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Lobo # 17

Por Lucio Luiz

Em Nome do Pai

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O maior adversário de Lobo, seu verdadeiro nêmesis, não é o Super-Homem. O czarniano odeia o conceito de super-herói bonzinho que tem no kryptoniano um grande representante, mas nenhum ser do universo o irrita mais do que Goldstar.

Goldstar sempre foi o mais perfeito exemplo de bondade extremada do universo. Natural do planeta Harmonia, Goldstar defendia a bondade e a paz utilizando seus poderes ímpares, como o raio de complexo de culpa, que faz os vilões perceberem a maldade de seus atos e arrependerem-se.

Lobo nunca perdeu uma oportunidade de sacanear Goldstar, embora não fizesse nenhuma questão de sua presença. Por isso mesmo, Lobo espanta-se ao ver seu grande inimigo no além-vida (para quem não lembra dos capítulos anteriores, Lobo está morto e sua alma não encontra nem dá descanso para ninguém):

— Ei, boiola, que é que tu tá fazendo aqui na terra dos defuntos?

— Meu nome é Goldstar, seu mentecapto. Respeite-me.

— Ah, não enche o saco, seu monte de... seu babaca.

— Não consegue falar os palavrões que tanto adora, não é?

— Vou te detonar agora mesmo!

Lobo parte com ferocidade na direção de Goldstar, que, sem se mover, lança um raio cor-de-rosa na direção do czarniano, que fica momentaneamente atordoado.

— Que droga é essa?

— Após meu falecimento (*), fui elevado à categoria de arcanjo graças a todos os atos de bondade que pratiquei durante minha curta porém proveitosa vida. Em pouco tempo, fui alçado à categoria de anjo de segurança, guardião particular do Criador. Meus poderes agora são incomensuráveis.

— Qualé, babaca. Tu tá me dizendo que o tal Todo-Poderoso precisa de um viadinho que nem tu pra guardar o rabo dele?

— Meça suas palavras! Minha ira será divina se você continuar proferindo esses impropérios contra Aquele que criou a todos nós!

— Esse raiozinho de boiola não vai me segurar!

Com todas as forças que consegue reunir, Lobo avança lentamente na direção de Goldstar e percebe que o antigo herói agora tem duas asas gigantes no lugar da capa.

— Não acredito! Agora a bicha tem asinhas!

— Cale-se, ser demoníaco! Utilizarei todas as minhas forças para mandá-lo ao seu verdadeiro destino no além-vida!

Goldstar concentra-se e lança o mais poderoso raio de culpa que consegue. Lobo começa a pensar nas pessoas em que matou, nos habitantes de Czárnia, em seus milhares de atos perniciosos e fica perto de se sentir, pela primeira vez, culpado.

— O que... o que tu tá fazendo, seu filhote de skrull bêbado?

— Meu poder de mostrar a culpa para as pessoas está ampliado a limites inimagináveis. Até uma fera como você não é capaz de resistir.

— Todos que eu matei... — Lobo quase fraqueja — Desde quando eu ligo para isso...?

— Sua violência desmedida será sua própria desgraça! Ninguém com um coração sem espaço para pureza de sentimentos consegue escapar de meu poder! Como sua alma é podre e não é capaz de sentir amor, você será derrotado em pouco tempo!

— Amor...? Qualé, tá me estranhando...? Peraí... meus peixinhos... é isso aí... — ao lembrar de seus golfinhos espaciais, Lobo volta a erguer-se contra o poder de Goldstar — Que se dane todo mundo que eu matei, estraçalhei, mutilei, aleijei e detonei! Tô cagando pra essa tal de culpa! — Lobo se aproxima cada vez mais rapidamente de Goldstar, que já se mostra preocupado — Eu adoro meus peixinhos, aqueles bichinhos tão inocentes que precisam da minha proteção! Vou continuar matando o universo inteiro, não quero nem saber! E ainda vou aproveitar e arrancar as tuas penas!

Lobo segura Goldstar pelo pescoço. O herói não consegue demonstrar nenhuma reação, a não ser espanto e pavor. O czarniano começa a arrancar uma a uma as penas das asas do anjo de segurança, regozijando-se com cada "ai" proferido por seu inimigo.

