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Quarteto Fantástico # 17

Por Conrad Pichler

No meio da noite, Franklin Richards desce escadas, depois, senta no sofá e liga a televisão. A Tia Petúnia e Alicia Masters nunca acordariam com o pouco de barulho que a criança faz. Há dois dias, ele apenas chora e dorme como um pequeno morto-vivo que assiste a televisão de madrugada.

— "... dezenas de grupos assumem a autoria do atentado..."

— "... Frasier has left the building..."

— "... o espaço aéreo foi interditado..."

— "... Sylar, você já ouviu esse nome?..."

— "... bombeiros e transeuntes afirmaram que o Homem-Aranha está no coração da destruição, ajudando..."

— "Não dá pra agüentar, vou embora!"

Enquanto vê suceder na televisão as notícias do atentado entrecortadas por programas de ficção, ele não consegue deixar de pensar na sua família, desaparecida ou morta sem vestígios, até que:

— "...forças das marinhas dos EUA, Inglaterra, Itália e Japão foram remanejadas para o Mediterrâneo. Suas localizações não foram totalmente reveladas, mas acredita-se que cinqüenta navios de guerra e submarinos estejam se posicionando na costa do Egito, em resposta aos atentados ocorridos naquele país. Nas palavras do Ministro da Defesa, 'É em nome de Reed Richads e sua família que o mundo livre e democrático tem de dar uma resposta ao Dr. Destino e sua corja de terroristas, atacando o país que permite trânsito livre desse tipo de escória..."

Franklin pode ser apenas uma criança, mas ele entende bem o que aquilo significa, estão usando o nome de sua família para justificar uma guerra. Estranhamente, o menino não chora, levanta-se, sobe as escadas e entra no quarto de sua "tia" Alícia:

— Tia Alícia...

— Humm... Frank, que houve?... Esta hora?

— Eles vão fazer uma coisa horrível, tia, eles vão fazer uma guerra por nossa família...

Alicia, sem poder ver toca as lágrimas do menino e tenta entender o que aquilo significa.

O Retorno do Destino — Ato II
Órfãos

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"... Navios de guerra, submarinos e porta-aviões dos Estados Unidos, Inglaterra e Itália bloqueiam as rotas marítimas que dão acesso ao Egito. Forças armadas e bloqueios antiaéreos foram posicionados em Israel e em países vizinhos. É uma demonstração de força inigualável, melhor dizendo, apenas igualável ao poder demonstrado por Victor Von Doom, conhecido como Dr. Destino, quando assumiu o posto de ditador do Egito com um atentado contra o poder público e um golpe de governo. Tropas da S.H.I.E.L.D. observam mantendo uma distância protocolar da situação. A qualquer momento a ordem será de guerra..."

Clark Kent pára de digitar, aspira fundo e coça os olhos mais por ser um gesto mimetizado do que por necessidade. Ele gira intranqüilo nas rodas de sua cadeira para olhar pela janela, literalmente, através dos vidros, prédios, morros, acidentes geográficos até enxergar a cidade de Nova York, o lugar onde brilhava o Four Freedoms Plaza e agora resta apenas fumaça e destruição.

Enquanto ouve e sente mil outras coisas em uma velocidade ilimitada, ele se pega pensando nas pessoas, quatro pessoas, Reed, Susan, Ben e Johnny. Mas, seu pesar só aumenta quando pensa na criança, Franklin. O que vai ser do menino? Órfão, como ele mesmo. Clark apóia os cotovelos nos joelhos e deita o rosto sobre as mãos, deixando sua mente vagar pelos outros mil assuntos pouco importantes, até que uma luz brilha no horizonte para o espaço, direto do coração da destruição em Nova York.

Antes que qualquer vizinho pudesse espiar pelas janelas, Kal-El, veste sua roupa Azul e salta janela afora, voando para o norte.

Em Nova York, os bombeiros, para-médicos, policiais e voluntários ficam perplexos assistindo o céu noturno iluminar-se por aquele feixe que subiu ao espaço com fúria cega:

— Quero ver todo mundo se afastando! — grita o Chefe de Resgate, sujo de poeira até nos fartos bigodes.

