hyperfan  
 

Mulher-Hulk # 10

Por Josa Jr.

Josa Ex Machina
[Srta. Sodré, esta é para você.]
Este conto foi originalmente publicado em 22 de dezembro de 2000

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Mulher-Hulk
::
Outros Títulos

Desculpem, meus leitores. Não estou muito bem estes dias e talvez o texto de hoje não tenha tanto humor. Acho que era uma necessidade de dividir um pouco com vocês minhas frustrações. Bobas, talvez. Mas deu vontade de escrever também. Nem deveria ser publicado, mas...

Isto não é uma história engraçada. Por favor, não ria.

— Putz, que imitação do Will Eisner!

— Não poderia perder esta chance, Wyatt. Desculpe.

— Tudo bem, Josa. Bom... aqui estamos, numa legítima mesa de um legítimo bar de histórias em quadrinhos, tomando umas. Não sabia que bebia.

— Não bebo, mas numa história imaginária, o álcool só afeta pessoas imaginárias. Então, vamos aproveitar.

— Eu sou imaginário...

— Ooops! Me esqueci. Bom... nossos leitores não devem estar entendendo nada do que se passa.

— Posso explicar. Em primeira pessoa.

— Hmpft...

"Ontem, os eventos dos últimos dias me fizeram perceber que há um bom tempo eu e Jennifer não temos quase nenhum relacionamento. Nosso último tempo a sós deve ter sido na edição 1. Isto me incomoda. Hoje cedo, tentei conversar com ela, mas foi... complicado. Tinha medo do que poderia acontecer, mas tive de falar."

"Lá estava ela, lendo alguns papéis na mesa da cozinha. Não sei do que se trata, afinal ela estava sem emprego há algum tempo. Sentei ao seu lado e tentei iniciar um diálogo."

— Jennifer, precisamos conversar.

— Depois, Wyatt. Agora estou ocupada. — A estranha sensação de casamento falido passou rapidamente pela minha cabeça, mas preferi ignorar esta idéia. Estávamos longe de ser casados e já tínhamos terminado umas 10 vezes. Uma a mais não mudaria muito.

— Depois quando? Na edição comemorativa número 50?

— Wyatt, agora não. Estou precisando pagar as contas... E no próximo mês não tenho salário.

— Tudo bem...

"Saí de casa decepcionado, quando a doutora Reyes estava chegando. Ao ver minha cara, seu diagnóstico foi certeiro."

— Problemas amorosos, hein?

— É...

— Milagre, você e Jennifer sempre parecem tão felizes que é impossível crer na veracidade dos dois.

"Parecemos muito felizes. Essa era a verdade. E essa era a mentira. Desci as escadas me lembrando do que tinha lido nas edições anteriores. Jennifer teve tempo para bater papo com o Demolidor, com o Homem-Molecular e com o Super-Homem." (*)

"Para mim, faltava tempo..."

"Aliás, gostaria de saber que conversa "íntima" era aquela que ela estava tendo com o Super-Homem. Incrível como ele mexe com toda mulher que conheço. As meninas da minha tribo só falam nele. Achei que Jennifer fosse imune a esse tipo de coisa. HÁ!... Logo Jennifer. É estranho como garotas adoram novidades."

"Foi então que me lembrei que a culpa não era apenas de Jennifer, ou do Super. Eu me lembrei que nossa vida tem um escritor... e ele tinha culpa do nosso relacionamento estar se deteriorando. Resolvi então chamá-lo."

— Josaaaa!

"Em alguns segundos, o rapaz alto, forte e bonito, com seus belos cabelos castanhos tratados com todo requinte apareceu em minha frente. Seu sorriso simpático e perfeito se abriu... Eeeii! Porque está me fazendo pensar isso? Tá achando que eu sou gay?"

— Apenas achei que deveria passar uma boa imagem para minhas leitoras.

— É? Que leitoras?

— Er... Bom... Por que me chamou?

— Problemas amorosos. Eu estou com problemas por sua culpa. Estou sofrendo por causa do que você escreve para mim. Isso me angustia. Eu nunca consigo mais que 10 minutos com minha namorada. Eu não gosto disso... eu só queria estar com a Jenny, Josa... Josa?

— Uh.. uh.. wya... BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ! Chuif... chuif...

"Aos meus pés, vi a cena mais rídicula da minha vida."

"Milagrosamente, um bar surgiu ao nosso lado enquanto ele derramava suas lágrimas. É uma das vantagens de poder conversar com o escritor da história. Nós entramos, fomos atendidos e voltamos ao ponto onde esta edição começou."

