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Quarteto Fantástico # 18

Por Conrad Pichler

O Retorno do Destino — Ato III
Arautos e Desertos

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No último inverno:

Em uma noite que começa lilás no deserto da Tunísia, uma porta parcialmente encoberta pela areia se abre para um estranho viajante. Sobre seu corpo e rosto, descansa um manto escuro empoeirado. Assim que o homem passa, a porta se fecha violentamente.

Caminhando na penumbra com passos firmes de quem já conhece o local, o estanho avança. Os túneis ancestrais abrem-se e encurtam-se imprevisivelmente, uma maneira de enganar os invasores, até que, ao passar por um apertado átrio, o viajante se depara com um salão suntuoso. Circunscrito no mármore escuro, no chão, estendem-se enormes tapetes persas que levam aos terminais de computadores dos dois lados do ambiente. Neles, três funcionários vestidos de preto e cinza não ousam observar o viajante. No centro, um trono adornado de ouro e tecidos finos.

Um segundo de silêncio se faz até que uma imensa porta ao fundo se abre. Outro homem vestido com seu manto verde-escuro caminha pelos tapetes orientais até se sentar confortavelmente no trono preparado para ele.

— Lorde Ra's, é uma honra estar em sua presença. — a voz abafada, rouca e firme do viajante espalha-se pelo ambiente.

— Bem-vindo velho companheiro de jornada. Soube do seu infortúnio, da derrocada que te prepararam.

— Nossas sinas são similares.

— Sim, Lorde Doom, nós vivemos num mundo de mesquinharia e transitividade. Mas, diga a que veio?

— Quero sua ajuda para recuperar meu trono.

— Sim, era previsível. Mas, Lorde Doom, observe bem: será que, assim como eu, todos os homens e mulheres deste mundo terrível não esperam o mesmo de você?

— Não me importa, Ra's, eu quero meu trono...

Victor levanta a voz se aproxima do trono de Ghul, os funcionários à volta preparam suas armas e apontam para o alvo:

— Saiam.

Os serviçais saem, enquanto Ghul levanta-se e toca o ombro de Doom, ele se aproxima a ponto de ver os olhos do Destino sob uma máscara escura e improvisada.

— Existe um lugar com tesouros Celestiais que poderiam ser compartilhados por nós, a fim de nos devolver o que nos é de direito. — Doom ouve atento. — A mim, o Poço de Lasarus e a você, o seu trono.

— Onde fica esse lugar?

— No berço da civilização, o Egito.

O Exército Deviante caminha numa marcha estrondosa pelas ruas da cidade do Cairo, Egito. Milhares, talvez centenas de milhares de monstros deformados se misturam com o povo egípcio. Naves aéreas e veículos tomam espaço dos aviões e carros, enchendo da cor vermelha aquela caminhada. À frente da caravana, um veículo real leva Kro, o Senhor da Guerra e líder dos Povos Deviantes. Ele leva um Presente para Victor Von Doom: um grande equipamento da raça dos Celestiais.

Quilômetros acima, na atmosfera, Super-Homem e Surfista Prateado observam com atenção aquela monstruosa parada, até que são atacados pelas costas, naves Deviantes deslizam nas nuvens e despejam rajadas de energia.

— Ataquem! — grita o líder deviante pelo rádio.

Surfista Prateado faz manobras evasivas, deslizando em loop pelas nuvens, contornando as naves, fugindo se seus raios com elegância.

— Eles estão protegendo o espaço aéreo, Super-Homem.

— Não podemos deixar que avisem de nossa presença, aqui.

— Já gerei sobrecarga nos comunicadores deles, a ponto de destruir seus aparelhos.

— Precisamos por um fim nas armas!

Surfista Prateado avança de fronte a duas das naves e, com seus poderes cósmicos, destrói as armas e os propulsores da primeira nave. Quando ele é atacado pelas costas, usa sua prancha como escudo, usando seu controle sobre a matéria e energia, ele sobrecarrega a fonte de energia da segunda nave. Logo, o piloto deviante se junta ao primeiro em sua viagem de pára-quedas. Super-Homem, que apenas observara a ação precisa do arauto, usa seus raios de calor para destruir as armas de uma terceira nave que surgira.

— Precisamos descer e investigar, assim a gente sai da alça de mira deles.

— Espere, Kal-El, recebi uma transmissão de rádio, Reed Richards está salvo! Ele precisa de nossa ajuda!

