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X-Cluded # 10

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

Doze minutos depois do ocorrido, Nooze e Papila voltam à Praça Vermelha com sacolas cheias de coisas. Perdido, Eric Bernard pergunta para o nada:

— Putz, cadê todo mundo? — e o nada, como costuma fazer nesse tipo de situação, não dá resposta alguma.

Back in the USSR

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Algum lugar em Moscou

Ele põe seus óculos redondos. Enche seu revólver de balas. E cantarola:

When I get to the bottom I go back to the top of the slide...

Põe a arma num coldre escondido dentro do paletó.

When I stop, and I turn, and I go for a ride, 'till I get to the bottom and I see you again…

Guarda mais alguns de seus equipamentos na caixa específica e põe esta nas costas. Vai embora ainda assoviando "Helter Skelter", dos Beatles.

Praça Vermelha

— Filhos da mãe! Sabia que aquele tal de Mentor não era confiável. — queixa-se Papila.

— Calma, calma. Deve haver alguma explicação lógica. — tenta apartar Eric Bernard, o Nooze. Olha para Papila — Ou não... talvez eles tenham sido tragados para alguma dimensão perdida além do tempo e do espaço.

— Ah, cala a boca, nariz.

— Pela última vez, eu não sou "nariz"!

Papila põe no chão as duas sacolas que carregava. Tanto as dele quanto as de Nooze estão lotadas de souvenires russos: dezenas de litros de vodka das mais variadas marcas, alguns litros de vodka com limão, e um litro de vodka com suco de laranja e energético de soja que Papila comprou para experimentar. E há algumas outras coisas que ambos acharam que seria interessante comprar: mapas, guias, pequenas estátuas de metal que pareciam bonitinhas à primeira vista (*), duas revistas, um jornal, uma camisa que tinha um desenho que Nooze achara interessante, e duas garrafas de vodka em miniatura.

O mutante irlandês olha à sua volta, sem ter para onde ir.

— Putz, e agora? — questiona-se Papila.

— Não sei. Não sei mesmo.

Eles param por alguns segundos em silêncio e pensam.

— Que tal voltarmos pra beber naquele bar?

— Boa idéia. — responde prontamente Liam Kavanagh, já pegando suas sacolas novamente — Vamos nessa.

Os dois vão saindo da Praça Vermelha, carregando seus enormes pacotes de bugigangas. Uma das sacolas de Nooze é acertada por um tiro.

— Ei! Acertaram uma vodka! — exclama ele.

Eric larga as suas sacolas e empunha sua pistola preferida (na verdade a única que possui). Já Liam larga os excessos e pega suas duas armas, tirando-as de dentro da sua jaqueta de X-Cluded. A diferença entre a experiência com armas de cada um é gritante.

De uma ruela mais afastada eles vêem chegar um vulto com uma caixa de guitarra enorme nas costas. Ele canta, sozinho, com a mão esquerda no bolso e um andar despreocupado:

I'm back in the U.S.S.R... You don't know how lucky you are, boy…

Os dois finalmente conseguem ver a roupa com a qual o tal vulto está trajado, mas pensam que talvez fosse melhor que continuassem vendo apenas o vulto dele. Ele veste terno e calça social azuis, do início dos anos 70, óculos redondos e cabelos até os ombros. Depois de analisar a figura após alguns segundos, Papila pergunta, quase revoltado:

— Quem... quem diabos é você?

O homem sorri. Põe a caixa em forma de guitarra no chão e se apóia nela.

Eu digo olá. Pode me chamar de... Helter Skelter, assassino profissional.

— Ah, não. Beatlemaníacos não. — reclama Nooze — Era só o que me faltava.

— Nada no mundo é pior que um fanático. Qual é a tua, Skelter?

— A minha? Ah, só um trabalho de um dia. Fui contratado pra matar vocês.

— Putz, outro? Esse cara que a gente tá procurando não parece muito criativo. — comenta Nooze.

