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X-Cluded # 03

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

Morte em Las Vegas!

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Noite.

Um ser feito de geléia verde corre atrás de uma garotinha. De fato, não é algo que se vê todo dia. Mas é isso que os transeuntes desta praça de Las Vegas estão vendo. Não foram poucos os que pensaram em chamar os Vingadores para dar um jeito neles. Na verdade, Gozma e Kate, integrantes da equipe mutante X-Cluded, estão apenas brincando de pegar pelo local.

Próximos deles, estão os outros X-Cluded: Aviador, Texano e Nooze, esperando que seu líder, Mentor, lhes diga o que fazer. Ele está sentado em um banco, diante de um grande chafariz com uma linha de jatos d'água, cuja força é alternada, formando um verdadeiro balé de água. Mentor tecla quase que desesperadamente num laptop onde, segundo ele, se comunica com "seu superior".

— Quer que eu faça isso? — pergunta Eric Bernard, o Nooze — Eu sou o cara que manja de computadores, você está demorando demais aí.

— Calma. — pede Mentor — Eu sei o que estou fazendo. Só ocorreram sete bugs em meia hora, o laptop está numa performance notável.

— Uh...

Depois de catorze minutos de uma concentração ímpar, Mentor pega todos de surpresa gritando que já conseguiu fazer o que queria.

— E aí, o que era? Estava procurando o Wally? — pergunta Eric.

— Hehe, boa. — comenta Texano.

— Não. Estava agendando nosso vôo de volta para São Francisco. O avião sai amanhã, logo pela manhã.

— Ótimo. — diz Aviador — Temos muito tempo pra perder jogando nos cassinos de Las Vegas. O que me dizem?

Todos comemoram a idéia do sessentão, exceto Mentor.

— Não, ainda não. Temos uma coisa a fazer antes. — Mentor olha para o lado, onde está o resto do X-Cluded — Gozma, Kate! Venham até aqui.

A meleca e a menina se juntam aos outros mutantes. Logo Mentor tira, de dentro de uma grande mala, uma jaqueta de couro preta. Cobrindo as costas da mesma, há um "x" amarelo. O homem de óculos escuros estende a peça de roupa até Mark Rogers, o Aviador.

— Mark... este é o seu uniforme. A partir de hoje, você faz parte oficialmente do X-Cluded!

— Hm. Obrigado, Mentor... — agradece Aviador, enquanto põe a jaqueta nas costas.

— Ei, não vale. — reclama Texano — A jaqueta dele é mais legal que a minha.

— Ah, qualé, Texano! Vamos pro cassino gastar o dinheiro do Mentor! — convida Nooze. Mentor olha para ele com uma expressão repressiva — É, vamos logo antes que ele queira pegar o dinheiro de volta!

E assim vão Texano, Nooze, Aviador e Gozma para um cassino próximo dali. Kate arrisca ir atrás deles, mas Mentor a detém antes que possa dar mais de três passos.

— Você não pode entrar no cassino, Kate.

— Não? Nem comprar balinhas de caramelo?

— Receio que não. Mas, em compensação, podemos nos divertir muito aqui, apenas você e eu.

— Legal! Vamos brincar do quê?

— Que tal um jogo da memória? Eu comprei esse baralho de animaizinhos no aeroporto, podemos passar a noite inteira jogando! O que acha?

A menina olha para Mentor com um sorriso amarelo, e uma expressão totalmente decepcionada que apenas alguém como Mentor não notaria. Diante da situação, só pode dizer isso, depois de alguns segundos de silêncio:

— Claro...

— Ótimo! — retruca Mentor.

O homem de cabelos brancos tira o baralho de um bolso e começa a embaralhá-lo, consideravelmente empolgado. Kate começa a imaginar que aquela seria a noite mais longa de toda a sua vida, e inicia uma procura incessante dentro de sua mente. Ela procura por pelo menos uma ponta de sono, nem que seja pra usar como desculpa para acabar com aquele jogo estúpido.

O salão do cassino está lotado. Pelo menos um terço de todas as pessoas ali presentes estão bêbadas, o que as impede de reagir de qualquer outra maneira diferente de um cumprimento diante de uma gosma verde mutante tentando tirar a sorte numa máquina caça-níqueis.

— Vamos lá! Limão, limão, limão! É agora!

— Parece que temos alguém empolgado por aqui. — diz Aviador, que se aproxima de Gozma com dois pequenos copos de bebida. O mutante pega o copo com uma mão e o segura enquanto puxa a alavanca com a outra extensão de seu corpo.

