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Quarteto Fantástico # 21

Por Rafael Borges

O Resgate do Quarteto Fantástico — Ato II
Porcos da Guerra

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Os empolgantes acordes iniciais de Winner Takes It All soam a toda nos alto-falantes e a platéia que lota o MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas, começa a gritar em plenos pulmões. Cada um deles pagou valores altíssimos para testemunhar mais uma defesa do título unificado dos pesos pesados e a ansiedade é grande para a entrada do campeão.

Quando Ben Grimm aparece, iluminado por potentes refletores, na boca do corredor central, o barulho aumenta ainda mais. Nos últimos meses, ele finalmente alcançou o sucesso no esporte com o qual sonhou secretamente desde os tempos do colegial. É hora de fazer por merecer mais uma vez o amor da legião de fãs que ele tem arrastado por onde passa.

Antes de subir ao ringue, há tempo para mandar um último beijo na sua querida esposa, sentada na primeira fila.

— Te amo, Alicia! — ele sussurra.

Infelizmente, a conceituada escultora é deficiente visual e incapaz de escutar a declaração de amor do marido no meio de todo o alvoroço. Mas ele repete esse ritual antes de todas as lutas. Apenas para dar sorte.

— Senhoras e senhores! Sejam bem-vindos a mais um sensacional desafio pelo título unificado dos pesos pesados. — com característica voz grave, o locutor oficial toma o microfone e a palavra para si — Á minha direita, vestindo calções azuis, o campeão invicto. O primeiro e único: Benjamin "O Coisa" Grimm!

Retirando seu roupão, o campeão ergue os braços em saudação à platéia. O público, é claro, responde de maneira extremamente barulhenta. Seu coração acelera toda vez que ele se dá conta de que realmente se tornou o ídolo de multidões.

— À minha esquerda, vestindo calções vermelhos, o desafiante com 20 lutas, 19 vitórias e um empate: Tommy "Thanagar" Iommi!

O gongo soa estridente e o combate tem início.

Um tenso silêncio toma conta da platéia e soa pesado nos ouvidos dos oponentes, que se estudam durante os primeiros segundos da luta e perambulam dando voltas no ringue. Com um gesto ligeiro, o desafiante esboça um golpe, que acaba não se concretizando, mas faz o campeão se esquivar.

Aproveitando a deixa, o jovem Tommy ataca, desferindo dois jabs incisivos. Ben Grimm estava com a guarda a postos, com os dois braços protegendo sua face, mas o som dos golpes reverbera em sua cabeça.

O campeão decide contra-atacar. Após alguns mais alguns instantes de intensa sondagem de seu adversário, ele parte para a ofensiva, mas hesita quando percebe que o desafiante se esquivaria facilmente. Tommy, alguns anos mais jovem, aproveita o vacilo e desfere o contragolpe, com outros dois jabs precisos.

O som das batidas em sua cabeça só fazem enfurecer o Campeão.

— OK, garoto! — ele diz, com a dicção prejudicada pelo protetor labial — Está na hora do pau!

Como uma locomotiva desgovernada, Ben Grimm parte com tudo para cima do desafiante. Seus golpes, ritmados e em séries de três, podem não ser o melhor exemplo de técnica apurada de pugilismo, mas surpreendem seu adversário e o atordoam.

As pernas do lutador de vermelho começam a bambear conforme os ataques do campeão entram por entre sua guarda baixa. Notando a repentina fragilidade do adversário, Grimm diminui o ritmo dos ataques e observa os olhos perdidos de Tommy por um instante.

Mais um par de golpes, um cruzado e um gancho devastador, finalmente levam o desafiante à lona, fazendo a platéia explodir em uma ensurdecedora comemoração. Ben Grimm levanta os braços, em sinal de vitória e percebe a aproximação do locutor, que vai anunciar o resultado oficialmente.

— Senhoras e senhores — ele diz — O vencedor e ainda campeão na Arena do Mundo Bélico: Benjamim Grimm!

