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Quarteto Fantástico # 20

Por Rafael Borges

O Resgate do Quarteto Fantástico — Ato I
Funeral Elétrico

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Milênios de evolução levaram a civilização Kree ao ápice do desenvolvimento do todo o universo conhecido. De um lado a outro da galáxia, não há forma de vida que tenha alcançado tamanhas realizações culturais, científicas e sociais.

Na utopia erguida pelo suor dos bravos ancestrais que nos precederam, não há lugar para miséria, fome ou criminalidade. Todos os cidadãos Kree têm direito ao trabalho, educação e saúde, contando com recursos infinitos que foram acumulados durante séculos de enriquecimento ininterruptos.

A poderosa armada Kree consiste na mais temida força de combate já reunida. E cabe a suas frotas impor o papel de vanguarda que o Império desempenha no equilíbrio universal. Cada soldado reconhece a importância de sua missão: levar o modo de vida Kree aos povos menos afortunados.

Pelo menos é o que ensinam na Academia do Conhecimento, sede do sistema educacional do Império Kree. Cada uma de suas lições versa sobre as incomparáveis realizações da sociedade Kree e sobre como é obrigação de cada cidadão auxiliar com todos os seus recursos para que a filosofia seja estendida à população universal.

O que os velhos professores esquecem de mencionar é que esse intercâmbio cultural muitas vezes é feito pela força. As frotas Kree avançam pela imensidão do espaço sideral, impondo sua ideologia com suas armas avançadíssimas e anexando territórios para um império em constante crescimento.

Outro ponto deixado de fora é o rígido sistema de castas em que se baseia a sociedade Kree. Um sistema milenar que é ratificado pela Inteligência Suprema, a entidade que reúne as mais ilustres mentes da história do Império e atua como líder incontestável do sistema de governo.

Há incontáveis gerações, os filhos de soldados são criados para se tornarem os melhores e mais completos guerreiros. Desde a tenra infância, recebem o treinamento de estratégias militares, condicionamento físico e tratamentos químicos que aperfeiçoam seu metabolismo.

O resultado são soldados com a mais perfeita compleição física, versados na arte da guerra e incapazes de desobedecer às ordens de seus oficiais superiores. E isso acontece pois eles realmente acreditam estar prestando um favor às civilizações menos esclarecidas, quando aniquilam os guerreiros inimigos, pilham os planetas anexados ao império e, algumas vezes, escravizam a população.

Por outro lado, quando um cidadão Kree faz parte de uma casta dos níveis inferiores, ele já sabe que seu destino é trilhar o mesmo caminho que seus ancestrais. É o caso de Sah-Bahr, nascido de pais que trabalharam durante toda a vida no complexo industrial energético que alimenta a Capital do Império.

Ele acompanhou o pai em seu ofício, percorrendo cada etapa da complexa usina de energia e, com o passar dos anos, observou as inovações tecnológicas que simplificaram os procedimentos cada vez mais. Quando o pai sucumbiu finalmente à idade, coube a ele assumir as obrigações laborais que passaram de geração em geração.

Atualmente, ele é o único empregado responsável pela operação dos sistemas moderníssimos que controlam a conversão energética que sustenta a megalópole.

Mas essa situação está prestes a mudar.

Sah-Bahr surpreende-se com o grande estrondo e o clarão que se seguiu.

— Supremor! — exclama, invocando a Inteligência Suprema de sobressalto.

Nesta região do Império, o clima é controlado artificialmente para reduzir interferências nos processos de fusão da usina. Ele não via raios ou trovões desde que era um menino. Com um comando, ele ativa os controles automáticos para todos os equipamentos da usina e corre ligeiro para fora, para verificar o que poderia ser a causa de tamanha estranheza.

Antes de deixar o perímetro interno, o jovem passa no setor de armazenagem e pega a antiga arma de pulsos energéticos que seu pai usava para defender o complexo, anos atrás. Enquanto corre pelos longos e escuros corredores que compõem a usina, ele limpa a velha pistola, certificando-se de que ela não vai falhar.

Sah-Bahr pode ter nascido em uma casta de operários. Mas, como prova de que não se pode subestimar o poder da individualidade, arde em seu espírito a chama de um guerreiro.

Ao chegar mais perto da enorme escotilha que conduz à área externa, ele diminui o ritmo. Os olhos atentos vasculham a área em busca de algum intruso, da mesma forma que fazia em suas brincadeiras de criança. Por alguns segundos, ele é o soldado que sempre sonhou ser, defendendo o modo de vida Kree.

Mas seus pensamentos desaparecem quando ele avista, envolta em chamas, uma silhueta humana, estirada no chão e tentando se levantar.

