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Quarteto Fantástico # 23

Por Rafael Borges

O Resgate do Quarteto Fantástico — Ato IV
Missa Negra

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Anos atrás:

A espaçonave vence a força da gravidade e rompe a atmosfera de forma imponente.

Na verdade, trata-se de um protótipo, uma vez que nunca houve tempo para ser devidamente testada. Ela representa o que há de mais moderno na tecnologia espacial e foi criada pelo brilhante cientista Richard Reedson para estudar uma estranha flutuação de energia cósmica entre a Terra e a Lua.

O projeto foi batizado de Excelsior pelo jovem e impetuoso Johnny Tempest. Ele e sua irmã, Sue, vieram até a base de lançamento para averiguar se os recursos da empresa de seu pai estavam sendo bem utilizados nesse audacioso projeto.

Não tinha com saber que a base seria invadida por agentes renegados da CIA, que tomaram o controle das instalações e pretendiam investigar os segredos da anomalia, provavelmente para vendê-los a uma nação inimiga, como a Latvéria.

Sem outra opção, o Doutor Reedson aliou-se a seu amigo, o veterano piloto de testes Franklin Green, e tomaram a Excelsior. Partiram rumo ao espaço levando Sue e Johnny, pois era a única forma de impedir que os segredos da anomalia caíssem nas mãos do temível tirano Victor Von Fate.

A decolagem foi um sucesso. Os poderosos motores da Excelsior impulsionaram a nave aos céus e, em velocidade recorde, chegaram ao ponto focal da flutuação energética.

— Dick, amigão! — alertou Frank, o piloto — Acho que tem alguma coisa errada aqui! Estamos recebendo leituras fortíssimas de energia cósmica!

— Impossível! — responde o cientista, analisando os sinais emitidos pelo complexo painel da nave — Sabíamos que os níveis energéticos estavam variando, mas nunca pensei que pudesse chegar a esse ponto. Será que os escudos...?

— Olhe, Sue! — exclama o filho mais novo da família Tempest — No centro da anomalia! Parece ter alguma coisa no meio de toda aquela luz! Alguma coisa humana...?

— Não pode ser! — surpreende-se a irmã. Ela agarra com força a mão de Richard, com quem reatou recentemente o namoro — Não dá pra ver direito, mas parece ser um homem com a pele prateada!

Ao som dessas palavras, as leituras energéticas ultrapassam todos os limites da escala. A nave começa a sacudir, cada vez mais rápido.

Como temia o Doutor Reedson, seus escudos não foram projetados para esse nível de estresse. Rapidamente, os raios cósmicos invadem a cabine de comando e seus efeitos doloridos se fazem sentir em cada um dos seus tripulantes de maneiras diversas.

O corpo do jovem Johnny aumenta a sua temperatura assustadoramente, até entrar em chamas. Frank Green, ao contrário, perde todo o seu calor e sua pele assume um aspecto petrificado. O pior destino, porém, resta a Sue Tempest. Sem aviso, as moléculas de seu corpo perdem a coesão e ela desaparece no ar.

Sentindo sua pele amolecer lentamente, o Doutor Reedson nada pode fazer a não ser assistir aterrorizado ao tormento de seus amigos. Ele decide, então, cerrar seus olhos parar não se tornar testemunha deste terror.

Qual sua surpresa, quando o som agudo dos raios cósmicos e os gritos de seus companheiros são repentinamente interrompidos por um silêncio sepulcral. Por um segundo, o Doutor observa tudo a sua volta se congelar como em um sonho.

— Abra os olhos, Richard. — diz o homem que surgiu à sua frente.

Suas feições são assustadoramente semelhantes às do Doutor Reedson, apenas um pouco mais velho.

— Sinto muito não ter chegado a tempo de salvar seus companheiros. — prossegue o estranho, aproximando-se lentamente do assustado cientista — Em minhas pesquisas interdimensionais, encontrei infinitas versões do acidente que mudou a vida de minha família. Poucas vezes, os efeitos foram fatais. Estarei preparado para isso no futuro.

— Q-quem é você? — assustado, pelo que pode ser a primeira vez em sua vida, o eloqüente Doutor Reedson fica sem palavras.

— Meu nome é Reed Richards.

