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Quarteto Fantástico # 11

Por Conrad Pichler, sobre um plot de Rafael 'Lupo' Monteiro

Ensaio Sobre a Loucura
Parte II

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Noite. Fronteira entre Ruanda e Wakanda, centro-leste da África

Do alto de um morro, um doutor com seu binóculo observa, à um quilometro de distância, o campo dos refugiados da guerra civil ruandesa, em Wakanda. Muitos carros da ONU estão no grande pátio cercado por altas e eletrificadas cercas de arame farpado. Por que tamanha segurança?

Para que ninguém fuja do campo, pois todos nele estão contaminados pelo Vírus Púrpura, que de um meteoro que caíra em uma mina de vibranium, contaminou um mineiro e espalhou-se entre os miseráveis e flagelados.

— Dr. Corbeau, o Senhor Fantástico mandou uma mensagem, ele já está a caminho...

— Isso é ótimo... eu já preparei o laboratório portátil que eu carregava... espero que o vírus da loucura não tenha feito com que os refugiados matassem uns aos outros... nós não sabemos quais são as seqüelas da exposição prolongada ao vírus alienígena.

No Fantastijato, que voa em velocidade muito reduzida, já que seu piloto substituto, Reed Richrds, o Sr. Fantástico, está preso em paredes invisíveis projetadas por sua mulher, Susan Storm Richrds, a Mulher Invisível.

— Sue! Tente recobrar a consciência... argh! Você está me esmagando contra o painel... unf! O vírus dominou sua mente e corpo... arf! — quanto mais ele fala, mais as paredes o pressionam contra o painel do jato — ...ela está descontrolada... que vou fazer?

O Sr. Fantástico não pode usar seus poderes elásticos sem perder a proteção do traje anti-contaminação que usa, sendo assim dificilmente poderá se livrar do campo de força de sua amada e pilotar a nave para o campo de refugiados... achar a cura para o vírus, então, é ainda mais improvável.

Numa floresta, ao sul do ponto zero do impacto do meteorito, entre a mina de vibranium e o campo de refugiados, há um posto avançado do exército de Wakanda.

— Hehehe! Então cê gosta da Milla? Fala verdade... cê fica de olho na bunda do Kiuraja... — fala um dos soldados.

— Hihihi! Na minha bunda não, né?! Fala sério, né!?

— Psiu! O tenente tá quieto mesmo?

Um minuto de silêncio e de troca de olhares, então um ruído nervoso começa a ser ouvido.

— Soldados, quietos! Atenção ao perímetro! Kiuraja, Buana, marcar a esquerda. Foluvana e eu a direita, já! — grita o tenente Guainais para seus comandados.

— Que deu nele? Este lugar é um porre desde que caiu o treco do céu.

— Nem sei, né? Ele deve ter visto alguma coisa, né?!

Os soldados começam a se mexer.

— Soldados, não sussurrem, não falem, façam! — grita mais uma vez o tenente.

Todos se levantam e marcam perímetro, subitamente o ruído, ouvido pelo tenente, transforma-se em vibração, o solo treme como num terremoto...

O estrondo é terrivelmente alto, como a queda de uma bomba, provocado por uma dezena de árvores que são arrancadas pela raiz e cruzam ao ar.

— Cambio! Aqui... Argh!! — estilhaços e entulhos começam a cair. — aqui... é o tenente Guainais... Unf! O Coisa está indo para o sul... Ungh!! — mais entulhos. — ele está indo pro campo, repito...Unf! Para o campo de refugiados! Argh! Ele não tem controle, repito: insano! Arf!... devemos usar força máxima nele! Cambio, desligo! — assim os soldados, sem usar uma bala, são soterrados no meio da floresta por troncos de árvore e terra.

Fantastijato.

Nos pensamentos ágeis de Reed Richrds, um gênio, o Sr. Fantástico.

"Problema 1: livrar-me do campo de força da Sue. Problema 2: manter a nave no curso. Problema 3, agravante: o ar está contaminado. Possíveis soluções 1: ... não tenho... de que serve um gênio, sem os três desejos?"

Nisso o comunicador é ativado.