No planeta Zaxxon, Su Leh-Mon dá uma tigela de ração e outra de água para o dobermann gigante azul que escapara de Lobo no primeiro ataque do plano que resultou na morte do caçador de recompensas. Sua festinha particular já acabou e ela agora se prepara para destruir os perigosos experimentos que criou para ajudar na derrota de seu pai.

Su acredita não fazer mais sentido manter vivas criaturas geneticamente manipuladas tão perigosas se já não existe mais o propósito que as trouxe à vida: atuar como "arma secreta" se Lobo não fosse derrotado pelo plano original.

Depois de largar um humilhado Goldstar num canto qualquer da Eternidade, Lobo começa a caminhar pela enorme planície que se apresenta diante de seus olhos. Ao mesmo tempo em que anda, Lobo grita, perguntando quando vão tirá-lo de lá, pois sua paciência já está no limite.

De repente, uma voz grave surge do alto de uma montanha.

Lobo, vinde a mim. Tenho a resposta para tuas angústias.

— Quem é que tá falando?

Estou aqui, nesta montanha. Escale-a com a força de teus braços e serás recompensado.

— Eu vou subir esse troço gigante. Mas se tu tiver me sacaneando, vou te fazer em pedacinhos!

Lobo inicia a escalada com alguma dificuldade. A estranha montanha é extremamente íngreme e tem poucos pontos de apoio. Depois de várias tentativas, Lobo finalmente consegue manter um ritmo constante na subida e, em poucas horas, chega ao cume da montanha.

— Cadê o cara que tava falando?

Estou aqui. Cubra teus olhos para não ficares cego diante de minha presença.

— Dá pra tu falar um pouco mais baixo e desligar essa luz aí?

Esta luz emana de mim, que sou a luz, a verdade e a vida.

— Caraca... então dá pra tu me dizer logo como eu vou voltar pro meu corpo?

Ainda resta uma esperança para ti. No início de tua jornada para os braços da morte, foste atacado por cinco feras malignas. Uma delas ainda possui um pedaço teu em seu ventre.

— Agora tô me lembrando... aquele cachorro engoliu um pedaço da minha bunda... Então eu tenho ainda um pedaço do meu corpo pra me regenerar!

Mas apressa-te, pois a criatura já iniciou o processo de digestão e, se não fores rápido, tua esperança cessará definitivamente. Siga este caminho que criei e logo chegarás ao mundo dos vivos novamente.

— Valeu, ô da luz.

Lobo salta sobre o caminho de luz e corre em direção a seu destino. Assim que está suficientemente distante, Goldstar, ainda cheio de dor, se aproxima do Criador e o questiona:

— Senhor, por que tu fizeste isso? Por que ofereceste a este ser maligno a chance de voltar à vida e continuar fazendo o mal a todos? Por acaso, tu não conseguirias derrotá-lo?

Tolo! Meu poder está além de qualquer compreensão! Se não ajo constantemente contra o mal é porque os seres vivos devem conquistar o bem por mérito próprio. Assim como todos os seres viventes, Lobo também é criação minha. Meus desígnios são perfeitos.

— Perdão, Senhor, eu sei que tu és a perfeição. Mas não compreendo como pudeste criar um ser que é puro mal...

O mal é apenas a ausência do bem. Como tu percebeste, mesmo num coração podre como o de Lobo há espaço para o amor, mesmo que em quantidade ínfima. Ainda preciso dele vivo.

— Mas... por quê?

Minha vontade está além de tua compreensão! Agora, afasta-te ou sofrerás a ira divina por desafiares o destino!

Goldstar afasta-se, cabisbaixo, prometendo a si mesmo que um dia desafiará novamente Lobo. Não faz a menor idéia de como isso será possível, já que não é da vontade de seu mestre, mas ele tem certeza de que Lobo não pode continuar vivo.

— Você é meu único amigo... snif! — Su Leh-Mon, um pouco bêbada, conversa com o dobermann gigante azul — Todo mundo me odeia porque eu sou filha daquele filho da mãe... agora ele está morto, mas continuarei sendo uma pária na sociedade...

— Au au.

— Você é legal... vou te dar um nome... Azulão... o que você acha? Azulão é um nome legal... e aí, Azulão, vamos brincar?