— O que ele diz?

— A notícia da invasão dos Deviantes já chegou lá, o governo planeja um ataque maciço coordenado pela SHIELD... Eu vou me infiltrar, Kal-El, você deve seguir para a América, ajude o Dr. Richards.

Sem esperar resposta, Surfista Prateado desce em alta velocidade para o solo egípcio, despistando as patrulhas Deviantes. Super-Homem voa para Nova York com a igual velocidade.

— Não vou deixar o doutor ir, desse jeito! — disse o Homem Aranha, tentando impedir Reed Richards de recolher seus equipamentos improvisados numa mochila.

— Você não pode me impedir, Peter, mas pode vir comigo...

— Desculpa, doutor, mas não vai dar... Tenho uma aranhazinha pra cuidar, o senhor sabe... Entrar numa guerra está fora de cogitação...

— Então você vai ter que confiar em mim. — os dois heróis se olham. Logo, Reed termina de arrumar, na sua mochila, os instrumentos espalhados pelo apartamento.

Naquele instante, Super-Homem entra pela clarabóia do apartamento de Alícia Masters.

— Fui seguido por dois F22 desde que entrei no espaço aéreo dos EUA, consegui despistá-los.

— Você fez um jogo perigoso e, agora, ficou ainda mais perigoso! — disse o Homem-Aranha. — Invasão do Egito, Ra's Al Ghul, destruição do Four Freedoms, Deviantes...

— Ele quer ser o único a ter esse nível de tecnologia... — disse Alicia de um canto da sala.

— É certo que Dr. Destino está planejando algo com a tecnologia ancestral dos Deviantes. — disse Super-Homem. — Eu e o Surfista vimos os Deviantes carregando um equipamento alienígena, Norrin está investigando.

— Doom deve ter encontrado algum equipamento dos Celestiais escondido no Egito, alguma tecnologia poderosa que ele pode usar como arma... — Reed coloca a mão no queixo parece estar em transe. — E ele precisa da ciência deviante para armá-la...

Alicia que sempre esteve num canto, apenas ouvindo a conversa dos heróis se aproximou do grupo:

— Reed, Kal... Como vai ficar o povo se o exército aliado atacar... Os Deviantes vão revidar, é certo. O que vai ser das pessoas?

— Aquele lugar virou terra de livre passagem para procurados, terroristas, super-vilões e até para raças ancestrais que sempre viveram às escondidas! — complementou Peter Parker dependurado no teto.

— Eles estão certos, Reed, as pessoas vão ser as mais prejudicadas. Foi por isso que desativamos os submarinos americanos e tiramos as armas do primeiro grupo de soldados. Mas não vamos conseguir fazer o mesmo com um ataque dessa escala!

Super-Homem, Reed e Homem-Aranha parecem olhar para lugares diferentes, mas estão vislumbrando o mesmo horror em suas mentes. Alicia, que não pode enxergar, apenas pensa no terror que as pessoas vão passar nos próximos dias.

— Precisamos equilibrar as forças, Super-Homem...

— Vou contatar a Liga... — Super-Homem pega o comunicador escondido em seu cinto, coloca-o no ouvido. — J'onn? Caçador de marte, você está me ouvindo?... Nenhuma resposta. (*)

— Os Vingadores estão fora de área também... (**) — disse Peter mostrando o seu cartão-comunicador dos Vingadores. — Mas, achei alguém que pode te dar uma carona!

— Tente contatar o Senhor Destino... — disse Reed.

— Hector Hall? — Super-Homem se surpreende ao ouvir Reed chamar por um mago.

— Sim, ele pode ter o que precisamos para proteger as pessoas.

Nas vielas do Cairo, homens de turbante e mulheres de túnica se misturam nervosos aos milhares de Deviantes que, como formigas, preparam alojamentos onde existiam centenárias lojas da feira árabe. Mas um desses homens tenta observar melhor os equipamentos, fazendo leituras em amplos espectros de energia. Embaixo do rosto encoberto, olhos prateados só se desviam quando um deviante parece percebê-lo ali. Norrin Radd faz um gesto de desculpas e se mistura na multidão.

Duas ruas abaixo, uma mão o puxa para dentro de uma casa. O interior iluminado por uma lâmpada incandescente, revela uma grande família. O homem que o puxara fala em árabe. Certamente as capacidades lingüísticas de Norrin o permite entender.

