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X-Cluded # 05

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

Ten To Midnight (*)

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O quintal da mansão semi-destruída do X-Cluded

Tijolos voadores se movem para formar uma nova parede.

É assim que a jovem Kate ajuda a reconstruir a parte destroçada da Mansão do X-Cluded, destruída dias atrás durante um feroz (?) embate contra o monstro conhecido como Hulk (**). Ela até parece se divertir fazendo aquilo. Mas seus colegas de equipe não.

Nooze, Gozma e Texano estão trabalhando pela primeira vez em suas vidas em esforços braçais, consertando a casa do jeito que podem. Isso significa que o trabalho só será terminado de um modo convincente quando porcos de camisola criarem asas e sobrevoarem Buenos Aires cantando músicas do Duran Duran. Por isso, Rick Jones fez questão de pagar outros quatro pedreiros profissionais, além de todo o material necessário para a reconstrução.

Eric Bernard, o Nooze, acaba de voltar do banheiro, completamente sujo. Ele acabou de consertar a privada.

— Que beleza, hein, Nooze. — comenta Gozma.

— Cala a boca. — responde o mutante nerd, bravo — Eu quero pegar o desgraçado do Mentor quando acabar com isso. Eu venho pra cá pra aprender a usar meus poderes e olhem só que fim eu levei. Virei o primeiro encanador mutante do mundo. Eu deveria ganhar uma revista em quadrinhos própria por isso.

— Calma, Eric... — diz Texano — As coisas são assim mesmo. O Mentor disse que tá mandando uns e-mails e disse que vai vir uma surpresa legal por aí.

— Blá, blá, blá. Você nem imagina o que eu vou fazer com essa chave quando eu ver o Mentor e...

— Ô encanador! — grita um dos pedreiros, no telhado, interrompendo a frase de Nooze — Pára de encher o saco aí embaixo e vai carregar aqueles tijolos ali, pô!

Nooze olha para a enorme pilha de tijolos que tem que carregar. A fúria começa a tomar conta de seu corpo. Surge o estopim:

— Ei, pessoal... — é a voz de Mentor, vindo de dentro da casa. Nooze não pensa duas vezes e arremessa a ferramenta que tinha na mão contra o velho, que consegue desviar com certa facilidade do ataque — Calma lá, eu trago boas notícias...

— É bom mesmo. — resmunga Eric.

— Nós vamos viajar novamente!

— Pra onde? Pro inferno? Deve ser melhor do que aqui no momento. — reclama Nooze mais uma vez.

— Não. Irlanda do Norte.

— Prefiro o inferno...

— Ah, qualé, Nooze. Eles têm cerveja pra caramba lá. — diz Texano.

— Hm, é verdade...

— E o que a gente vai fazer lá, Mentor? — pergunta Gozma.

— Vocês irão finalmente conhecer o homem que está financiando o X-Cluded.

— Ooooohhhh... — dizem os três mutantes na frente de Mentor, espantados.

— Vamos lá, tirem essa cara de surpresa do rosto e arrumem suas malas.

Todos os X-Cluded saem correndo pra dentro da mansão, sorridentes, meio que comemorando, mas são interrompidos:

— Ei, peraí, mané do nariz! — Nooze pára e olha para o pedreiro no telhado que grita com ele — Aqueles tijolos têm que estar aqui em cima!

— Sem essa! Agora vou arrumar minhas malas! Não é, Mentor?

— Não. Temos tempo. Leve os tijolos.

O nariz de Nooze endurece de raiva.

Comparada com a viagem a Las Vegas (***), a viagem até a cidade de Newtownards, cidade da Irlanda do Norte, foi calma. O até agora misterioso mantenedor financeiro do X-Cluded fez questão de fretar um jatinho particular até a tal cidade, onde mora, para facilitar as coisas. Mas nada é calmo o suficiente para estes mutantes. Coisas como bebedeiras, cantorias, arremessos telecinéticos de pratos e peças do banheiro, sujeira, e até divertidíssimos pedaços de frango assado sendo jogados pra fora do avião usando pára-quedas, se tornaram corriqueiras. Coincidência ou não, Mentor acaba sempre ficando com dor de cabeça nestes momentos. E ele não exclui a hipótese de ter ganho uma ou duas doenças gástricas novas devido a todo esse stress. Ou, pelo menos, são as desculpas que ele usa para pedir aos X-Cluded pararem com a bagunça.

