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X-Cluded # 15

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

O Devorador de Todas as Coisas
Parte III

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"Haja hoje para tanto ontem."
— Paulo Leminski

Mentor limpou seus óculos. Colocou-os em seguida, depois de guardar seu lencinho da Mulher-Maravilha. Começou a ler os títulos nas lombadas de vários livros, como se estivesse realmente interessado nisso. Quando chegou na versão russa de Harry Potter e a Câmara Secreta, resolveu parar.

Deu uma volta de 180 graus e deparou-se com os olhares de sua nova equipe e de Thomas Wirtschaften, todos cansados de tanta enrolação.

— Bom, vocês sabem. — tentou começar Mentor. — Vocês estão aqui hoje, então, bem, é isso.

Thomas respirou fundo, passou a mão na cara e olhou para Mentor, que retribuiu o olhar. O homem gordo apontou para o relógio.

— OK, então. O fato é que vocês, novos X-Cluded, têm uma grande vantagem em relação à primeira equipe. Na verdade, há uma desvantagem também.

— Desenvolva. — pediu Suzie, a lêmure antropomórfica.

— A vantagem é que vocês saberão logo de início qual é o meu poder. Trata-se de um controle considerável do tecido do tempo, que só é limitado por minhas capacidades físicas. Não se trata exatamente de um controle, mas de uma leve alteração sem... — Mentor parou quando Thomas pigarreou bem alto. — ... bom, enfim. Pois não?

— Qual a vantagem nisso? — perguntou Artur, a esponja humana. — Tipo, isso era o mínimo que você devia fazer.

— E é o que estou fazendo, afinal...

— Mas então por que a outra equipe não soube disso? — questionou Helen, a garota das crostas.

— Isso é, bem, é que eu...

— Não faz o menor sentido. — disse Suzie. — Que tipo de liderança é essa que...

— Meus caros, por favor.

— A gente precisa conhecer um ao outro pra ter confiança. Né, Suzie? — disse Artur, numa tentativa de flerte.

— Vocês não... por favor, senhoras e senhor...

— O cabeludo é sempre assim? — perguntou Suzie a Thomas.

— Quase sempre. — sussurrou o homem.

— Por favor, vocês deveriam...

— Olha, vocês têm o "Manual de Receitas Rápidas"! — disse Helen.

Por favor!! — berrou Mentor.

Fez-se o silêncio.

— Direto ao ponto, Mentor. — disse Thomas. — Direto ao ponto.

— Tudo bem. — falou Mentor, depois de respirar fundo. — Pois o ponto é: os antigos X-Cluded estão perdidos, eu suspeito que em qualquer ponto da História, e vocês vão me ajudar a encontrá-los, de alguma forma. Logo, vocês serão uma nova equipe de X-Cluded e, portanto, vão precisar de uma nova leva de uniformes e codinomes.

Mentor abriu uma gaveta da mesa onde estava. Na verdade, além de abrir, ele quebrou, por que ela estava emperrada. Na verdade, além de quebrar, ele jogou a gaveta pela janela e ficou apenas com o conteúdo dela na mão. Depois, entregou os pacotes com os uniformes para cada um dos novos integrantes da equipe:

— Suzie, de hoje em diante você será a Lêmure. Artur, seu codinome será Parazoa. E Helen, será Crosta.

Os três analisaram sem muita aprovação suas novas roupas em amarelo e preto, com um "x" em alguma parte delas.

— Juntos vocês formam a nova geração de X-Cluded! — disse Mentor, erguendo os braços.

Ninguém deu muita atenção pra ele.

— Quem desenhou essas roupas? Essa combinação de cores é tão anos 80. — afirmou Helen, ou Crosta.

— Não tinha uma desvantagem na nossa equipe, também? — perguntou Artur, o Parazoa.

"Várias", pensou Mentor.

— A gente vai continuar sendo escravizado?

— Cala a boca, nariz.

— Calem a boca! — berrou um homem barbudo com um inglês quase inteligível. Não por que ele falasse mal a língua, mas por que ela era um tanto diferente daquela que eles tinham se acostumado a ouvir.

Ao lado de Papila e Nooze, estavam algumas dezenas de homens maltrapilhos, vários deles remando e levando o grande navio de madeira adiante. Atrás de Papila, um mentalmente prejudicado Gozma cantarolava alguma música do White Stripes e Kate chorava. À frente, Texano remava e balbuciava reclamações. Num estranho momento de heroísmo, depois de muito pensar, Papila largou seu remo e ficou de pé, gritando:

— Amigos! Vamos sair daqui! Agora!

Todos olharam para ele. Ninguém captou a idéia daquela frase, nem quem entendia inglês minimamente.

— Qualé, gente, vamo lá. A gente não pode ficar aqui. — tentou ele novamente, claramente sem a mesma empolgação de antes.

Do teto, surgiu um homem barbudo que deu-lhe uma chicotada nas costas.

— Cale a boca, energúmeno!

