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Quarteto Fantástico # 22

Por Rafael Borges

O Resgate do Quarteto Fantástico — Ato III
Céu e Inferno

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A natureza opera de maneiras misteriosas.

Dentre todas as espécies, nos milhares de planetas habitados espalhados até os confins do universo, existem as mais diversas formas de vida. Não há limite para a criatividade que a evolução insiste em esfregar na nossa cara.

Há mundos em que a população é composta por seres orgânicos e outros onde metais sapientes desenvolveram intrincadas estruturas sociais. Há civilizações em que a espécie dominante é bípede, trípede ou quadrúpede e outros em que seres bacterianos ocupam o lugar mais alto na cadeia alimentar.

Existem raças que habitam o microverso e cuja massa pode ser medida em microns e outras com proporções consideradas gigantescas para os nossos padrões. Há seres que se alimentam de energia pura, outros têm de ingerir alimentos para garantir seu sustento e alguns nascem capazes de produzir a própria energia.

Dentre toda essa diversidade incalculável, qual seriam as chances de duas raças separadas por anos-luz de distância serem completamente compatíveis entre si?

Por um capricho indecifrável das forças primordiais do universo, é exatamente isso que acontece com os shiars e os humanos. Apesar de serem dotados de asas e penas — assemelhando-se ao outra espécie original da Terra, os pássaros — os shiars possuem uma biologia totalmente compatível.

Mais o que isso, os principais integrantes da linhagem real Neramani sempre apresentaram um interesse maior do que o comum por esses alienígenas de um planeta tão distante. Seja quando D’Ken ficou fascinado pela fêmea humana que seus emissários trouxeram da Terra ou quando Lilandra atravessou a imensidão do espaço em busca de ajuda nos braços de Charles Xavier, foi provado que as duas podem se aproximar de formas físicas e até românticas.

Portanto, não é de se estranhar a fascinação de Rapina ao avistar uma humana sozinha e desacordada, dias atrás, quando retornava de um tranqüilo vôo matinal pelo vale profundo ao sul do antigo palácio em que tem habitado nos últimos meses.

Humilhada, mais uma vez, pelos diversos crimes que cometeu contra o Império que deveria comandar, ela foi exilada de Chandilar e retornou à Aerie, o planeta natal de sua raça. Atualmente, trata-se de um local completamente desabitado, mas sua beleza ainda inspira os sentimentos conflitantes que Rapina possui por seu povo e por sua família.

Rapina achou que seria irônico oferecer à humana o mesmo tratamento que seus ancestrais receberiam no planeta Terra. Como uma ave engaiolada, a intrusa foi colocada em uma poderosa jaula construída de material extremamente reforçado, porém com aparência translúcida. Dessa forma, seria possível observar e entreter-se com o dia-a-dia da humana.

A cada manhã, a prisioneira tem sido alimentada, como se faria a um animalzinho de estimação, e a fascinação de sua carcereira só faz crescer.

Sem o auxílio de um aparelho de tradução, não é possível compreender as palavras formadas pelo melodioso som que deixa os lábios carnudos de sua nova mascote. Rapina, porém, não é idiota. Ela conhece a história dos encontros entre os humanos e o Império Shiar. As belas formas esguias da terráquea e seus cabelos dourados não a distraíram ao ponto de se esquecer o que significa o símbolo que a mulher ostenta em suas vestes.

Trata-se de uma integrante do famigerado Quarteto Fantástico.

E a única forma que Rapina encontrou para mantê-la aprisionada foi administrando doses constantes de gás no ar de sua cela. O fato de estar parcialmente dopada durante todo o dia é o que impede que a humana acione seus poderes e escape de sua clausura.

— Bom dia, minha linda humana! — exclama a mulher que outrora poderia ter sido a herdeira do Trono Shiar ao aproximar-se da cela.

Rapina observa atentamente enquanto Sue Richards ingere em ritmo acelerado a ração matinal que lhe é reservada. No decorrer das últimas semanas, ela foi perdendo a inibição de alimentar-se com as mãos.

— Sentiu minha falta? — indaga a exilada, em sua língua nativa que assemelha-se ao assovio de um pássaro.

Não há resposta.

Nos primeiros dias, a Mulher Invisível ainda se importava em soltar gritos de protestos ou ameaças, mas esse ímpeto foi diminuindo com o passar do tempo.

Seja pelas drogas que invadem seu corpo com o ar que respira ou pela situação de completa falta de privacidade, seus gestos assemelham-se cada vez mais aos de um animal domesticado.

Os olhos opacos de Rapina parecem ganhar um brilho diferente quando focados na terráquea. Ela passa suavemente suas unhas cumpridas pela superfície lisa da jaula, como que acariciando sua prisioneira tão estimada.

