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Titãs # 08

Por JB Uchôa

O Homem Bicentenário
Um Conto de Natal Titânico

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Véspera de Natal. A cidade de Nova Iorque abriga praticamente o mundo todo. É tempo de doar, ser solidário, amar, estar junto das pessoas amadas. A cidade reluz os mais diferentes brilhos nessa época do ano, inclusive um brilho dourado, resplandecente, do herói conhecido como Cyborg. Victor Stone foi levar uma lembrança para seus avós. Desde o dia em que o Omegadromo passou a ser seu corpo 'oficial', ele tem aprendido a se sentir mais à vontade com sua nova realidade. O local é o Harlem, tradicional bairro negro, pois em Nova Iorque a humanidade parece se dividir em guetos, ainda que a palavra da moda seja globalização.

— Ei, lata de sardinha! — Berra um mendigo que se aquece com alguns sem-teto diante de uma lata com papel e algum piche em chamas.

— É comigo? — Indaga Cyborg.

— É você mesmo, 'irmão'! Tem vergonha da sua cor? Deixou de ser negro pra ficar com um visual mais branco? 'Moreno do sol'?

— Dourado feito a estatueta do Oscar! Aquele prêmio pros artistas brancos! — Berra outro mendigo, bêbado, cheio de desdém.

— Pessoal, vocês não sabem o que estão falando. Não viram em algum noticiário o que aconteceu? — Cyborg tenta explicar, meio constrangido. — Tenho certeza de que deve ter saído alguma coisa a respeito. Os Titãs...

— Os Titãs são um grupelho de pivetes brancos! Você é uma vergonha pra nossa raça! Mas acho que devo ter lido alguma coisa no jornal que recebo na minha 'mansão', 'irmão'!

Cyborg engole em seco a provocação. Ele acreditava que alguns deles pudessem ter acesso a alguma informação. Tolo. Não parou para pensar em como suas vidas são miseráveis, lutando para manterem-se vivos e aquecidos. Vic Stone vira as costas e sai, com as mãos fechadas dentro do sobretudo, tentando não olhar para trás.

— VÁ EMBORA, ABERRAÇÃO! VAI, GAROTO DOURADO!

— BUUUUUUUU!! —
Os mendigos começam a jogar garrafas e latas vazias, e só resta ao titã correr em direção ao lar.

Torre Titã, dez minutos depois.

— Já de volta, véio? Tu não ia dar um rolê pela cidade? — Pergunta Mutano, sem tirar os olhos do computador.

— Hã... ia. Resolvi voltar. Estava frio.

— Desde quando você sente frio, lata velha?

— O que você tá fazendo, abacate? — Cyborg desconversa.

— Jogando.

— Jogando o quê, prego?

The Sims! É um jogo super maneiro! A gente controla a casa e a vida dos personagens. — Cyborg aproxima-se do computador e lê "Harém do Gar" num canto da tela. — Eu fiz uma cópia da Torre Titã.

— Sei... Mas não tá faltando gente aí, não? Tô vendo você — supondo que você é esse monte de cocô verde -, a Donna, a Kory — de biquíni, a Jesse e a Namorita.

— Foi um acidente — explica Mutano, sorrindo. — Você, eu troquei por uma televisão. Dick morreu queimado na cozinha. Wally saiu pra trabalhar e não voltou. O Roy paquerou a vizinha e se mandou e o Garth, acredite, morreu afogado na piscina.

— Você é doente, Gar. Doente, mas engraçado. E porque tem Titãs nesse jogo? Alguém liberou a franquia?

— Não, anta! Nós mesmos podemos criar nossas skins. Tem um programinha aí, é fácil.

— E roda em qualquer computador?

— Claro, mané!

— Hummmmmm...

— Hummm o quê?

— Nada, interessante.

— Maluco! — Resmunga Mutano, enquanto Cyborg sai da sala com um sorriso.

Ainda na Torre Titã. Cozinha, no dia seguinte.

— Que cheirinho bom! Posso provar um pouquinho?

Wally! Tira a mão do presunto! Você pode pegar um sanduíche na mesa. — Tróia bate na mão do colega com uma colher de pau.

— Que bom ver você sorrindo.

— Desculpe — diz ela, baixinho.

— Desculpe? É uma cantada nova?

— Deixa de ser bobo! Me desculpe por estar lhe tratando tão mal ultimamente. Eu sou grata a você, mas...

— Esquece, gata! Tá tudo bem entre a gente! — Donna agradece o amigo com um abraço. — Mas se você ainda tá encucada, deveria procurar o Kyle. Vocês viveram coisa à beça juntos.

— Você está certo. Vai ficar pra ceia?

— Não posso. Tem um amigo secreto na LJA antes do nosso e vou passar a ceia com Max, Bart e o resto dos velocistas. Haja grana pra presentes. Ah, esse aqui é pra você. — A mancha escarlate percorre a torre e volta com um embrulho verde e vermelho nas mãos. Tróia abre cuidadosamente e segura um porta-retrato de bronze com uma foto da Turma Titã.