— E eu não chorei. Só dei um abraço de solidariedade.

— Um abraço nos meus tornozelos. E eu vi as lágrimas.

— Mas você descreveu a cena como se eu tivesse chorado como uma mocinha.

— Ok. Não foi tão ridículo. Mas vamos voltar ao assunto...

— Eu... Entendo você. Quando disse novidades lá em cima, você se referia a...

— Sim.

— O arroz com feijão sempre é desprezado.

"Desta vez, ele pede um copo de leite ao invés de algo pesado. Deve ser a síndrome de Super-Homem que o abate de vez em quando — normalmente quando está melancólico. É outro Josa, não o sacana que escreve Mulher-Hulk e Justiça Jovem."

"Hmpft. Mas ainda faz propagandas escondidas nos nossos pensamentos."

— Eu detesto leite puro.

— E porque bebe? Ah, tá... Você não sente o sabor do leite imaginário.

— Isso. Mas vamos voltar pela quinta vez ao assunto que te trouxe aqui. Problemas?

— Na verdade, estou ficando muito nervoso com esta situação que você criou.

— Oxe? Situação que criei?

— Você me afastou da Jennifer para poder escrever essa história ridícula sobre suas frustrações amorosas.

— Eu? Putz! Hahahaahahahahaah!

"O maldito ri da minha cara. Deve estar adorando a reação dos leitores a sua 'brilhante' idéia. A esta hora, as mensagens, os e-mails devem estar chegando em sua caixa postal. Me indigno com ele e torno meu tom de voz mais hostil."

— Do que está rindo, "Sr. Morrison"?

— Senhor Morrison? Acho que você deveria me chamar de senhor Gaiman, porque deve me considerar um gênio!

— Não entendi.

"Josaías termina de beber o leite e pede um milk-shake de chocolate. Vantagens de ser o criador da história. Ele dá uma chupadinha e volta a falar."

[Nota do Lopes: Contexto é tudo.]

— O que quero dizer é: Você acha que eu preparei tudo, desde a edição 1, para contar uma história sobre minha desgraça? Você deve me considerar uma espécie de Gaiman, então: o cara que ficou 5 anos fazendo preparativos para a morte de Morpheus e ninguém notou. Eu tenho capacidade nem de fechar todas as pontas soltas da história! Eu sou burro, Wyatt. Fui muito burro.

"Meu autor encurva o corpo mais do que ele faz normalmente. Talvez sua postura cabisbaixa para continuar a beber represente a postura com que ele encara a vida atualmente. A cabeça baixa não se move. Apenas os lábios continuam falando, num perene tom melancólico."

— Esta história é apenas uma forma de me esquecer um pouco uma pessoa na minha vida... e ao mesmo tempo, não esquecer. O que fiz foi perceber duas pequenas semelhanças entre nós: uma mulher adorável e problemas. Só isso. Resolvi decepcionar meus leitores com algo sem tanto humor desta vez, mas que me ajuda a entender tudo que se passou há algumas semanas.

— Desse jeito, vamos acabar cancelados.

— Pouco importa agora, mas sei que nossa conversa está sendo muito agradável, apesar de tudo.

— É... Espero que você melhore. A Jennifer me contou mais ou menos o que houve.

— É uma sensação terrível tudo ter dado errado. Vocês heróis vivem aparecendo em realidades alternativas... Pois neste momento eu me sinto em uma delas. Como se nada tivesse dado certo...

— ...Como em "Ruínas"?

— Sim. Não deveria ser assim. Numa suposta história de amor eu acabei me tornando o vilão, e não o mocinho que beija a garota no final — eu fui o Luthor, o Dr. Destino, o Gastão... Será que existe, em algum lugar, alguma realidade certa? Por que eu acho que estou na maxi-série "O que aconteceria se tudo desse errado?"

"O 'vilão' bebe mais um pouco e leva sua carteira à mesa. Após mexer entre os documentos, ele tira uma foto de um casal. O casal é formado por ele e pela pessoa que comentou. Sorrio para mim mesmo quando observo melhor a fotografia. É gozado como, até em recordações como estas, ele tenta dar um pouco de humor. No retrato, ele entrega uma flor para a garota, mas a cara que os dois fazem..."

— Uau! Ela é muito bonita. Apesar do que escreve, até que você tem bom gosto. Se bem que não curto muito garotinhas, acho já passei da idade. Aliás, acho que você também.

— Já me disseram isso... hmpft.

— Hehehehe... E porque essas caras na foto?

