hyperfan  
 

Lobo # 21

Por Lucio Luiz

Lendas de Czárnia:
A Serpente no Éden

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Lobo
::
Outros Títulos

Dois habitantes do planeta Méquidonal, famoso por seus lanches rápidos à base de carne bovina interestelar, pousam sua nave num planeta deserto. Para todo lado, há apenas o vazio de um mundo que, há aproximadamente 400 anos, teve seus últimos momentos de vida.

Bârdii e Papaburgh, os dois alienígenas, visitavam esse quadrante espacial buscando um planeta habitado para a inauguração da 804567ª franquia do principal restaurante de lanches rápidos de Méquidonal quando pousam em caráter emergencial nesse planeta-fantasma.

— Papaburgh, por que paramos nesse planeta? — questiona Bârdii — Aqui não mora ninguém. Precisamos encontrar um lugar habitado para vender nossos alimentos.

— Eu sei Bârdii, mas é que aquele milk-shake de morangos apokoliptianos não me caiu bem e eu preciso ir atrás daquela moita para fazer minhas necessidades.

— Eu falei para consertar o banheiro da nave.

— Não enche e me arranja um pouco de papel-higiênico.

— Acabou...

— Caramba... Então procura por aí um pedaço qualquer de papel para eu me limpar. E anda logo, por favor!

Bârdii pensa em pegar algumas embalagens de papel na qual acondicionam os produtos do restaurante para os viajantes, porém lembra-se de que todas foram inutilizadas na última viagem, quando o suprimento de mostarda venusiana caiu sobre a caixa das embalagens.

Para ajudar seu amigo, Bârdii começa a procurar algum pedaço de papel pelo desconhecido planeta, embora tivesse sérias dúvidas de que ainda houvesse algo nesse local desolado. Contudo, sob uma pedra, Bârdii avista o que parece ser um pedaço de papel.

Ao levantar a pedra, Bârdii encontra uma carta, escrita num dialeto interlac antigo mas ainda compreensível. O papel é extremamente antigo, mas provavelmente foi mantido inteiro por alguma misteriosa propriedade da pedra sob o qual estava.

Enquanto caminha na direção de Papaburgh, Bârdii lê o curioso relato.

Escrevi esse relato para alertar a todos sobre o mal que eu trouxe para todo o universo. Sou culpado, admito. Meu maior erro foi buscar meu sonho: ter um filho.

Aqui em Czárnia todos vivemos em harmonia e somos praticamente eternos, já que todas as doenças foram erradicadas e, em qualquer caso de necessidade, temos uma interessante capacidade de autoclonagem a partir de uma simples gota de sangue. A morte é uma opção para quem deseja ampliar seus horizonte e buscar a vida eternas.

Exatamente por todos esses fatores não haveria a necessidade de novos seres para manter a vida pulsando em nosso belo planeta, mas todos sabemos que a semeadura de vidas é uma constante no universo e não poderíamos fugir a essa singela aritmética da natureza. Portanto, apesar de não ser necessário o surgimento de crianças para perpetuar a espécie em nosso caso, todos os czarnianos desejam ter filhos.

Foi por pensar desse jeito que eu cometi o maior erro da minha vida!


Minha adorável esposa surpreendeu-me certo dia com a notícia: "Você será papai". Difícil imaginar a alegria com que eu ouvi essas palavras. Curiosamente, ela enjoava de forma muito forte, com crises crônicas de vômitos de hora em hora, mas toda grávida fica enjoadinha, eu pensei.

Aproximadamente no quinto mês de gravidez, o nenê começou a chutar. Fiquei contente num primeiro momento, mas cada chute fazia com que a barriga de minha amada esposa criasse calombos enormes.

A dor era tamanha que acabamos tendo que adiantar o parto em três meses. Na Santa Casa de Nossa Senhora de Feetal, nome dado em homenagem a nossa mais adorada e bondosa deusa, o bebezinho nasceu. Apesar de prematuro, milagrosamente já possuía todos os dentes, e seu primeiro ato assim que recebeu um tapa do médico no bumbum, foi arrancar os dedos do doutor a dentadas.

