hyperfan  
 

Quarteto Fantástico # 08

Por Rafael 'Lupo' Monteiro

Genes Humanos Fabricados
Parte I

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Quarteto Fantástico
:: Outros Títulos

"Ninguém liga pra mim."

"Todo mundo passa por mim, mas é como se eu não existisse. Tantas pessoas, sempre apressadas, e nenhuma delas sequer olha pra mim."

"A mamãe e o papai também não me vêem. Ficam perguntando onde eu estou, e eu na frente deles. Por isso saí de casa, eles não me querem mais."

"Eu quero gritar, pra ver se assim alguém olha pra mim. Mas não consigo, estou com o grito preso na garganta, ele não quer sair."

"Tudo que eu consigo fazer é chorar."

Nova York, Four Freedoms Plaza. Mais um dia comum na vida dos moradores deste que é um dos mais conhecidos prédios da cidade. É claro que estamos falando do Quarteto Fantástico! Mas será que esse está sendo mesmo mais um dia comum?

— Reed, já está no computador de novo?

— Calma, Sue! Só vou verificar os meus e-mails!

— Que, pelo que sei, são sempre inúmeros, todos os dias! — apesar dessas palavras, Susan Richards hoje está de bom humor.

— Verdade, mas a maioria é lixo, propostas mirabolantes para ganhar dinheiro às nossas custas, pessoas que querem conselhos para sua vida pessoal, até mesmo uma proposta pra fazer um filme nosso... já pensou em ver a sua vida no cinema, querida?

— Há! Johnny é que iria gostar! Mas espere um pouco... que música é essa que você está ouvindo? — Susan começa a remexer nas coisas de seu marido. A mesa está uma completa bagunça, com CDs empilhados junto a livros e papéis avulsos, e até um prato com meia maçã, que Reed comia até minutos antes.

— Bem, quando estava voltando da Universidade hoje, passei em frente a uma loja de CDs, e acabei comprando algo que eu gostava de ouvir quando era jovem. Nunca imaginei que um dos meus álbuns favoritos já está fazendo 30 anos... The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, de David Bowie. Estou até me sentindo velho hoje! — as palavras saem com um tom de nostalgia da boca de Reed.

— Como é? Desde quando você gosta de rock n'roll? — Sue se espanta com a revelação do marido.

— Como eu disse, eu era jovem, Sue. Aquele som novo, e a temática do extraterrestre que vem para o nosso mundo e acaba virando um pop star me chamou a atenção. Se bem que eu achava o visual de Bowie meio exagerado... mas acho que esses músicos modernos são todos assim mesmo, não é?

— Quem diria que meu marido um dia ouviu glam rock! Incrível como depois de tantos anos a gente ainda pode ser surpreendida pelas pessoas mais próximas! E tem outra, meu roqueiro... esses seus "músicos modernos" já devem estar todos cinqüentões hoje... — Sue diverte-se um pouco às custas do marido.

— Você está me chamando de velho, é? Pois deixe eu provar que ainda tenho muito o que dar para você... — Reed estica seus braços e envolve sua esposa neles, trazendo-a para perto de seu rosto, e a seguir lhe dá um grande e apaixonado beijo.

No entanto, a paz do casal não dura muito, já que ouvem um grande barulho, decorrente de uma parede arrebentada. Para surpresa de ambos, é o Tocha Humana que foi arremessado de uma sala diretamente para a outra. O estrago é grande, pois ao atravessar a parede Johnny arrebenta o encanamento da água, e causa um vazamento, contido pela Mulher Invisível com seus poderes. Mesmo assim, a sala de pesquisas está completamente molhada.

Preocupado com o cunhado, Reed Richards se dirige ao próprio:

— Johnny, o que houve?

— É aquele monte de pedra de novo, que vai ver só! — fala um irritado Tocha Humana.

Neste instante, Ben Grimm, o Coisa, entra no recinto. Em seu rosto, um sorriso mal disfarçado. Ele acende um charuto, dá uma baforada, e joga o palito em Johnny.

— Cuméquié, ô palito de fósforo, tá preparado pra apanhar mais ou já tá satisfeito?

— Seu babaca, se prepara pra engolir fogo! Em chamas!

— Parem os dois agora! — aos berros, e usando seus poderes para separar as crianças grandes, Susan impõe ordem na casa.

Neste instante, Franklin Richards sai de seu quarto curioso para saber o que está acontecendo.

— Gente, o que tá acontecendo aqui?

— Nada, é só o seu tio Johnny que aprontou mais uma. — responde o pai do garoto.

— Pô, Reed, dessa vez a culpa não é minha! É tudo coisa desse monstrengo cor-de-abóbora!

— Olha o respeito, moleque. — responde o Coisa — Tá querendo visitar o dentista hoje?

— Será que dá pra vocês dois explicarem o que está acontecendo, afinal? — pergunta, irritada, Susan.