Papila rapidamente sentou-se e voltou a seu remo. Texano olhou para trás, bravo, balbuciou alguma reclamação onomatopéica demais para ser reproduzida com palavras e voltou a remar.

— Aposto que os X-Men nunca passaram por isso. — falou Nooze em algum momento.

— É, mas em compensação a gente nunca passou por um Magneto. — retrucou Papila. — Dê graças a Deus por sua posição ridícula no universo, nariz.

— Pela última vez, — zangou-se Nooze. — Eu não sou...

— "Pela última vez, eu não sou nariz!" — leu Parazoa numa revista.

— Hein? — perguntou Mentor, e espirrou logo em seguida. Teve a impressão de ter visto um rápido clarão. Estavam todos os atuais X-Cluded na Biblioteca, fazendo pesquisas sobre como eles poderiam encontrar os X-Cluded originais — uma desculpa de Mentor, que não sabia exatamente por onde começar a busca.

— Eu disse "independência ou morte!". Tava lendo sobre a história do Brasil nessa revista e teve um cara que falou isso.

— Brasil não é aquele país cheio de mato e gente te roubando? — perguntou Crosta.

— Não exatamente. — respondeu Mentor. — Já estive lá e me pareceu um lugar simpático. (*) Mas tem certeza que você disse isso mesmo, Parazoa?

— Claro, ué. Eu tenho cara de estar chapado agora?

Mentor não respondeu, ficou encucado com a situação.

— Essa busca está estranha demais, Mentor. — disse Thomas Wirtschaften. — Não temos nem uma vaga idéia de por onde começar. Precisamos de uma pista, por menor que seja.

— Vocês discutem aí, eu vou lá comprar o jantar de hoje. — falou Lêmure, erguendo-se da sua cadeira e saindo da biblioteca. — Alguém sabe quantos Gozmas ta custando uma pizza congelada?

— Quantos o quê? — indagou Mentor e, nervoso, espirrou novamente. Um clarão que mais parecia uma mensagem subliminar num filme apareceu e Mentor mal notou.

— Quantos dólares. Sabe, dólar, a nossa moeda?

— Essa tua gripe tá feia, hein? — comentou Crosta.

Mentor ficou parado depois de espirrar, olhando para o nada, enquanto seu nariz escorria.

Ficou pensando. Olhou para seu lencinho da Mulher-Maravilha, depois olhou para Lêmure. Olhou para o lencinho de novo, em seguida olhou para Thomas. Olhou um bom tempo para Thomas, depois voltou pro lencinho.

— Mentor? — estranhou Lêmure.

O senhor de sobretudo continuou com uma cara de bobo, quando de repente seu nariz coçou: era um novo espirro chegando. Tentou prestar atenção, aquele parecia ser forte.

Espirrou. Teve a impressão de que um grande flash de luz cobriu sua visão por uma fração de segundo.

— Mentor, tudo bem? — perguntou-lhe Adolf Hitler, que estava ao seu lado usando uma roupa com um X amarelo. Mentor espirrou novamente e, após um novo clarão, ele já não estava mais lá.

— É dor de barriga? — perguntou Lêmure.

Mentor demorou pra voltar a si e, quando o fez, correu para procurar um livro do professor Charles Xavier sobre poderes psíquicos.

Tudo parecia estar mais calmo, naquele momento. O céu com algumas nuvens brancas, o sol não tão forte das cinco da tarde, florestas, pássaros voando e cantando algo quase melódico.

Há um bom tempo (ainda que o uso da palavra "tempo" a essa altura do campeonato seja mais discutível do que nunca. Mas levando em conta uma série de situações que quase levaram os X-Cluded à morte, era um tempo enorme) os X-Cluded da primeira geração não experimentavam uma sensação de alívio como aquela. Só a natureza estava em volta deles.

— Estamos bem até agora. — disse Texano. — Ninguém pra escravizar a gente, nem ameaçar nos matar...

— Nem nenhum X-Cluded quase provocando mudanças em toda a História... — disse Nooze, repreendendo Texano com o olhar.

— Eu não tive culpa!

— Esses transportes agora foram rápidos, né? — disse Kate.

— A gente esteve em uns três ou quatro lugares diferentes em pouco tempo. — calculou Papila.

— Tenho a impressão de que algo está mudando. — disse Nooze.

— Dãã. — comentou Papila.

Ssshhhh! — fez Gozma. Todos os outros olharam para ele. — Ouçam... é o som das folhas se mexendo. — Os outros começaram a olhar entre si.

— Hã... bom, de qualquer forma, acho que esse é o momento de pensarmos em algumas coisas. — disse Nooze. — Por exemplo: por que nós não temos nenhum apoio dos nossos colegas lá de Nova Iorque?

— Como assim? — perguntou Papila, quase interessado no assunto.

— Os nossos colegas de equipe, os X-Men!

Todos se entreolharam.

— Que foi? Vocês não sabiam que nós somos uma subdivisão dos X-Men?!

