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X-Cluded # 12

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

You got a reaction... you got a reaction didn't you? — Gozma cantarola a música do White Stripes enquanto a ouve em seu discman e leva um pote de maionese da cozinha para o jardim da mansão X-Cluded. Não é um pote de maionese qualquer: é um pode de maionese cujo conteúdo não é o tradicional molho, mas as cinzas de Mark Rogers, o falecido mutante que durante pouco tempo fora chamado de Aviador.

São tempos calmos na mansão em São Francisco. Na verdade, são tempos tediosos (raramente ocorrem coisas diferentes, como quando Papila resolveu brincar de tiro ao alvo com os livros da biblioteca de Mentor, ou quando os X-Cluded resolveram jogar baseball dentro da mansão e... enfim).

Tempos tediosos que andam ocorrendo desde que a equipe derrotou Sanguessuga (*), resolvendo assim boa parte de seus problemas. Um dos últimos problemas provenientes disso era o altar feito para o Aviador nunca ter sido terminado — e hoje este problema acaba de ser resolvido. Numa daquelas idéias que surgem de uma tarde de tédio extremo, Texano e Papila resolveram de uma vez por todas montar o altar e (por que não?) honrar o nome de Aviador.

Todos os X-Cluded estão reunidos diante do altar, esperando Gozma chegar. Quando ele chega, entrega o pote com as cinzas para Mentor. Este, solenemente, abre a portinhola de vidro do altar e põe o pote dentro dele, fechando a portinha em seguida. Depois, se afasta e junta as mãos.

— Ficou bonito o altar. — comenta a pequena Kate.

— Pois é. — concorda Mentor — Agora vamos fazer uma ora...

O altar se despedaça diante deles, fazendo subir alguma poeira. Os X-Cluded continuam a olhar pra ele ainda assim.

Três horas depois

Texano e Papila conseguem consertar o erro e fazer o altar novamente. Mentor, receoso, põe novamente o pote com as cinzas dentro do altar, agora com mais cuidado. Ele junta as mãos novamente.

— Agora, sim. Vamos fazer uma oração...

— Oração nada. — diz Papila — Cansei disso. Vou ali beber uma cerva.

— Boa idéia. — diz Texano. Tanto ele quanto os outros X-Cluded concordam e o seguem.

— Kate! — exclama Mentor — Até você?

— Ai, eu tô com fome... — diz Kate.

— Ah. — Mentor respira fundo — Tudo bem. Eu posso fazer a cerimônia sozinho.

O suposto líder da equipe de mutantes observa o altar. De repente, começa a sentir uma certa vergonha de ficar ali sozinho.

Segundos depois de tentar iniciar sua oração, desiste e vai pra casa comer alguma coisa. Mas algo dentro dele diz que as coisas vão mudar a partir daquele momento. Só não sabe dizer se é pra pior ou pra melhor.

— Mentor, cadê a tinta verde? Eu quero pintar meu quarto de novo. — grita Nooze.

— Ali na garagem, mas acho que está no fim. — responde Mentor.

Agora, mais do que nunca, ele sente que as coisas vão mudar.

O Devorador de Todas as Coisas
Prelúdio

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O táxi estaciona a algumas dezenas de metros da mansão. O passageiro, com sua enorme cabeça, começa a analisar o local e, de algum modo, chega à conclusão de que todos os seus alvos estão lá. Um tanto estressado, o motorista pergunta se o homem vai descer ou vai continuar só olhando. O homem pede desculpas, paga ao motorista e desce do carro, que em seguida sai cantando pneus.

"Turistas mutantes..." — pensa o taxista.

O homem cabeçudo se aproxima da grande casa, e de dentro de uma sacola de supermercado tira uma banana de dinamite. Com seu rosto que mais parece o de um morcego, ele abre um sorriso. Em seguida, acende um isqueiro.

— Senti gosto de fogo no ar. — diz Papila, estarrado no sofá da sala, vendo televisão.

— Deve ser o Mentor assando alguma coisa. — responde Gozma, literalmente esparramado no chão da sala, preguiçosamente — Da última vez que ele tentou assar frango a gente teve que pedir uma pizza.

Alguns segundos de silêncio se passam.

— Muito boa essa propaganda. — comenta Nooze — Bem pensada.