— Bem, ontem de manhã recebi um e-mail de alguém se dizendo o Steven Spielberg, marcando um encontro comigo hoje, porque queria que eu fizesse o papel principal do seu próximo filme. Daí fui hoje ao encontro dele, e fiquei mofando a manhã toda esperando. Quando era meio-dia, liguei para os meus contatos e consegui o celular do Spielberg. Quando eu falei com o cara, ele disse que o próximo filme dele ia ser um dos "sérios", que não ia ter vaga pra mim, e que não sabia de história nenhuma de convite.

— E o que Ben tem a ver com isso? — pergunta Sue.

— Quando cheguei em casa, esse cara de pedra me perguntou "e aí, como foi ficar esperando a manhã inteira pelo Spielberg? Quem sabe você não consegue um papel de fogueira no próximo filme dele?".

— Hehehe. E o otário caiu direitinho! — diz Ben Grimm com satisfação nos olhos.

— Ora, seu...

— "Seu", nada! Isso é só pra eu ter o gostinho de tirar uma com a sua cara, seu mané! Você não faz sempre isso comigo? Agora vai ter troco, xará!

— Da próxima vez, não destruam a casa por causa dessas briguinhas bobas! Façam-me o favor, vocês dois às vezes me dão mais trabalho que o meu filho! — com os ânimos mais calmos, Reed Richards dá por encerrada a discussão, e cada um vai para o seu canto.

De volta ao computador, o Senhor Fantástico põe a leitura da sua correspondência virtual em dia. Mas algo nela hoje realmente o surpreende. Na sua conta secreta, conhecida só por algumas poucas pessoas, e só utilizada em caso de emergências, ele recebe um e-mail de um usuário desconhecido, que assina apenas como "X". Curioso, ele abre a mensagem, e seu conteúdo é ainda mais surpreendente.

Quatro crianças modificadas geneticamente por uma agência governamental secreta. O tipo de informação que se vê nesses pasquins sobre teorias de conspiração, e que nunca são levadas a sério. O que levaria alguém a mandar esse tipo de coisa para o Quarteto Fantástico, Reed Richards até pode imaginar. O que ele não compreende é como alguém teve acesso a sua conta de e-mail secreta.

Segundo a mensagem, Billy Green, 5 anos, ao cair em um bueiro aberto na cidade de Seattle, conseguiu se segurar, esticando seu braço como um elástico. Antonio Hernandez, 6 anos, ao brincar com fogo na cozinha em sua casa no Harlem, acabou ateando fogo em seu próprio corpo, e não obteve nenhuma queimadura. Elisha Adlard, 5 anos, sumiu ao brincar de esconde-esconde em New Jersey, e nunca mais foi encontrada. Cornelius Hester, 4 anos, acordou com seu corpo transformado em pedra na cidade de Chicago.

Todas elas estão desaparecidas há um mês. O e-mail diz ainda que todas elas estão em uma base secreta do governo, sendo submetidas a testes.

Reed Richards, intrigado, procura checar essas informações. Se isso for verdade, o genoma com os poderes do Quarteto Fantástico foi reproduzido em laboratório, o que pode abrir um perigoso precedente. Em suas pesquisas, o líder do Quarteto Fantástico confirma a existência das crianças, assim como o sumiço de todas elas. Ele inclusive entra em contato com as famílias das crianças, que estão desesperadas. Aparentemente, nenhum deles sabe de nada sobre a conspiração sugerida no e-mail, e o parto das crianças foi absolutamente normal. A seguir vem a parte mais trabalhosa, e que ocupa uma semana de trabalho árduo, o de fabricar um aparelho que possa localizar essas crianças. Partindo do mesmo princípio do aparelho Cérebro dos X-Men, o Senhor Fantástico constrói uma versão simplificada do mesmo. Ao utilizá-lo, Richards consegue localizar três delas em algum ponto do deserto do Arizona. Curiosamente, a quarta, Elisha Adlard, está em local diferente, perambulando pelas ruas de Nova York. O sinal agora está indicando que ela está no Times Square, provavelmente perdida.

— Como é que vamos encontrar uma garotinha no meio dessa multidão? — em pleno horário de almoço de uma segunda-feira, a pergunta de Johnny Storm se revela mais do que pertinente. A rua parece um formigueiro, com pessoas apressadas olhando para lugar nenhum, os táxis amarelos dominando o asfalto, congestionando todos os acessos, o grande relógio de Times Square, onipresente e ao mesmo tempo esquecido pela rotina diária, e, ao fundo, prédios ainda em ruínas, esperando sua vez de caírem e serem reconstruídos, para recomeçar suas vidas de onde a entidade cósmica conhecida por Galactus as interrompeu. (*) E, no meio de tudo isso, uma criança de 5 anos que pode ficar invisível.

