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X-Cluded # 01

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

São Francisco, mansão X-Cluded

A mansão dos X-Cluded é um lugar consideravelmente grande. Tem vários cômodos, talvez um mais atraente que o outro, sem contar o belo jardim (já devidamente limpo) e todo o espaço em volta da casa. Mas os habitantes deste lugar não são o que se pode chamar de "normais".

Quase como uma teimosia, eles ficam o dia inteiro enfurnados dentro de um único cômodo da casa: a sala de TV (embora mudem-se para a cozinha em alguns momentos do dia). E o pior: com o aparelho ligado em algum canal da TV aberta. No momento, Billy Puzo e Eric Bernard, respectivamente Texano e Nooze, integrantes da equipe conhecida (?) como X-Cluded (*), assistem a um antiqüíssimo episódio de "Cavaleiros do Zodíaco".

— Cara, isso é animal! — empolga-se Nooze — Olha só essa animação, esse cenário, essa dublagem... os japoneses são os melhores mesmo!

— Uh... — Billy assente com a cabeça, sem se importar muito com o que seu companheiro disse — Mas e a pancadaria? Eu só assisto a esse desenho por causa das porradas, onde elas foram parar?

— Ah, esse é aquele episódio em que o Seiya desmaia, aí a Saori... ei!

Eric olha para a televisão e se espanta quando vê que o desenho havia sido trocado por uma reportagem ao vivo das ruas de São Francisco.

— Mas que diabo é isso? Eu quero meu desenho de volta! Vou mandar um e-mail agora pra esse canal desgraçado!

— Peraí, peraí, Nooze! Vamos ver o que é antes.

Na TV, vê-se uma garotinha, de cabelos castanho-claros com duas tranças, agachada no meio da rua, e alguns objetos flutuando em volta dela. Nas calçadas, as pessoas olham espantadas para a menina e para os objetos que voam em torno da mesma.

— Aah, e eu achando que era alguma coisa interessante... é uma daquelas chamadas ao vivo... — reclama Texano.

— Putz, olha só isso... — Nooze se aproxima da televisão — É ela quem tá fazendo isso?

— Sei lá, pô! Eu quero saber da pancadaria.

— Se for, ela deve ter poderes telecinéticos... não um poder estúpido como o meu!

— Dane-se o poder dela! Eu vou mudar o canal, de repente tá passando um desenho que tenha pancadaria...

— Não, Billy! Espera um minuto!

— Eu não tô interessado em ver uma guriazinha chorando em praça pública! Eu quero ver pancadaria. Será que ainda passam Thundercats?

— Billy!

Quando os Problemas Começam

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Texano troca o canal no controle remoto, mas se decepciona quando vê que o outro canal também está em uma chamada ao vivo do mesmo local de antes.

— Droga!

— Não ouse mudar de canal novamente, Puzo.

— OK, OK...

Eles assistem pela TV um dos objetos que flutuavam em torno da garotinha, mais especificamente uma lata de lixo, voar para o meio de uma pequena multidão e dispersá-la.

— Ih, ela tem a manha mesmo.

— Ssh! — pede Nooze.

Fazendo sua trajetória típica, chega a meleca verde Gozma, vindo da cozinha.

— E aí, pessoal... vendo o quê? — cumprimenta ele.

— Ainda passam Thundercats? — pergunta Billy.

— Não.

— Droga.

— Olha só isso, George. — pede Eric — Uma garotinha usando telecinese no meio de uma rua aqui em São Francisco.

George Ekows olha para seu colega Eric, sério.

— O que tem de mais nisso?

— Não vê? Uma mutante que a gente não conhece, fazendo balbúrdia aqui, em São Francisco! Não acha que isso é um trabalho para o X-Cluded?

— Não.

— Pois eu acho. — uma voz surge na porta da sala de TV.

Todos olham para a porta e vêem Mentor, tentando manter um ar de superioridade e onipresença.

— Precisamos ir até lá, nem que seja apenas para acalmar aquela garotinha mutante inocente. Ponham seus uniformes e vamos para nosso veículo.

— "Nosso veículo"? — questiona Gozma — Quer dizer que nós temos um "x-cludedmóvel"?

— Não exatamente. Temos um belíssimo Cadillac azul 69... bem, nem todos podem ter o Pássaro Negro. Cada um se vira com o que tem. Vamos lá.

Alguma rua de São Francisco, um minuto depois

A garotinha está sentada no meio da rua. Não se sabe há quanto tempo ela está chorando, mas parece ser um tempo considerável. A multidão em sua volta se mantém distante, com medo de que possam ser atingidos por algum dos perigosos objetos que flutuam acima dela — o que inclui um poste. Com tanto medo quanto o resto da multidão, alguns policiais chegam ao local em três viaturas.