— É agora, Aviador! Eu tô sentindo! Antes deu limão, abacaxi, cereja! Pela lógica, agora só pode dar limão, limão, limão!

— Claro, Gozma, claro. Divirta-se.

Aviador se distancia de George Ekows quando vê Nooze numa mesa de blackjack próxima. Ainda assim, três segundos depois, consegue ouvir um decepcionado grito vindo das máquinas, dizendo "Não! Era limão, limão, limão! Maldita máquina dos infernos!!".

Quando Mark Rogers puxa uma cadeira até a mesa, Eric Bernard está tirando sua segunda carta no jogo.

— Como está indo, garoto?

— Ssh. Veja o mestre em ação.

Nooze dá uma última olhada para suas cartas. Um sete e um três. Ele sabe que é um jogo relativamente arriscado, mas quando o crupiê pergunta se ele quer mais alguma carta, ele decide ficar apenas com as que tem. Agora, Nooze conta apenas com a sorte.

O olhar intrigado de Texano observa aquele aparelho estranho, cheio de desenhos bizarros. Ele sabe que já viu algo daquele tipo antes, só não se lembra muito bem como funciona. Talvez seja efeito do álcool, talvez seja sua mente nada prodigiosa... não importa. O fato é que Billy Puzo quer por que quer ganhar uns trocados naquela máquina, só não sabe como. Ao invés de perguntar para algum funcionário como se joga na máquina, Texano usa a cabeça e começa a dar chutes no caça-níqueis.

De volta à mesa de blackjack, Eric está esperando pelo grande momento em que verá se ele é um grande jogador ou não (tudo indica que a mais correta é a segunda opção). O crupiê tira sua última carta do bolo. É um oito de copas.

— A banca ganhou. — declara o homem.

Nooze olha para suas cartas, seu nariz murcha em sinal de tristeza. Logo, põe as cartas na mesa e bate com a cabeça na mesma. Aviador bate de leve nas costas do rapaz.

— Não foi dessa vez, garoto. — conforta ele — Está tudo bem, levante-se daí. Vamos comprar umas bebidas e jogar em outro lugar.

— Isso não é possível... — diz Nooze, enquanto se levanta — Eu tinha um jogo perfeito! Perfeito!

Enquanto os mutantes procuram algum outro jogo para provavelmente perderem mais uma vez, o crupiê os observa e tira um walkie-talkie do bolso.

— Câmbio. Viram só quem está perdendo seu dinheiro no nosso cassino? Sim, exatamente. É, são eles. Avisem o chefe imediatamente. Já avisaram? Ele está cuidando disso? Ótimo. Câmbio final.

Uma sala anexa ao cassino. Escura, iluminada apenas por uma fraca lâmpada pendurada no teto, que fica a apenas um metro e vinte centímetros da mesa verde que fica no centro do local. Uma típica mesa de pôquer, na qual um sério Eric Bernard está jogando contra outras três pessoas. Aviador o observa, e arrisca dar um pitaco no jogo do jovem, murmurando:

— Acho bom você...

— Ssh. Veja o mestre em ação.

— É a sétima vez que você diz isso hoje. — diz Rogers, ao pé do ouvido de Nooze — E depois de todas elas você acabou perdendo. Cale a boca e ouça meu conselho de jogador experiente: desista desse seu jogo estúpido e tente um jogo melhor na próxima rodada. Você nunca vai conseguir nada com esse seis e esse sete perdidos aí no meio.

— OK, OK. — Nooze guarda suas cartas quando chega sua vez e as joga no meio da mesa — Eu caio fora.

Segundos depois, quem está na sala ouve uma irritante versão eletrônica de "Macarena" tocando. Os três adversários de Nooze no jogo olham pra seus respectivos celulares e notam que não é nenhum deles que está tocando.

— Eieiei! — reclama Nooze — O velho truque do celular. Ninguém sai, ninguém sai.

Aviador se intriga e põe a mão dentro de um bolso de sua jaqueta nova: há um pequeno telefone celular ali.

— Hã, é o meu...

Ele começa a olhar para o aparelho e a dúvida volta à sua cabeça: como atender a uma ligação em um aparelho tão novo e complexo, ainda mais com uma música daquelas tocando insistentemente? Sua mente antiquada não encontra uma explicação, até que Nooze ergue o braço e pressiona um único botão, abrindo um sorriso em seguida. Mark agradece, pede licença e se afasta da sala do pôquer, indo para o salão do cassino.

— Alô? — atende ele.

— Alô, Aviador? Sou eu, Mentor.

— Você está louco?

— Por quê? Só por que pus esse presentinho na sua jaqueta?