— É verdade. — concorda Gozma.

— Alguém jogou alguma coisa pra dentro do jardim. — diz Papila, sem tirar os olhos da TV.

— Deve ser o jornaleiro. — diz a meleca verde — Kate, vai lá pegar o jornal, por favor?

— Não.

E o som da sala some novamente.

— Essa propaganda é uma porcaria. — diz Nooze, seu nariz batendo no queixo.

— É mesmo. Kate, por favor, dá pra ir lá pegar o...

KAPOWW!!!

Novo momento de silêncio, daqueles que surgem depois de um susto generalizado.

— Por Deus, o que foi isso?! — um assustado Mentor vai até a sala da TV e olha pela janela.

Há muita fumaça no jardim, e os X-Cluded saem todos da sala para o local para ver o que é. Texano vem da cozinha, comendo um salame.

Do meio da fumaça, pelo buraco feito no muro da mansão, surge um homem vestindo camiseta sem mangas, bermuda e chinelo. Ele também tem uma cabeça enorme.

— Hã... pois não? — diz Gozma.

— Olá, X-Cluded! Caso vocês não me conheçam, eu me apresento... eu sou o Verme Mental! — ele ergue os braços quando diz isso.

Os mutantes olham para ele sem sentirem-se muito ameaçados.

— Quer salame? — oferece Texano.

— Não! Eu vim aqui pra acabar com vocês, mutantes! Hahahaha, eu vou me tornar o mais poderoso vilão vivo novamente!

— E desde quando você já foi isso? — questiona Nooze.

— Cale a boca! — grita o vilão.

Verme Mental tira outra banana de dinamite da sacola, rapidamente a acende e joga na direção dos X-Cluded. Estes, prontamente saem correndo do foco da explosão como loucos e se escondendo onde lhes convêm.

Os chinelos do Verme Mental passeiam pelo jardim lentamente, enquanto ele observa os locais onde os X-Cluded podem ter se escondido.

— Vocês devem estar se perguntando... "mas de onde ele descobriu a gente e por que está aqui nos atacando?" — diz o homem da grande cabeça, sorrindo de modo maligno — Bem, eu me mudei há alguns meses para São Francisco, a vida estava um tanto difícil em Nova York, então resolvi mudar totalmente. Foi quando eu li o nome de vocês num tablóide qualquer, algo sobre vocês terem derrotado um chefão do crime junto com uns heróis russos... e nesse momento eu tive uma epifania. Ha!

Ao gritar, ele lança uma nova banana de dinamite, desta vez na direção de uma árvore. Atrás dela estava Papila, que consegue correr com facilidade e fugir da explosão. Verme Mental continua a sorrir.

— Eu nasci pra isso! Eu nunca deveria ter deixado de ser vilão. Ah, maldito Homem-Aranha (**)... ele vai ser o próximo!

Enquanto o perigoso vilão de outrora dá lentos passos pelo jardim, Nooze olha para Papila e Gozma e gira o dedo indicador da mão direita em volta da própria orelha. Os outros dois X-Cluded concordam balançando a cabeça pra cima e para baixo.

— Mas agora... eu vou cuidar de vocês, X-Cluded... começando por você! — ele aponta sua mão esquerda para a cabeça de Texano, que olhava tudo num canto da garagem. Ele arregala os olhos e algo invade sua mente. Mais do que nunca, ele sente que não tem controle sobre o próprio corpo — Ataque seus amigos! — ordena Verme Mental.

Texano corre na direção de seus colegas de equipe e começa a enchê-los de socos sem sentido, que eles conseguem defender com certa facilidade.

— Isso! Hahahaha! — vangloria-se Verme Mental.

Mas ele ouve um clique próximo da sua enorme cabeça. Nem pensa em movê-la por já saber do que se trata.

— Desliga ele, palhaço. — diz Papila, encostando o cano de sua .12 na altura da têmpora do Verme Mental.

— Não é bem assim que funciona, meu caro...

— Desliga ele. Eu não preciso explicar o que eu vou fazer com essa melancia que tu chama de cabeça se tu não desligar.

— Calma... muita calma...

