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Quarteto Fantástico # 06

Por Rafael 'Lupo' Monteiro

"O mundo para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em
que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste."

William Shakespeare, em O Mercador de Veneza.

Sentimentos Programados

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— Eu mato o Reed! Será que ele não vai sair dessa droga de laboratório?

Susan Storm Richards está mais do que irritada com o marido. Reed Richards está trancado no seu laboratório há três dias, investigando o corpo do ex-guardião Mike Golden, que auxiliou o Quarteto na batalha contra os Alienígenas. Após derrotá-los, Golden matou Vapor, em represália à morte de sua noiva, e em seguida deu um tiro em sua própria cabeça. O que surpreendeu a todos foi o fato de que Golden era na verdade um andróide. Desde então, Reed ficou obcecado em descobrir quem foi o responsável pela criação do autômato, e por isso, está fazendo a "autópsia" de Golden (*).

— Relaxa, mana, você sabe que ele é assim mesmo. Vem comigo, vamos dar uma volta pela cidade. — Johnny Storm tenta acalmar sua irmã, sem muito sucesso.

— O problema é que não agüento mais isso. Quando parece que ele vai mudar, aparece um novo mistério científico, e lá se vai o meu marido.

— Pensei que você já estivesse acostumada com isso.

— Não, acho que nunca vou me acostumar.

Nesse instante, o Senhor Fantástico sai de seu laboratório com os olhos radiantes.

— Sue, Johnny, chamem Ben e preparem-se para entrar em ação. Acho que vamos conseguir pegar o último fugitivo.

— Último fugitivo? Você quer dizer o T. O. Morow? — pergunta o Tocha Humana.

— Sim, ele mesmo. Acho que já entendi o que ele realmente queria.

No dia seguinte, ocorre o enterro de Mike Golden. Estão presentes vários Guardiões, os diretores da penitenciária para supervilões conhecida como "Gruta", alguns membros da imprensa, que deram uma pequena cobertura dos fatos dos últimos dias, além do Quarteto Fantástico.

Os Guardiões estão revoltados com o destino do colega, algo comum quando ocorre a morte de algum oficial da lei no cumprimento do dever. O que chama a atenção de todos é o fato de nenhum familiar ter comparecido ao enterro. Mike Golden não tinha nenhum parente conhecido.

O Quarteto acompanha tudo de longe, muito discretamente. Reed Richards é o mais pensativo de todos. Os heróis evitam a imprensa.

À noite, um mendigo entra no cemitério e senta-se em um túmulo em frente ao de Golden. Ele segura uma garrafa de whisky barato que se encontra pela metade. Se ajeita como pode para terminar sua garrafa em paz.

Ao tomar mais um gole, o homem leva um susto. Esfrega os olhos com as mãos, mas a imagem permanece. O que ele vê é uma mão levantando-se do túmulo à sua frente. Aos poucos, saem os braços, a cabeça, e por fim o corpo inteiro do suposto defunto. A seguir, Golden, ainda com sua armadura de Guardião, levanta vôo.

— Amiga, acho que já convivemos por muito além do necessário. Além do mais, estou precisando de calças novas, pois acabei de molhar a única que tenho. — o mendigo despede-se de sua garrafa, e a joga para longe. Um mês depois, ele estará empregado em uma lanchonete, terá roupas limpas e até um lugar pra morar. Nunca mais beberá nada que contenha álcool.

Enquanto o mendigo leva o maior susto da sua vida, os membros do Quarteto Fantástico aguardam impacientemente o comunicado de seu líder.

— Cuméquié, Borracha, é pra hoje ou você só quer botar a gente de castigo? — como sempre, Ben Grimm é quem fica mais irritado com a demora de Reed Richards.

— Ben está certo, querido. Já não era para termos partido?

O Senhor Fantástico finalmente atende aos apelos de seus colegas e esposa.

— Calma, vocês sabem muito bem qual é o plano. Golden vai levantar de seu túmulo e irá atrás de seu T. O. Morrow, que descobri ser seu criador, e cujo esconderijo não sabemos onde fica. Todavia, seguiremos Golden e então prenderemos Morrow. Mas não podemos fazer nada antes de o aparelho conectado ao rastreador que implantei em Golden dê o sinal, que é o aviso de que nosso amigo artificial "ressuscitou".

— Foi você que devolveu a vida a ele, certo? O que ainda não entendi é como você fará o Golden encontrar o cientista. — indaga o Tocha Humana.

— Simples. T. O. Morrow estava monitorando Golden, para verificar se seu plano estava dando certo. Descobri isso durante a "autópsia" que fiz em nosso colega. O que fiz foi programar Golden para acordar e seguir a freqüência que T. O. Morrow estava utilizando para encontrá-lo. Por isso passei tanto tempo no laboratório nos últimos dias.

— Mas qual é o plano de Morrow, afinal? — pergunta mais uma vez Johnny Storm.

— Pelo que pude constatar, era uma experiência inovadora. Ele programou o andróide para que fosse capaz de amar e odiar, e para que buscasse vingança pela morte de sua amada, mas também para que no fim sua humanidade falasse mais alto e ele perdoasse os assassinos.

— Mas ele não perdoou, já que matou Vapor.

— Correto, Johnny. Isso prova que sentimentos humanos não podem ser programados. Por mais que a ciência avance, eles vão além de qualquer lógica e teoremas matemáticos.

— Mas ele não se apaixonou pela noiva? Isso estava programado!

— Sim, mas será que ele se apaixonou por causa disso? A coisa mais normal em nossas vidas é se apaixonar por alguém. O Visão se apaixonou por Vanda (**), por exemplo. E não foi programado para isso.

— Chega, por favor, tô quase dormindo aqui! Jonnhy, pára de dar corda pro Reed, senão ele nunca vai fechar a matraca. — a paciência do Coisa chega ao fim, e ele está a ponto de gritar com todos.

