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Quarteto Fantástico # 02

Por Rafael 'Lupo' Monteiro

Na última edição: O Chave invade o QG do Quarteto Fantástico e domina mentalmente o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível. O Coisa e o Tocha Humana avistam no céu um pedido de ajuda, mas não fazem idéia de quem deverão enfrentar.

Pensamento Negativo

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— Four Freedoms Plaza, por favor.

Mais incrível que o pedido do seu cliente, o que mais assusta Jay B. é a enorme figura feita de pedra que entra em seu táxi no meio da madrugada.

— Seu Coisa, não me leve a mal. Estou honrado que o senhor esteja no meu táxi. Não é todo dia que a gente recebe uma celebridade no nosso trabalho e tal mas... Posso te fazer uma pergunta?

— Claro! Não quero que espalhem por aí que o Coisa, ídolo de milhões, não trata bem seus fãs. Pode mandar!

— É o seguinte: não tem nenhum supervilão te esperando pra brigar, e acabar destruindo meu carro, né?

— Hehehe. Pode ficar tranqüilo, meu chapa. Qualquer prejuízo, a Fundação Storm te reembolsa, com juros e tudo.

— Que alívio. Não me leva a mal, não. Eu gosto de vocês heróis, principalmente da Mulher-Maravilha, mas não quero ficar no prejuízo. Uma vez aquele cara que parece o Homem Aranha de preto, que tem um linguão...

— Venom.

— Isso, esse aí mesmo. Então, ele jogou o meu carro no Thor, e eu não tinha nem seguro. Perdi todas as minhas economias pra comprar outro táxi.

— Pode deixar que quando eu encontrar o loirão eu cobro dele.

— Valeu!

— Que adesivo é esse que você colou aqui no vidro?

— É o adesivo de "Muso Morsa", um prêmio que ganhei algum tempo atrás. Sabe como é, seu Coisa, lembranças dos bons e velhos tempos(*). Mas você não é o único famoso que eu já tive como passageiro. Uma vez eu levei aquele diretor de cinema, Quentin Tarantino, e...

— Nem me fale nesse nome que eu fico irritado!

— Posso saber por que tanta raiva?

— No filme "Cães de Aluguel", ele fala do Quarteto. Sabe como ele chama a Sue?

— Não, senhor!

— De "Invisible Bitch"! Vê se isso é jeito de tratar uma dama? Ainda mais amiga minha! Se cruzar com esse diretorzinho na rua encho a cara dele de porrada!

— Só espero que meu carro esteja longe nesse dia!

O resto da viagem segue tranqüila, e após dar uma gorda gorjeta e autógrafos para os filhos de Jay B., o Coisa dirige-se à entrada do Four Freedoms Plaza.

"Quem diria, ainda existem taxistas que falam inglês em Nova York", pensa Ben Grimm. Distraído, ele tromba em algo no ar, estatelando-se no chão.

— Hahahaha. Parece que alguém andou bebendo no bar do Guy de novo! — um alegre Tocha Humana aparece nesse momento, tirando sarro com seu amigo de batalhas.

— Sabia que isso era coisa sua, seu palito de fósforo desgraçado! Desce aqui que vou te arrebentar!

— Infelizmente, dessa vez eu não tive nada a ver com isso. Tá parecendo um campo de força, ou coisa parecida.

— Será que é a Sue?

Neste instante, Susan Storm aparece na entrada no prédio.

— Mana, tudo bem por aí? Vimos o chamado nos céus e viemos o mais rápido possível.

— Está tudo ótimo, Johnny.

— Então por que a barreira invisível? Só pra me derrubar, é?

— Na verdade, Ben, foi para que eu soubesse que vocês haviam chegado.

— Pô, Sue, precisava disso tudo? Eu deixei uma gata sozinha essa noite! Pra que vocês nos chamaram afinal?

— Simples, querido irmão. Para matá-los!

A Mulher Invisível envolve a cabeça dos heróis com um campo de força, impedindo-os de respirar. Num grande esforço, o Coisa dá uma pancada no chão, fazendo-o tremer por um momento, suficiente para derrubar sua oponente. Nisso, o Tocha, voltando a respirar, envolve sua irmã em um círculo de fogo.