O pânico se instaurou na sala de partos. Eu não sabia se continuava segurando a câmera ou se socorria o médico. Uma das enfermeiras saiu correndo, gritando "É o diabo! O Diabo!", mas ninguém sabia o que significava essa palavra. Pelo menos até aquele momento.

Minha idolatrada esposa limitou-se a sorrir e dizer: "Tadinho do meu nenê, ele fez sem querer". Contudo, a criança parecia regozijar-se ao mastigar os dedos do pobre médico e ameaçou engolir os dedos de todos os clones dele que surgiram com o sangue derramado.

Após algumas horas, a criança finalmente se acalmou, mas nesse momento já havia assassinado metade do hospital. Mas, apesar de tudo, minha querida esposa ainda não havia se convencido de que ali estava uma criatura que não combinava com a harmonia de Czárnia.


Já em casa, com a criança dormindo em seu colo (embora eu estivesse morrendo de medo que acordasse), minha amável esposa decidiu que o bebê se chamaria Francis. À simples menção desse nome, o bebê acordou e começou a gritar: "Meu nome é Lobo! Meu nome é Lobo!".

Realmente foi espantoso um bebê recém-nascido conseguir falar e ainda por cima escolher seu próprio nome. Em pesquisas posteriores na Grande e Benemérita Biblioteca de Czárnia, descobri numa enciclopédia intergaláctica que Lobo era um termo khúndio que significava "aquele que devora suas entranhas e gosta disso".

Durante milênios, Czárnia nunca travara contato com outras culturas e civilizações. O livro era muito recente. Particularmente, preferia nunca ter sabido disso.


Como pais do bebê, precisávamos cuidar do garoto e, entre outras coisas, dar banho nele. Minha santificada esposa colocou a água morninha na banheirinha, e com todo o cuidado pôs nosso filho lá dentro. Ele começou a gritar, nos ameaçando de morte, até que pegou um golfinho de brinquedo que estava ao lado da banheira e, milagrosamente, se acalmou.

Enquanto Lobo brincava com seu golfinho na água, fiquei com a tarefa de preparar a fralda para colocar nele assim que saísse do banho. Após muito esforço e uma tentativa de afogamento, minha estupenda esposa conseguiu tirar a criança da banheira e colocá-la na posição de trocar a fralda.

Para minha tristeza, o nenê percebeu que aquilo de alguma forma o impediria de se sujar e, por vingança, laçou um jato de ar fétido em meu rosto através de suas vias anais. Acordei apenas cinco dias depois.

Durante algum tempo, Lobo se acalmou um pouco, concentrando-se em apenas esquartejar os esquilos que apareciam em nosso quintal, e pensamos que aquilo tudo era apenas uma rebeldia adolescente que surgira com dezoito anos de antecedência. Pura ilusão.

Para começar, ele passou a exigir cerveja para acompanhar a papinha. Minha paciente esposa acabou cedendo às ordens de nosso violento pimpolho e nos revezávamos quando chegava a hora de colocá-lo no colo para fazê-lo arrotar. É fácil entender o porquê: Seus arrotos eram tão potentes que, além de ter deixado um de meus ouvidos completamente surdo, ainda fez com que eu perdesse por completo meu olfato.


Imaginamos que para acalmar o garoto, ele precisaria de um bichinho de estimação. Compramos então um cachorrinho chamado Spike. Lobo logo o rebatizou como Vítima. Pobre animal.

Vítima foi utilizado em diversas experiências científicas, como dissecação sem morte (e sem anestesia) e análises do volume de dor proporcionada por diferentes objetos cortantes. Ainda tentamos dar um fim sem maior dor a Vítima, mas Lobo sempre nos impedia de chegar perto do cachorrinho.

O pobre Vítima acabou falecendo após uma tentativa de Lobo em cruzá-lo com um elefante. Aparentemente nosso filho não entendeu que Vítima era um cachorro macho.


Quando o garoto completou dois anos, resolvemos mandá-lo para a escola. Minha desafortunada esposa achava que nosso filho era um gênio, já que sempre se demonstrou interessado em experiências científicas, embora pouco tempo antes uma dessas experiências tenha destruído irremediavelmente os neurônios de minha mãe.