Ao fundo da platéia formada por criaturas alienígenas das mais diferentes espécies e fora do alcance dos olhos azuis do Coisa, devido à ilusão que nubla sua mente, o senhor inconteste deste planeta se permite um sorriso discreto, porém pleno de satisfação.

A presença deste novo campeão garante a Mongul o domínio completo do Mundo Bélico como ele sempre sonhou. Basta oferecer o espetáculo sangrento que seus leais súditos tanto apreciam e o status quo será mantido. E, para isso, foi necessário apenas utilizar os recursos da Clemência Negra para aprisionar o outrora glorioso integrante do Quarteto Fantástico em seu sonho de adolescência de tornar-se um boxeador consagrado.

Parece-lhe que os Humanos não possuem um espírito tão superior aos assassinos alienígenas que habitam o Mundo Bélico. Ambos divertem-se admirando combates violentos.

Dias depois, a um hemisfério de distância:

O aparelho de teletransporte foi aprimorado recentemente por Reed Richards. Em outros tempos, acioná-lo causava um desconfortável ruído de explosão. Tratava-se de um incômodo para as pessoas que o utilizavam e acabava com as chances de aproveitar o elemento surpresa.

Atualmente, entretanto, o processo de deslizamento corporal é silencioso e emite pouca luz, o que permite que o Senhor Fantástico e o Tocha Humana cheguem em sigilo ao Mundo Bélico.

— Eu não entendo, cunhado! — exclama Johnny gesticulando, com sua ansiedade natural. — Por que não atacamos diretamente a Arena e resgatamos o Coisa de uma vez?

Aparentemente o Doutor Richards está mais preocupado em analisar as estruturas tecnológicas do lugar a que os dois chegaram do que em explicar a mecânica de seu plano de resgate ao seu companheiro.

Felizmente, seu intelecto avantajado é capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

— Não sairíamos vencedores em um ataque direto, Johnny. Mesmo com o auxílio de Ben e Sue, não acredito que possível derrotar todos os assassinos do Mundo Bélico e, principalmente, seu líder, Mongul.

— Então nós vamos ter de bancar o Tom Cruise pra cima desses aliens! — responde o garoto, animando-se.

— Perdão? — questiona o Senhor Fantástico.

— "Missão Impossível!" — Inflama-se, em sentido figurado, o jovem Tocha Humana — Você definitivamente precisa de uma vida social, Reed!

Setor carcerário. Vinte minutos depois:

— "Lord Almighty, I feel my temperature rising..."

Enquanto voa a toda velocidade pelos corredores, Johnny Storm testa sua limitada capacidade como cantor com os versos iniciais de Burning Love, de Elvis Presley. Os poucos soldados que tentam impedir seu avanço acabam chamuscados antes que possam concretizar qualquer ataque.

De acordo com o Rastreador Quanta, ele se aproxima cada vez mais do paradeiro de Ben Grimm. Trata-se de uma cela reforçada, com uma pequena escotilha pela qual o Tocha Humana chama seu amigo:

— Fala, grandão! — ele diz, apagando momentaneamente suas chamas.

— Johnny?! — exclama Ben Grimm, surpreso. A bizarra planta telepata alienígena conhecida como Clemência Negra permanece enraizada em seu peito. — O que está fazendo aqui? Eu estou me preparando para a minha próxima luta! Eu tenho um título a manter aqui e não posso perder tempo com você!

Por um instante, o garoto estranha a falta de educação do colega. Mas o Senhor Fantástico tinha mesmo alertado sobre a possibilidade de controle mental e mesmo o Tocha Humana é capaz de reconhecer que a fonte da manipulação só pode ser o vegetal estranho.

— OK, cabeça-de-pedra! Isso vai doer mais em você do que em mim. — responde Johnny Storm, apontando o indicador direito para dentro da cela — Em chamas!