— Pirou, Sue? Sou eu, seu irmão!

— Se liga, cara, sua irmã tá sendo controlada por alguém. Resista, Sue, nós somos seus amigos!

— Só é meu amigo quem é amigo do meu mestre, o Chave!

— Aquele mané? Vamos, Sue, não é vilão de segunda que vai te fazer matar seu irmão.

— Calem-se! — agindo rapidamente, Sue prende seus adversários em um campo de força, e aumenta a pressão dentro dele, causando mal estar nos heróis. O esforço, porém, vai tornando-se insuportável.

— Sue, por favor! Não faça isso! — as súplicas de Johnny não parecem fazer efeito, até que, sem aviso algum, Sue cai desacordada.

Neste instante, o Tocha Humana a pega nos braços e voa em direção ao andar mais alto do prédio. Ao mesmo tempo, o Coisa entra no prédio e sobe de uma maneira mais tradicional, pelo elevador, mas reclamando por Reed não ter construído algo mais rápido.

Ao entrar pela janela, Johnny vê seu cunhado agarrado ao filho, o desespero estampado no rosto.

— Meu filho, esse desgraçado te machucou?

— N-não... — responde o menino, chorando. — Cadê a mamãe?

— Ela está comigo, Franklyn, mas não sei se está bem.

— Mamãe!

— Calma, filho, eu cuidarei dela.

— Borracha, que zorra tá acontecendo aqui? A Sue nos ataca, a passagem pra Zona Negativa está aberta... Dá pra me explicar?

— O Chave invadiu o prédio e nos controlou mentalmente para lhe dar o acesso à Zona Negativa. Por sorte não nos pediu para fazer algo mais drástico.

— Mas que diabos ele quer com a Zona Negativa?

— Simples, Johnny, ele diz que lá se tornará um Deus, e temo que isso seja verdade.

— Ou seja, lá vamos nós pra mais uma viagem espacial!

— Isso mesmo, Ben. Mas só depois de cuidar da minha esposa.

Na manhã seguinte...

— Sue, você não devia vir conosco.

— Nem vem, Reed. Eu estou ótima! Seus próprios exames não apontaram nada de errado comigo.

— Eu seu, querida, mas mesmo assim...

— Não tem nada disso. Eu vou prender o desgraçado que me fez atacar meus amigos. E além do mais, já cuidei de Franklyn. Ele está com Agatha Harkness na mansão dos Vingadores. Portanto, nada me impede de ir com vocês.

— Borracha, até parece que você não conhece sua esposa.

— Tudo bem, suba. — Reed Richards conhece muito bem sua esposa, e sabe que nada a fará desistir.

— Reed, como vamos achar o Chave na Zona Negativa?

— Simples, Johnny! Se o que o próprio Chave me falou estiver correto, ao entrar em contato com a Zona Negativa, ele irá ganhar os poderes de um deus. O que eu suponho é que, ao acontecer isto, o corpo do Chave, que é apenas humano, não dê conta de toda energia resultante, e com isso emita parte desta energia pelo cosmo da Zona Negativa, deixando uma espécie de "trilha" energética. Contando com isso, criei um aparelho que irá rastrear essa energia, nos levando direto ao Chave.


— Se vai nos levar direto a ele, por que você demora tanto pra explicar, hein, Borracha? Vamos logo atrás do cara antes que seu papo me faça dormir!

— Ok, Ben. Entrem todos na nave que iremos partir agora!

Na Zona Negativa, o tempo corre de maneira totalmente diversa do universo normal. Portanto, o que para o Quarteto levou menos de 24 horas, representou um ano na Zona Negativa. Tempo suficiente para que o Chave conquistasse todo este universo. Como base, ele escolheu um pequeno planeta de clima tropical chamado Jahremm, escravizando toda a população. É lá, num castelo construído por seus escravos, que ele se encontra.

— Tédio, tédio, por que não me abandona? Sou dono de todo um Universo, e mesmo assim não estou contente. Acho que já é hora de voltar ao meu próprio universo e conquistá-lo. Alexia, minha doce serva, traga-me uvas e me dê prazer antes que eu parta para a batalha.