— O problema não é meu. Meu problema é tapar o buraco das bocas de vocês com balas. — Helter Skelter ergue seu revólver na altura do rosto.

Papila começa a observar Skelter. Tenta perceber se ele tem alguma arma escondida, algum trejeito, alguma coisa que demonstre uma falha como assassino profissional. E acha que vai encontrar.

— Bom, então, se me dão licença. — Helter Skelter aponta a arma para Nooze — Eu não tenho oito dias na semana.

Ele atira. Muito pouco tempo antes disso, Liam dá um chute em Nooze, o que acaba fazendo com que a bala não acerte o mutante narigudo. Rapidamente, cai no chão e rola, já atirando. Helter Skelter é obrigado a correr para fugir dos tiros.

— Seu maluco! — berra Eric Bernard — Precisava me chutar?

— Sim! Ele ia te acertar!

— Mas com tanta força?

— Cala a boca! Corre pra cá!

Ambos os X-Cluded correm até um beco próximo. Enquanto alguns chamariam isso de "retirar-se para reavaliação da situação e planejamento de nova estratégia", outros simplesmente diriam que é o caso de "fugir desesperados". Os dois encostam-se a uma parede.

— Putz, o pior vai ser agüentar esse cara fazendo citações de músicas dos Beatles o tempo inteiro. — comenta Nooze, enquanto seu nariz fica mole de nervosismo.

— Sei não. — diz Liam, em um daqueles comentários que demonstram o quanto uma pessoa está completamente desinteressada no assunto da frase dita antes — Cadê a tua arma?

— Oh, meu Deus! — diz Eric, com uma expressão de extremo horror.

— Vai dizer que tu esqueceu ela, seu idiota?

— Não, a minha arma tá aqui. É que nós esquecemos as nossas vodkas lá no meio da Praça! — ele aponta.

Oh, meu Deus! — diz Liam, com uma expressão de extremo horror.

As sacolas com bugigangas estão mais ou menos na metade do longo espaço que separa os dois mutantes de Helter Skelter. Papila analisa a situação.

— Eu vou lá pegar.

— É perigoso, Papila.

— Deixa de ser medroso. Vou tentar pegar pelo menos uma. Se eu conseguir catar uma, tu pega a outra, fechado?

— Olha, na minha opinião...

— Ótimo.

Enquanto deixa Nooze falando sozinho, Papila põe um novo cartucho de balas em uma de suas pistolas e sai do beco, andando cada vez mais rápido na direção das sacolas.

Ele estranha ao conseguir chegar até elas com certa facilidade. Olhando para os lados cautelosamente, pega uma das sacolas com a mão esquerda.

Ei, buldogue! — diz Helter Skelter, surgindo das sombras e atirando com seu revólver na direção de Papila.

O X-Cluded corre para o outro lado, conseguindo não ser acertado pelas balas de Skelter e atirando meio que às cegas para as sombras, meio que tentando se proteger com a sacola, meio que correndo de lado, e quase que meio que pensando em tentar não tropeçar. Apesar dessa confusão física, Papila olha para a sacola e nota que tudo que está dentro dela está a salvo, exceto por uma garrafa de vodka quebrada.

"Você vai pagar por isso, bastardo!" — pensa ele, com os dentes cerrados e os olhos furiosos.

Esconde-se atrás de um pilar e tenta ver o beco onde Nooze está, mas não consegue enxergar seu colega de equipe. Por um rápido momento, vê a cabeça de Eric olhar pra fora do beco e depois se esconder de novo. Liam pensa alguns insultos para Nooze, esperando ele atravessar a praça, pegar a sacola, atirar em Helter Skelter e correr pro abraço.

Eric Bernard senta-se sobre seus calcanhares, sob o breu do beco.

— Tá. — murmura para si mesmo — Agora eu vou.

Ele não move um músculo.

— OK, OK. Então lá vou eu.