Independente disso tudo, a equipe consegue chegar sã e salva a Newtownards. O jatinho desce num aeroporto, e dali os mutantes são levados por homens engravatados para um helicóptero, que segue até uma mansão gigantesca — que faz a mansão dos X-Cluded parecer um flat de quinta categoria. O helicóptero, como era de se esperar, aterrissa no heliporto da enorme mansão, que fica na cobertura desta. Esperando os X-Cluded estão um gordo semi-calvo vestindo roupas pretas elegantíssimas e, ao seu lado, um senhor ainda mais velho, magro e alto.

Texano é o primeiro dos X-Cluded a descer do veículo, carregando algumas malas. E logo faz questão de pô-las na mão do homem gordo e bigodudo.

— Aí estão as malas, Jarbas. Agora me dê licença, tenho que falar com o dono disso aqui. — diz Billy Puzo, arrogante, passando direto pelo heliporto e seguindo até as escadas deste.

— Acho que há algo errado aqui. — diz o homem.

— Há mesmo! — diz Nooze, descendo do helicóptero e entregando mais uma mala ao gordo — Onde está a grande festa para a nossa chegada?

— Ahn, desculpem-me, mas...

— Você está desculpado, Jarbas. Mas que isso nunca mais se repita. Pegue esta nota para que isso não aconteça mais. — diz Gozma, pondo uma outra mala e uma nota de dez dólares na mão do homem vestido de preto.

— Hã...

— Ei, tio! Essa casa grandona tem parque de diversões? Eu quero ir na roda gigante! — diz Kate ao gordo de bigode loiro, e colocando uma pochete sobre seu ombro.

— Ei, esperem aí! — diz Mentor — Onde vocês pensam que vão?

— Encontrar o chefão, o dono da casa. — diz Texano, prestes a descer a escadaria.

— Pois eu lhes apresento Thomas Wirtschaften, o dono da casa e patrocinador do X-Cluded. — Mentor põe a mão no ombro do homem gordo.

Todos os X-Cluded se entreolham por alguns segundos, envergonhados e surpresos.

— Boa tarde, X-Cluded. — diz Thomas.

— Hã, foi mal aí... — desculpa-se Gozma. Se sua pele não fosse verde, ele ficaria vermelho agora.

— Sem problemas...

— Ué, ele é o chefe? Então por que é que ele tá vestido de bola 8? — pergunta Kate.

— Hahahaha, boa! — comenta Texano.

— Hm, você deve ser a Kate, não é? — pergunta Thomas, aproximando-se da pequena e se abaixando em seguida — Eu me visto assim por que gosto. Essa roupa preta me faz parecer mais magro, não acha?

— Não.

— Ah. Pegue este pirulito. — Thomas ergue-se com um sorriso amarelo após entregar o doce à jovem — Adoro a sinceridade das crianças. Você, de chapéu de vaqueiro. Você deve ser o Texano, estou certo?

— Sim. Se eu disser que você é gordo que nem uma baleia, ganho um pirulito também?

— De modo algum. — o careca segue seu caminho de apresentação aos X-Cluded e chega até Gozma — Hm, você pelo visto é o Gozma, não?

— Isso aí.

— Ceeerto. Por último, Nooze, é isso?

— Exatamente. — responde Eric — Você tem internet de alta velocidade aqui, não tem?

— Claro. Mais rápida que a da mansão onde vocês moram.

— Hm. Tô começando a gostar dessa viagem...

— Que bom. Bem, que tal descermos e darmos uma descansada na mansão? Ah, mas se preferirem, podemos ir para lá! — Thomas aponta para o horizonte, ao norte, onde vê-se um pequeno prédio.

— Um motel?! — estranha Gozma.

— Ah, não, desculpem-me. Eu queria dizer para irmos para lá! — ele aponta para o horizonte novamente, mas para o lado oposto. Agora, pode-se ver grandes construções cinza, um lugar gigantesco — A cervejaria!

— Cervejaria? Uhu! É aí mesmo que nós vamos! — empolga-se Texano.

— Peraí, cervejaria? Quer dizer, você é o Thomas Wirtschaften, da Wirtschaften Beers?! — pergunta Nooze.

— Exatamente! "A melhor cerveja da Irlanda"!

— Hah! Eu sabia que conhecia esse nome! Então somos patrocinados por um dos maiores empresários da área de bebida alcoólica do mundo! — diz Eric Bernard — Isso explica duas mansões e viagens de jatinho particular.

— Sem dúvida. Muito bem, vamos todos para a cervejaria, então? Vou chamar o carrinho.

— Ah, eu não pretendo ir, Thomas. Vou ficar aqui na mansão para descansar da viagem. — diz Mentor.