— Por Alá, você está louco de andar pelas ruas infestadas desses djins! (***)

— Certamente. Mas, eu preciso achar o Palácio do novo rei...

— Loucura! Afaste-se daquele lugar, homem... O que espera ganhar lá, uma conversa com Iblis em pessoa! (****) — o homem cospe no chão e faz um gesto de reza. — Tire a máscara, homem, deixe-nos ver seus olhos!

— Não seria educado, senhor.

— Ora, educado é não se mostrar, se escondendo como um ladrão.

O homem educadamente puxa o véu de Norrin e olha espantado para um homem extremamente branco e careca. Evitando ser pego em sua forma prateada, Norrin, instintivamente, usou seus poderes sobre a matéria para mimetizar pele humana, porém, ele não fez questão de parecer-se com seus anfitriões.

— Por Alá, você é um estrangeiro. Mas, fala como um de nós, sem sotaque!

— Sim, sou estrangeiro e não pretendia aborrecê-lo.

Quando se aproxima da porta para sair, Norrin pressente algo:

— Escondam-se! Rápido!

Em segundos, o homem e sua família somem. Uma patrulha de Deviantes e soldados do exército entram casa à dentro.

— Quem é você estrangeiro? — pergunta um soldado.

— Acredito que é cedo para saberem. — enquanto sua pela converte-se em prata brilhante, Norrin dispara um feixe de energia que desmaia os homens e os dois deviantes. Ele os arrasta para fora, enquanto o chefe da casa se aproxima.

— Obrigado, meu filho...

— Procurem outro abrigo. Esse não será mais seguro.

— Sim, mas você precisa saber: o Palácio não é o covil do usurpador, eles se concentram numa escavação a quatro quadras daqui para o norte, onde eles escavaram a tumba de En Sabah Nuhr! (*****)

— Obrigado, senhor.

O homem orienta sua família rua abaixo, enquanto Surfista converte uma densa nuvem de energia em sua prancha e sai em alta velocidade pelos becos escuros, a procura das escavações.

Em Nova York, Reed espera no Central Park por uma carona providencial. Enquanto vê o rosto de um agente da SHIELD pelo palm-top, dando-lhe as notícias do iminente ataque das forças aliadas contra os Deviantes e o Exército do Egito liderados por Doom.

— ... Mas, infelizmente, o Coronel Fury não está disponível.

— Obrigado, agente.

Ele desliga o equipamento, enquanto respira fundo. Num instante, a poeira levanta com uma lufada de vento e um jato prateado desce por entre as árvores, é um modelo antigo dos Vingadores, a porta se abre ele sobe e depara-se com a Mulher-Hulk, ela não resiste e o abraça.

— Reed! Não acredito! Você está bem!

— Jen, calma, nós vamos ter muito tempo juntos...

— Desculpa, me entusiasmei... Mas, me diga o que aconteceu aos outros?! Você parece muito preocupado. — ela pergunta enquanto pilota.

— Sue, Johnny e Ben estão na Zona Negativa, sem qualquer equipamento ou orientação. O único que pode ter a tecnologia para alcançá-los é Doom! — apesar do desabafo, Reed ainda parece preocupado.

— Tem mais alguma coisa te incomodando, borracha.

— Sim... Houve um momento em que só pensei na minha família, Jen, esqueci completamente das pessoas no Egito... — Reed parecia alguém pego em um erro fatal.

— Minha mãe me dizia que não se entra em guerra pra salvar uma nação, mas para proteger sua família... Se no caminho você salvar outras famílias, ainda melhor...

— Obrigado, Jen... Mas, com a guerra se aproximando, temo que não possamos salvar família alguma... Talvez, nem a nós mesmos.


Próxima edição: O confronto entre Dr. Destino e Sr. Fantástico pode tomar formas impensáveis. E a guerra promete destruir tudo que estiver pela frente!


:: Notas do Autor

(*) Esta edição se passa entre as edições #40 e #41 de Liga da Justiça no Hyperfan. Não para menos, os justiceiros estão espalhados pelo mundo. voltar ao texto

(**) Os Vingadores ainda estão se recuperando dos eventos mostrados no arco "Tropas Vingadoras". voltar ao texto

(***) Criaturas do folclore árabe, de onde originaram as lendas e histórias de "gênios da lâmpada". voltar ao texto

(****) É o nome que Lúcifer recebe no Corão, livro sagrado mulçumano. voltar ao texto

(*****) Você já sabe quem é, não? voltar ao texto




 
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