Uma das fossas incandescentes de Apokolips. Agora:

— Apesar de ter perdido meus amigos naquele dia, Reed Richards salvou minha vida. — o Doutor Reedson conclui sua história — Quando perguntei a ele como poderia retribuir, ele me deu um aparelho que me convocaria a esta dimensão para o caso de alguma emergência.

— Eu me lembro de Reed ter comentado algo sobre esse projeto há alguns anos. — explica Sue Richards — Ele disse que só poderia confiar a segurança de sua família a ele mesmo. Então, resolveu buscar outras versões de si mesmo em diferentes dimensões.

O campo de força gerado pela Mulher Invisível é a única coisa que impede que os integrantes do Quarteto sejam incinerados pelas chamas à sua volta enquanto seguem uma trajetória descendente pelo mar de lava que compõe as fossas de Apokolips.

Apesar da situação totalmente inusitada, Sue Percebe que o Doutor Reedson não consegue tirar os olhos dela. Deve ser duro pra ele aceitar que a mulher que amou está viva e à sua frente. Isso explica a reação extremada que ele teve quando a encontrou aprisionada por Rapina. (*)

— Explica pra mim de novo, Dick... eu posso te chamar de Dick, né amigão? — manifesta-se o Coisa, inquieto com o confinamento em espaço fechado — Que lugar é esse mesmo?

— Estamos utilizando as fossas ardentes de Apokolips como atalho para o palácio de Darkseid. — responde o Senhor Fantástico.

— Resumindo, cabeça-de-pedra, esse lugar é o inferno na Terra. — comenta Johnny Storm. Suas habilidades térmicas permitem que ele absorva o calor do ambiente, impedindo que seus amigos sejam atingidos pelas altas temperaturas — Só que a gente não está na Terra!

Dentro do palácio:

As paredes sólidas do longo corredor foram construídas com um material sem nenhum correspondente na Terra. Mesclando aço, concreto e diamante negro, elas possuem uma aparência opaca opressiva e deixam claro que são impenetráveis, uma vez que foram construídas para conter seres poderosos como os Novos Deuses que habitam este mundo.

Ao fundo, a porta da câmara de torturas de Desaad está aberta. Não há motivo para fechá-la, pois nenhum dos homens que passaram por ali tinha qualquer condição de caminhar, quanto mais tentar uma fuga.

É o caso de Reed Richards.

Uma vez que sua pele elástica é capaz de resistir à maioria dos ferimentos a ele infligidos, o torturador-chefe das hordas de Apokolips teve de usar sua criatividade. Com indescritível prazer, Desaad finalmente descobriu como contrair eletricamente os músculos do Senhor Fantástico, causando-lhe insuportáveis espasmos de dor.

Com um sorriso maligno estampado no rosto sob o capuz, ele adentra a sala para desempenhar sua função mais uma vez. Embora poucas emoções positivas sejam conhecidas dos súditos de Darkseid, não há dúvidas de que Desaad ama seu trabalho.

Qual não é sua surpresa ao adentrar a câmara e percebê-la invadida pelos integrantes do Quarteto Fantástico, que utilizaram o dispositivo de teletransporte de Dick Reedson para chegar até este ponto do palácio.

— P-Parademônios! — convoca Desaad, visivelmente aterrorizado pela surpresa — O palácio foi invadido! Alertem o mestre...!

Seus gritos são subitamente interrompidos quando ele é atingido na testa por um campo de força invisível de formato esférico. O torturador vai ao chão, inconsciente. Mas é tarde demais. Ele conseguiu alertar os guardas demoníacos do castelo.

Enquanto o Coisa ampara Reed Richards, que foi liberto das amarras que o prendiam ao instrumento elétrico de tortura, cabe ao Doutor Reedson liderar os demais integrantes do Quarteto.

— Johnny, crie uma barreira de fogo para nos separar dos parademônios! — ordena.

— Seu pedido é uma ordem, Dick! — responde o integrante mais jovem do Quarteto.

As chamas que ele cria tornam-se cada vez mais altas e atingem uma temperatura que seria impossível por quaisquer meios de combustão conhecidos pelo homem. Mas isso não é o bastante para impedir que os parademônios avancem. A imagem aterrorizante dos soldados atravessando as chamas, o som dos gritos de dor que eles emitem sem hesitar e o cheiro de sua carne queimada vão assombrar os humanos nos anos que virão.