Verme Mental olha para o lado e vê Kate, meio sem saber o que fazer, nervosa. Por um curto momento, ela cruza olhares com Verme Mental e ele aproveita. Kate agora também está dominada, e responde a um mando mental dado pelo seu atual mestre. Ela faz com que Papila saia voando para trás e vá parar no muro.

— Obrigado. Agora, você... — ele se aproxima de Nooze, que está sendo segurado por Texano — Você vai me alimentar. Com suas emoções!

Eric Bernard não entende muito bem, mas fica meio assustado. De algum modo, segundos depois, ele passa a entender e não gosta nada do que pode vir a acontecer com ele.

Quando está quase desmaiando, vê Verme Mental cair em cima dele. Atrás do vilão, vê Mentor, empunhando um taco de beisebol.

— Mas hein? — pergunta-se Texano, voltando a si.

— Você tinha sido dominado pelo Verme Mental. — explica Mentor, ajeitando seus óculos — Pelo visto, quando ele desmaiou, vocês voltaram ao normal.

— Muito conveniente. — comenta Nooze, limpando-se, usando seu nariz para limpar a cara.

— Que que a gente faz com ele agora? — pergunta Papila, aproximando-se lentamente — Jogamos o corpo na lixeira e vendemos a cabeça?

— Podemos interrogá-lo e rir da história da vida dele. — sugere Gozma.

— Não e não. — diz Mentor, respondendo às duas sugestões — Vamos levá-lo pra dentro de casa depois ligamos pra polícia. Gozma, apague o fogo. Nooze, saia de perto dessa dinamite toda.

— É, é, Verme Mental. Eu também não o conhecia, mas fazer o quê? — Mentor fala ao telefone sem fio — Sim, ele invadiu a nossa casa e começou a jogar dinamite por todos os lados, nos ameaçando, e ainda ameaçou o Homem-Aranha. Eu sei que isso não importa...

Enquanto o velho líder anda pela cozinha, Nooze observa o curioso aspecto de Verme Mental, que está desacordado numa cadeira, no mesmo cômodo. Papila passa ao lado dele, comendo um sanduíche.

— Como tem gente bizarra nesse mundo, não é? — comenta ele.

— Sem dúvida. Esse pessoal esquisito, como o Hulk, o Fera, o Batman... por que não são todos normais como nós? — pergunta Nooze, com seu nariz adquirindo certa elasticidade.

Papila olha para Nooze sem saber se encara a frase que ele acabou de dizer como uma piada ou não.

— Sim, nós somos mutantes, algo contra? — Mentor prossegue no telefone — Ah, o filho do seu sobrinho nasceu mutante? E o que eu tenho a ver com isso? Ah, ele tem a pele azul? Bom, muito bom saber, mas o que isso tem... olha, olha aqui, minha senhora...

Liam Kavanagh, o Papila, desiste de pensar na frase de Nooze e vai fazer outro sanduíche. Eric, por sua vez, tem a impressão de ter visto Verme Mental ter um espasmo.

— Não, minha senhora, eu não sei curar mutantes... olha, você poderia passar o telefone pra um delegado ou alguém com um mínimo de autoridade aí dentro? Ah, de folga? Sei.

— Hã, eu tenho a impressão que o Verme Mental tá acordando.

— Só um minuto, Nooze. Não tem nenhum policial, nenhuma viatura aí, alguém que vocês possam trazer? Eu estou com um criminoso em casa! Alô? Alô?! Ah, tudo bem, pode terminar o seu donut.

— Olha, Mentor, eu acho que temos que...

— Depois, Nooze. Então, prossiga, por favor.

Mentor sai da cozinha, em passos largos e nervosos. Nooze é deixado sozinho de novo.

— Pega o patê aí na geladeira pra mim. — pede Papila a Nooze.

O mutante com poder sobre seu nariz levanta-se e abre a geladeira. Sem que ele note, Verme Mental abre os olhos e trata de mover sua visão direto para os olhos de Papila. Este, sem muita reação, olha de volta e, neste momento, inicia-se uma batalha de vontades mentais.

Em outros lugares, combates psíquicos envolvem cenários psicodélicos, corres berrantes e sangue escorrendo pelo nariz. Envolve também seres com grandes poderes telepáticos em momentos que podem decidir o futuro da Terra. E definitivamente este não é o caso aqui. É apenas Verme Mental tentando tomar o controle da mente de Papila, e este resistindo.