— Rich? Aqui é Pete, por que a demora... responda Rich...

— Pete! O campo... Arf! Está me apertando... mais... — disse o Sr. Fantástico, espremido pelo campo de força de sua esposa, seu traje protetor, começa a perder a integridade.

— O que, Reed?

— Pete... — ele é, mais uma vez, apertado contra o painel. — espere! Os comandos internos por voz! Mas ele está fechado na voz do Coisa? — pensava Reed. — Solução?

— Rich, você está bem? O que houve, homem de Deus?

— Pete! Mude a freqüência da voz... Arf! Do seu comunicador para — 5.067 Hz, não! — 6.067 Hz! Arrrrgh!

— Quê? Rich, você...

Pete! Menos! Seis! Ponto! Zero! Seis! Sete! Hertz! Já!!!

— Pronto! Que mais?

— Bela voz, Pete. Diga: "comando verbal ativar! Escotilha um: abrir!", seja rápido, estou perdendo meu traje!!!

— Certo. Comando verbal ativar!

<Ativado.> — disse a voz sintética do computador da nave.

— Escotilha um: abrir!



Nisso, a escotilha do Fantastijato abre, lançando a Mulher Invisível longe, junto ao seu irmão inconsciente. O Sr. Fantástico se agarra à poltrona apertando os botões que lhe devolvem o controle do jato. Ele fecha a escotilha e a divisória entre os compartimentos, separando-o de sua esposa e de seu cunhado, mais alguns botões e ele consegue limpar o ar contaminado da cabina. Acertando o curso e a velocidade para o campo, em menos de 1 minuto eles já estão pousados, mais 2 minutos e o Sr. Fantástico já está trabalhando.

— Então, inocule aqui, nesta amostra — diz Reed para Peter Cobeau.

— Humm! Não deu... o vírus é volátil demais...

— Uma amostra de meu sangue, preciso saber como reage no sangue meta-humano.

— Inocular vírus...

—...

—...

— Que foi, Pete?

— Nada.

— Como?

— Nada, seu sangue reagiu ao vírus, na verdade seus glóbulos brancos esticaram para eliminar o vírus...

— Então eu não me contamino? E eu não precisava do traje? — fala Reed, contente com a notícia.

— Não e nem ficar quarenta minutos embaixo da sua mulher... he-he! Isso me lembra a Francy... aquela do primeiro ano da faculdade... lembra?

— Não! A Francy, não...

— É, você ficou por baixo, bem por baixo.

— Espere... mas isso não ajuda... só eu e o Homem Elástico temos essa característica... como fazer um... — pensativo, Reed procura a todo custo uma solução — Ei! O Johnny!

— O que tem ele?

— O traje de moléculas instáveis dele, reagiu ao vírus e ao calor, acho que ele condensou o vírus... — Pensando alto ele começa a se esticar rumo ao Fantastijato.

— Rich, por favor! — o Sr. Fantástico olha para seu amigo. -Você pode parar de se esticar e andar, como todo mundo, eu não posso te acompanhar.

— Não! — ele riu consigo. — não temos tempo.

Nisso o comandante dos soldados de Wakanda, major Guannah, todo aparamentado, como se fosse para a guerra, aproxima-se da dupla de cientistas.

— Doutor Corbeau, Sr. Fantástico, temos problemas...

— Que houve major Guannah?

— O Coisa está vindo para cá, Dr. Corbeau.

— Ele está contaminado pelo Vírus Púrpura, está fora de controle...

— Nós já tomamos as providências para controlá-lo, Sr. Fantástico, mas preciso protege-los, vou tirá-los daqui.

— Não pode! Temos a resposta para o vírus.

— Dr. Corbeau, tenho ordens e uma responsabilidade...

Sem que o major terminasse a frase, o Sr. Fantástico esticou-se e pôs-se face a face com o aquele homem que lhe dava ordens.

— Major, eu sei de sua patentes e ordens, mas eu sou o marido e melhor amigo de duas pessoas contaminadas e mais: sou o único que tem a cura para esse vírus, no meu sangue, no sangue de meus amigos, eu não vou desistir.

— Senhor...

