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Lobo # 24

Por Lucio Luiz

A Tropa do Lobo Verde

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Se uma pessoa volta no passado e mata uma borboleta, milhões de galáxias podem deixar de existir no presente. Ou uma borboletinha pode ficar órfã, sei lá. O ponto é: uma coisa pequena pode de repente se transformar em algo complexo.

O que isso tem a ver com essa história? Absolutamente nada.

Milênios atrás, uma evolução curiosa aconteceu. Ninguém sabe exatamente como, mas ancestrais dos cetáceos que dariam origem aos golfinhos terráqueos de alguma forma foram parar no espaço sideral.

Talvez alienígenas donos de algum zoológico espacial tenham resolvido mostrar seres de diversos planetas em seu mais novo empreendimento. Esse novo zoológico pode ter falido e sido vendido para cientistas genéticos, que poderiam ter resolvido transformar uma espécie marinha em uma espécie vacuar (capaz de "navegar" pelo vácuo).

Na verdade, não importa a origem da espécie. Apenas sabe-se que, muitos e muitos anos depois, esses serem evoluíram em paralelo a seus primos terráqueos e tornaram-se o que convencionou-se chamar de "golfinhos espaciais". Por algum mistério, esses seres caíram nas graças do maior assassino de todos os tempos: Lobo.

Num dado momento, os golfinhos espaciais passaram a visitar regularmente o planeta Mogo, antigo membro da Tropa dos Lanternas Verdes. Eles comiam os asteróides amarelos que avançavam impiedosamente contra a superfície do planeta.

O poder dos Lanternas Verdes então não eram capazes de se defender contra objetos amarelos e, para a sorte de Mogo, os asteróides eram feitos exatamente de uma substância que servia de alimentação para os golfinhos espaciais.

Durante anos, os golfinhos mantinham com Mogo uma relação de simbiose, e Lobo não se importava por saber que isso eram bom para seus "peixinhos". Contudo, certo dia a Tropa dos Lanternas Verdes foi destruída e Mogo acabou enlouquecendo com o resquício de poder da chama verde que ainda possuía. E essa loucura afetou os golfinhos espaciais.

A nova Tropa, organizada por Hal Jordan (que foi o mesmo que destruiu a Tropa antiga, mas isso não vem ao caso agora), ainda estava em seu início quando a loucura de Mogo se mostrou perigosa. Jordan, então, enviou a única pessoa que estava próxima o suficiente para recolher a energia residual de Mogo e salvar o universo: o estriano Kymbst, um simples candidato à Tropa.

Apesar de ter um pouco de dificuldade no início, Kymbst conseguiu sugar a energia esmeralda de Mogo para seu anel e fez com que o planeta voltasse ao normal. Contudo, por descuido, machucou alguns dos golfinhos que estavam por lá. Para seu azar, Lobo viu tudo.

Após lançar Kymbst bem longe, Lobo percebeu que o anel do estriano estava no chão, ao alcance de sua mente pervertida. Sem pestanejar, pegou a arma mais poderosa do universo e colocou em seu dedo. Tudo isso porque, milênios atrás, alguém pegou uns ancestrais dos golfinhos terráqueos e os levou para o espaço.

Não disse que não tinha nada a ver com borboletas?

— Pensa bem, Lobo. — tenta argumentar Jonas Glim — Esse troço aí é poderoso demais... não acha melhor jogar fora?

— Porra, Jonas! Esse anel parece coisa de viado, mas é poderoso pra cacete! Eu quero me divertir um pouquinho... quem sabe até não destruo uns cinco ou seis planetas só pra ver como funciona?

— Tá bom, cara. Mas eu sempre achei que tu preferia um mano-a-mano pra detonar com alguém.

— Tu tá me estranhando, Jonas? Claro que prefiro destroçar todo mundo pessoalmente, um por um. Mas olha só as vantagens desse anel de boiola aqui.

Lobo vai até onde Kymbst está caído e pega o ex-quase-Lanterna Verde pelo pé. Com o poder do anel, Lobo cria uma mão gigante que dá vários tapas no rosto do estriano, que acorda desesperado.

— Ahnnn... ai! O que está ac... — uma mordaça verde aparece na boca de Kymbst.

— Tá vendo, Jonas? — Lobo continua com a tortura — Não preciso mais ficar ouvindo os gritos das vítimas mais frescas.

Do anel, sai um amontoado de energia que se transforma num canhão. Um braço verde joga Kymbst dentro dele e o coitado é lançado para longe numa explosão.

— Agora, observe. — Lobo envia um comando mental para o anel, que recupera Kymbst a quilômetros de distância — Viu como é prático? Posso me divertir com um babaca por horas, sem precisar nem me cansar.

— É... — reflete Jonas — Até que é legal. Depois tu me arranja um?

— Vou pensar... agora, fica aí com esse babaca desmaiado e com meus "peixinhos" que eu vou fazer uns testes pra ver o poder de destruição desse troço.