— Não! Por escolher uma música dessas como chamada.

— Isso não faz diferença agora!

Fora do cassino, Mentor fala ao celular olhando uma quadra à sua frente. Há cinco carros vermelho-escuros se movendo dali até o cassino onde estão os outros X-Cluded. Mentor conhece os veículos: são dos Anelídeos (*), o que significa...

— Sérios problemas. Estou vendo limusines vermelhas estacionadas. Parecem ser os carros dos tais Anelídeos que nos atacaram à tarde, e parece-me que eles estão indo aí para o cassino. Faça alguma coisa.

— Pode deixar comigo. Me aguarde aí fora. — Aviador desliga o celular (ou pelo menos acha que o está fazendo, devido ao seu conhecimento de celulares ser tão grande quanto o de um mamute) e olha para o nada. Ele tem uma saída para aquilo, e um rápido plano é arquitetado em sua mente.

"Não é a coisa mais inteligente a se fazer, mas olha só com quem estou lidando." — ele pensa, ao olhar para Texano, que está lutando furiosamente contra uma máquina caça-níqueis.

— Ei, cowboy. — chama Aviador.

— Que foi? Não vê que eu tô jogando?

— Mentor me ligou. Chame a coisa verde pra cá, imediatamente.

— Beleza.

Billy sai correndo atrás de Gozma, enquanto Rogers volta para a sala de pôquer. Quando chega lá, encontra o mesmo ar tenso de antes. Toca o ombro de Nooze.

— Ssh. Veja o mestre em ação.

— O Mentor está nos chamando, garoto. Temos uma missão relâmpago.

— Pra quando?

— Pra ontem. Vamos logo.

— Ninguém sai. Ninguém sai. — falam os outros competidores.

— Pô... mas o meu jogo tá ótimo!

— Não está não, seu blefe é inútil. Rápido.

— Hã, pessoal, vou ter que cair fora agora, tô com um problema sério.

— Ninguém sai. Ninguém sai.

Nooze e Aviador se entreolham, por alguns segundos. Logo, saem correndo da sala e encontram Gozma e Texano no salão.

— Todos reunidos? OK. — diz Aviador — Os Anelídeos estão chegando. E eles estão vindo pra cá. O plano é simples.

O caipira, a meleca e o narigudo nerd ficam esperando pela explicação, mas ela não vem.

— Sim, como é o plano? — pergunta Gozma.

— Bem, o plano é simples. Não há plano. — os três outros X-Cluded se entreolham, mas Aviador prossegue — Eu apenas quero que vocês esvaziem este cassino o mais rápido que vocês puderem para evitar morte de inocentes. Entenderam?

— Mas e quanto a você? — questiona Nooze.

— Eu vou até um quartel da Força Aérea que fica perto daqui chamar reforços. Tudo certo, então? Vamos lá.

Antes de qualquer outra coisa, Aviador tira sua jaqueta, a deixa com Nooze e pede para cuidar dela, como que prevendo alguma coisa. Depois, segue até a porta do cassino, esperando que os X-Cluded possam fazer o que ele disse. Ele acha que eles entenderam.

Os fatos que seguem podem significar que sim, dependendo do ponto de vista. Os três se entreolham, e rapidamente saem correndo desesperados pelo salão do cassino.

Fujam todos! Tem uma bomba aqui dentro!! — grita Nooze.

Uma bomba!! Uma bomba!! — é o que berra Gozma.

Saddam Hussein! Bin Laden! Al Qaeda! Maggie Simpson! Ozzy Osbourne! Mary Poppins! Ajude o Jaspion, Namagderaz! Namagderaaz!! — diz Texano, a plenos pulmões.

São gritos deste tipo, entre outros ainda mais bizarros, que fazem com que o cassino seja evacuado depois de cerca de cinco minutos. Depois deste tempo, os três X-Cluded saem de dentro do cassino como se acabassem de ganhar as olimpíadas, caminhando heroicamente. E encontram, do lado de fora, à sua esquerda, um pequeno exército de Anelídeos e, à direita e se aproximando lentamente, Mentor e Kate. O rosto amedrontado é comum a todos os X-Cluded neste momento.

— Hã, qual é a deles? — pergunta Gozma.

— Adivinha. — diz Nooze.

— Matar a gente. — responde Kate.

— Ela tá ficando inteligente, hein? — conclui Texano.

— Cale a boca, você de chapéu. — ordena um dos Anelídeos.

Logo após ficarem surpresos ao descobrir que os Anelídeos falam, os X-Cluded surpreendem-se ainda mais quando todos os homens de vermelho apontam cada um uma arma pesada na direção deles.