O único policial que não está com medo é Briggs. Vestindo um sobretudo marrom e tentando manter no rosto uma expressão amedrontadora (embora não consiga, pois seu rosto é gordo e engraçado demais para isso), ele sai da sua viatura disposto a acabar com aquela "situação estúpida e inútil", segundo seus próprios pensamentos.

— Muito bem. — diz Briggs a um dos seus colegas — Só apontem as armas quando eu mandar, OK? Ela pode se assustar no começo.

Eles assentem.

— Ah, e outra coisa muito importante... — prossegue ele, enquanto ergue um megafone — Comprem donuts. Acho que vamos precisar de muitos depois dessa missão.

Um dos policiais sai correndo em busca de uma loja onde se possa comprar as citadas rosquinhas. Briggs liga o megafone, vai para a frente de sua viatura e tenta começar o que pode ser uma negociação:

— Olá, garotinha. Você tem nome?

A menina não responde.

— Uh, OK. Meu nome é Jonathan Briggs, mas pode chamar só de Briggs, ou até de "titio Briggs" se quiser, tudo bem?

Novamente o silêncio.

— Ou não chame de nada. Enfim... será que você poderia sair do meio da rua? Sabe, as pessoas precisam trabalhar, precisam circular... você sabe o que é circular, não sabe?

A criança olha para Briggs.

"Pelo menos consegui chamar a atenção dela." — pensa ele — "Estamos no caminho certo!"

— Mas isso não importa. Você não gostaria de colaborar com o titio Briggs e desistir de ficar chorando no meio da rua? E também de pôr essas coisas no chão?

A garotinha continua olhando para o policial. Repentinamente, ela faz com que as três viaturas da polícia que ali estavam girem verticalmente e saiam voando alguns metros atrás de Briggs, que olha pasmo para os carros voadores. O policial engole em seco.

— Parece que não. — conclui ele.

"Acho que vamos precisar de ainda mais donuts do que antes." — pensa Briggs. Ele puxa o megafone pra próximo de sua boca e tenta dar um jeito rápido naquilo.

— Olha aqui, guriazinha! Eu não gosto de você, você não gosta de mim, então por que não podemos facilitar as coisas? Afinal, eu... — Briggs vê um Cadillac azul chegando do outro lado da rua — Quem diabos...?

O Cadillac dá um cavalo de pau e pára a quatro metros da menina. Dentro dele, estão os X-Cluded.

— Não precisa chamar tanta atenção, Texano. — reclama Mentor.

— É divertido!

Mentor é o primeiro a sair do carro, seguido de Texano e Nooze, que salta da parte de trás do carro. Gozma arrisca sair, mas seu líder o impede.

— Você não, Gozma. Ela pode se assustar.

— Mas, Mentor... e se...

— Sem "mas". Todos terão seu momento.

— Ahh, certo, certo...

Os outros dois integrantes da equipe observam a situação. Estão diante de uma garotinha aparentemente frágil, mas que pode matá-los jogando um dos prédios próximos em cima deles, segundo um X-Cluded.

— Também não precisa exagerar, Texano. Arremessar um prédio é apelação.

— Ah, nunca se sabe... essas crianças nos surpreendem mais a cada dia!

Nooze fica em silêncio. Mentor se aproxima deles.

— Muito bem, vocês dois. Sua missão será negociar com a garota. Façam o possível para que ela saia do meio da estrada, mas descubram a razão de ela estar ali.

— Pode deixar, chefe! — Texano sorri e bate continência.

— Vamos lá. — diz Nooze.

Os dois aproximam-se da criança, enquanto Mentor segue na direção do policial Briggs, que vem andando apressadamente na sua direção.

— O que diabos é isso? Quem vocês pensam que são?

— Bem, policial...

— Nada de "bem, policial"! Eu quero saber quem vocês são! — diz Briggs, irritado.

— Nós somos os X-Cluded.

— Quem?!

— X-Cluded. Nós sabemos que a menina é mutante, nós podemos cuidar dela, não se preocupe.

— "Cuidar dela" o caramba!

Enquanto os líderes discutem, Texano e Nooze chegam até a menina. O caipira do Texas se agacha e abre um sorriso, tentando parecer simpático.

— Oi, mocinha! Tudo bem com você?

— Óbvio que não tá tudo bem, ela tá chorando.

— Fica quieto, Nooze, e deixa com o papai aqui. — Texano volta-se à jovem mais uma vez — O que tá acontechendo cum vochê? Qual é o problema? Conta pro titio, conta.