— Para parecermos infelizes... Mas este momento foi um dos mais felizes que tive. Você sabe como sou, sempre procurando um jeito de pôr humor nas situações. Estou te mostrando esta fotografia... porque eu queria que vocês ficassem com ela.

— Mas ela parece tão importante para você... É melhor você guardar.

— Esta foto... não existe mais na minha realidade. Eu... fiz uma bobagem. Queria acreditar que ficou com pessoas que prezo muito — você e Jenny. Por favor, guarde com você.

— Se você quer assim...

— Obrigado, Wyatt.

— Acho que isso é tudo. Há algo mais que você queria dizer?

— Não, amigo. Fale com Jennifer agora.

— Tsc. Ela deve estar em casa essa hora. Com suas contas.

— Pode ter certeza que não.

"Com um gesto, Josa derruba a parede da frente do bar, e podemos ver a cidade novamente. Um dia vou tentar ser escritor. Esse rapazote de 21 anos faz o que quer no nosso universo! Tenho uma certa inveja."

"O garoto aponta uma direção com o dedo e me manda olhar. Obrigado, Josa, por isso. Eu vejo minha amada caminhar pela rua, mais linda que nunca. É difícil acreditar que ela exista. Meu Deus, ninguém parece ser mais bonita que ela... Mas será que ela tem algum tempo para mim?"

— Uma linda mulher, Wyatt.

— Hã?

— Minha amiga... Ela adorava uma música. Nós cantávamos juntos. "Pararuraruriruru... Pararuraruriruru... Pretty Woman, walking down the street..." Bons tempos. Será que um dia eles voltam?

— Eles podem voltar. Acredite. Mesmo que não voltem, faça isso: guarde apenas os bons momentos. Esqueça aquilo que saiu errado. Eu não tenho muitos conselhos para te dar, afinal, você me escreve, mas espero que goste da idéia.

— Eu gosto. Você pode, em parte, ser algo criado por mim, mas me ajudou bastante, Wyatt. Veja, a Mulher-Hulk está vindo em nossa direção.

"Jennifer me abraça e se senta na terceira cadeira de nossa mesa. Cadeira que não existia até então, mas Josa fez questão de providenciar. Nosso escritor fica silencioso e posso perceber uma pontinha de inveja quando me vê agarrado em Jen."

"Acho que ele sempre preferiu o nosso mundo ao dele. Dizem que é mais colorido e feliz... Sinceramente, eu não sei. Mas acho que é como o Homem-Animal disse: 'Como vocês conseguem viver num mundo sem super-heróis?' Jennifer pega a foto que estava em minha mão e faz um de seus comentários que, como sempre, são uma mistura de desprezo e deboche com o Josa."

— Você não está meio velho pra ela?

— Calaboca, Jennifer.

— Tô brincando... Parece ter sido um momento muito feliz. Digo, apesar das caras de vocês dois.

— É, pena que talvez só eu me lembre disso. Como muitos outros momentos — as músicas, aquela vez que assistimos o horroroso Fim dos Dias dublado... Queria entender. Por que as pessoas são assim? Por que apenas um dos dois se lembra destes momentos bobos que mudam e marcam para sempre nossas vidas? É tão... injusto.

— Olá, senhor Gaiman.

— Hein?

— Gaiman já falou disso, Wyatt. Em Morte: O Grande Momento da Vida. Lembra, Josa?

— Sério, Jennifer? Foi, Josa?

— Hmpft... Foi. Mas eu me identifiquei com isso e precisava deixar minha marquinha.

— Sinto muito, Josa... Tem algo que posso fazer pra te deixar melhor?

— Eu pediria para você tirar a roupa, mas em respeito a Wyatt, vou pedir apenas que o ame. É triste se sentir afastado das pessoas que você gosta. Não o largue. Não dê tanta atenção para as contas.

"Jennifer nem escuta o final da frase e me beija. Depois de trinta segundos, ela se volta para seu autor novamente."

— Isto é uma ordem para mim, Josinha. Ei, ei, eiiii... Olha só! O que é isto na sua mão direita?

— Hã? Como isso apareceu no meu dedo?

— Uma aliança? Parece que você não me contou tudo, senhor Ribeiro.

— Ela deve ser... Ela é imaginária. Acho que só aparece aqui. Lembra o que passou. Acho que vou deixá-la com vocês também.

— Não. Isto fica com você. Eu te disse para guardar os bons momentos.

— Ouça o Wyatt, Josa. Fique com ela. As meninas nem irão vê-la mesmo...