— Mais um movimento e todos virarão cinzas. — adverte um outro Anelídeo.

Os cinco mutantes do X-Cluded engolem em seco.

— Se a pontaria dele for tão boa quanto o livro de frases feitas que ele usa, nossa vida tá garantida. — comenta Gozma, baixinho.

— Quer calar a boca? — murmura Nooze — Ou você acha que a gente vai sair vivo daqui como num passe de mágica? Você acha que soluções rápidas caem do céu?

Do céu, cai um míssil que acerta duas das limusines dos Anelídeos, levando pelo menos três deles consigo. Todos olham para cima e notam um caça dando um rasante próximo deles. Lá dentro, podem ver que o piloto é ninguém menos que Aviador.

— Muito prático. — comenta Mentor.

— Peraí, como foi que ele conseguiu aquele caça assim tão fácil? — pergunta Texano. Kate puxa a calça do mutante e aponta para a esquina atrás deles. Ali estão quatro mulheres com roupas da Força Aérea Americana, com sorrisos apaixonados, gritando coisas como "vai, Aviador", "lindooo", "gatão", e outras histerias do gênero.

O caça pilotado por Mark Rogers dá uma volta no ar e regressa atirando novamente contra os Anelídeos, que começam a tentar acertar o jato. Os X-Cluded não sabem o que fazer; se correrem, os Anelídeos atiram; se os atacarem, também, portanto ficam parados onde estão.

No cockpit do caça, Rogers observa a situação. Ele prossegue atirando contra os Anelídeos, mas nem o JATO que lhe deram é tão bom e nem sua habilidade e pontaria são tão boas quanto na época em que era piloto, na Segunda Guerra Mundial. Quando tenta lançar o míssil derradeiro contra seus inimigos, este acaba emperrando. Nenhuma outra arma mais parece funcionar, quando Aviador tem uma idéia. Respira fundo e nem pensa muito antes de pô-la em prática.

O jato dá meia volta no ar, enquanto tanto os Anelídeos quanto os X-Cluded que estão no chão ficam esperando pela chegada do caça ali novamente. Texano arrisca sair correndo com sua alta velocidade, mas pensa que talvez seja difícil fazer isso com suas calças borradas. Do mesmo modo, todos os outros X-Cluded estão com medo de usar seus poderes — alguns até esqueceram que os possuem. O caça finalmente se aproxima dos Anelídeos e, para a surpresa de todos, ele vem exatamente na direção deles. Ou seja, apontado para o chão.

Diante disto, o líder dos X-Cluded, Mentor, consegue gritar:

Coorram!!

E todos os mutantes atendem prontamente. Os Anelídeos atiram loucamente contra o caça, mas logo ele acaba acertando a todos em cheio. O pequeno avião causa uma grande explosão que mata todos os Anelídeos e o próprio piloto, Aviador. Aparentemente, ejetar o assento nem passou pela sua cabeça.

Já devidamente a salvo, os X-Cluded remanescentes observam o fogo da explosão. As quatro mulheres da Força Aérea caem em prantos atrás deles.

— Caraco. — é a única coisa que Gozma tem a dizer sobre isso.

— Pô... o cara se matou pra salvar a gente. Tipo um kamikaze. — diz Nooze.

— Um kamikaze... — diz Mentor, olhando o fogo, que é refletido em seus óculos escuros.

— E a gente não teve tempo nem de criar amizade com ele. — fala Texano.

Kate não agüenta e começa a chorar. Mentor está se segurando para não fazer o mesmo.

— E agora? — pergunta Nooze — O que a gente faz?

Mentor olha para seus X-Cluded, depois para a jaqueta do falecido que ainda está nas mãos de Nooze.

— Agora a gente volta para São Francisco. — responde ele, sem emoções.

O misterioso homem ainda está vigiando os X-Cluded. Ele faz o possível para coçar seu queixo e comentar:

— Hm... então Rogers escolheu o caminho dos covardes... um alvo a menos... mas ainda temos os outros X-Cluded. — sorri ele.


:: Notas do Autor

(*) Não sabe quem são eles? Descubra lendo a edição anterior de X-Cluded. voltar ao texto

A título de curiosidade: caso você não tenha notado, a cena do pôquer e especialmente os "ninguém sai. Ninguém sai" são referências a uma clássica crônica de Luís Fernando Veríssimo, uma das mais engraçadas deste excelente autor. Se você ainda não teve a oportunidade de lê-la, dê um jeito de fazê-lo! : )




 
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