A menina olha para ele, seu rosto encharcado de lágrimas, mas não por que a "lábia" de Texano chamou a atenção dela. Foi, sim, devido ao modo excessivamente infantil como ele a tratou. Infantil até mesmo para ela.

— Pára de falar bobagem, Texano. Deixa comigo.

Texano se afasta, e deixa Nooze conversar com a pequena mutante.

— E aí? Tudo beleza? Sabe, você tem cara de quem curte Pokémon. Você curte Pokémon?

Novamente, não há resposta. Mas Nooze continua tentando puxar conversa:

— Bem, você deve curtir, todas as crianças curtem. Qual o seu Pokémon preferido? Aquele azul redondinho? O Pikachu? O Charmander?

— O Nooze?

— Calaboca, Texano. E aí? Você curte o que mais? Digimon? Harry Potter? Teletubbies?

A menina permanece em silêncio, mas aquilo já a está irritando. Tanto é que ela resolve lançar um dos objetos em cima dos X-Cluded — mais especificamente, o poste. O grande cilindro de cimento é lançado horizontalmente de forma a acertar ambos ao mesmo tempo na altura da barriga. Com o impacto, são projetados e caem sentados, próximos do Cadillac onde estavam há instantes atrás.

Do outro lado, a discussão continua acalorada. Briggs aponta o dedo para Mentor.

— Você não tem o direito de vir pra cá com os "seus homens" e achar que manda na situação! Os policiais aqui somos nós, droga!

— Não interessa! A menina é mutante, por isso eu e os meus homens vamos cuidar desse problema! A polícia não tem nada que se meter conosco.

— Ah, não? E o que vocês vão fazer se nós nos metermos? Usar seus superpoderes mutantes? Projetar garras de metal das mãos? Soltar raios vermelhos pelos olhos? Criar um mega-invento que só vocês podem criar?

Mentor e os policiais se entreolham por alguns segundos.

— Mega-invento? Quem tem esse poder? — pergunta Mentor.

— Um tal de Forge, de uma equipe do governo. Não lembram?

— Hã, vagamente. Ele não foi morto pelo Fitzroy naquela chacina que aconteceu há algum tempo na Austrália? (**)

— Não sei... foi? Eu sei que morreu uma meia dúzia de mutunas, mas não sei se ele estava no meio. Aliás, será que eles têm donuts na Austrália?

— Não sei bem... mas que negócio é esse de "mutunas"? Mantenha o respeito, porque muitos de nós são bem mais humanos que pessoas como você, senhor policial!

E assim a discussão segue, talvez mais acalorada do que antes.

Enquanto isso, no Cadillac 69, a meleca verde Gozma está esparramada no banco do motorista, cantarolando:

Fell in love with a girl… fell in love once and almost completely… she's in love with the world… (***) — George olha para os companheiros que estão fora do carro e pára de cantar — Mas que diabos…? Será que esses caras não podem fazer nada sozinhos? Eu vou dar um jeito nessa menininha!

Gozma abre a porta, molda seu corpo criando dois alongamentos que poderiam ser comparados a pernas, e então segue até a frente do Cadillac. Ali estão Texano e Nooze, embaixo do poste que foi lançado em cima deles há instantes atrás.

— George! — grita Nooze, fazendo força para erguer o poste — Onde você pensa que vai, cara? O Mentor disse pra você ficar no carro!

— Sem essa! Agora é a minha vez!

— Ela vai te detonar, Gozma! Já pensou se ela joga um desses prédios em cima de você? — diz Texano.

— Pára com essa história de jogar prédio, Puzo. — pede Eric.

George Ekows segue andando quando, do outro lado, o policial Briggs nota a presença do mutante.

— Que diabo é aquilo? Aquela coisa verde também é um dos seus homens?

— Oh, meu Deus... — Mentor se decepciona — Gozma, o que você está fazendo aí? Volte para o carro, a menina vai se assustar!

A gosma nem presta atenção, e segue até ficar a poucos metros de distância da menina. Esta limpa os olhos e olha para cima, encontrando a "face" de Gozma.

Os objetos em volta dela descem suavemente ao chão. Os olhos da criança brilham e ela abre um grande sorriso no rosto ainda molhado pelas lágrimas. Gozma faz suas "pernas" sumirem, o que faz com que ele diminua sua altura. Todos olham atentos para a cena estarrecedora. Aquele que Mentor temia que fosse deixar a jovem ainda mais tensa deixou-a tranqüila, a ponto de fazê-la correr na direção dele e começar a mexer no seu rosto melequento. A menina achou Gozma um ser bonito e engraçado. De fato, há gosto para tudo.

— Ahn... oi, eu sou o Gozma! — George tenta falar enquanto a mocinha brinca com sua pele verde — E você? Qual seu nome?

— Kate.

— Kate? Que nome bonito!