Os irmãos Storm começam, então, a rechaçar os ataques um a um. Suas habilidades de combate e experiência superam as limitações intelectuais dos soldados de Apokolips, mas a insistência cega desses seres deformados começa a virar o jogo.

— Esse é o nosso fim, amigão? — questiona o Coisa para o desacordado Reed Richards, desfalecido em seus braços.

A resposta vem nas palavras do outro Senhor Fantástico.

— Sue, proteja seu marido com em um campo de força invisível. — ordena Reedson — Acho que vamos enfrentar mais problemas por aqui!

A mulher atende ao pedido e rapidamente, ambos desaparecem.

— Mais problemas...? — questiona o Tocha Humana, voando de um lado para o outro da sala, por entre os diferentes instrumentos de tortura — O que pode ser pior do que isso?

Nesse momento, adentra ao recinto uma grande figura negra com olhos de fogo. Suas feições frias parecem congeladas em um constante ódio por tudo o que existe e seus movimentos lentos denotam o completo desprezo que ele tem por todos os seus adversários.

Darkseid entrou no combate.

— Não tolerarei essa fuga! — esbraveja o deus sombrio.

Quando sua voz grave ecoa pela câmara, todos os presentes sentem-se como que paralisados. Johnny Storm interrompe seu vôo frenético e Ben Grimm coloca no chão um dos parademônios com quem se digladiava, instantes atrás. Oculta dos olhares inimigos, Sue Richards tenta não fazer nenhum barulho para não ser detectada com seu marido desacordado.

— Muito bem, cara-de-carvão! — como de costume, o Tocha Humana é o primeiro a partir para o ataque — O Pink Floyd que me perdoe, mas está na hora de te ver... em chamas! (**)

Os poderes de combustão de Johnny Storm não têm igual em todo o universo. Da mais simples chama, ao poder de uma supernova, ele é capaz de gerar calor com controle invejável. Mas está acima de suas habilidades criar uma temperatura capaz de incomodar a pele petrificada de Darkseid. O soberano de Apokolips ignora as rajadas de fogo que o garoto emana em sua direção, se aproxima e o agarra pelo pescoço com facilidade.

— Saia de meu caminho, criança! — ordena o novo deus.

Para o desespero de Sue Richards, seu irmão é arremessado contra uma parede. Ela contém seu ímpeto de gritar e permanece oculta em segurança em seu campo de força. Não tem tanta sorte, porém, em impedir que uma lágrima escorra por seu rosto.

— Pode parar por aí, grandão! — provoca o Coisa, partindo para defender o amigo — Você pode ser grande coisa para a Liga da Justiça, mas nós do Quarteto estamos acostumados e enfrentar ameaças do nível do Galactus pra cima!

O golpe poderoso de Ben Grimm poderia destruir um tanque de guerra, mas tem pouca eficácia contra Darkseid. O único efeito é fazer surgir uma rachadura em dois dedos do punho fechado.

— Oh, Deus, não... ! — resmunga o sobrinho favorito da Tia Petúnia , acariciando seu ferimento — Ele quebrou minha mão!

— Acredito que cessaram suas tentativas inúteis de me subjugar. Não tenho razões para travar combate com reles humanos. — em sua prepotência usual, Darkseid cruza os braços às suas costas, encarando de peito aberto seus adversários derrotados — Meu único interesse era usar os conhecimentos de Reed Richards para fortificar a segurança das masmorras de Vovó Bondade. Não haverá mais casos como o do maldito Scott Free, eu lhes asseguro.

— Jamais terá nossa ajuda, monstro! — esbraveja Richard Reedson, enfrentando o tirano destemidamente — Vai ter de nos matar para impedir que deixemos esse planeta imundo!

Darkseid o olha com desdém, antes de prosseguir:

— Não há motivo para tamanho desperdício. Apenas Reed Richards deve pagar por sua insolência.

Ao termino da sentença, os poderosos raios ômega emanam dos olhos de Darkseid com sua luminescência escarlate temida até os confins do universo. De forma estranhamente vagarosa para uma rajada energética, eles avançam contra seu alvo lenta e inexpugnavelmente.

