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X-Cluded # 14

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

O Devorador de Todas as Coisas
Parte II

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"O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente."
— Mario Quintana

O que antes parecia o passado distante, agora toma forma de um presente que há pouco tempo era algo imemorial e longínquo, mas agora se torna mais próximo e perigosamente atual.

Em suma: se os X-Cluded já estavam com medo dos dinossauros antes, continuam com medo. Só que o perigo repentinamente se tornou dezenas de homens das cavernas portando tochas e outros apetrechos pouco amigáveis.

— Te-le-fo-ne! — diz Texano, lentamente, para um dos homens — Vocês não conhecem isso? Não pega sinal GSM aqui onde vocês moram?

— Puzo, por favor. — apela Nooze — Acho que o problema aqui não é exatamente "onde", mas "quando".

— Cala a boca, nariz. — diz Papila.

Aahh! Calem a boca vocês todos! — berra Gozma. Todos olham para ele. Ele está com as mãos no que poderia chamar de cabeça, mas sua forma muda o tempo inteiro — Vocês estão loucos! Loucos!

Os X-Cluded se entreolham.

— Acho que o tio Gozma tá com problema. — supõe Kate.

— Um problema sério. — diz Papila, bebendo um gole do seu cantil de uísque — Ele é o problema.

— Ce-lu-lar! — Billy Puzo faz o sinal de um telefone com a mão ao lado da cabeça — Ou então in-ter-net! Eric, explica pra eles!

— Diabo, Puzo. Você ainda não notou que eles não entendem? É uma tribo de homens das cavernas! Eles nunca vão entender o que a gente fala.

Texano olha para ele por alguns segundos, sério. Depois, muda seu olhar para os estranhos homens.

— Fu-ma-ça!

Nooze põe a mão na cara, desistindo. Vira-se e vê Gozma batendo a cabeça na parede da caverna.

Mentor tocou o interfone da grande casa pela terceira vez, e limpou o nariz depois de ter soltado mais um espirro. Estava começando a ficar impaciente, assim como seu amigo Thomas Wirtschaften. A viagem até Salt Lake City, por algum indesejável motivo, foi muito cansativa para ambos, mesmo estando eles num jatinho fretado pelo balofo Thomas — o que deveria lhes garantir segurança, conforto, rapidez e café expresso de qualidade. Mas algo mais estranho os fez prometerem um ao outro que nunca mais falariam sobre o assunto na frente dos outros. Ignorando tudo isso, uma voz inglesa atendeu o interfone:

Pois não?

— Aqui são Mentor e Thomas Wirtschaften, nós havíamos marcado um encontro com...

Ah, sim. Queiram entrar, por favor.

O portão da mansão se abriu, os dois representantes dos X-Cluded andaram pelo grande jardim um tanto apressados. Quando estavam próximos da porta reformada da velha mansão um mordomo gordo, mas com uma postura elegante e séria, lhes abriu e deu as boas-vindas de um jeito bem inglês. Eles agradeceram, entraram, e seguiram o mordomo até uma sala no final de um corredor.

Depois, continuaram a seguí-lo até chegarem numa outra sala. Viraram à direita, encontraram mais um corredor com algumas portas, e entraram na última. Na sala seguinte, finalmente, entraram em uma outra porta. Então desceram uma escada em espiral e entraram por outra porta. No momento em que estavam começando a achar que o mordomo estava tirando sarro deles, o homem abriu uma porta.

— Ela está aqui. — disse ele, mostrando a entrada a eles.

E lá estava ela, no computador, ouvindo música num volume quase ensurdecedor. Uma jovem relativamente bonita e aparentemente simpática, que fez questão de desligar o som ao notar a chegada dos dois senhores.

— Ah, oi, gente! Ficaram cansados? É que eu gosto de vir aqui quando não quero ser atrapalhada. — explicou ela — Vocês devem ser Mentor e Thomas, certo?

— Sim. — disse Mentor — E esperamos que você seja Helen F. Crust.

— Sou eu, sem dúvida. Então, sentem-se, fiquem à vontade.

— Não, obrigado, passamos muito tempo sentados. Gostaríamos de ser diretos.

— Hm, então tudo bem, o que querem comigo? Estão interessados no meu book?

— Não. Na verdade estamos aqui por outra de suas qualidades.

— Hã, eu estou interessado em ver seu book. — disse Thomas. Mentor o olhou sério, mas Helen entregou o objeto a ele tranqüilamente.

— Que qualidades? — perguntou ela, falsamente intrigada.