— Au... Auuuuu!

— Que foi, Azulão? O que está acontecendo com você? — Su assusta-se ao perceber que algo acontece no estômago de seu bichinho de estimação.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaau!

O grito derradeiro de Azulão é dado no mesmo momento em que Lobo surge de suas entranhas, erguendo-se de volta à vida a partir do pedaço de bumbum que o cachorro-monstro havia comido. Su fica apavorada ao ver a figura de seu terrível pai à sua frente, limpando-se do sangue do animal.

— Você... devia estar morto!

— Ah, lembrei de você. Tu era aquela bruaca que falou que era minha filha, né?

— Eu... — Su recupera sua calma e levanta do chão, desafiadora — Isso mesmo, seu monte de estrume! Sou sua filha! Aquela que você fez sofrer incontáveis noites quando me abandonou!

— Qualé, piranha? Nunca te abandonei. Nem sabia de tua existência. Na verdade, tô cagando pra tua existência. Foi você que fez isso tudo comigo?

— Sim, fui eu! E não acabou! Vou matá-lo!

— Tu assinou tua sentença de morte, vaca! Agora é você que não vai ter nenhum pedaço pra contar história!

— Seu filho da mãe! Ainda tenho uma carta na manga! Sorte minha que não destruí todas minhas experiências!

— Que mané experiências?

— Para dar um tom poético para minha vingança, pesquisei criaturas do imaginário infantil em milhares de planetas para encontrar as mais horripilantes e as criei modificando geneticamente alguns monstros. Destruí a grande maioria delas quando você morreu, mas mantive a mais perigosa e aterradora de todas.

— Até parece que um bichinho de criança vai meter medo no maioral. Não enche o saco e vem aqui pro papai dar palmada na tua bunda até sair sangue!

De um canto escuro, ouve-se uma voz fina pronunciando um som estridente:

— Pi... ka... chu...

— Que porra é essa? — assusta-se Lobo, ao ver um roedor amarelo gigante, com orelhas pontudas e dois círculos vermelhos nas bochechas, de onde partem raios.

— Essa é minha obra-prima! — explica Su — Ele tem poderes elétricos e sei que você não é lá grandes coisas contra eletricidade.

Lobo avança contra a estranha criatura e é derrubado com um choque que produz um grande barulho de trovão. A criatura continua lançando raios em cima de Lobo ao mesmo tempo em que pronuncia incessantemente o estranho cântico "Pi... ka... chu...".

Ainda tonto, Lobo pega a tigela de água do dobermann assassinado e joga na direção do monstro amarelo, que entra em curto-circuito e morre instantaneamente. Su não entende o que deu errado na experiência, mas prefere fugir ao invés de estudar o caso.

— Tu acha que escapa de mim? — diz Lobo, enquanto corre atrás de Su.

— Ainda tenho um último truque na manga!

— Não adianta, sua gosma de vômito azedo! Eu já conheço teu cheiro e posso te encontrar em qualquer canto do universo!

— Você é realmente previsível e muito dependente desse seu olfato de cachorro velho!

— Agora vou te estrangular pra aprender a respeitar os mais velhos!

Su entra rapidamente numa dos quartos do castelo e fecha a porta. Lobo tenta entrar, mas é surpreendido por uma explosão. Em seguida, ele vê que o quarto em que Su entrara na realidade era uma cápsula de fuga.

Lobo coloca seu faro para funcionar, mas estranha o fato de não conseguir reconhecer o cheiro de sua filha. Ele não sabe que Su havia se preparado para esta contingência criando um perfume especial que disfarça seu cheiro de forma tão forte que nem o faro de Lobo é capaz de encontrá-la.

Ainda no planeta Zaxxon, Lobo reflete sobre tudo o que aconteceu e chega a uma terrível conclusão:

— Porra, tô achando que não vou ganhar presente no dia dos pais...


Na próxima edição: Acampamento, fogueira, pescaria, urso faminto e piadas recicladas!


:: Notas do Autor

(*) É, sinto muito, Goldstar morreu. Foi em Lobo #44, nos Estados Unidos. Um dia a Brainstore publica essa história no Brasil (ou não). E, não, Lobo não teve nada a ver com sua morte. Ao menos, não diretamente. voltar ao texto



 
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