O Senhor Fantástico tenta usar suas habilidades elásticas para escapar, mas a trajetória dos raios vermelhos se altera em pleno ar por diversas vezes, perseguindo-o de forma implacável até alcançar seu objetivo.

Ao menor contato, o corpo do Doutor Reedson é desintegrado, deixando apenas seu uniforme de moléculas instáveis, vazio e jogado no chão.

— Dick! — grita o Coisa, aproximando-se dos restos do novo amigo.

— Calma, Ben! — Johnny tenta conter o seu parceiro — Está tudo acabado para o Dick. Agora, temos de pensar no sofrimento que a minha irmã pode passar...

Com as palavras do Tocha Humana, Ben percebe o engano que Darkseid cometeu. O verdadeiro Reed Richards continua vivo, oculto no campo de força de Sue.

— Vocês podem utilizar o aparelho de teletransporte para voltar ao seu planeta atrasado. — decreta o vilão, dando as costas para os integrantes do Quarteto Fantástico e caminhando para fora da câmara de tortura lentamente — Porém, eu lhes advirto: se nos encontrarmos novamente, terei com vocês a mesma clemência que demonstrei a Reed Richards.

Darkseid parte satisfeito por ter efetuado sua vingança e convencido de que a vitória coube a ele.

— Ele sabia! — exclama o debilitado Reed Richards, que reaparece lentamente junto à sua esposa, agora que a ameaça teve fim.

— O Doutor Reedson sabia que a única forma de convencer Darkseid a nos deixar partir era dando sua vida no lugar de Reed! — explica a Mulher Invisível, abalada.

Apesar de estar ciente de que aquele não era seu verdadeiro marido, é impossível para Sue não se sensibilizar com a sua morte. Afinal de contas, mesmo que em outra dimensão, aquele homem a amou da mesma forma que Reed a ama.

— Eu salvei a vida dele... — prossegue o Senhor Fantástico, quase sem forças — Mas nunca pedi que ele retribuísse dessa forma...

— Tudo bem, Reed! — responde o Coisa, amparando o Tocha Humana em seu ombro e segurando sua mão quebrada — Ficou bem claro que você faria a mesma coisa por ele.

Sue segura forte a mão de seu marido e sua pele maleável parece querer escorrer por entre seus dedos.

— Agora, nós vamos finalmente pra casa! — ela afirma.


Na próxima edição: Um novo começo.


:: Notas do Autor

(*) Conforme visto na última edição. voltar ao texto

(**) A referência musical feita por Johnny Storm ao grupo Pink Floyd, se deve ao seu disco mais aclamado: The Dark Side of the Moon. voltar ao texto

Este mês, encerramos a quadrilogia Black Sabbath na série do Quarteto. Depois de Electric Funeral, War Pigs e Heaven & Hell, essa edição foi batizada em homenagem à mais clássica composição da banda inglesa e que lhe dá nome: Black Sabbath.

Em uma tradução bem livre, escolhi o título de Missa Negra, fazendo referência ao fato de Darkseid ser considerado o deus do mal no universo DC. Algumas descrições do vilão durante o texto foram retiradas diretamente da música.

A cena inicial desta edição, que mostra o incidente que levou à morte da família de Richard Reedson, foi inspirada na versão Heroes Reborn do Quarteto Fantástico. A linha, criada pela Marvel em 1996 e lançada no Brasil sob o título de Heróis Renascem, mostrava novas origens para personagens clássicos da editora.

No caso do Quarteto, as histórias foram desenvolvidas por Brandon Choi e Jim Lee e mostravam a origem dos raios cósmicos como sendo a chegada do Surfista Prateado à Terra. A diferença é que, na versão mostrada em nossa história, a radiação foi mortal para a família de Reedson e houve a intervenção do verdadeiro Reed Richards.

Darkseid e os demais personagens que habitam Apokolips foram criados pelo lendário Jack Kirby em sua passagem pela DC Comics nos anos setenta. O vilão foi copiado inúmeras vezes por diversos autores, mas jamais foi superado. Podemos citar o tirano do Mundo Bélico Mongul, o titã louco Thanos da Marvel e até o inesquecível Darth Vader de Star Wars como personagens claramente inspirados em Darkseid.




 
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