— É lindo, Wally. Obrigada.

— Tenho que ir nessa. Mais tarde eu volto, tenho uns presentes de última hora para comprar. Vou deixar a empregada-maravilha terminar de cozinhar. — Wally West, o homem mais rápido do mundo, deixa a cozinha. Donna Troy ainda fica uns momentos abraçada ao presente, lembrando da sugestão de Wally. Talvez antes do Ano Novo ela visite Kyle.

Continuamos na Torre Titã. Meio da tarde.

— E aí, ferrugem, por que o meu e-mail não tá prestando?

— Calma, Gar, tive que redirecionar um bocado de coisa pra conseguir terminar isso.

— Desde ontem tu tá pregado nesse computador. Canal de sexo ou o quê? — Brinca Mutano, tentando ver por sobre costas de Cyborg o que ele está fazendo.

— "Ou o quê". Dá uma olhada no teu e-mail nesse laptop. Redirecionei todas as contas pra uma só, daqui a pouco ajeito tudo. — Gar Logan deita na cama com o laptop à sua frente.

— Eu sabia que esse Asa não era certinho! Ele assina um boletim da Playboy e da Penthouse. E quem é esse Arjuna?

— Sei lá!

— É pra Nita esse e-mail. Tá todo numa língua estranha. O Tópico é: Salve Arjuna. Não acha estranho?

— Deixa de fuçar no que não é teu! — A mente cibernética de Vic desliga o laptop. — Daqui a meia hora tá tudo normalizado, aí você poderá checar os seus e-mails.

— Cara, deixa eu ver aquilo! E se esse Arjuna for um terrorista? Um novo vilão?

— Ou o nick de um paquera dela? Cai na real, Gar! A vida é dela, não se mete.

— Sei não... — Mutano sai do quarto achando muito estranho, mas talvez Cyborg tenha razão. — Será que fiquei paranóico por causa da Terra?

Ainda na Torre. 20 horas.

— Ei, Asa! Você tá indo pro salão? — Jesse o intercepta no meio do corredor e quase flagra um beijo em Estelar.

— Estamos, não vai começar o amigo secreto?

— Vai. Oi, Kory! Desculpa a pressa. Eu prendi o Crocodilo uns dias atrás e achei estranho ele estar longe de Gotham. Achei que você tivesse interesse.

— Ele estava...

— Sozinho. Saco de jóias. Um furto simples, mas fora de Gotham. — Jesse não deixa Asa noturna terminar de falar e antecipa as respostas à pergunta que ele iria fazer.

— Falarei com a... Oráculo. Obrigado.

Jesse sorri e sai velozmente para o salão.

— Quase que você fala "Babs" — retruca Estelar.

— Não começa, Kory.

O clima é de descontração. Todos os Titãs estão presentes. Tróia mostra o vestido que Argenta mandou de presente para Namorita. Mutano está transformado em rena, com Lian em cima dele, e mesmo assim agüenta uma piadinha de Tempest sobre a escolha do animal. Asa Noturna e Estelar estão bem distantes um do outro. Ele conversa com Jesse, ainda sobre o Crocodilo, e Kory está de cara fechada. Arsenal esconde dos outros um presente que chegou para Lian de Lince, mãe dela. Flash muda a música pop no CD para um tema natalino, mas quando Jesse Quick o convida para tocar piano ao som do coro de Jingle Bells, Tempest pede pra esperar.

— Pessoal, onde está o Vic?

— Será que ele foi capturado? — Alarma Mutano.

Antes que alguém possa verificar no computador se Cyborg está presente, ele chega vestindo um smoking. O homem negro, de mais de 1,80m, sorri de uma ponta a outra da orelha. O brilho da sua pele dourada, o Omegadromo, não aparece. O brilho que ele irradia é de felicidade, por ser inteiro novamente. Ele se sente... humano!

— Vic... Como? — Pergunta Asa Noturna.

— Gar me deu a idéia quando jogava no computador. Eu fiz uma skin imitando minha pele. Agora posso dizer que tenho uma identidade secreta. O herói dourado é Cyborg. O homem é Victor Stone.

— Oh, Vic, parabéns! — Donna, Namorita, Jesse e Estelar abraçam e beijam o colega de equipe.

— Ei, me beijem também! Já estou verde de inveja! — Brinca Mutano, cumprimentando o amigo. Os novos e velhos Titãs abraçam Cyborg, sabendo que essa conquista é uma grande vitória pessoal.

Mais tarde, no quarto de Roy Harper...

— Roy, você está tão calado! Aconteceu alguma coisa? — Donna sai do banheiro, enxugando o cabelo, e se assusta quando encontra Arsenal no chão, babando. — Roy? Roy? É a segunda vez que isso acontece com você! Você está se drogando de novo? Roy?

Uma gargalhada ecoa ao longe, na margem do rio, e a sombra volta a caminhar para os becos da cidade.



 
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