— Cala a boca, nariz. Tu tá viajando. Se fosse assim, a gente não seria atacado por um babaca que nem aquele Verme Mental. Nem seria patrocinado por um dono de cervejaria.

— Mas... mas... o Mentor...

— Shh! — fez Papila, interrompendo a frase de Nooze. Depois, se abaixou e botou a língua no chão.

— É da boa? — perguntou ironicamente Nooze, e deu um sorriso mental pensando "rá, peguei o sacana".

— Tem mais gente aqui. — disse Papila. — Tem uma vibração diferente na terra, e ela ta com gosto de... — pôs a língua no chão de novo, cuspindo terra em seguida.

Fez uma cara estranha, a de alguém que fez uma descoberta que talvez fosse melhor não ter feito, pois era perigosa demais. Depois, só apreciou o sabor.

— Gosto do quê? — perguntou Texano, curioso.

— Saquê.

Por algum motivo, todos ficaram em silêncio. Alguém engoliu em seco. Gozma assobiou.

Ali! — berrou e apontou Papila.

De trás de umas folhagens, surgiram três samurais empunhando katanas, gritando e correndo na direção deles — mas pararam repentinamente, o que deu dois sustos seguidos nos X-Cluded.

Começaram a andar lentamente em volta dos mutantes, de lado, com suas espadas embainhadas. Estavam obviamente estudando-os.

— Eles tão analisando a gente. — disse Texano, achando-se esperto. Papila fez um "shh" pedindo pra Texano ficar quieto, para o qual um dos samurais fez um "kiai!" pedindo pra todos ficarem quietos, ameaçando-os ao quase desembainhar sua espada.

— < Eles não entendem a nossa língua. > — disse um dos samurais a outro. Os samurais já estavam cercando os X-Cluded totalmente.

— Eles não entendem a nossa língua. — murmurou Texano, teimosamente.

— < Acho melhor matá-los logo e acabarmos logo com isso. > — disse um outro samurai, o do "kiai".

— Acho melhor a gente matar eles logo e acabar com isso. — murmurou Texano.

— < Não, tenha calma. Melhor levá-los para a vila como prisioneiros, depois nosso mestre faz o que achar melhor com eles. > — disse o terceiro samurai.

— Peraí, melhor. Quem sabe a gente não consegue levar eles conosco no próximo pulo do tempo, hein? Podemos vendê-los prum museu. — murmurou Texano.

— < Ah, dane-se! Vamos acabar com eles! > — disse furioso o samurai do "kiai".

— Ou quem sabe a gente pode... epa! — ia murmurando Texano, até que viu os samurais correndo na direção deles.

Mentor folheava o livro procurando alguma informação que não saberia se encontraria.

— Ahá! — disse ele, e espirrou em seguida.

— Essa gripe tá fogo, hein? — comentou Artur Moore, o Parazoa.

— Sim, e parece que eu encontrei a razão de ela existir.

— Explica aí, então. — disse Lêmure.

— Segundo o livro, certos poderes psíquicos podem deixar um tipo de marca, uma seqüela, mesmo depois de ter sido usado, quase que independente da vontade do usuário. — explicou Mentor, na medida do possível. — Essa gripe só me acometeu depois que, numa tentativa de salvar os X-Cluded, eu tentei usar meu poder de controle do tempo. Só que, no mesmo momento, Verme Mental tentou usar seu poder psíquico na minha mente. Isso deve ter gerado algum tipo de distúrbio que resultou nesses espirros estranhos. — Crosta já havia pegado um prato de pipoca e começado a comer. — E há uma outra coisa estranha, porém não menos importante sobre os espirros: aparentemente, meu poder se aciona automaticamente, a cada vez que eles ocorrem. Ocorrem pequenas mudanças temporais que nos atingem de forma fractal, mas apenas eu sou capaz de notá-las. Os X-Cluded, então, podem estar sendo vítimas dessas mudanças de alguma forma.

Os X-Cluded segunda geração (e Thomas) param pra pensar na teoria.

— Uau. — disse Crosta, comendo uma barulhenta pipoca. — Acho que não entendi tudo. Mas parece legal.

Houve mais alguns segundos de silêncio.

— Hã. — arriscou Thomas. — Isso ajuda de alguma forma na nossa busca?

— Bem... temos por onde começar. Os X-Cluded estão perdidos em algum ponto do tempo e eles deixam rastros para nós, de várias formas. Basta seguir estes rastros.

— Temos que procurar em livros de História, então? — perguntou Lêmure.

— É uma boa idéia. E a internet é nossa amiga. Mãos à obra, X-Cluded!

E lá foram os novos X-Cluded (e Thomas) procurar por rastros temporais dos X-Cluded originais. Crosta, antes de começar, pediu pra Mentor desenhar o que ele tinha explicado antes, pedido que ele atendeu prontamente.


A seguir: O universo nunca mais será o mesmo após o explosivo lançamento da próxima edição! Esteja preparado!


:: Notas do Autor

(*) Se quiser saber mais sobre o Brasil, leia as histórias da Fogo. voltar ao texto





 
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