Ele arrisca se levantar, mas volta aos calcanhares logo em seguida. Olha para o nada, tentando se concentrar, depois fecha os olhos. Os abre novamente, pensando em coisas como "o que o Justiceiro faria num momento desses?", "ah, se eu tivesse uma uzi aqui agora" e "aquela garçonete do bar até que era bonitinha", mas desse último pensamento em especial ele quer se distanciar para focar-se na missão.

Quase que num espasmo, ele se levanta.

— Então tá! Prepare-se, Helter Skelter!

E Nooze prossegue sem se mexer. De repente, uma aparição na entrada do beco o faz erguer sua arma.

Ah! N-não se mexa! Eu tenho uma arma e sei como usá-la.

— Sabe nada, nariz. — diz Papila, aproximando-se com as mãos erguidas — Qualé? Tô te esperando lá faz quase dez minutos mas tu não sai desse beco nunca.

— Hã, eu tava, procurando as balas que caíram da minha pistola. Cadê o Helter Skelter?

— Sei lá, o cara simplesmente sumiu. Mas tenho a impressão que ele sabe onde a gente tá e vai voltar a qualquer momento.

Ambos vão saindo do beco, carregando as já recuperadas sacolas.

— E o que te faz pensar nisso? — pergunta Nooze.

Uma luz forte aparece à direita deles. Junto dela, uma música altíssima, mais exatamente "Drive My Car", dos Beatles. E junto disso tudo, um Aston Martin DB5 dirigido por Helter Skelter que, enlouquecido, está quase saindo pela janela enquanto dirige, cantando junto com a música:

Baby you can drive my car! Yes I'm gonna be a star! — ele tira seu revólver do bolso e começa a atirar na direção dos X-Cluded.

Estes, por sua vez, correm fugindo tanto do carro quanto dos tiros, cada um indo para um lado da Praça Vermelha. Helter Skelter passa com o carro próximo de Nooze, que consegue desviar num inacreditável salto que ele nunca achou que fosse capaz de dar.

Baby you can drive my car! And baby I love you! — berram juntos o som do carro e Helter Skelter. Ele dá um cavalo de pau com o carro — Beep beep'm, beep beep yeah!

Papila e Nooze estão um de frente para o outro, mas em lados opostos da Praça Vermelha e com certa distância. Papila nota que Helter Skelter passará com o carro no meio deles e acena para seu colega de equipe, tentando chamar atenção.

— Vamos... atirar... juntos! — diz Liam, articulando bem as palavras para que Nooze possa entendê-las.

— O quê?

— Atirar! Juntos!

— Pelos fundos?

— Juntos! Atirar juntos! — berra Papila, apontando para sua arma — Nós dois!

— Não! É melhor atirarmos juntos!

— O quê?

Um tiro passa raspando pela cabeça de Eric. É quando ele se dá conta de que o carro está se aproximando velozmente e resolve atirar como um desesperado. Papila tem uma idéia que vai pelo mesmo caminho e os dois começam a atirar juntos em Helter Skelter. O assassino se abaixa dentro do carro, conseguindo se salvar dos tiros, mas não sem perder o controle do veículo — o que resulta numa batida envolvendo um pilar. A música vai ficando mais lenta até que pára.

Os X-Cluded aproveitam o momento para respirar. Lentamente, se dirigem até o carro batido, analisam a situação e chegam à conclusão de que Helter Skelter foi morto pela própria burrice, obviamente com uma pequena ajuda de um Aston Martin DB5 tipicamente anos 60 e um pilar de cimento.

Eles dão as costas para o carro e seguem andando; Papila jogando fora um cartucho de sua arma de fogo, Nooze tentando fazer suas pernas pararem de tremer, uma vez que nunca sentiu a morte tão perto dele como há momentos atrás, nem em outras situações com os X-Cluded. Ele pensa que se, no futuro, vier a escrever um livro de memórias, provavelmente escreveria sobre como sentiu o bafo da morte em seu cangote e teve a impressão de ter visto seu reflexo numa lâmina de metal perigosamente afiada a vinte centímetros de sua cabeça, e também escreveria algo sobre pijamas amarelos.

"Isso, pijamas amarelos." — pensa ele — "É bom anotar isso."