— Afastem-se! — grita mais um policial ao megafone — Agora!

Mas, como surgiu, o raio desaparece deixando a noite ainda mais negra.

— Deve ser uma das traquinas do Senhor Fantástico, disse uma voz da multidão que fazia vigília atrás de uma cerca de proteção.

Em alta velocidade uma figura cruza por entre prédios e postes de luz.

— Deus, é o Super-Homem! — disse uma mulher subindo as escadas do metrô.

No mesmo estante, com o da desaceleração supersônica, o vulto azul e vermelho entra velozmente na fumaça, formando revoluções na bruma espessa.

— É o Super-Homem! — grita a multidão.

— Em Nova York? — questionou-se o jornaleiro.

Seguindo seus olhos poderosos, Super-Homem vê a estrutura de um corpo humano sentada numa laje de concreto, seja quem for, está vivo e respirando. Por um segundo, Clark Kent quis crer que, sendo uma mulher, fosse Susan Storm Richards. Mas, ao se aproximar, ele viu olhos cegos tateando em lágrimas no escuro. No colo sujo de cinzas repousava uma esfera cintilante e metálica, a origem do feixe de energia.

— Norrin? — disse a voz suave. — Norrin é você?

— Não... — Super-Homem titubeou ao se esquecer o nome daquela moça que "Clark Kent" já conhecera de passagem em outra ocasião. — Sou...

— Super-Homem... Lembrei de sua voz... — ela enxugou as lágrimas com um lenço empoeirado.

— Pode me chamar de Kal-El. — ele sentou-se ao lado dela, vasculhando com seus dois olhos e muitas "visões" os escombros, mas seus sentidos são muito prejudicados pelos metais pesados que Reed Richards usara na construção de seu prédio. — Mas, quem é "Norrin"?

— Norrin é meu amigo... Norrin é amigo dos quatro... Ele é o Surfista Prateado...

— Porque você o chamou?

— Reed me deixou o feixe, ele temia que algo acontecesse... — ela chora baixinho.

— Com eles? Ele queria proteger você e o menino Franklin?

— Não, ele temia que algo acontecesse ao mundo, Kal-El, ele queria proteger o mundo...

Muito, muito distante dali, no mais profundo espaço, Norrin Radd presencia o nascimento de uma estrela, sua paixão por esses eventos demorados e únicos tem aumentado nos últimos tempos, talvez por que ele percebeu como sua vida será longa, estendendo o tempo em que ele terá de viver com todas as perdas que presenciou.

Nesse instante, o feixe de luz o atinge, é uma comunicação em código que informa uma emergência na terra, a natureza da ocorrência não é informada, mas ele sabe que é urgente. Sem olhar para trás, Surfista Prateado aproveita o impulso da onda gerada pela estrela nascente e voa em extrema velocidade espaço a dentro.

Enquanto removia lajes pesadas e vasculhava a plenos ouvidos tudo que poderia indicar uma forma de vida, Clark percebe que um estranho entrou sorrateiro na área dos destroços, ele procura, mas o sujeito é rápido e ágil, até que as luzes artificiais dos bombeiros se acendem revelando o Homem-Aranha.

— Ah, é você... Demorou, isso está pegando fogo há dois dias...

— Eu estive aqui nas primeiras horas, Super, mas eu tenho meus problemas... Nem todos têm uma galeria de vilões tão bons e ativos como eu!

— Diga isso para o Batman...

Sem perceber, Peter Parker já estava ajudando o Super-Homem a retirar escombros e lixo de metal para permitir que os olhos do Clark enxergassem melhor. Peter, subconscientemente, confia que Sentido de Aranha o informará se a busca precisar ser interrompida a qualquer momento por um perigo qualquer.

— Achou a origem do feixe-óptico-hiper-espacial?

— Sim, Alicia Masters! Ela está com os para-médicos, agora...

— E Franklin?

— Ele vai para a Escola Xavier, em Westchester.

— Bom...