É nesse momento que um estrondo gigantesco rouba sua atenção.

Atravessando várias camadas do antigo palácio, o Coisa foi arremessado como um aríete pelas paredes e causa um estrago considerável à estrutura do prédio até chocar-se contra a cela transparente, abrindo diversas rachaduras.

— Que... Coisa é essa que ousa invadir meu lar? — brada a guerreira Shiar.

— Acertou de primeira, passarinha! — responde Ben Grimm, recuperando-se do impacto e limpando o pó de seu uniforme enquanto se levanta. Ao contrário de sua companheira encarcerada, ele possui um tradutor universal — Eu sou o ídolo das multidões! O Coisa em carne, osso e pedras!

— Prepare-se para conhecer seus deuses, invasor! — retruca Rapina, abrindo suas asas e preparando-se para o combate.

Antes que ela possa esboçar qualquer ataque, é atingida pelas costas por uma potente rajada de raios repulsores emitida pelo aparelho portátil de Reed Richards. O líder do Quarteto Fantástico usou seus poderes elásticos para chegar rapidamente e pegou sua adversária de surpresa.

A shiar desfalece e vai ao chão imediatamente.

— Meu Deus, Reed! — exclama Johnny Storm, o último a invadir o palácio — Você tinha mesmo que acertar essa gata com tanta força?

— Não há tempo para sutilezas, Johnny! Não sabemos a que tipo de substâncias Sue pode estar sendo submetida para ficar nesse estado alterado! — esbraveja o Senhor Fantástico. Aproximando-se da cela, ele reluta em olhar diretamente a esposa enjaulada — Use suas chamas para derreter essas paredes através das rachaduras que Ben abriu.

No problemo! — consente o Tocha Humana, citando o Exterminador do Futuro.

A precisão de seu poder térmico é tamanha que a temperatura na sala não se altera enquanto ele gera calor o bastante para derreter a estranha substância translúcida de que a jaula é feita.

— Reed...! — sussurra a Mulher Invisível, completamente dopada — Eu sabia...! Sabia que você me encontraria...!

Liberta de sua prisão, Sue corre para os braços de seu marido, mas perde a consciência antes de poder lhe alçar um beijo. Richards estica seus braços e a acomoda confortavelmente em um abraço.

Antes de quebrar o silêncio, ele aperta os olhos com força, como que querendo escapar da visão de sua esposa neste estado deplorável.

— Destruam o palácio! — ele ordena aos companheiros, visivelmente alterado.

— Como assim, Borracha? — questiona o Coisa, aproximando-se do amigo de longa data.

— Essa mulher aprisionou Sue como a um animal. Ela foi drogada e humilhada como nenhum ser humano deveria ser. — prossegue Richards, aumentando o tom de voz gradualmente — Eu não quero que sobre nenhum resquício desse prédio! Nenhuma lembrança de que isso aconteceu um dia!

— Peraí, Reed! — interrompe Johnny Storm — Se acalma, OK? Eu nunca te vi nervoso assim, cunhado!

O Senhor Fantástico segura a respiração por um instante e volta seu olhar fulminante para o garoto:

— Correção: você nunca me viu antes! — explica — Meu nome é Richard Reedson. Eu sou o Senhor Fantástico de uma outra linha temporal. Fui trazido a esse universo por um dispositivo de segurança acionado quando o Four Freedoms Plaza foi destruído.

Ao som destas revelações, o ambiente silencia mais uma vez. Atônitos, Ben Grimm e o Tocha Humana não encontram as palavras.

— Agora que reunimos o Quarteto Fantástico, chegou a hora de resgatarmos minha contraparte! — conclui Reedson com um tom de comando — Daqui, vamos direto para Apokolips!


Na próxima edição: Eu preciso mesmo dizer? Quarteto Fantástico contra Darkseid!


:: Notas do Autor

O título desta edição, como os das duas anteriores, faz referência a uma música da banda inglesa Black Sabbath. Dessa vez, porém, trata-se de uma composição da segunda fase do grupo. No lugar de Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio assumiu os vocais e gravou o emblemático álbum Heaven and Hell, que foi lançado em 1980.

Da mesma forma que o Black Sabbath encontrou um novo frontman na figura de Dio, o Quarteto Fantástico descobre que está sendo comandando por outra versão de Reed Richards. Além disso, a história se inicia com a angelical raça Shiar e termina rumo à infernal Apokolips.

A personagem Rapina foi criada pelo roteirista Chris Claremont e pelo desenhista Keith Pollard. Ironicamente, ela não fez sua estréia em nenhuma história dos X-Men, mas nas páginas da nona edição de Miss Marvel, publicada em setembro de 1977 pela Marvel americana. Sinceramente, não faço idéia se esse material foi publicado no Brasil.




 
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