— Hã, eu também. Quero dormir um pouco...

— Ah, deixa disso, Nooze! Olha só, cerveja de graça, está entendendo? — convida Texano — Eu disse "cerveja-de-graça". Isso quer dizer alguma coisa pra você?

— Sim, Billy, mas eu quero conectar... hã, descansar mesmo. É sério.

— Você é quem sabe!

— Jack. — Thomas chama o homem magro que está ao seu lado — Você e mais os dois pilotos, por favor levem as malas pra baixo. E avise que estamos indo à cervejaria.

Thomas, por um telefone celular, pede a alguns empregados trazerem um carrinho para levá-los até a cervejaria. Enquanto isso, outros dois empregados e Jack, o mordomo, levam a bagagem para dentro da mansão, ao mesmo tempo em que os outros X-Cluded descem as escadas para conhecerem o interior da casa. Mas não sem antes ouvirem o comentário do mordomo a um dos pilotos:

— Esses americanos loucos. Só vão tirar a tranqüilidade da mansão, vocês vão ver.

Proféticas palavras...

Escondido num quarto de motel sujo e fedorento, um homem de estilosos óculos escuros está carregando um fuzil calibre .12. Ele o guarda num compartimento montado nas suas costas, como a bainha de uma espada. Em seguida, começa a pôr balas nas suas pistolas, que estão sobre a cama do quarto. Imediatamente, começa a pensar o que poderia fazer nesta cama com as garotas que vai contratar quando ganhar a recompensa por matar os tais americanos do X-Cluded como pediu seu contratante. E abre um sorriso malicioso...

Cervejaria Wirtschaften, uma hora e cinco minutos depois da chegada dos X-Cluded

Os olhos de Billy Puzo brilham enquanto ele passa pela cervejaria. Nunca tinha estado em uma antes e esse era um dos seus sonhos, boêmio que é (um dos outros era bater o recorde de lançamentos de pêssegos em sua cidade natal, o que ele espera fazer um dia). Ao lado do dono da cervejaria, e junto de seus colegas de equipe Gozma e Kate, ele caminha lentamente, sem nem pensar em usar seu poder de supervelocidade. Quer mais é ficar apreciando a cerveja sendo produzida, a cerveja sendo engarrafada, a cerveja...

— ... então, o meu pai resolveu vir da Alemanha aqui pra Irlanda do Norte, onde ele fundou a cervejaria. Agora eu sou o dono dela. — diz Thomas, prosseguindo uma conversa que já se iniciara há um bom tempo.

— Legal. E, então, — diz Gozma — como foi que você resolveu patrocinar o X-Cluded?

— Bem, na verdade, é uma questão de honra. Eu devia isso pro Mentor, já nos conhecemos há muito tempo. Ele salvou a minha vida. E, além disso, eu também sou um mutante, então eu concordo com a causa do Mentor.

— Que causa?

— A... hã... a causa... mutante. Isso.

— Ah.

Kate começa a puxar a jaqueta de Gozma.

— Que foi, Kate?

— Não tem nada pra fazer aqui!

— Então pega esse outro pirulito. — diz Thomas, estendendo o doce até Kate, que o agarra apressadamente — Pronto.

— Qual o teu poder, Thomas? — pergunta Texano, já apressado em beber mais um pouco da cerveja irlandesa.

— Telepatia. Pode ser muito divertido, se você quiser! — Wirtschaften dispara uma altíssima gargalhada após dizer isto, que assusta os X-Cluded — Por falar em diversão, vamos indo experimentar mais um pouco da cerveja Wirtschaften — agora a versão cerveja preta!

— Oh, Thomas! — diz Billy Puzo, com um largo sorriso, logo após abraçar o obeso patrocinador da equipe da qual ele faz parte — Você é o financiador perfeito, sabia?

Hahaha! Tudo bem, Texano, tudo bem... — diz Thomas, que em seguida murmura: — Agora largue o meu pescoço. Rápido. — o pedido é atendido com urgência.

Mansão Wirtschaften, dez minutos para a meia-noite

Nooze se diverte sozinho em seu quarto. Sua mão não pára, os movimentos se repetem com freqüência. Ele sente um prazer indescritível — chega até a usar seu nariz deformado para ajudá-lo nessa árdua, mas relaxante tarefa.

Como já se supunha, não pretendia ficar na mansão para descansar ou dormir. Mas, sim, para usufruir de um computador e uma internet pelo menos duzentas vezes mais rápida que a que ele costuma usar na mansão X-Cluded em São Francisco. E ele se delicia. Baixa programas, músicas, abre dezenas de sites ao mesmo tempo, assiste a vários trailers de filmes que estão por vir...