— Seu poder mutante. O de criar cascas protetoras em voltas de partes de seu corpo.

— Ah, isso. — disse Helen, obviamente decepcionada — O que vocês querem com meus poderes?

— Estamos formando uma nova turma de mutantes para atuar em São Francisco, na nossa mansão. Lá você poderá exercitar seus poderes, ocasionalmente ajudar pessoas, e possivelmente...

— Ótimo ângulo esse, hein. — comentou Thomas. Helen agradeceu.

— Então, Helen? Interessada em nos ajudar?

Quando estavam quase conseguindo comunicar-se com os homens das cavernas, os X-Cluded viram um clarão de luz — dando um grande susto em Gozma — e de repente, o mundo mudou à volta deles. Eles agora se encontram num deserto inacabável, debaixo de um sol inacreditavelmente escaldante e, salvo uma exceção, recebendo chicotadas e tendo que arrastar um carrinho cheio de tijolos enormes. Arrastam o carrinho até a parte já construída de uma enorme pirâmide.

— Alguém pode me dar alguma maldita explica... — a frase de Papila é interrompida por uma chicotada e seguida de um berro.

Apesar das caras de dor dos X-Cluded, um deles está com um sorriso no rosto, estando por um momento um pouco mais calmo. Algo um tanto mais fácil, já que está envolto por pelo menos quatro belíssimas mulheres que lhe dão de comer e beber, além de dois eunucos que lhe abanam e algumas outras pessoas ajoelhadas diante dele. Uma delas parece lhe perguntar alguma coisa.

— Hã... sim! — ele ergue seu dedo verde e aponta para uma das mulheres — Tragam mais dessas! Onde fica meu quarto? Meu quar-to? — a mulher sorri pra ele — Sorrisinho não, quar-to! Já inventaram isso aqui nessa época? — apesar de todo esse prazer, Gozma tem tiques estranhos e espasmos de mudança de forma corporais.

O mutante verde se prepara para pedir mais um favor, quando de repente a atenção de todos ali é voltada pra alguns metros de distância. Mais especificamente, lá embaixo, onde os escravos carregam tijolos. Alguns deles, os únicos que vestem roupas pretas, parecem não muito satisfeitos com sua situação.

— Oh, meu Deus! — exclama Gozma ao vê-los. Um homem esguio com sombra nos olhos se aproxima dele e lhe faz alguma pergunta de forma maliciosa — Não, não. — ele responde, como se entendesse algo — Ei, pessoal! Aqui em cima! — grita, sorrindo, o mutante verde.

Lá embaixo, os vestidos de preto olham para cima. Um deles chama os outros e juntos vão na direção de Gozma, que tem a impressão de ouvir Texano (o primeiro a chegar na frente dele) berrar "Gozma, seu safado!". O sorriso dele some quando tem a impressão de que os outros X-Cluded não estão nem um pouco felizes com a coisa toda. Após alguns segundos, surge um sorriso amarelo na cara verde de George Ekows.

— Então a gente trabalha e tu fica aqui na mordomia? — pergunta Papila. A pequena Kate arrisca pedir calma a seus companheiros, mas é interrompida quando Papila faz um movimento com a mão.

— Eu não tenho culpa! Eles devem me adorar como um deus ou coisa assim. — explica Gozma — Finalmente meu valor está sendo reconhecido.

— Tá bom, pessoal. Vamos com calma. — diz Nooze — Eu, como líder da equipe, digo que a gente tem que ficar juntos e arranjar um jeito de sair daqui. Principalmente agora que tem um monte de guardas querendo matar a gente.

Nooze aponta ao longe. De fato há uma grande quantidade de homens com aparência perigosa se aproximando, mas ninguém olha pra onde ele apontou, continuam olhando para ele em silêncio.

— Como assim, líder da equipe? — pergunta Papila.

— Isso não é hora pra esse tipo de discussão! — diz Nooze.

— Quem te elegeu líder? — pergunta Texano, inquisidor.

— Em momentos de crise, eu sempre fui a escolha óbvia pra liderar. O próprio Mentor me disse isso!

— Ele disse isso pra mim também. — fala Gozma.

— Se eu perguntasse talvez ele me dissesse também. — diz Texano.

— Gente, os homens tão chegando e eu tô com medo. — diz Kate.

— É melhor a gente pensar em fazer alguma coisa. — diz Nooze.

— Pensar não, fazer. — diz Papila.

— A gente pode correr. — diz Texano.