— Calma, Ben. Para sua sorte, e a de todos nós, meu aparelho está dando o sinal, o que indica que Golden está se dirigindo ao esconderijo do nosso inimigo.

— Já tava mais que na hora! Vamos lá chutar a bunda do T. O. Morrow!

— Que seja feita a sua vontade, pedregoso! — com este gracejo de Johnny, o Quarteto levanta vôo no Fantasticarro e parte ao encalço de seu inimigo.

Em algum ponto das Montanhas Rochosas...

T. O. Morrow prepara-se para dormir. Ele se sente frustrado por seus planos terem falhado. Depois de mais de um ano de planejamento, tudo foi por água abaixo. De qualquer forma, ele pretende recomeçar em breve, talvez tendo como alvo seus velhos inimigos da Liga da Justiça.

Ele veste seu pijama e dirige-se ao quarto, quando os alarmes de seu esconderijo disparam, indicando que há algum intruso. Para sua surpresa, o invasor é Mike Golden, sua mais recente criação. Invasor este que adentra a sala no mesmo instante.

— Então você resolveu me procurar. — fala Morrow — Acho que você ficaria melhor morto.

— Seu desgraçado, você me criou só para que eu sofresse! — responde, indignado, o ex-guardião — E eu nem ao menos sabia quem era ao certo.

— Claro que sim! Eu sou seu pai, seu deus. Pra que um deus cria suas criaturas, senão para fazê-las sofrer? E você falhou, pois não cumpriu a programação para a qual foi destinado.

— Quem falhou foi você, por presumir que pode programar sentimentos humanos. Eles estão acima da sua arrogância científica. Tudo o que você conseguiu foi criar um assassino de coração partido.

— Que tocante! Acho que criei um assassino poeta! Vá embora, eu te rejeito!

— Não vim aqui para obter sua aceitação. Vim aqui para matá-lo!

Quando Mike prepara a arma embutida na armadura de guardião, o alarme do esconderijo dispara mais uma vez. Desta vez quem chega é o Quarteto Fantástico.

— Richards, é claro! — grita Morrow — Agora as coisas se encaixam! Isso tudo é um plano seu para me capturar.

— Desista, Morrow! Você será preso, não tente nada. — fala o Senhor Fantástico, esticando-se até a sala.

— Não, Borracha, deixa ele tentar alguma coisa, tô doido pra partir a cara do safado! — o Coisa ainda prefere resolver tudo com um bom quebra-pau do que na base da conversa.

— Não! A vingança será minha mais uma vez. — Golden tenta disparar sua arma, mas ela derrete, sem o ferir. Cortesia do Tocha Humana.

— Não desta vez, Golden! — exclama Johnny Storm — Agora vamos fazer a coisa certa.

— E quanto a você, Morrow, antes que tente alguma gracinha... — a Mulher Invisível usa seus poderes para criar um campo de força ao redor da cabeça do vilão, deixando-o sem ar até perder a consciência. Logo em seguida, o Senhor Fantástico algema T. O. Morrow, desta forma derrotando o vilão sem a necessidade de combates.

— E quanto a você, Golden? Meu dever é também prendê-lo, pois cometeu um crime, mas essa não é a minha vontade. — diz Reed Richards.

— Sabe, não tenho mais nada por que viver. Mas ao mesmo tempo não quero morrer, nem ir para a cadeia. Na verdade, estou muito confuso. Se ao menos pudesse ter minha Natasha de volta...

— Golden, você terá que se acostumar a viver sem ela. — Richards põe a mão no ombro do andróide — Mas isso ainda não resolve o meu problema: o que fazer com você.

— Eu peço que me dê uma segunda chance. Vou vagar por aí, até achar algo pelo qual valha a pena viver.

— Tenho certeza de que vai achar o que procura, seja lá o que for. — Richards assente com a cabeça, como que liberando Golden para buscar seu destino.

— Então adeus, Richards e todo o Quarteto. Quem sabe a gente não volte a se encontrar algum dia.

— Até lá! — responde Reed.

Mike Golden levanta vôo, sem destino algum.

— Pô, não vou dar porrada em ninguém hoje! — fala um inconformado Coisa.

— Conseguimos o queríamos, não conseguimos? Então já está bom demais. — afirma a Mulher Invisível. Em seguida, o Quarteto entrega T. O. Morow às autoridades da Gruta e volta pra casa.

"É gostoso sentir o vento no rosto, os pingos de chuva a molhar meu corpo. A sensação de liberdade é maravilhosa. Não tenho mais minha Natasha, e nunca a esquecerei, mas tenho que seguir em frente. Tenho um mundo inteiro a explorar, visitar novos lugares, conhecer novas pessoas, novas culturas. Esse mundo é grande demais, e toda a dor que sentimos acaba se dissipando pelo caminho que percorremos nele."

"Passado o momento de tristeza, devo seguir em frente. Não sou o mesmo de antes, mas pensando bem... Nenhum de nós é..."

:: Notas do Autor

(*) Veja a última edição.voltar ao texto

(**) Wanda Maximoff, a Feiticeira Escalarte, membro dos Vingadores.voltar ao texto

Com este conto, encerra-se meu primeiro ciclo de histórias com o Quarteto Fantástico. Temos muitas novidades pela frente, e espero que vocês gostem do que estou preparando. Enquanto isso, que tal preencher os espaços aí embaixo e me dizer o que vocês acharam das aventuras do Quarteto que saíram até agora? Sei que ainda tenho muito o que melhorar, mas espero ter agradado até aqui. De qualquer forma, sinta-se à vontade para fazer críticas e elogios, o importante é saber o que os leitores pensam das histórias. Um abraço a todos!



 
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