Mas ele não tem idéia do que acabou de entrar no quintal da mansão. Algo que matou três seguranças e dois cães de guarda, apenas com um tiro na cabeça de cada um. E está subindo uma árvore sem muita dificuldade para poder ver Nooze pela janela do quarto. E acaba de armar seu rifle. O tiro precisa ser certeiro. Na cabeça descabelada do mutante. O homem de jaqueta de couro tira de um bolso uma bala e, como que tentando sentí-la, dá leves lambidas nela.

"Perfeita. Doce como a morte." — ele pensa. Põe a arma no rifle e começa a mirar a arma na cabeça do jovem nerd que está no computador.

Que, por sua vez, ainda está baixando programas, músicas, abrindo dezenas de sites, assistindo a vários trailers... o que faz com que o computador trave, o que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Num acesso de raiva, Nooze chuta o computador. E nesse exato momento uma bala atravessa a janela e acerta o monitor, fazendo Eric levar um susto. Mais dois tiros, na direção dele, que com sorte consegue saltar para fora da visão que o atirador tinha pela janela. O atirador trata de descer a árvore e resolve entrar na mansão.

Eric Bernard respira rapidamente. Seu coração palpita, sua adrenalina sobe.

— Calma, Eric, calma... foi só um tirinho... oh, cara! Só um tirinho? Eu tô começando a ficar mal acostumado! Mentor! Sim, o Mentor pode me ajudar! Mentor! — grita ele, correndo desesperado até a porta e chegando no corredor.

O atirador entra na casa derrubando uma porta. Quando dois seguranças surgem, ele os derrota com um tiro de fuzil em cada. E está subindo as escadas, sem fazer questão de que seja feito silêncio.

Mentor! Mentor! — grita Nooze, enquanto bate na porta do quarto onde está o dito cujo. O velho aparece à porta, com seu cabelo completamente desarrumado, um pijama de bolas vermelhas e pantufas com pompom.

— O que foi, Nooze? Caiu a conexão? — pergunta Mentor, num raro momento de sarcasmo ocasionado por uma certa raiva típica de quem é acordado de um belo sonho.

— Não! — Eric observa a roupa de seu líder — Que pijama é esse?

— Você me acordou só pra falar do meu pijama? Com licença!

— Não foi isso!

O homem com o fuzil sobe as escadas lentamente, enquanto recarrega sua arma e se prepara para tirar mais uma ou duas vidas.

— Então o que foi? Pra você me acordar a essa hora...

— "A essa hora"? Qualé, não é nem meia-noite ainda.

— Não interessa o maldito horário! Espero que seja um caso de vida ou morte!

Nooze olha sério para Mentor, em silêncio.

— Oh, céus. O que aconteceu?

Um tiro acerta o teto do segundo andar, logo acima da porta do quarto de Mentor, o que o faz ficar assustado e trancar a porta.

— Não, Mentor! — berra Nooze, batendo na porta desesperadamente — Deixa eu entrar, droga! Abre isso! Humpf, filho da... — a porta abre-se um pouco. De dentro do quarto, Mentor entrega um jarro a Nooze e fecha a porta rapidamente em seguida.

— Proteja-se. — diz a voz vinda do cômodo.

— Seu velho sacana! — diz Eric Bernards, nervoso, mostrando o jarro para a porta imóvel — O que você espera que eu faça com uma porcaria de um jarro de vidro?!

Outro tiro, que destroça o jarro completamente. Nooze finalmente encontra o atirador: um homem alto, com a barba por fazer, usando calças cinzas, óculos escuros (mesmo à noite), jaqueta de couro preta, empunhando um fuzil para sua cabeça. O nerd sai correndo até o fim do corredor, acaba tropeçando e ficando à mercê do homem relativamente ameaçador. O cano do fuzil encosta na cabeça de Eric, enquanto o suor do nervosismo escorre pela mesma.

— Talvez haja computadores no céu. — diz o homem, com sotaque irlandês.

— Ei! Mas o quê...?! — diz uma voz vinda da escada.

A voz é de Thomas Wirtschaften, que acaba de chegar à mansão, ao lado de Texano, Gozma e Kate...


:: Notas do Autor

(*) Referência ao nome original do filme Dez Minutos Para Morrer, estrelado por Charles Bronson, in memorian. voltar ao texto

(**) Na edição anterior. voltar ao texto

(***) Em X-Cluded # 02. voltar ao texto





 
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