— Pra você é fácil, palhaço. — diz Papila.

— Eles tão chegando. Eu não tô conseguindo ligar meu poder. — diz Kate.

— Calma, pessoal. — diz Nooze.

— Acho que eu tô com fome. — diz Texano.

Aaahhh! — diz Gozma, no exato momento em que uma lança é arremessada na direção deles.

O guarda que arremessou a lança tem a impressão de ter perdido alguma coisa na história, talvez tenha piscado no momento errado. O fato é que um clarão branco surge de onde estavam os X-Cluded e, de repente, eles não estão mais lá — sua lança acertou um pilar. Todos ficam parados e, sem reação, começam a se entreolhar. Subitamente, um dos homens dá um berro, mandando todos de volta ao trabalho.

— Saúde. — disse a mutante.

— Obrigado. — falou Mentor, limpando o nariz com seu lencinho da Mulher-Maravilha.

— Aceitam um café? — perguntou ela.

— Ah, não, obrigado. Chega de café. — respondeu Thomas, com um sorriso.

— Ótimo, só tem café pra mim, mesmo. Já volto.

A moça mutante saiu pulando pelo seu apartamento até a cozinha, com suas pernas longas e peludas, às vezes ajudada por sua longa cauda. Era um apartamento simples e bagunçadamente organizado no centro de Phoenix. Na sala, um computador dividia espaço com a TV, com um som estéreo do início dos anos 90 que obviamente não funcionava mais, com restos de comida e com revistas velhas.

— Não reparem na bagunça. — bradou a jovem, da cozinha — Podem se sentar, por favor!

Mentor e Thomas procuraram por algo, e sentaram naquilo que consideravam ser o mais parecido com cadeiras.

— Então vocês são do X-Cluded, é isso? — berrou ela.

— Sim, sim. — disse Mentor — Gostaríamos muito de ter você na nossa nova equipe, Suzie.

— Por quê?

— Hã, bem... — Mentor olhou para Thomas.

— Acreditamos que a equipe vai precisar de um pouco de... agilidade. — disse Wirtschaften.

— Que bom!

Suzie disse isso entrando na sala, de cabeça pra baixo, pendurada num cano do teto com sua cauda e com uma xícara de café na mão.

— Não sabia que vocês, organizadores de equipes mutantes, se interessavam por lêmures humanóides.

— Nos interessamos por tudo que não costuma interessar outras equipes. — disse Mentor, com um sorriso — O que acha da proposta?

— Interessante. — falou ela, habilmente movendo-se pela particular organização da sala, sem deixar cair a xícara cheia. Sentou-se no armário e olhou para os dois senhores com seu par de olhos grandes, redondos e amarelos — Mas acho que vai ser melhor pra todo mundo se vocês se sentarem nas cadeiras, e não nos meus abajures.

Mentor espirrou novamente e pediu desculpas duplamente.

Aahhh! — berra Gozma — Eu estou ficando cansado disso!

— Cala a boca, verdão! — diz Papila, irritado.

— Gente, brigar não vai adiantar nada. — diz Kate.

— Cala a boca, guria! — diz Texano.

Isso é loucura! — continua gritando Gozma, com um desespero bizarro — Não! Não me levem!

Gozma parece incapaz de manter uma forma definida, mas isso não impede que dois guardas vestindo pesadas armaduras de metal e portando escudos e espadas o levem pra longe de seus colegas. Os quais, por sua vez, estão acuados, cercados por mais uma dezena de guardas pouco amistosos vestindo pesadas armaduras de metal e portando escudos e espadas. Eles parecem ser liderados por um homem, barbudo, que ostenta uma capa vermelha.

— Quem são vocês? Que reino traz tais figuras tão fisicamente débeis? — pergunta o homem, secamente, num inglês quase incompreensível, o que acaba com qualquer probabilidade de ele parecer simpático.

— "Débeis"? — questiona-se Texano.

— Ah! Finalmente alguém que fala a nossa língua! — diz Nooze. A frase é seguida de um grito graças à cutucada de uma espada de um dos guardas, o que acaba também tirando o sorriso que estava no rosto dele.

— Cale a boca. Mas responda às minhas perguntas.

— Vocês não vão acreditar! Haha, é uma grande loucura! Ahh! Pára de me cutucar!

— Explique-se, mancebo!

— "Mancebo"? — pergunta Texano a alguém.