— Só nos resta observar daqui de cima, e tentar encontrá-la, enquanto Sue e Ben a procuram lá embaixo. — responde Reed Richards, do alto de um dos prédios da rua. Ele liga para sua esposa, procurando saber de novidades.

— E então, querida, alguma notícia?

— Até agora nada, Reed. Estou usando meus poderes para tentar localizar alguma manipulação psiônica da luz, mas até agora nada... espere, estou captando algo... é uma criança, acho que a localizei. Está entrando na estação de metrô!

— Bingo! Parece que temos algo, Johnny. — os dois membros do Quarteto Fantástico descem, em direção a estação. A primeira a entrar é a Mulher Invisível, seguida pelo Coisa e os demais membros do Quarteto. Susan fala com a criança.

— Elisha, não precisa ter medo, estamos aqui para te ajudar. — Susan segura as mãos da criança. Aos poucos, ela vai deixando de se tornar invisível, e aparece aos olhos de todos. Ela está chorando, assustada, mas não consegue falar. Susan retoma a palavra — Elisha, agora que te achei, tudo ficará bem, e você voltará para seus pais.

Neste momento, Susan leva um golpe por trás, na nuca, e cai no chão. Passando por cima dela, uma mulher loira, alta, com um corte de cabelo curto, usando um vestido branco e botas da mesma cor, toma a criança para si, e corre com ela em direção à saída do metrô. O Coisa, que estava afastado, ao ver a cena corre em perseguição à misteriosa mulher. Esta, ao perceber que está sendo seguida, saca uma pistola 9mm e atira para o alto, causando tumulto na estação. As pessoas, desesperadas, correm em todas as direções, impedindo que a perseguição continue. É a deixa para o Tocha Humana levantar vôo.

— Não consegue fazer nada direito, hein, monte de pedra? Deixa que o papai aqui mostrar como se faz. Em chamas!

A seguir, Johnny procura pela loira, e a encontra fugindo na direção das linhas do trem. Ela, ao perceber que está sendo seguida, atira na direção do herói, que aumenta a intensidade de suas chamas para derreter as balas, disparando o alarme contra incêndio e aumentando ainda mais o pânico. A Mulher Invisível cria um campo de força ao seu redor, e levita, se aproximando da loira. O Senhor Fantástico e o Coisa tentam acalmar os usuários do metrô, evitando que as pessoas se firam na correria.

— Pare onde está e solte a criança! — grita o Tocha Humana, em tom imperativo.

— Por que você não tenta me parar? — responde ela. Johnny, rapidamente, aumenta o calor em torno da pistola da mulher, fazendo-a derreter.

— Não preciso mais dela! — diz a loira, soltando a pistola, saltando em direção ao Tocha Humana e aplicando-lhe um chute no queixo que o deixa zonzo. Neste momento, a Mulher Invisível chega ao encontro de sua oponente, e fala.

— Nós não a deixaremos fazer mal algum a essa criança, e se tentar, prepare-se para as conseqüências!

— Você quer conseqüências? Que tal esta? — a loira dá um chute na direção do rosto da Mulher Invisível. Susan defende o golpe, e a seguir fica invisível. A heroína tenta acertar um soco na loira, mas ela surpreendentemente consegue se desviar, e ao se abaixar aplica uma rasteira que derruba a Mulher Invisível.

— Como você conseguiu? — pergunta, embasbacada, a esposa de Reed Richards.

— Muito treinamento, querida! — com essas palavras, a loira dá uma pisada com toda a força em sua oponente, que perde a consciência — Elisha, querida, agora já podemos...

— Procurando pela criança? — Reed Richards segura Elisha, olhando fixamente para a mulher que derrotou sua esposa e seu cunhado. Ao seu lado está Ben Grimm — Ela está em boas mãos agora, e acho melhor que você se renda e poupe trabalho a todos.

— Vocês, heróis, sempre tão arrogantes! — com uma gargalhada, a loira termina sua resposta.

— É isso aí, guria, falou o que eu queria! Tá na hora do pau!

O Coisa parte pra cima da mulher, que tenta desviar, mas acaba recebendo de Ben um soco leve no estômago, perdendo o fôlego.

Triunfante, Reed Richards dirige-se novamente à estranha:

— Pode acabar com seu teatrinho, Mística, e explique o que você quer com o Quarteto.

Ao ver que foi descoberta, a mutante transmorfa assume sua forma mais conhecida, e com um sorriso nos lábios, responde:

— Pensei que nunca iriam me reconhecer. — diz Mística, ainda sentada no chão, recuperando-se do golpe do Coisa — Mas ninguém engana Reed Richards facilmente, não é? Vamos conversar em um lugar mais reservado, se não se importa.


Conclui na próxima edição.


:: Notas do autor

(*) Veja a última edição para mais detalhes sobre a queda de Galactus em Nova York. voltar ao texto



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.