A título de curiosidade, Papila não escreveria sobre nada.

Mas uma voz atrapalha os pensamentos de ambos, dizendo:

Todo mundo tem algo pra esconder...

Os dois olham para trás e se deparam com Helter Skelter abrindo um case de guitarra e tirando dele uma metralhadora.

...exceto eu e meu macaco!

Num reflexo, ambos saem correndo, mas Skelter consegue acertar Liam, que é derrubado. Em seguida, acerta a perna esquerda de Nooze, que acaba rolando e caindo no chão, se separando de sua arma. Enquanto ele se arrasta no chão tentando se aproximar dela, seu adversário beatlemaníaco chega até ele e põe o pé em seu peito, apontando a metralhadora para a cara dele.

— Parece que esse é o fim, amigo. — diz Helter Skelter.

Eric Bernard começa a pensar desesperadamente em algo. Qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — que sirva para salvar sua vida. Dezenas de idéias vêm à sua mente em menos de um segundo, até que no segundo seguinte, a primeira que lhe vem é o interessante o suficiente para que ele a use. E ele a usa:

Imagine all the people... living life in peace… — ele canta.

Helter Skelter pára por um momento, atordoado com o golpe estilo "feitiço contra o feiticeiro" que acaba de levar, e abaixa sua metralhadora.

Ele olha para Nooze, mas com um olhar que dá a impressão de que na verdade ele não está olhando para Nooze. Um olhar vazio, quase aterrorizado, de alguém que se dá conta de uma surpresa com a qual definitivamente não contava. Eric Bernard se vê obrigado a olhar de volta, nervoso, sem saber direito o que fazer. Ambos ficam desse jeito por alguns segundos.

Até quando Helter Skelter aponta novamente a metralhadora para o rosto de Nooze.

— Essa música é do John Lennon em carreira solo, não dos Beatles. — diz o assassino, novamente com a expressão compenetrada digna de alguém com tal profissão.

— Não dá pra dar uma chance? — implora Nooze.

Nesse momento, Skelter sente algo tocando sua cabeça. Olha para o lado vagarosamente e vê a arma de Papila a cinco centímetros de seus olhos e o braço esquerdo dele sangrando.

Rebole e grite, babaca. — diz o X-Cluded.

Helter Skelter sorri e, lentamente, põe sua metralhadora no chão.

— OK. — diz ele — Eu sei quando posso morrer. Não vou me arriscar desse jeito só por causa uma missão dessas.

Ele se levanta também vagarosamente, mas Papila não deixa de apontar sua pistola para ele.

— Por falar nisso, quem te pagou pra matar a gente? — pergunta Nooze, erguendo-se ainda tremendo.

Sem muita coisa a perder, Skelter responde à pergunta do X-Cluded.

— Quem é esse? — pergunta novamente Nooze.

— Acho que eu já ouvi falar nele. — responde Papila — É um gângster de segunda.

— Exatamente. Bom, se me permitem, posso ir embora? — arrisca Helter Skelter.

— Não sem antes deixar todo o teu equipamento aqui na minha frente. — diz Papila.

Helter Skelter faz o que o irlandês pede e vai embora, do mesmo modo que chegou, misteriosamente, cantarolando despreocupado:

Happiness... is a warm gun...

Os dois X-Cluded observam-no ir embora por alguns minutos, até que Papila quebra o silêncio:

— Pega uma vodka aí, vai ser bom pra anestesiar esses ferimentos. Ah, e me lembre de dar um soco no Mentor por ele ter esquecido a gente aqui.


Na próxima edição: o nem um pouco aguardado confronto final com o misterioso vilão! E ainda: como ficar rico e famoso em três lições práticas.


:: Notas do Autor

(*) E só à primeira vista. São do tipo que o comprador, um ano depois, vai pensar "o que diabos eu tinha na cabeça quando comprei essa tranqueira?", e vai dar um jeito de vender ou dar de presente para alguém no Natal. voltar ao texto





 
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