— OK, tudo bem! — diz Nooze — A gente estava na nossa casa, em São Francisco. Porque nós somos mutantes, somos uma equipe chamada X-Cluded. Aí apareceu um tal de Verme Mental, usou uma bomba e explodiu tudo. A gente enfrentou dinossauros, homens das cavernas e fomos parar no Egito... e agora estamos aqui!

O homem de barba e seus guardas olham para Nooze, um tanto perplexos. Os X-Cluded esperam por algo para acontecer, mas só conseguem sentir o suor frio escorrendo pelas testas.

— Isso não faz o menor sentido. Não entendi uma palavra sequer das que você proferiu.

— A gente tá na mesma, então. — diz Texano — "Proferiu"?

— Chega disso. Levem estes seres para o calabouço.

— Calabouço tá aqui, babaca! — Papila grita e chuta um dos guardas com força.

Rapidamente, Kate faz uma árvore por acaso passar voando por ali e levar mais alguns guardas no caminho. Texano sai correndo e vai até Gozma que, quando encontra seu colega, começa a rir histericamente e falar ainda mais coisas sem sentido. Com certo esforço, o mutante caipira dá conta dos dois guardas.

Em seguida, os X-Cluded se reúnem, não tendo conseguido impedir a fuga do homem barbudo, que saiu em seu cavalo aos gritos de "Bruxos! Bruxos! É o fim do mundo!".

— Eu tenho uma teoria. — diz Nooze.

— Azar o teu. — quase interrompe Papila — Alguém precisa explicar isso de uma vez.

Hahahaha! É o tempo, minha gente! É o tempo! — explica Gozma.

— Era o que eu tinha em mente também. — diz Nooze.

Viu só? Nossas mentes estão em sincronia! Huhuhuhu! Olááá, mosquinha!

— O que é que tem o tempo? — pergunta Papila a Nooze.

— Não sei exatamente o quê, mas de algum modo a gente tá viajando pelo tempo e pelo espaço, avançando na história.

— E como a gente pára isso? — pergunta Kate.

— Eu também não sei. Parece que a gente tá de algum modo ligado a alguma vontade superior, que decide pra onde e quando a gente vai.

— Que beleza. — conclui Texano, sentando-se numa pedra.

— Então o negócio é esperar? — pergunta Papila.

— Ou procurar uma solução. Não sei, preciso pensar. — diz Nooze.

— Ah, cala a boca, nariz.

Hello, operator! Can you gimme number nine? Can I see you later? When you'll gimme back my dime? — cantarola Gozma, enquanto salta pela floresta junto com algumas borboletas.

Mentor e Thomas sentaram-se à mesinha de madeira do quiosque. Eram os últimos dois fregueses do republicano Paul, que àquela hora da noite já deveria ter fechado a loja — ele nunca imaginou que alguém caminharia na praia às nove da noite, não numa quarta-feira.

"Devem ser gays." — pensou ele, consigo mesmo — "Só podem ser gays. Acho melhor eu fechar antes que eles comecem a fazer sexo na minha frente, Deus me livre." — pensou isso e preparou o telefone da polícia no celular.

— Tenho dúvidas quanto à vontade do Artur de querer entrar no time. — disse Thomas, depois de tomar um gole de seu drinque paradisíaco. Paul engoliu em seco quando o ouviu dizer isso.

— Nada que a gente não consiga convencer com um pouco de esforço. — sorriu Mentor — Você sabe que pode fazê-lo entrar.

Paul começou a fechar o quiosque rapidamente, sob um leve desespero.

— Sim, posso. — disse Thomas — Mas não gosto de ficar usando minhas capacidades inutilmente. Prefiro usar só quando é realmente necessário, você me conhece. Não vou ficar usando com um novato, assim, sem mais nem menos.

Paul estava fechando as últimas portas quando ouviu isso e viu algo bizarro saindo da água tranqüilamente. Era um monstro que ninguém acreditaria — talvez fosse o tal "Monstro de Cannon Beach" do qual tanto se falava por ali. Talvez fosse qualquer outra coisa, mas foi o bastante para amedrontá-lo e fazê-lo sair correndo.

Thomas e Mentor se aproximaram do tal ser.

— Artur Moore? — perguntou Mentor.

— Sim, sou eu. — respondeu Artur educadamente. Ele não parecia ter olhos direito. Talvez por que seu corpo na verdade era uma grande esponja marinha amarela e roxa de um metro e noventa, envolto apenas por uma bermuda florida.

— Temos um convite a lhe fazer. — disse Thomas.

E Mentor espirrou novamente.


Continua!





 
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