Acontece que, ao contrário de minhas expectativas, Lobo gostou de ir à escola. Só entendi o motivo de tanto gosto pelo estudo alguns dias depois, quando o diretor ligou para mim comentando que meu filho seria a primeira criança czarniana em milênios a ser expulsa da escola, já que havia aleijado vários colegas e professores.

Porém, no dia seguinte, o diretor apareceu morto e Lobo assumiu o controle do colégio.


Minha glorificada esposa acabou entendendo o mal que trouxemos ao mundo depois de mais alguns meses. O surgimento de novos termos em Czárnia como destruição, dor, mutilação e medo, apenas para citar alguns pouquíssimos exemplos, ocorreu à medida em que Lobo ia ampliando seus horizontes: da escola para o bairro, do bairro para a cidade, da cidade para o estado... Até que o planeta inteiro conhecia nosso filho.

As pessoas passaram a temer Lobo, mas, erroneamente, também começaram a querer puni-lo. Infelizmente, a recém-criada força policial czarniana acabou sendo toda assassinada pelo garoto, que nem chegara aos três anos de idade! A polícia passou a existir apenas para consertar os estragos gerados pelo menino.

Obviamente, toda a Czárnia buscava aqueles que eram considerado como os responsáveis por essa tragédia: os pais do menino. Antes de nos descobrirem, eu e minha incomparável esposa fugiremos para as distantes montanhas de Alpks e nos tornaremos ermitões. Essa é a punição mínima que merecíamos por trazer Lobo à vida.

Escrevo esse relato pouco antes de fugir para as montanhas. Espero que gerações futuras descubram esse relato que vou esconder embaixo de uma pedra tratada quimicamente para manter o papel inteiro por séculos.

Minha esperança é que Lobo não dure o suficiente para destruir toda a civilização czarniana e que gerações futuras encarem esse relato com a confirmação de que a besta-fera já conviveu entre nós. Czarnianos, por favor, acreditem em tudo que estão lendo e sejam bons para todos, mas destruam todo e qualquer mal pela raiz antes que frutifique e suplante o bem.

E, por Feetal, nunca tenham filhos!!!


Bârdii termina a leitura ainda espantado com o relato.

— Coitado — pensa consigo mesmo — Esse homem deve ter sofrido muito. E, para sua tristeza, não só Lobo ainda existe como destruiu todo seu planeta.

Ao longe, Papaburgh, irritado, grita:

Cadê a droga do papel-higiênico, Bârdii!

Bârdii aproxima-se de seu amigo e mostra o que encontrou, animado pela possibilidade de divulgar esse relato e, talvez, emocionar o universo para que todos se tornem bons.

— Papaburgh, você não sabe o que eu achei — fala Bârdii mostrando o papel para seu companheiro.

— Finalmente! — Papaburgh arranca a folha da mão de Bârdii e a utiliza para limpar-se.

— Mas... mas...

— "Mas" o quê? — pergunta Papaburgh, irritado — Por que você está com essa cara de bunda?

— Er... Nada...

Os dois alienígenas voltam a sua nave e partem em busca de novos horizontes para seu restaurante, deixando para trás aquele planeta há tantos séculos morto.

Epílogo

O relato permanece na superfície do planeta-fantasma, coberto pelos detritos intestinais de Papaburgh. Nesse mundo desprovido de vida, o espírito de um velho czarniano suspira ao ver que sua última tarefa, que o prendia àquele local, fora finalmente cumprida, embora não da forma adequada.

A poucos passos da derradeira Luz, ele pára e pensa:

— Ah... Vou logo descansar em paz e que todo mundo se f**a!

Então se encaminha para a Eternidade dando uma banana para o Universo dos vivos.


Na próxima edição: Lobo odeia os seres vivos. Lobo odeia os seres mortos. Lobo odeia todo o universo. Lobo odeia qualquer coisa que exista, existiu ou existirá. Lobo ama única e exclusivamente seus golfinhos espaciais. Mas... e se os golfinhos passarem a odiar o Lobo?



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.