Em Nova Oa, Hal Jordan mantinha-se ligado ao anel que forneceu a Kymbst através de sua conexão com a chama verde que energiza todos os anéis. Ele ficara satisfeito ao perceber que Kymbst havia cumprido sua missão de filtrar a energia residual de Mogo satisfatoriamente, mas continuou ligado por mais algum tempo porque sabia que o estriano acabaria fazendo alguma besteira.

— Não compreendo essas sensações malignas que estou captando. — pensa consigo mesmo — Kymbst pode até ser inconseqüente, chato, inútil, desastrado, incompetente, estressante, distraído e chato... já falei chato?... mas em momento algum me pareceu maligno. Claro que o anel já foi usado em outras ocasiões com propósitos ruins por Sinestro e até por mim, mas não entendo como isso poderia acontecer nesse caso. Acho melhor eu ir pessoalmente a Mogo verificar o que está havendo.

O planeta Qwerty, habitado por alienígenas aficionados por máquinas de escrever antigas, jamais havia sofrido um ataque antes. Portanto, todos os qwertyanos estranharam quando diversos mísseis verdes surgiram no céu.

Lobo utilizou o poder incomensurável do anel dos Lanternas Verdes para provocar um enorme estrago nuclear na principal cidade do planeta. Ao se aproximar de um dos habitantes, o czarniano projeta uma máquina de escrever gigante e coloca o coitado preso a uma das engrenagens das letras.

À medida em que datilografava, Lobo prendia mais qwertyanos nas engrenagens. Assim que se cansou dessa brincadeira, confeccionou um enorme scanner OCR verde que sugava todos à sua frente.

Quando já se imaginava que nada poderia piorar, Lobo resolveu se afastar um pouco do planeta. Porém, antes dos poucos sobreviventes terem a chance de respirar aliviados, uma colossal manivela verde surgiu no espaço sideral e se grudou ao planeta. Lobo então girou a manivela e o planeta todo girou, saindo de órbita e explodindo pouco tempo depois.

Gargalhadas se ouvem no vácuo.

Jonas Glim vê que Kymbst está acordando, embora tenha 80% dos ossos quebrados e uma fratura enorme no crânio. O estriano é a prova viva de que não há nada que possa destruir definitivamente um chato.

— Quer tomar um pouquinho mais de porrada, ô babaca? — questiona Jonas.

— Ahn...? Hein...? Ohnnn...? Ih...? — Kymbst ainda está um pouco confuso depois de tanta pancada, mas de repente desperta — Meu anel? Cadê... ai minha coluna... cadê meu anel?

— Meu companheiro foi dar uma voltinha com sua bugiganga pelo espaço e já já volta pra terminar de te porrar.

— Oh, não... o senhor Jordan vai... ai, minha cabeça... vai brigar comigo. O anel é muito poderoso e... ai, minha bunda... e não pode ser usado pra fazer o mal. Tô ferrado!... ai, meu joelho...

— Tadinho. Quer uma ajuda?

— Obrig... ai, meus genitais... obrigado.

— Então toma!

Ai!!!

Para se distrair um pouco na imensidão do planeta Mogo, Jonas resolve bater um pouquinho mais em Kymbst.

Nos pântanos envenenados do planeta Bradock, Lobo encontra-se no meio de uma batalha entre os dois povos que dividem esse mundo. De um lado, os rambinos, seres de compleição forte e extremamente violentos. Do outro, os woodianos, extremamente fracos, embora muito inteligentes e possuidores de um veneno mortal expelido por sua boca.

Lobo não está muito preocupado com quem está certo na luta (embora nem os próprios soldados saibam a razão, que já dura milênios). Com a força do anel, conjura uma metralhadora gigante e atira para todos os lados.

Tanto os rambianos quanto os woodianos começam a fugir desesperadamente, mas Lobo projeta uma parede que prende todos e os aproxima de si. Lobo voa por sobre os habitantes do planeta e comprime a parede cada vez mais até que o sangue de todos explode.

Gargalhadas se ouvem no vácuo.

Assim que chega a Mogo, Hal Jordan vê Kymbst sendo impiedosamente espancado. Com seu poder, ele cria uma jaula esmeralda para Jonas Glim, isolando-o do combalido estriano.

— O que houve aqui? — Jordan questiona Kymbst enquanto o imobiliza numa espécie de maca.

— O anel foi... ai, meu intestino... foi roubado. Mas eu consegui consertar o planeta. Você está... ai, minha unha encravada... está orgulhoso de mim?

— Como foi roubado?

— Eu consegui sugar toda... ai, meu olho... toda a energia do planeta para meu anel. Foi muito difícil mas eu consegui. Sozinho.

— Quem roubou o anel?

— Eu lutei bravamente mas... ai, minha tíbia... mas o monstro foi mais forte e levou... ai, meu lóbulo da minha orelha esquerda... levou o anel. Mas eu suguei a energia do planeta e cumpri a missão! Já posso... ai, meu dente siso... posso ser Lanterna? Posso? Posso?

