu e o Inferno. Sua maior preocupação no momento, contudo, não é saber onde se encontra, mas sim imaginar como brigar com as milhões de pessoas que estão cada vez mais próximas e que gritam palavras ofensivas, ameaçando-o com uma segunda morte.

Um olhar mais atento permite o reconhecimento de alguns rostos. Lobo recorda então que algumas dessas pessoas ele matou pessoalmente. Pensando bem, todos que estão na sua frente foram vítimas de sua violência.

"Pô, até que morrer tem um lado divertido!" — pensa o czarniano.

As almas que clamam por vingança alcançam em pouco tempo seu alvo. Lobo luta como pode, esquivando-se de socos e chutando todos locais passíveis de dor. Mesmo depois de mortas, as almas aparentemente continuam com a mesma sensibilidade que tinham em vida.

Quando estava vivo, lutar sozinho contra milhões de pessoas não seria uma dificuldade muito grande para Lobo. A única desvantagem nesse momento é a ausência de suas armas, além do fato de os adversários não morrerem, já que estão mortos mesmo.

De qualquer forma, Lobo retoma a ofensiva, mordendo e esticando os pedaços dos corpos dos seus perseguidores para com isso tentar desmembrá-los e, conseqüentemente, impedir que eles continuem avançando.

Sabemos que no além-vida o tempo não corre da mesma forma que no mundo dos vivos. Sorte de Lobo, que tem todo o tempo do mundo, literalmente, para derrotar seus adversários.

Em Zaxxon, sem saber das dificuldades pelas quais a alma de seu odiado está passando, Su Leh-Mon brinca com o dobermann gigante azul que escapou da ira de Lobo após a primeira batalha do czarniano no castelo que o reapresentou à morte.

— É, cãozinho, eu sei que tive que enviar você e seus irmãos para a morte certa, mas foi por uma boa causa. Como compensação, vou te dar uma casinha e você será meu cão de guarda.

— Au au.

Após séculos de luta, que não passaram de apenas um segundo para a realidade viva, Lobo destroça o corpo do último de seus inimigos e grita no meio da imensidão:

E aí? Cês não têm nada melhor pra mandar?

— Cale-se, infeliz! — surge, vindo sabe-se lá de onde, mais um adversário para Lobo — Fui obrigado a agüentar durante muito tempo sua violência desmedida!

— Não acredito. Tu é o Goldstar? Aquele babaca metida a super-herói que gosta daquelas coisas de viadinho, tipo bondade e justiça?

— Isso mesmo, Lobo. Sou Goldstar, o mais bonzinho dos heróis bonzinhos. E agora, serei seu destruidor! Prepare-se para sofrer!

— Essa eu quero ver...


No próximo capítulo:

— Lobo versus Goldstar!
— Lobo versus O Criador!
— Lobo versus... Pikachu???


:: Notas do Autor

(*) Esse é um resumo bem sintético dos acontecimentos que levaram à morte de Lobo no capítulo anterior. voltar ao texto



 
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