Eles ficam em silêncio parados observando atentamente qualquer movimento, esperando algum sinal, até que percebem que tamanha destruição não poderia deixar qualquer sobrevivente. Quem preparou aquela armadilha tinha pensado em tudo, não só como destruir o Four Freedoms Plaza, mas também como impedir a fuga do Quarteto Fantástico e isso era desesperador.

— Você não acha que...

— Espere! — disse Super-Homem, olhando para o céu.

— Que foi? — o Sentido de Aranha nada informava.

— Ele chegou!

— Quem?

Antes de responder, Super-Homem lançou-se velozmente para o céu, rasgando o ar com um estrondo hipersônico, deixando um rastro de fumaça por quilômetros.

— Uau... Nem se eu implantasse uma turbina no rabo, eu poderia fazer isso!

Cruzando o firmamento rumo ao amanhecer, Super-Homem persegue um rastro de luz branco-azulada que descreve uma parábola perfeitamente calculada na baixa-atmosfera. Super acelera para vencer a resistência do ar, já que percebe que seu alvo é imune a essa força. Ao se aproximar, ele percebe que se trata do Surfista Prateado.

— Norrin! Pare! — grita o Super-Homem.

O Surfista Prateado levanta-se de sua prancha e observa com frieza o último filho de Krypton.

— Eles não pouparão ninguém, kryptoniano. Eu ouvi as transmissões de rádio e TV, eles destruíram o Four Freedoms e agora vocês vão destruir um país inteiro. Ninguém vai ser poupado.

Super-Homem sente que se não parar o Surfista Prateado agora, poderá ser tarde demais. Então, ele dá uma veloz volta no céu e atinge o Surfista no peito, deslocando-o de sua prancha.

Enquanto cai, Super-Homem voa para seu auxílio, mas antes que o alcançasse, a prancha o faz, eles se emparelham em vôo:

— Por quê?! — a pergunta é um misto de dor, confusão e ódio.

— Você não pode interferir. Não do jeito como está... Você pode causar mais danos do que eles com aquelas armas!

— Se não interferir, eles vão acabar com tudo que Reed, Sue e os outros significam! — Norrin pára completamente no ar, olha no fundo dos olhos de Clark, como se o conhecesse há séculos. — Eles vão destruir o que você significa, Super-Homem!

Clark pensa que Norrin pode estar certo. Não há outra forma de agir que não seja interferindo pelo bem da humanidade.

O Surfista volta a sua rota original, seguido do Super-Homem. Eles descem para o nível do mar, levantando água por onde passam, até encontrarem os primeiros navios cercando o Egito.

— Eu os ouvi preparando um ataque ao Cairo para daqui vinte minutos! — disse Super-Homem. — Preciso achar o comandante e impedir...

— Eu já enviei uma mensagem de rádio para que eles abandonem os navios e submarinos... — disse Norrin.

— Como?

— Vou inutilizar as armas deles.

— O que eles responderam?

— "Atacar!"

Agilmente, Norrin escapa dos morteiros e mísseis, as balas, antes de atingirem seu corpo metálico, são transmutadas em energia que ele absorve e transforma em pulsos de raios cósmicos que destroem os canhões e metralhadoras.

— Norrin, espere! Eu posso conversar com eles!

— Não vou feri-los, kryptoniano.

Surfista pára no céu e salta da prancha, mergulhando no Mediterrâneo. Ele percebe que pode nadar tão rápido quando pode voar em sua prancha. Aos poucos, ele se aproxima de dois dos três submarinos nucleares que sentiu naquele mar. Enquanto os comandantes dão ordens de atirar torpedos, Norrin se concentra nos reatores, convertendo a energia nuclear dos reatores em massa inútil, conhecida por nós como "lixo atômico".

— O que está havendo, marujo? — grita um comandante.

— Nosso reator está esfriando!

— Deus, a gente vai morrer afogado.

<< Os senhores têm energia suficiente para voltar à tona. Não tentem gastá-la lançando torpedos ou serei forçado a transformar o metal das paredes que os protegem em vidro. >>

Ao ouvir o aviso nos alto-falantes, os marinheiros acertam curso de emersão.