Neste instante, um robô mensageiro entra no salão principal, trazendo notícias para seu mestre.

— Mestre Chave, o departamento de vigília dos céus me deu aviso prioridade A.

— Prioridade A? Qual é o aviso, afinal?

— A nave que o senhor pediu que lhe notificássemos caso adentrasse a Zona Negativa. Bem, ela está aqui.

— Finalmente um pouco de ação! Eu sabia que podia contar com você, Richards. Mensageiro, mande os exércitos se prepararem. Está chegando a hora da batalha.

— Cuméquié, Borracha, vai demorar muito aí?

— Não, Ben, já achei a trilha. Em breve, estaremos face a face com o Chave!

Assim, o Quarteto Fantástico segue até Jahremm. Ao entrarem na órbita do planeta, sua nave é subitamente 'sugada' pelos novos poderes do Chave, surpreendendo-os. O que eles vêem seria assustador para qualquer um que não fosse do Quarteto Fantástico. Uma tropa gigantesca de soldados armados está a sua espera. No comando, seu inimigo.

— Finalmente, Richards! Pensei que você tivesse desistido!

— Qualé, bicho feio, não se garante sozinho não? Pra que esse bando todo armado, só pra pegar a gente?

— Ben, não perca tempo falando com ele e vamos ao que interessa! Em chamas!

Todavia, o Tocha Humana não consegue atear fogo em seu corpo, o que deixa a todos surpresos.

— Caro Tocha, aqui eu sou um deus. Nada escapa ao meu controle, inclusive os elementos da natureza. Só não controlo mentalmente você e seus amigos para me divertir um pouco!

— Se você acha que vai me dominar de novo está muito enganado, seu louco. Ninguém me pega duas vezes! — grita uma enfurecida Mulher Invisível.

— Senhora Richards, me perdoe, mas aqui eu posso tudo. Por que está quieto, Richards? Dê-me o prazer de calar a sua boca.

— Sabe, Chave, acho que você está falando demais pro meu gosto.

— Cara, pra até o Borracha não te agüentar é porque você é muito chato!

— Coisa, uma mente inferior como a sua não pode compreender o momento sublime que vivemos. Vocês são os representantes do pensamento apolíneo que nos governa desde Sócrates. Representam a beleza vazia, a negação à própria vida, defendendo uma falsa idéia do bem e da caridade, dedicando suas vidas à ajudar aos humanos, e com isso negando-lhes a capacidade de viverem e sentirem por si próprios. Eu sou o representante do pensamento dionisíaco, e permitirei ao povo ter sentimentos de verdade. Eles aceitarão a dor como algo inerente à própria felicidade. Eu sou a dor que trará felicidade à humanidade!

— Se você acha que a dor traz felicidade, chega mais pra eu te dar um pouco de alegria, pois... tá na hora do pau!

O Coisa consegue pegar o Chave, distraído em seu próprio discurso, e dá um direto de direita no vilão, que cai para trás e derruba parte de sua tropa, surpresa e sem reação. Aproveitando-se da confusão, o Tocha Humana incendeia as armas dos inimigos mais próximos, enquanto a Mulher Invisível projeta seu campo de força em pequenas esferas contra seus oponentes.

Aproveitando-se de toda a confusão, o Senhor Fantástico estica seu corpo até o Chave, que ainda se levanta, e o enrola como uma jibóia faz com suas presas.

— O aparelho que usei para te localizar tem uma outra função, Chave: a de anular o fluxo de energia negativa cósmica em seu corpo.

— Se você pensa que vai usá-lo, Richards, está muito enganado. Eu já disse, sou um deus.

Usando seus novos poderes, o Chave estica o corpo do Senhor Fantástico até o limite, fazendo com que Reed Richards sinta uma dor profunda.

— Gostando, Richards? Vou esticar tanto seu corpo que todas as suas moléculas vão se arrebentar.

— Não vai, não! — grita o Coisa, partindo pra cima do vilão, que reage imediatamente erguendo parte do solo e moldando-o para prender o Coisa numa esfera de terra.