— Foi a minha mãe que escolheu.

— É, eu sei como funcionam essas coisas. Quantos anos você tem?

— Nove.

Mentor se aproxima dos dois. Gozma olha para ele com uma cara feia.

— Eu estou conversando com a Kate, dá licença?

— Hã, que tal perguntar por que ela estava atrapalhando o trânsito aqui dessa rua? — pede o homem de longos cabelos brancos.

— OK. Ei, Kate... o que você estava fazendo aqui no meio da rua?

— A minha mãe... sumiu... daí eu fiquei chorando, porque a minha mãe sumiu... e eu queria ir pra minha casa com a minha mãe, só que ela sumiu... daí eu fiquei brava, porque...

— A sua mãe sumiu. — interrompe Gozma.

— É!

— Hm, sei. E é você mesma que faz essas coisas voarem?

— Sim... a minha mãe disse que é o meu poder.

— E você consegue controlar o seu poder direitinho? — o Mentor sorri e comemora quando Gozma faz esta pergunta, imaginando que este está indo pelo caminho que aquele pretendia seguir.

— Mais ou menos... algumas vezes eu consigo, outras vezes eu não consigo mexer nem na minha Barbie!

— Ah, sei... — Gozma olha para Mentor — Que é? — sussurra o mutante verde.

— Convide-a pra ir conosco até a Mansão. — pede novamente Mentor.

— Tá... olha, Kate... eu sei de um lugar bem legal, beeem grande, onde você poderá aprender a usar o seu poder... e o pessoal de lá poderá ajudar a encontrar a sua mãe. — Gozma fala isso olhando para Mentor, que volta a comemorar — Eu moro lá. Você gostaria de vir conosco? Vai ser bem legal, eu aposto que você vai gostar. O que me diz?

— Hm... a minha mãe sempre me disse pra não pegar carona com estranhos...

— Mas eu não sou um estranho, eu sou o Gozma, eu sou seu amigo! — a cabeça de Gozma toma a forma do dinossauro Barney — Então, você não é minha amiga também? Venha comigo!

Kate começa a gargalhar. A essa altura, Texano e Nooze já conseguiram se desvencilhar do poste, e observam pasmos a conversa de Kate e Gozma, ao lado do ainda mais abismado policial Briggs.

— Filho de uma...

— Passe os dez dólares pra cá, Briggs. — pede Texano. O policial põe a mão no bolso e entrega uma nota a Texano — Foi bom apostar com você. — conclui o caipira.

A cabeça de Gozma volta à sua forma original (ou à falta dela).

— Então? Vai conosco ou não?

— Tá... então eu vou com você.

— Legal, Kate! Então sobe aí! — Gozma cria uma escada e um tipo de banquinho em cima de si. Kate sobe em Gozma e senta-se no banquinho que ele acabou de criar — Vamos lá!

Eles vão seguindo até o Cadillac. Mentor segue o mesmo caminho, sorridente. Texano e Nooze logo se aproximam deles.

— Então, parece que o X-Cluded tem uma nova integrante. — diz Nooze.

— É verdade. — diz Mentor.

— Mas como ela irá se chamar? Qual será o apelido dela?

— Sabe... — diz Gozma, enquanto Kate desce dele e senta-se no banco do carona do Cadillac azul — Acho que ela tem que ter um nome que nem o da Jean Grey, tipo "Garota Marvel"... elas tem até poderes meio parecidos.

— Garota Marvel? Mas o codinome dela não é Fênix?

— Fênix? Tem certeza? Pensando bem, será que ela tem mesmo um apelido?

— É uma boa pergunta... talvez a Kate não precise de um apelido por enquanto, então...

Todos entram no carro. Texano liga o Cadillac, manobra e toma o rumo da mansão X-Cluded.

— Mas o apelido dela não é Garota Marvel mesmo? — pergunta Gozma.

— Não sei, não lembro bem... sabe como é, isso tudo é uma baita bagunça, tem que ser um baita historiador pra entender esses caras... — completa Nooze.

Enquanto isso, um homem grande assiste a tudo pela televisão, em seu esconderijo secreto. Ele faz o possível para esfregar suas mãos uma na outra.

— Hm... parece que temos um novo alvo... esses tais X-Cluded... — ele começa a rir ensandecidamente, como se isso fizesse alguma diferença.


:: Notas do Autor

(*) Para saber como o X-Cluded se formou, leia a edição especial X-Cluded: A Nova Gênese. voltar ao texto

(**) Em X-Men #03 e #04, do Hyperfan. voltar ao texto

(***) Trecho da música "Fell In Love With A Girl", da ótima banda White Stripes. Extremamente recomendada. voltar ao texto




 
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