— Pare, em nome do Império! — esbraveja Sah-Bahr, apontando sua arma para o intruso.

Ele não consegue entender a resposta que a estranha criatura oferece, mas identifica grunhidos de dor. Não é para menos, já que o corpo do invasor está em chamas.

Conforme o estranho se aproxima, com suas palavras alienígenas, aumenta a tensão do operário Kree.

— Eu mandei parar! — insiste — Pare ou eu vou disparar!

O pavor vem à tona quando Sah-Bahr finalmente percebe que as chamas não estão consumindo o corpo do intruso. Pelo contrário, ele parece gerar o próprio calor que dá origem ao fogo.

Sem tempo pra dizer nenhuma outra palavra, o jovem dispara a velha pistola, emitindo um poderoso feixe de energia que atinge o peito de seu oponente. Por sorte, a arma estava calibrada para níveis não letais de energia.

Sah-Bahr percebe que, quando perde a consciência, as chamas que emanam do corpo do intruso se apagam. Pela primeira vez em sua existência, o Kree tem a oportunidade de provar seu valor como algo mais do que um simples operário. Ele derrotou seu adversário e, agora, o manterá como prisioneiro.

Infelizmente, velhos hábitos se recusam a morrer. E a idéia que se desfralda na mente do jovem Kree comprova que ele passou a vida tendo como única meta a conversão de energia por métodos térmicos.

Dois ciclos lunares depois:

Reed Richards dá mais um passo e pisa no solo Kree.

Segundo as leituras do Rastreador Quanta, os outros integrantes do Quarteto Fantástico foram transportados para três localidades diferentes, usando a Zona Negativa como via de acesso.

À sua frente, o Senhor Fantástico vislumbra a paisagem alienígena com incomum naturalidade. Não é de se admirar, uma vez que ele já esteve no Império Kree em outras oportunidades. Mas nunca havia tido tempo para analisar algumas características dessa cultura.

A imponente construção à sua frente só pode tratar-se de uma usina de energia, conclui o experimentado cientista. Com essa linha de raciocínio, é simples entender a razão que levaria alguém a manter Johnny Storm como prisioneiro nesse local.

O Tocha Humana está sendo usado como combustível para a energia térmica.

Mesmo a imaginação ilimitada de Reed Richards tem dificuldades para conceber o tormento gerado por tal processo. Até quando seu cunhado poderia resistir, usando seus poderes como uma bateria energética humana?

Nos últimos dias, tudo o que ele tinha lhe foi tomado. Seu lar, sua família, sua dignidade. Restou apenas a determinação de resgatar, um a um, os integrantes do Quarteto Fantástico. A certeza de que um novo início se avizinha das cinzas da destruição causada por Victor Von Doom.

Não há tempo para sutilezas.

De um dos bolsos do colete em tons de bege que traja sobre seu uniforme, Richards saca um pequeno, porém poderoso, apetrecho. Anos atrás, ele ajudou Tony Stark a miniaturizar a tecnologia dos raios repulsores. A parte complexa não era reduzir os emissores, mas a geração de energia, que originalmente fazia com que o Homem de Ferro carregasse pesadas baterias em seu cinto.

Agora, o aparelho foi reduzido ao tamanho de um pen drive.

Utilizando as descargas energéticas, o Sr. Fantástico inutiliza todas as câmeras de vigilância que consegue avistar enquanto avança rumo ao centro do complexo. Assim como o resto de seu corpo, suas pernas são capazes de se esticar, ultrapassando com facilidade qualquer obstáculo que fique no caminho.

Quando chega à entrada, ele finalmente avista o alienígena que a protege.

— Pare onde está, intruso! — ordena Sah-Bahr, com sua velha arma em punho.

Diferentemente do que ocorreu antes, Reed Richards é capaz de entender suas palavras graças ao tradutor universal que carrega sempre consigo.

— Eu não quero problemas. — exclama o terráqueo, apontando o dispositivo de raios repulsores em resposta à ameaça de seu oponente — Vim apenas resgatar meu companheiro, mas estou pronto para usar os meios necessários para libertá-lo.

— Se esse é seu objetivo, então perdeu tempo! Agora, o terráqueo flamejante é parte do sistema de alimentação energética do Império Kree e como tal é meu dever defendê-lo com a vida!

Tal qual um velho clichê de filmes de cowboys situado em ambiente além do que qualquer faroeste seria capaz de conceber, os oponentes se entreolham desconfiados. Cada um deles pronto para dar o primeiro disparo.