— Já dei minha resposta. Corbeau, prepare tudo, vou pegar meu sintetizador de moléculas instáveis...

— Certo, Rich. Major, não tome como ofensa, é apenas o certo a se fazer. — disse o doutor olhando nos olhos o soldado que salvou sua vida, quando eles entraram no campo de refugiados para buscar uma amostra do vírus, e foram atacados por homens e mulheres descontrolados sob efeito do mesmo.

— Positivo, doutor, vou lhes dar cobertura, mas sejam rápidos.

— Major...

— Sim?

— Não machuque o Coisa, ele é um grande amigo do Sr. Fantástico.

— Farei o melhor.

Segundo depois, Reed sai do Fantastijato com um equipamento e sua esposa em mãos. Nisso dois helicópteros levantam vôo, sob o comando do Major Guannah, mas um deles é atingido por um tronco de árvore e cai... um grande estrondo começa a ecoar pela base do exército que abriga o laboratório de Corbeau e do líder do Quarteto Fantástico. O chão treme e sacode os equipamentos, mas subitamente pára e logo a imensidão rochosa do Coisa salta por sobre as tendas e mergulha no vale abaixo do morro, correndo velozmente diretamente para o campo dos refugiados.

Quando tudo parecia ter acabado, eis que do Fantastijato um brilho surge, explodindo a nave e jogando-a à metros acima do solo e novamente contra o chão, despedaçando-a. Do interior dela surge o flamejante Tocha Humana, que voa também em direção ao campo.

— Reed! Meu Deus!

— Ainda bem que tirei Sue e o sintetizador da nave em tempo... eu vou testar o sintetizador para fazer o antídoto... Ah! me dê uma amostra do seu sangue... para os testes...

— Certo, Reed, mas, por Deus, para que você tirou Sue da nave?

— Vou ter de testar em você o antídoto em sangue humano e... e em minha esposa o efeito em sangue meta-humano. — os dois se entreolharam em silêncio.

Os helicópteros do Exército de Wakanda cruzam os céus rumo ao campo de refugiados. O major Guannah pretende proteger a todo custo o campo de seus irmãos refugiados e a cura que pode nascer na base militar, a um quilometro dali. Eles atiram no chão em torno do Coisa que consegue se esquivar. Mas diante das cercas elétricas ele pára, aspira firme, grunhindo e então se lança contra frio arame farpado, sentindo a descarga elétrica, o choque é terrivelmente grande, ele urra de dor. Mas ele prende a respiração e se desfaz do arame e do choque.

Logo, o Tocha Humana sobrevoa o seu amigo Fantástico, um berra para o outro e então começam um duelo, que espalha chamas e destruição pelo campo de tal forma que os helicópteros tem de manter uma boa distância.

Os refugiados que ainda estão vivos, sofrem os efeitos colaterais do vírus, tremores e febre. Eles se escondem nas tendas do campo, com ódio, medo e dor, no meio deles encontra-se caído o mineiro que carregava a picareta, o primeiro contaminado, o que era o mais forte, agora morto pelo vírus.

A batalha diante dos olhos insanos daqueles homens e mulheres era por demais incompreensível. Então uma rajada de calor, do Tocha, levantou todas as tendas, revelando amontoados de corpos dilacerados e o resto dos contaminados vivos que estavam encolhidos... tremendo e suando frio... a batalha entre os Fantásticos continuava selvagem. Até que uma parede invisível separou os dois.

— Pronto... querido... — disse a debilitada Mulher Invisível, que já estava fora de perigo graças ao antídoto experimental de seu marido.

— Me perdoe ter de fazê-la se esforçar tanto, querida, mas é o único jeito de controlar os dois.

O Sr. Fantástico, enrola-se no corpo pedregoso de Ben Grimm, o Coisa, e o imobiliza com dificuldade, mas conseguindo aplicar-lhe uma dose do antídoto que imuniza-o. Susan, auxiliando seu esposo, fecha seu campo de força por volta de Tocha para que suas chamas se apaguem, junto com o oxigênio no interior da bolha.