Super-Homem desarma velozmente alguns soldados, jogando suas armas no mar, enquanto ele observa a prancha, que permanecera estática, mergulhar. Em segundos, o Surfista Prateado volta aos céus.

— Norrin... Eu acabei de cometer uma série de crimes contra os EUA e mais outros países para proteger um maníaco como Doom... Espero que você esteja certo!

— Use seus instintos, Kal-El. Nós não protegemos um maníaco, mas sim, um povo inteiro.

Naquele instante, naves cortam o céu, submarinos de alta-tecnologia apontam no horizonte e o mais impressionante exército de soldados caminha pelas praias do Egito. Eles não são humanos, nem filiados a qualquer país de nossa terra, são seres que colhem os resultados de uma tecnologia milenar.

— Deviantes! — diz Super-Homem.

— Quem?

— Uma raça que vive nos subterrâneos desse mundo... Pouco se sabe sobre eles, eu mesmo nunca tinha visto um, apenas nos registros da Liga da Justiça.

— Acha que eles vão atacar os humanos?

— Não parece ser o alvo deles, mas precisamos protegê-los, já que tiramos suas armas.

Enquanto Norrin pensa no péssimo momento para ter destruído as defesas humanas, os dois heróis alienígenas vêem uma grande nave entrar no espaço aéreo egípcio.

Enquanto o Homem-Aranha conversa com Alicia Masters numa ambulância, o Chefe de Resgate come um hot-dog e ouve as notícias do ataque ao Egito pelo rádio.

— Deus, Norrin nunca vai ser perdoado por essa agressão...

— É dona! O Super-Homem deve estar louco! Se envolveu com aquele alienígena que queria devorar a terra para destruir o nosso exército! É por isso que odeio esses aliens!

— Ô, do bigode! O Super-Homem é alienígena, também... Ou você nunca leu o Planeta Diário? — disse desaforadamente o Homem-Aranha.

— É por isso que odeio esses fantasiados, também! — revidou o chefe.

Mas, enquanto Homem-Aranha tentava não retrucar, um bombeiro cruzou o cordão de isolamento:

— Chefe! Chefe! Encontramos alguma coisa, precisamos dos macacos-hidráulicos!

— Pode deixar, comigo, "Leôncio"! — Homem-Aranha deu dois fantásticos saltos para dentro do canteiro de buscas.

Quando ele já tinha afastado toneladas de concreto, Alícia e os dois bombeiros o alcançaram. Homem-Aranha soergueu um cubo relativamente pequeno que apesar de chamuscado e levemente amassado parecia ser a única coisa que sobrara inteira do laboratório do Reed Richards.

— É um cubo de contenção negativa.

— Um o quê? — perguntou o chefe.

— Imaginei que você não saberia, leão marinho...

— Escutamos com o estetoscópio um batimento cardíaco. Tem até essa luz piscando no mesmo ritmo.

— Abra logo, Homem-Aranha, deve ser um deles!

— Certo, Alícia, mas pode ser uma bomba de energia negativa... — ao dizer isso, Peter Parker se dá conta que seu Sentido de Aranha não lhe avisou de perigo. Então, ele tenta abrir à força o cubo.

— Você está louco, Aranha! Acabou de dizer que pode ser uma bomba! — gritou o Chefe, já paralisado de medo.

— Acredite... argh!... não é!... hunpf! — O Homem-Aranha percebeu que não conseguiria nada, nem com toda sua força.

— Deixe-me tentar... — Alicia tateia o cubo cheio de pequenos componentes, até que ela encontra duas saliências delicadas que não foram danificadas na explosão. Ela as aperta e ao tocar no pequeno globo que piscava no ritmo do pulso humano, o cubo se abre em quatro partes, ela sente um tecido fino de moléculas instáveis e quando contorna o rosto que começava a despertar, ela percebe quem é:

— Reed! — disse em coro com o Homem-Aranha.

— O Senhor Fantástico está vivo!


A seguir: Uma nova guerra vai começar e, desta vez, nem Super-Homem e Surfista Prateado poderão impedir. E mais: revelações sobre os planos do Dr. Destino!




 
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