Sah-Bahr aperta o gatilho, com convicção, mas a velha arma de seu pai falha. Percebendo a vulnerabilidade de seu adversário, Reed Richards dispara e uma ruidosa descarga energética se faz ouvir.

— Ughn... — grunhe o Kree, contorcendo-se no chão, ele percebe que perdeu a sensibilidade de suas pernas — Volte... não estou derrotado ainda...

Sem dar maior importância para os apelos de seu oponente, o Senhor Fantástico segue adiante pelos corredores do complexo. De acordo com o Rastreador Quanta, Johnny Storm está apenas a alguns metros dali.

Por uma pequena escotilha, Richards consegue avistar seu cunhado em estado constante de incandescência induzido pelo maquinário da usina. A porta reforçada foi construída para agüentar as mais extremas mudanças de temperatura, mas não resiste ao impacto de mais uma rajada repulsora.

Quando a sala é invadida, os sistemas de segurança automatizados da estação energética desativam imediatamente as atividades e libertam o jovem Johnny Storm.

— Sabia que você ia arrumar um jeito de me resgatar, Reed! — sussurra o Tocha Humana, esgotado e cambaleante — Onde está o resto da galera?

— Você é o primeiro que eu encontrei. — responde o cientista, amparando o garoto.

Enquanto os dois integrantes do Quarteto Fantástico conversam, Sah-Bahr rasteja pelos corredores até a sala de controle central, seu habitual posto de trabalho. Apesar de ter passado sua vida como operário, seu coração de guerreiro não permite que ele reconheça a derrota.

— Eu vou provar... provar a todos! — ele pensa em voz alta, enquanto opera os controles com dificuldade — Vou morrer como um guerreiro! Vou dar minha vida pela vitória do Império Kree! Pela Glória!

Ele aciona os botões, aumentando o funcionamento da usina para o nível máximo. De imediato, uma sirene se faz ouvir pelos corredores vazios de todo o complexo.

— Deus... — exclama Reed Richards, percebendo o alerta sonoro de emergência — Alguém acionou os sistemas da estação energética. Sem a sua energia térmica para alimentar o sistema, a sobrecarga fará todo o complexo ir pelos ares em poucos segundos! Precisamos sair daqui, Johnny!

— Eu vou tirar nós dois daqui! Em chamas... coff! Coff! — apoiado no ombro do cunhado, o Tocha Humana caminha lentamente para a saída. Ele busca um resto de força para incendiar seu corpo e realizar um resgate aéreo triunfal.

Infelizmente, depois de dias de exaustão, ele mal consegue acender as chamas.

— Poupe suas energias. Vamos precisar delas para resgatar os demais! — responde o líder do Quarteto — Eu vim preparado com um dispositivo de teletransporte.

O doutor Richards aciona mais um aparelho de seu colete e os dois desaparecem segundos antes da grande explosão.

As ondas de choque destroem completamente todo o complexo energético e os robôs que operam suas máquinas. Em um espetáculo de luz e fogo, as chamas liberadas alcançam os céus do planeta Kree. Os flashes são avistados até na Capital do Império.

O calor liberado é tamanho que o sistema de controle climático da região é comprometido e uma chuva torrencial despenca como prova de que não cabe aos mortais tentar controlar as forças da natureza.

Devido ao colapso do sistema energético, pela primeira vez em mais de quinhentos anos a cidadela do governo fica sem iluminação, levando o caos aos seus habitantes. Felizmente, os técnicos conseguem restabelecer a tempo a alimentação de energia do suporte vital que garante a sobrevivência da Inteligência Suprema.

Os cidadãos do Império comentarão por anos a noite do grande blecaute e como suas vidas comuns foram afetadas pelo incidente. Nenhum deles lembrará, entretanto de Sah-Bahr, o jovem operário com coração de guerreiro que deu sua vida pelo modo de vida Kree, e de como foi sem propósito o seu funeral elétrico.


Na próxima edição: o Mundo Bélico!


:: Notas do Autor

Tradicionalmente, os nomes dos personagens Krees são criados como homenagens fonéticas à indústria americana de histórias em quadrinhos como Mar-Vell (Marvel Comics), Att-las (Atlas Comics), Dea-Sea (DC Comics), and Star-Lyn (Jim Starlin).

Nessa história, entretanto, o nome do personagem Sah-Bahr presta homenagem à banda de rock inglesa Black Sabbath, considerada a precursora do heavy metal.

Da mesma forma, o título da edição faz referência a uma canção do grupo, Eletric Funeral, lançada no clássico álbum Paranoid em setembro de 1970. A letra da música descreve a destruição causada pelo holocausto nuclear no futuro da humanidade.




 
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