Percebendo isto, a Mulher Invisível cria uma espécie de cone com seu poder, para perfurar a prisão de terra. Antes que o Chave possa reagir, o Tocha Humana o ataca com rajadas de fogo.

— Fogos de artifício não irão me deter, garoto. Mas se você gosta tanto deles, aproveite-os bem.

Desta vez as chamas de Johnny não se apagam. Pelo contrário, aumentam tanto de intensidade que começam a queimar o herói, que grita em desespero. Ele consegue controlar suas chamas antes que algum dano permanente ocorra em seu corpo, mas cai desmaiado em seguida. A Mulher Invisível consegue soltar o Coisa, e ambos partem para cima do Chave.

— Chega! — Com um estalar de dedos, o Chave faz com que os dois fiquem totalmente paralisados, incapazes do mais simples movimento.

— Só não os mato por desejar que sirvam de platéia pra minha conquista do universo. Tudo bem, isso é um clichê de vilões megalomaníacos, mas o sentimento é simplesmente irresistível. Eu não preciso de naves para acessar o nosso universo, com um simples desejo posso abrir um portal dimensional que me leve pra lá.

E assim é feito. Com um simples pensamento do Chave, um portal se abre. O que ele não contava, porém, é que não conseguisse ultrapassar este portal.

Não! Eu sou um Deus, posso tudo! Por quê? Por quê?

— Problemas, Chave? — pergunta um irônico Reed Richards, já refeito do golpe de seu oponente. — A energia negativa em seu corpo é tão forte que você não consegue deixar a Zona Negativa. Você não passa de um deus negativo, rejeitado por seu próprio universo.

— Não é justo! Não é justo! Eu estava tão perto!

O Chave entra em colapso nervoso, entrando em estado catatônico. Todo seu poder perde o efeito, libertando Ben, Sue e todo o planeta.

— Eu, Gwydion XXIV, como o rei deste planeta, digo que devemos linchar o Chave!

Toda a multidão urra em delírio com as palavras de ordem de seu antigo governante, e pegam o que têm à mão para massacrar o Chave. Rapidamente, o Senhor Fantástico intervém, e discursa para a multidão.

— Calma, por favor! Eu sei que vocês sofreram muito nas mãos desse canalha, mas não devem matá-lo. Vejam o estado em que ele se encontra! Sua mente está em frangalhos, ele não oferece mais risco a ninguém!

— Tem razão, vamos deixá-lo vivo para que possa sofrer mais! — grita uma voz na multidão, aplaudida por todos. Mesmo que pelos motivos errados, o Chave não será morto hoje.

— Pode deixar, forasteiro. Meu governo dará a este verme o tratamento que ele merece — afirma o rei.

— Confiarei no seu governo, majestade. Você parece-me honrado, já que até aceitou mudar de posição à pedido do povo — retribui Richards.

— Ben, como está Johnny? — pergunta a Mulher Invisível, preocupada com seu irmão.

— Ainda zonzo, mas fisicamente parece que nada de grave ocorreu. É claro que não sou médico, mas ele parece OK.

Ao constatar que tudo está bem, o rei Gwydion grita para todos:

— Então o que estamos esperando? É hora de festejar! Vinho para todos!

E assim, o Quarteto Fantástico consegue mais uma vitória.

Epílogo:

Imagine-se tendo os poderes de um deus. Você poderia fazer tudo, certo? Então, por que seria rejeitado por seu próprio universo? Sua mente não conseguiria aceitar isso, e o terror dominaria sua alma.
Imagine-se preso numa cela totalmente escura, em um planeta desconhecido, sem nenhum contato com outros seres vivos além das baratas de sua cela. Que, por sinal, são o seu único alimento.
Imagine-se aterrorizado, em um lugar totalmente escuro, comendo apenas baratas, e sem a mínima esperança de ver algum ser vivo além delas. Como um deus, você supostamente seria imortal.
Imagine-se passando o resto da eternidade desta forma. A única coisa que você poderia fazer seria gritar, bem alto, expressando todo o terror da sua mente. Assim como o Chave faz agora.
Você gritaria por toda a eternidade. Mas ninguém ouviria...

:: Notas do Autor

(*) JB, pode me mandar o cheque por eu ter colocado este adesivo na história.



 
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