Quando a missão é cumprida, ela coloca o irmão atordoado no chão, enquanto Reed imuniza-o. Depois que eles voltam a si, mesmo atordoados, eles começam a espalhar, com muito trabalho, a vacina para os outros contaminados, até que todos estivessem livres do Vírus Púrpura, mas a cada contaminado vivo, dois estavam mortos.

Quando a noite já estava alta e apenas uma fogueira iluminava o campo, Reed abraçou a sua mulher e olhou nos olhos dela...

— Te amo, Sue. Te amo! Eu não conseg...

Ela pôs os dedos nos lábios dele e disse suavemente:

— Eu também te amo, querido... você fez tudo que podia, você salvou muitos e a nossa família também.

Neste instante, Coubeau chega para dar uma notícia a Reed.

— Rich, os corpos já estão sendo enterrados...

— Quantos são?

— Duzentos e vinte... encontramos inclusive o primeiro, o mineiro de vibranium... ele está todo deformado, foi horrível para ele...

— Pete, precisamos inocular o antídoto no ambiente, para que o vírus que está no ar não contamine mais nada nem ninguém. Tivemos sorte dele ser denso e não ter se espalhado com o vento.

— Como funciona o antídoto? — pergunta Johnny.

— Quando peguei uma amostra de seu uniforme percebi que a base molecular do vírus em reação com as moléculas instáveis era de carbono, mais precisamente, glicose... e o mesmo acontecia quando o vírus reagia com meus anticorpos naturais, então o vírus transformava-se em glicose e o meu corpo o absorvia.

— Quer dizer que o treco vira mel em contato com o vírus cor-de-rosa?

— Uma solução doce... — brinca Ben Grimm. Mas o vírus não era alien?

— Púrpura! — advertiu Johnny. — É, ele não era alien?

— Sim e sim, glicose é açúcar, por isso seu organismo não rejeitou a vacina...

— Todo o universo é formado pelos mesmo átomos, apenas algumas combinações nos são desconhecidas, mas as moléculas estáveis nos ajudou a enxergar essa natureza. — ensinou o Dr. Corbeau.

— Unf! Essa é a ironia, não? "Uma solução doce". Duzentos e vinte pessoas mortas é algo bem amargo.

— Para todos nós, borracha, podes crer. — ressentiu o Coisa.

— Mas como você vai inocular esse antídoto em todo o ambiente? — pergunta mais uma vez Johnny.

— Amanhã, Johnny, nós vamos semear algumas nuvens... mas só amanhã...

Ao norte, nas minas de vibranium, dois helicópteros negros sem identificação pousam na planície toda devastada pelas chamas do Tocha Humana, dezenas de esqueletos de pessoas e macaquinhos mortos. Dos helicópteros saltam homens e mulheres com seus trajes anti-contaminação.

Eles entram no "buraco" da mina e no seu interior escuro acharam uma peça de metal contorcida e queimada, era o meteoro...

— Dois, coloque na "mala".

— Sim, senhor.

— Um, para que usarão esse vírus, não é perigoso?

— Sim, Três, mas as armas precisam ser perigosas. Cambio, Asa 1? Quando decolarmos, coloque fogo no buraco. Cambio.

Todos voltam para os helicópteros. Quando decolam, um deles lança um míssil que soterra a mina.

No outro dia, dum monomotor pilotado pelo Coisa. Reed, Sue, Peter Corbeau e Johnny lançam grânulos púrpuras, como flocos de açúcar nas nuvens. Logo elas incham, e como uma chuva púrpura, caem sobre o solo cauterizado daquela região e também sobre os túmulos daqueles que morreram esperando uma cura, mas que saborearam a amarga morte; porém a chuva convertia o vírus em açúcar adoçando o solo da mãe África.

Algum tempo depois, em Washington, D.C., o Quarteto Fantástico, em nome do Povo do Rei Tchalla, entregam uma carta aos líderes da ONU, inclusive ao Presidente dos Estados Unidos, pedindo ajuda para o controle de moléstias na África, da AIDS à fome.

Numa rua escura nos subúrbios de Nova York, Tchalla, o Pantera Negra, observa a solenidade pela TV da vitrina de uma loja. Ao invés de gratidão, seus rosto está cheio de amargura pela morte de vários de seus irmãos.



 
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