Kymbst !!! — Hal Jordan finalmente se enerva — Cadê a porra do anel???

— O senhor ficou mau de novo?

— Um... dois... três... — Jordan recupera sua calma — Kymbst, prometi a mim mesmo que jamais perderia a paciência outra vez e nem deixaria meu estado de espírito se alterar. Você conseguiu o milagre de me enervar novamente. Agora, antes que eu abandone meu ideal de redenção e resolva te quebrar mais do que você já está quebrado, que tal me falar quem... roubou... o... anel!!!

— Foi um cara branco, grande e forte. — responde rapidamente um assustado Kymbst — Ele pegou o anel... ai, meu ouvido... e saiu voando com ele

— Estranho. Não existe ser no universo que tenha força de vontade tão grande capaz de comandar um anel sem autorização. Na verdade, só conheci um ser assim há muitos anos, quando ainda era um Lanterna e precisei ajudar certa vez a L.E.G.I.Ã.O. (*) Ele era branco, grande e for... ah, não... Kymbst, por favor, não me diga que o nome de quem pegou o anel é Lobo...

O planeta Veggete é universalmente famoso por exigir de seus habitantes uma dieta baseada tão-somente em vegetais e grãos. Por essa razão, não é de se estranhar que metade da população morreu de ataque cardíacos quando hambúrgueres verdes gigantes surgiram do espaço e foram introduzidos violentamente em seus estômagos.

Os veggetenses choravam desesperados quando Lobo surgiu do céu. De seu anel surgiram milhares de rúculas, aspargos e grãos de arroz gigantes, que foram lançados em cima dos chorões. Os aspargos, depois de alguns minutos, criaram bocas e começaram a mastigar impiedosamente as pessoas.

Lobo já começava a gargalhar no vácuo quando um forte raio verde o lança no chão.

Hal Jordan encara Lobo. Lobo encara Hal Jordan. Cada um detentor de grande parte do poder da chama verde. Apesar de contar com a maior força de vontade do universo, Lobo não consegue derrubar Jordan num primeiro momento. Após tanta dor e redenção, Jordan conseguiu ampliar seu poder de forma fantástica.

A batalha de vontades aumenta. Jordan se esforça para manter Lobo preso numa redoma de energia esmeralda. Contudo, o czarniano consegue forçar rachaduras sérias no construto. Após muito suor de Jordan, Lobo consegue finalmente estourar sua prisão e parte para cima de uma quase combalido Hal Jordan.

Nesse instante, Jonas Glim chega em sua moto, acompanhado pelos golfinhos espaciais e Kymbst. Os golfinhos se interpõem entre Lobo e Hal Jordan e começam a produzir sons agudos.

— Já entendi, "peixinhos". Vocês querem que eu me livre desse anel e volte a ser o titio Lobo de sempre, né?

Os golfinhos giram, demonstrando alegria. Lobo, então, estende o anel para Hal Jordan, que não entende muito bem o que está acontecendo.

— Mas... é só isso?

— Por quê? Tá querendo alguma coisa mais?

— Não... é que... bom... achei que você queria lutar...

— Ah, não enche. Esse anel tava deixando as coisas tão fáceis que eu ia acabar detonando com o universo em poucos minutos e depois ia ficar sem fazer nada pra fazer. Prefiro o jeito normal do Maioral aqui lidar com as coisas.

— Que bom, senhor Jordan! — Kymbst, já um pouco melhor, se aproxima dos dois — Agora posso ser Lanterna Verde? Posso? Posso?

— Isso veremos quando voltarmos a Nova Oa. (**)

— Que bom que está tudo bem. O senhor está feliz, não está? Eu fiz meu trabalho direito, já falei? O senhor viu? E esse cara aí — Kymbst aponta para Lobo — acabou devolvendo o anel porque os golfinhos pediram. — Kymbst vira-se para o Maioral — O senhor é, tipo, entendido?

— Como...? — Lobo, já não muito feliz, tenta entender o que Kymbst quis dizer.

— Entendido, ué? Para gostar de golfinhos assim e usando essa maquiagem preta ao redor dos olhos, só sendo entendido. Esse cara — aponta para Jonas — deve ser seu namor...

Antes de concluir seu pensamento, Kymbst é atingido por um certeiro soco de Lobo, que desloca seu maxilar. Hal Jordan espera alguns minutos antes de conjurar um gesso na mandíbula do estriano e se despede de Lobo com um sorrisinho cínico no canto da boca.


Na próxima edição: O espírito olímpico chega ao espaço sideral.


:: Notas do autor

(*) Esse encontro apareceu em L.E.G.I.O.N. # 47, ainda inédito no Brasil. voltar ao texto

(**) Se Kymbst nunca mais aparecer, a culpa é do escritor de Lanterna Verde; eu não tenho nada a ver com isso. Por falar nisso, já comentei que você deveria ler o título do Lanterna Verde no Hyperfan? voltar ao texto



 
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