Nooze, com o patê na mão, observa a batalha psíquica mais sem graça de todos os tempos.

— Tá aqui o patê. — diz ele, mas Papila continua imóvel, olhando diretamente para os olhos do Verme Mental e suando. Nooze então deixa o patê em cima da mesa e nota que há algo errado — Ei, peraí... mas você acordou!

Ha! — grita Verme Mental — Ele! Atire nele! — diz, apontando para Nooze.

Papila atende ao pedido, mas Nooze consegue se abaixar a tempo e o tiro do fuzil acerta a geladeira.

— Bom, ao que parece eles talvez mandem uns polici... — a frase de Mentor, que acabara de entrar na cozinha, é interrompida quando ele vê Papila apontando sua arma para ele.

— O que vocês fizeram com a dinamite toda? — pergunta Verme Mental.

— Hã, receio que Texano tenha jogado fora como eu pedi.

— Receio que não... — diz Texano, chegando à cozinha junto com Gozma e Kate — Desculpa aí, sabia que tinha alguma coisa pra fazer.

— Hah! — comemora rapidamente o vilão — Venha comigo, irlandês!

Verme Mental sai correndo da cozinha, esbarra em Mentor e segue para o jardim, com Papila em seu encalço.

No local, encontra seu artefato preferido dentre aqueles que trazia na sacola de supermercado.

— Verme Mental... cuidado, isso pode acabar em problemas pra todos nós... — avisa Mentor.

— Ah, cale a boca! — diz ele, com o isqueiro na mão acendendo o pavio de uma bomba formada por seis bananas de dinamite unidas por uma fita adesiva — Hahahah! Quem está no comando agora, hein? Quem?!

Mentor definitivamente não está gostando da situação. Ele está nervoso, mas sente que vai precisar usar seu poder para salvar a todos do desastre iminente.

E sente ao mesmo tempo que Verme Mental acaba de invadir sua mente.

E sente que quando está prestes a acionar mentalmente seu poder, o Verme Mental tenta sugar suas energias.

E sente por um milésimo de segundo que isso pode gerar uma série de problemas.

E sente que os problemas podem aumentar e muito no momento em que Verme Mental lança a bomba na direção de seus X-Cluded.

E sente que precisa salvá-los.

E sente que não sabe como.

E sente mais apreensão do que nunca antes.

E sente o ataque mental do vilão junto com o acionamento de seu poder.

E não sente mais nada.

Verme Mental acorda, não sabe quanto tempo depois de ter desmaiado pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas. A última coisa que lembra é de correr pra fugir da bomba que ele mesmo lançara sobre os X-Cluded. Ele senta no chão e nota que ainda está na mansão X-Cluded. Levanta-se com um pouco de dificuldade e vê Mentor sentado na janela olhando para a destruição causada por sua bomba, com o olhar distante. Vai até ele, lentamente.

— Hã... o que aconteceu, exatamente? — pergunta Verme Mental, com um constrangimento estranho, coçando sua enorme cabeça.

— Exatamente? Você atirou sua bomba insana e tentou invadir minha mente ao mesmo tempo. Depois disso, eu desmaiei.

O Verme Mental pigarreia, e junta as mãos atrás de seu corpo na altura da cintura. Começa a notar a quantidade de caos que a bomba gerou.

— Que coisa, não? — comenta Verme Mental.

— Pois é.

Silêncio por alguns segundos. Há um certo ar de desculpa não dada no ar.

— E os X-Cluded, onde estão?

— A mansão mudou de repente, hein?

— Cala a boca, nariz!

Papila e Nooze brigam, enquanto Gozma, Texano e Kate estão abraçados, tremendo de medo e susto. Eles estão dentro de uma caverna e, fora dela, podem ver algumas dezenas de pterodáctilos voando, alguns tricerátops passeando e uma cabeça de tiranossauro rex tentando comê-los a qualquer custo.


:: Notas do Autor

(*) Na edição anterior. voltar ao texto

(**) O Verme Mental apareceu pela primeira vez na revista do Homem-Aranha, em meados dos anos 70. Nem naquela época ele poderia ser considerado ameaçador. voltar ao texto





 
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