Ao som dessas palavras, todo o corpo rochoso do Coisa é recoberto por chamas. A temperatura vai aumentando gradualmente, causando gritos de agonia no sobrinho preferido da tia Petúnia. Finalmente, a planta em seu peito se inflama e começa a ser consumida pelo fogo.

Antes de perecer, resta tempo à Clemência Negra para um último ataque. Uma emissão psíquica poderosa, que faz Johnny Storm e Ben Grimm perderem a consciência, caindo ao chão, desfalecidos.

Próximo ao núcleo do Mundo Bélico. Naquele exato momento:

Usando a surpreendente elasticidade de seu corpo, Reed Richards obteve sucesso em esgueirar-se através das sombras que se espalham pelos corredores.

Ele observa com admiração a composição do Mundo Bélico. Todo um planeta criado artificialmente na forma de um gigantesco artefato militar. Uma arma tão poderosa que poderia destruir não apenas outros corpos celestes, mas toda uma galáxia se isso fosse necessário.

Finalmente, ele conseguiu chegar à central de controle do e é hora de deixar para trás as suas ponderações e partir para a ação.

Com golpes velozes e disparos precisos de seu emissor de Raios Repulsores, ele levou a nocaute os dois seguranças que guardavam a comporta de acesso à cabine. Para os operadores das máquinas, bastou a ameaçá-los para desembestarem a correr por socorro.

O Senhor Fantástico nunca enfrentou Mongul, mas se informou sobre ele quando colaborou na atualização dos sistemas de dados dos Vingadores e da Liga da Justiça. Apesar de seu poder comparável apenas ao do Super-Homem, Mongul prefere não se envolver pessoalmente nas disputas. Porque ele deveria ir para a luta se é possível deixar esse papel para os pobres habitantes do Mundo Bélico?

A única distração capaz de tirar de cena o ditador seria uma ameaça ao prêmio que ele cobiçou durante toda a sua vida e que considera a arma suprema: o próprio Mundo Bélico.

Depois de avaliar os equipamentos por alguns segundos, o Senhor Fantástico já é capaz de reverter os controles direcionais e desativar os dispositivos de suporte de vida. Os resultados de suas ações são catastróficos.

Os aposentos de Mongul:

A taça é feita de metal opaco ultra-resistente. É um substituto adequado para o cristal em um mundo onde a força é considerada a mais valiosa das virtudes. O vinho tem uma coloração mais viva. É de um vermelho quente que poderia facilmente ser confundido com sangue e seu sabor pode ser comparado apenas com o das lágrimas dos inimigos vencidos.

E Mongul lembra-se de cada um deles, ao saborear o primeiro gole.

É compreensível, então, sua irritação com o soar do inter-comunicador que interrompe este momento de satisfação.

— Lorde Mongul! — clama a voz do soldado do outro lado da linha. Sua imagem pálida é visível pelo monitor acoplado à base do aparelho. — Há informes de invasão na ala de contenção! Aparentemente, trata-se de uma tentativa de fuga!

O soberano do Mundo Bélico franze levemente sua avantajada testa de pele amarela.

— Pelo seu bem, espero que haja uma razão para me importunar com tal trivialidade. — responde com desdém, antes de apreciar outro gole da taça de vinho.

— Sua presença é necessária, senhor! — insiste o soldado. — A cela do Campeão foi violada! Apenas o senhor será capaz de derrotá-lo!

— Tem razão! — Mongul põe o vinho de lado. — Estou indo pessoalmente para...

Um som estrondoso interrompe o raciocínio do tirano. A súbita inversão na rotação do planeta afetou os poderosos geradores energias gravitacionais de forma a causar terríveis abalos sísmicos.

Demoram apenas alguns segundos para que Mongul constate o inevitável:

— Alguém está sabotando o Mundo Bélico! — exclama subitamente consternado ao subalterno por meio do aparelho comunicador — Mande todas as tropas para conter o Campeão até a minha chegada! Infelizmente, tenho de resolver esse problema primeiro!