"Rimos do comentário e Josa se levanta da cadeira. Avisa que já vai embora. Antes porém, ele nos transporta do bar para o quarto de Jennifer. É bom ser amigo do escritor. Noto que a casa está vazia, provavelmente ele deu um jeito de manter a doutora Reyes longe daqui. Jennifer estranha, mas fica calada quando ele diz:"

— Aproveitem. O próximo número só sairá no próximo ano. Espero que tenham um ano novo feliz e um bom Natal juntos... Mesmo que no Universo Hyperfan não esteja nevando e quase nenhum personagem tenha percebido que estamos em dezembro. Adeus.

— Hã... Josa?

— O que foi, Wyatt?

— Obrigado por ter nos dado esse tempo... Você não precisava. Problemas sempre aumentam as vendas das edições. E você se esqueceu disso para nos agradar.

— Desencana, eu sou um escritor legal. E tenho fé que o meu escritor também é. Torçam por mim.

"Então ele desaparece. E eu e Jennifer aproveitamos o tempo a sós, sem nos lembrarmos de nada errado, sem frustrações. Estamos juntos por um mês. Só isso importa. Espero que nós dois sempre nos lembremos deste feriado juntos."

Enquanto isso, em outra realidade, que poucos sabem o que é e onde está...

— Senhor, está na hora da ceia.

— Obrigado por me avisar, meu bom servo Gabriel. É difícil se lembrar destas coisas quando você se diverte escrevendo uma boa história. Vamos indo.

— Senhor, o que estava escrevendo?

— Uma história sobre um cara bobo, com problemas amorosos. Mas ainda gosto muito dele. Pode ler, se quiser, depois de comermos.

— Você salvou o documento?

— Salvei.

— Por via das dúvidas...

Curioso, o rapaz bem mais jovem que o autor se aproxima do computador e passa os olhos sobre o trecho em que seu mestre parou de digitar.

"... então aquele rapaz, ainda em sua juventude, percebeu que poderia escrever algo otimista, mesmo passando por alguns dos piores momentos de sua vida. Ele sabia que provavelmente achariam piegas ou coisa de alguém com síndrome de Super-Homem, mas o moço ignorou o que os outros pensariam — como fazia quando comentavam a idade de sua amada.

Ah, sua amada...

Com certeza, era por isso que ele estava escrevendo. O jovem resolveu esquecer a dor e se concentrar em momentos felizes naquele conto. No final, a história foi dedicada àquela jovem e ele sentia que com isto, estaria perdoando-a. E pedindo perdão.

Fim da Parte 2000."

Feliz Natal a todos vocês. Desculpem se não gostaram da história. Acho que ela teve vida própria: deveria ser uma história triste, mas terminou de forma extremamente otimista (coisa de Super-Homem). Eu diria que este conto se guiou de forma totalmente inesperada, como são nossas vidas.

Até 2001, amigos! Nos vemos lá.

Ass.: Josa, Wyatt e Jenny.

:: Notas do Autor

* Respectivamente edições 05, 06 e 09

Observações para leigos e neófitos:

1 — Will Eisner ( deveria se envergonhar se não o conhece) é provavelmente o maior artista da história das HQs, criador do Spirit e do conceito das graphic novels. Eu tenho "O Último Cavaleiro Andante" com dedicatória dele e esse é um dos meus maiores tesouros :-)

2 — Os senhores Grant Morrison e Neil Gaiman são dois dos mais brilhantes escritores ingleses, sendo que o primeiro escreveu uma história chamada "Deus Ex Machina", onde explicava ao personagem Homem-Animal porque sacaneava tanto a vida dele em suas histórias. O sr. Gaiman escreveu, entre outras coisas, Sandman e Orquídea Negra — além de romances, como "Belas Maldições", que os leitores preconceituosos que não gostam de quadrinhos, mas lêem livros, podem procurar.

3 — Ruínas é uma mini-série de Warren Ellis em que tudo no universo Marvel dá errado e um repórter chamado Phil Sheldon passa duas edições falando "está tudo errado". Eu não gostei, mas passei a entendê-lo melhor. :P

4 — Morte: O Grande Momento da Vida (de Neil Gaiman) é uma bela história que faz parte da mitologia de Sandman. Para quem não sabe, Sandman é o rei dos Sonhos e tem um família, às vezes inconveniente e às vezes legal. Normalmente, a responsável pela parte legal é a Morte, irmã mais velha de Sandman e uma
das personagens mais adoráveis dos quadrinhos.



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.