De volta à ala de contenção:

Os efeitos dos terremotos finalmente começam a se fazer sentir no interior do Mundo Bélico. Rapidamente, as rachaduras se espalham pelas paredes revestidas de metal e partes do teto começam a desabar com um som estrondoso.

Em meio a esse caos, a comporta da cela é arrancada para o lado de dentro com facilidade pelo prisioneiro que deveria encarcerar. Ben Grimm deixa a câmara em que esteve aprisionado nos últimos dias e recolhe cuidadosamente seu companheiro desmaiado do chão.

— Valeu pela força, cabeça-de-fósforos! — ele comenta enquanto caminha pelos corredores em busca de uma rota de fuga. — Acho que está na hora de sairmos daqui ou a minha tia Petúnia vai perder o sobrinho favorito! Onde está o Borracha quando precisamos dele?

— Bem aqui, Ben! — responde, de surpresa, o Senhor Fantástico. Com o auxílio do aparelho tele-transportador, ele surpreende o amigo. — Venha, vamos deixar esse planeta terrível!

— Cê ta louco, Reed? — retruca o adorável Coisa. — Olha o estado desse lugar! O Planeta vai pras cucuias! Não podemos deixar essa gente toda morrer. Eles podem ser assassinos, mas nós não somos!

— Nada disso! Eu não destruí o Mundo Bélico. — esclarece o Dr. Richards, já aprontando o próximo deslocamento corporal — Causei apenas danos suficientes para que ele não seja mais manobrável.

Epílogo:

Níveis inteiros separam seus aposentos da central de comando. Ele matou os infelizes que pudessem atrasá-lo no percurso. Mesmo assim, levou minutos preciosos para chegar até aqui e constatar o inevitável.

Agora, na escuridão do espaço infinito, o planeta pára de girar enquanto suas máquinas de guerra permanecem em chamas. As inigualáveis turbinas que movimentavam o Mundo Bélico foram comprometidas. De que vale um planeta-arma, se ele ficar parado neste ponto isolado do universo?

Em um grito de desespero, Mongul cai de joelhos, jurando vingança aos céus.


Na próxima edição: O Império Shiar!


:: Notas do Autor

O título da edição faz referência à música War Pigs, do Black Sabbath, lançada no clássico álbum Paranoid em setembro de 1970. Algumas passagens desta edição foram totalmente inspiradas pela letra, que critica os objetivos mesquinhos das guerras e aponta os políticos como responsáveis pelo sofrimento que os conflitos causam.

A canção citada no início da luta imaginária de Ben Grimm, Winner Takes It All, é um clássico da carreira solo de Sammy Haggar que fez parte da trilha sonora do filme Falcão — O Campeão dos Campeões, com Sylvester Stallone, de 1986. Uma coincidência engraçada é que Haggar, antes de se tornar cantor e, posteriormente, vocalista do Van Halen, tentou uma carreira como pugilista.

O oponente do Coisa nessa mesma luta é uma homenagem ao guitarrista do Black Sabbath, Tommy Iommi, que é considerado o inventor do heavy metal. Aparentemente, no Universo Hyperfan, ele tem um homônimo que nasceu no planeta Thanagar, lar de um certo herói alado da DC Comics. Ou Ben Grimm pode ser fã do Sabbath e a Clemência Negra pode ter criado esse nome no meio de toda a ilusão. Quem sabe?

O déspota Mongul foi criado por Jim Starlin e Len Wein e sua primeira aparição se deu em DC Comics Presents # 27, de novembro de 1980. Sua aparição mais importante, entretanto, se deu na clássica "Para o Homem que Tem Tudo...", de Alan Moore e Dave Gibbons. Essa história, que foi recentemente republicada no Brasil no encadernado Grandes Clássicos DC # 09 — Alan Moore, mostra também a primeira aparição da planta telepata Clemência Negra.




 
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